quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O Alentejo, esse lugar ... (actualizado). A todos os Alentejanos!


Forte da Graça, Elvas




À Mariana, minha filha, nascida em Évora, neta, bisneta, trisneta de Alentejanos do Baixo Alentejo, para que disso se orgulhe.






Ao Paulo, pelas viagens feitas e por uma oliveira que ainda teima em viver!











Talvez seja deste Alentejo que vá falar neste "caderno de campo" ou de apontamentos que aqui tenciono deixar-vos. De viagens, muitas feitas em trabalho e outras percorridas no encalço de qualquer lugar que queria visitar.
Delas foram ficando rascunhos ou ideias e folhas soltas, que sempre pensei, um dia, ter tempo para arrumar, debaixo de um título genérico «Paisagens humanizadas».
Agora, atravessada já definitivamente a ponte que me trouxe de regresso a Lisboa, foi a altura de as organizar. Muitos textos serão reeditados ou retrabalhados, porque nem sempre a sua especificidade se apropria a um lugar como este. Uma coisa é certa, dele farei o meu testemunho do que foram anos a ouvir histórias sobre sítios, sobre momentos vividos. E partilharei, ao ritmo do que os serões me permitem, do que foi e é para mim o Alentejo e dos lugares ainda habitados pelas "margias".

Assim, fica a dedicatória ao meu Alentejo e aos que lhe pertenceram e pertencerão. Porque tudo o que se viveu ninguém nos roubará, e não morrerá.
Se a Palavra fôr capaz de o contar e se a Palavra fôr capaz de resistir, mesmo quando nos quiserem calar, ou quando tivermos que temporariamente silenciar ...



Senhora do Carmo, Azaruja


" Já Serpa não vale nada,
Baleizão vale um vintém;
Vila Nova vale tudo
Pelas mocinhas que tem."



É grande, de facto, o Alentejo: o território onde se situam planuras e montanhas, onde se vê a seara ou o mar; onde se espalha o montado ou o trigo; o espaço onde sempre se semearam e semeiam gentes com histórias multi-seculares, testemunhadas nas marcas que foram deixando.
Onde dançam papoilas no campo, que, como no dizer de José Movilha, são  «Belas e sobreviventes como a esperança que não morre...»



Hoje mais sustentada a sua economia na excelência dos vinhos, azeites, cortiças e pecuária, prepara-se também para assentar uma nova dinâmica no regadio que alterará profundamente a relação do Homem com aquela Terra.

Mas grutas com pinturas rupestres de que poderia citar os exemplos do Escoural ou os de Fronteira; as suas antas, disseminadas por todo o território, cujo exemplar do Zambujeiro é dos mais notáveis peninsulares; os seus povoados pré-históricos; a sua enigmática Escrita do Sudoeste que permitiu a Almodôvar criar um Museu tão particular; as cidades e uillae rústicas ou ainda os uicus mineiros romanos de Aljustrel; ou os vestígios da ocupação islâmica que, em Alcácer, Ourique, Santa Clara em Almodôvar, em Mértola, ou os silos da Rua da Lagoa de Évora, entre tantos outros lugares, podem falar-nos desses tempos remotos.
Nas praças de Vila Viçosa, em Monsaraz, e em tantas outras localidades, as laranjas fazem um hino a esses tempos de influência árabe em que parece terem elas sido trazidas para o que hoje é Portugal e em Castelo de Vide a Judiaria recorda-nos que o Território foi ocupado por povos de todas as culturas e religiões.

Villae romanas da Tourega, Évora, de S. Cucufate, Vila de Frades.

O Alentejo tem o maior concelho da Europa, Odemira, onde viveram homens desde a Pré-História, mas, no entanto, a desertificação deixou-se sobre ele abater, bem como sobre tantos outros concelhos da raia, do Baixo ou do Nordeste Alentejano, pese ainda se sentirem os seus Homens caçadores do que já nem na coutada resta, pois em Quintas-feiras de época ainda há debandada geral na senda de patos, perdizes, coelhos ou javalis, pois a caça ainda é forte presença na dieta alentejana. Para registo dessa actividade ancestral ficou em Vila Viçosa o testemunho no Museu Municipal.

O Alentejo sente a perda das suas gentes e das actividades e ofícios que secularmente as ligaram aos lugares: a agricultura, a pastorícia, a mineração, entre tantas outras.
Contudo, esgotado o Lousal para a exploração mineira, dele ficou a memória em Museu e herdados os espaços que gradualmente se transformam em locais de lazer ou de aprender.


Convento do Espinheiro, Évora

Mas o Alentejo mantém ainda a qualidade dos seus lugares, sejam os seus núcleos urbanos ou os seus montes, a sua "arquitectura chã", os espaços religiosos ou sítios arqueológicos; a excelência dos seus produtos e dos seus recursos: a vinha que, já em período romano, permitiu que, em Vila de Frades, Vidigueira, se instalasse uma importante e rica casa agrícola e que, ainda hoje, teimosamente, copia as parras de Paulo Laureano; o seu azeite que permite, ainda nos nossos dias, que a Sociedade Taifas, na Quinta de São Vicente, em Ferreira do Alentejo, ganhe o prémio para o melhor azeite maduro frutado do mundo; os seus cavalos representados na villa romana de Torre de Palma, Monforte; ou os participantes das corridas no Hipódromo romano de Miróbriga, Santiago do Cacém; e ainda hoje os Lusitanos reproduzidos nos Serviços Coudélicos de Alter.















Ruínas de Miróbriga, Santiago do Cacém

Em Alter, sobre a cidade romana de que o Sítio de Ferragial d'el Rei é apenas mostra que se pode visitar, construirá a família real residência acastelada, ao que consta, para aí se dedicar a caçadas memoráveis, no espaço de que hoje podemos partilhar, pois em núcleo museológico se tornou.
Em Vendas Novas, também a família real intalou no século XIX o "Palácio do Vidigal" para se fazer acompanhar da nobreza que ia caçar. Mais tarde foi o mesmo grande armazém estatal, onde, por entre escombros, se escondiam velhor armários, talhas barrocas ou banheiras de Palácios reais.






Castelo de Alter do Chão


O javali e o porco, esse animal que acabava por constituir a "tetralogia" alimentar, usando as palavras de Alfredo Saramago, na sua fantástica obra «Cozinha Alentejana», é e «ainda continua a ser uma das glórias da gastronomia alentejana» que no trigo, azeite e vinho encontra o substrato mediterrânico da sua alimentação.
E podemos lembrar o seu peixe, também tão marcante na dieta alentejana, que os testemunhos romanos dos centros conserveiros de Tróia, no concelho de Grândola, ou de Sines e da Ilha do Pessegueiro são exemplos, servidos pelas ânforas, esse vasilhame de características peculiares, produzidas na Herdade do Pinheiro.

Foram exactamente os Romanos que trouxeram as melhorias da técnica de salga, viabilizando o fornecimento do pescado a zonas mais interiores, concebendo ânforas lusitanas, esse vasilhame que tão longe os nossos produtos levou.

Lembremos os tunídeos que, hoje menos do que ontem, continuam a fazer parte dos manjares litorais, bem como o cação, a partir do qual se faz uma das melhores sopas que o Alentejo produz, a par das sopas de tomate, de cardos, ou das estivais infestantes, mas tão saudáveis beldroegas, como só S. Manços tem e que são pitéu celestial.
Mas os cardos são também o coalho de excelência para os queijos de Serpa, fermentando-o e originando assim um dos mais célebres aperitivos que a gastronomia nacional tem.






Ruínas romanas de Tróia, um complexo fabril de salga de peixe.



Mas não podemos esquecer nunca a importância dos seus "cheiros" e ervas aromáticas, sendo, para mim, os coentros, os poejos e os oregãos um verdadeiro «Monumento Nacional», fazendo-se com muitas delas apenas misturadas com um pouco de água, azeite, alho e pão as sopas divinais e que, a par do cordeiro de carne gorda, das sobremesas bem açucaradas à base de amêndoas e nozes, são heranças da culinária árabe.


Uma série enorme de especiarias torna mais aromática a alimentação que ainda se enriquece com outros ingredientes, como a alfazema, a canela, a noz moscada, a água de rosas, frutos secos e frescos, como a romã ou a maçã. Gregos e Romanos usavam já a castanha nos alimentos e com mel as conservavam para que ficasse também condimentada. Ainda hoje os soberanos castanheiros de Marvão lhe merecem homenagem anual.

Do Islão o Alentejo conheceu a melhoria das suas hortas, embora já Romanos tivessem os vegetais como base da sua dieta alimentar. Mas é de Mouros que parece ter-se herdado a fava, o grão de bico, a ervilha e o chícaro, bem como, avançado o século X já, o arroz, o trigo duro, o espinafre, a berigenla e a alcachofra, como comprovam os achados arqueológicos do período árabe, a exemplo de Mértola e muitos dos seus aproveitamentos hidráulicos.




E os cogumelos, ou as cilarcas assadas dia fora fazem-se ainda pensar que há momentos no Alentejo que se encontra o Céu..
Fotografia das beldroegas http://www.deliciosoalentejo.com/


                                      



(veja-se http://cano.com.sapo.pt/;
http://www.deliciosoalentejo.com/
e http://www.degustadoresemfronteiras.com.br/arabesnoalentejo.html) .


Ou ainda do peixe fresco do mar, em que a sardinha e o atum são, desde época islâmica os favoritos, da palafítica aldeia da Carrasqueira ou dos rios e barragens, que são recursos e vias fundamentais do território. Achegãs levam às barragens famílias inteiras em Domingos soalheiros, se bem que o Alqueva e as suas marinas fluviais cada vez mais lhes vão tirando lugar com sítio de lazer, para já não falar das novas formas de conhecer o território e, a partir dele, o Mundo, a exemplo de quem passa dias inteiros no Fluviário de Mora ou no Badoca Park.



Nas suas malgas e potes de barro, sejam as de S. Pedro do Corval, do Redondo ou de outro lugar qualquer salgam-se as carnes para as linguiças e enchidos no geral, fazem-se sopas e servem-se cozidos de grão com borrego.
Gateados ou inteiros, guardam-se nos alguidades o Tempo e os alimentos ancestrais, amassando-se neles o pão, esse milagre feito dos cereais, separado que fora já o trigo do joio e transformado na mágica farinha que o irá fabricar.


Fotografia do alguidar: a partir de: https://www.facebook.com/pages/ALENTEJO-ADIVINHA-OS-SEUS-ENCANTOS/263992968356


E depois, à cabeça a rodilha ajudava a transportar os alguidares e quartas,


Fotografia rodilha de Catarina Rodrigues.



Em Nisa, a água fresca guarda-se em peças cerâmicas cravejadas ou "bordadas" a pedrinhas, como se guardam bordados como "pedras preciosas" no Museu Municipal.
Já em Estremoz desenham-se "bonecos" que tornam a sua olaria um bem nacional, havendo colecção representativa que merece ser vista também em Museu da Autarquia.
Os Presépios, esses que Hernâni Matos tão bem acarinhou no seu blogue «Do Tempo da Outra Senhora» http://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/ , são os mais bonitos que jamais conheci.











E lembrar os rios que fazem do Alentejo uma Mesopotâmia, melhor, uma triangulação entre o Tejo, o Sado e o Guadiana, fornecendo e escoando produtos: piscatórios do litoral; agrícolas e mineiros.


(Fotografia do rio Mira - Jorge Vilhena) ...

O Sado, essa única via que cruza o território de Sul para Norte, navegável até Alcácer até há bem pouco tempo, que em Alvalade ou em Alcácer permitiu ocupação desde a Pré-História e que Roma engrandeceu.



O Guadiana, cuja navegabilidade transformou secularmente Mértola em lugar central e deu a Serpa um notável conjunto de moinhos de maré, belos como poucos conheci, bem como o Mira que, na sua foz, em Vila Nova de Milfontes, é viveiro de ocupações de todas as épocas, pois a Pré-História esconde-se nas suas dunas e a Romanidade nas proximidades do leito do rio.

Moinhos de maré do Guadiana (junto a Serpa)


O Mira, Vila Nova de Milfontes

Os três permitiam a circulação de bens e a exploração agrícola dos seus vales.

 


Aqueduto de Água de Prata, Évora
Falar das suas águas, recurso mais escasso nos nossos dias, que permitiram irrigar os campos, fornecer os núcleos urbanos, e cujas estruturas hidráulicas são ainda visíveis nas inúmeras mães de água; poços; noras; azenhas, picotas, tanques e condutas pulverizadas por todo o Alentejo, aprendizagem feita de Romanos e Mouros que também deixaram as técnicas e os exemplares. E dos aquedutos que serviram cidades, dando-lhes um cenário monumental, a exemplo do que acontece em Évora ou em Elvas, onde cem anos de construção permitiram edificar 8,5km de tão fantástica construção que o imposto designado por "Real d'Água"  viabilizou.

  Aqueduto de Elvas. Aqueduto em Valverde.




                               Aqueduto de Évora.


Aqueduto da Amoreira...Elvas
Fotografia partilhada por Oscar Aires nos Alentejanos no Facebook.

Para não falar das fontes e fontanários de todos os centros urbanos, de que podemos, apenas para exemplificar, lembrar das de Évora, Portalegre ou Castelo de Vide, que mereceu ser chamada a «Cidade das fontes», pois há, no século XVIII, notícias que existiam no seu termo de Castelo de mais de trezentas fontes, algumas já desaparecidas, e, noutros casos, substituídas.


  Fonte da Vila, Castelo de Vide.
 

Mas falar ainda das suas lagoas que o mar alonga ou encurta, banhando-as das suas marés e com elas semeando-as de vida, e das barragens, cujo notável exemplo romano de Pisões permite testemunhar como, já em período romano, os "Barros de Beja" foram local privilegiado para a exploração agrícola.

 
Villa romana de Pisões, Beja
A água e a necessidade de o homem se apropriar desse bem fundamental foi, desde sempre, preocupação no Alentejo, como é notório já em periodo romano, através da construção de inúmeras represas, a exemplo da de Pisões ou de Cuba, junto da Igreja de Nª Senhora da Represa, e a construção do Alqueva, nos nossos dias. Ou falar ainda os inúmeros poços ou tanques que, desde período romano permitiram captar a água e guardá-la para usos domésticos ou em termas e balneários, salientando aqui o exemplar de Tróia onde se conhece ainda o sistema elevatório da água. Mas poderemos ainda referir as águas termais que, também já conhecidas de latinos, continuam a permitir que repousem em Castelo de Vide tantos visitantes e pacientes e cujos fontanários e fontes fazem ainda mais bela a terra que viu Garcia da Orta nascer. Ou sentir o fervilhar do Pulo do Lobo, onde o rio estreita tanto que o abismo nos atrai, ou mergulhar na piscina fluvial das Minas de S. Domingos, onde já nadei, não tão longe assim do Pomarão dos minérios, em dias em que a calma do Verão nos invade em demasia!
A revolução industrial e as minas de S. Domingos reactivam a região, continuando o Guadiana, navegável a partir daí, a funcionar como porto agrícola e mineiro até à década de sessenta do século XX começou a ver sangrar as suas gentes, pois já mina não lhes prendia lo labor e o suor. Mas podemos falar também dos próximos e riquíssimos barros de Beja, onde se escondem ricas herdades, quantas delas com origem nas uillae romanas, e que, com o dia a findar, quando o Sol torna a terra num infinito castanho-avermelhado, semeado de sonhos e de imagens, nos fazem continuar a crer que o Alentejo é a TERRA DA LUZ E DA COR! Ou lembrar as linhas de oliveiras serpenteando a terra, e do azeite de excelência que, com o pão, como não há igual ao do Alentejo, e o vinho, constitui a triologia mediterrânica que percorre o tempo connosco. Esse mesmo azeite que já alimentou as lucernas romanas encontradas no grande depósito votivo de Sta Bárbara dos Padrões, de Castro Verde, onde, por isso, se constituiu o Museu da Lucerna que nos fala das divindades romanas associadas a esses simples objectos que o quotodiano e o tempo consagrou. Em Moura, como em tantos outros lugares, podemos através do seu lagar de varas apreender como eram essas tecnologias já perdidas de transformar a azeitona nesse líquido essencial, um unguento divino, motivo porque a Hera, essa divindade feminina, tinha como um dos seus atributos um ramo de oliveira.


 

Lagar de Varas, Moura
Fotografia de Isaurindo Sempao

Ou falar dessas nuances do que é estar à sombra de um chaparro, o sobreiro que cresce e medra, ou da azinheira que é sua parente, mas que é apenas cultivada pela sua madeira, enquanto o sobreiro nos dá a sua casca, a cortiça. Contudo ambos dão frutos para alimentar os suiços, salientando-se o porco-preto como melhor do que o do Alentejo não há.

E lembrar os doces conventuais que o alentejano Alfredo Saramago tão bem deu a conhecer nas suas obras sobre a Gastronomia do Alentejo. Esses doces que nos sussurram os segredos dos conventos, que, no caso particular de Évora e de Vila Viçosa, fruto das estadas e convivências com a corte, se foram gradualmente instalando, elegendo a cericá ou sericaia como um dos melhores que já comi, com ou sem a ameixa em calda que a Pousada de Elvas, a primeira de Portugal, nele introduziu. Mas também em Portalegre, conhecida pela “cidade dos sete conventos”, ainda hoje se continuam a confeccionar os doces conventuais com as ricas receitas do convento de Santa Clara, a exemplo do toucinho-do-céu, o bolo Maria Luzia, o manjar branco ou os pastéis de Santa Clara. Mas as Clarissas também em Alcácer fundaram convento e das suas actividades gastromónicas e da sua doçaria nos pode falar o rico espólio arqueológico encontrado no local, hoje exposto na «Cripta do Castelo». Mas devemos deixar o gosto apurar com os bolos de mel, como em Monforte deliciosos há, também de sabor ancestral ou, para mal de qualquer dieta ou colestrol, deliciarmo-nos com as porcas recheadas com os seus bacorinhos e as trouxas de ovos do Luís da Rocha, Beja, ou ainda os que confeccionam as Maltesinhas.

 Cericá



Mas falemos também da lã das suas ovelhas, outrora tosquiadas em lento afã de tesoura, e dos tapetes e mantas que com elas se teceram: os de Arraiolos, cujas tinas de tinturaria provenientes de escavações relativamente recentes em pleno Centro Histórico vieram comprovar fabrico já em Época medieval; ou as mantas de Mértola que, com os seus pontos e as suas tramas, foram contando histórias seculares; e os pontos de Portalegre, heroicizados por muitos dos grandes criadores portugueses que para eles prepararam desenhos e que as transformaram em valor internacional.





E desse borrego que para além de fornecer a lã quase substituiu, no período islâmico, a importância do porco alimentado a bolota que pasmou os Romanos. Mas a coexistência do borrego e do porco proibido a Muçulmanos, mas do agrado de Romanos e Cristãos, acabou por manter-se, constituindo a dieta básica no Alentejo, motivo pelo que a morte do porco é consagrada ritualmente na "matança" com que se inicia o frio que conservará os alimentos. O borrego, esse, é comido junto às barragens e ribeiros na Pascoela, sagrando biblicamente o Tempo e o Lugar.   

Fotografia Maria Luísa
Recordamos ainda nesse soberbo cozido de grão ou o "jantar de grão", suavizado com o gosto da abóbora, que é um verdadeiro milagre gastronómico do Alentejo, mesclando borrego e porco com cheiro e gosto a hortelã.
Fotografias "jantar de grão" e "cozido de grão" de Maria Luisa.
  Da cortiça, industrialmente explorada desde o século XIX, que enrolha os melhores vinhos de Portugal e da Europa e que, na Serra do Cercal, permitiu também construir, na sua totalidade, casas de pequenos rurais e acentuar em Portalegre, com a instalação da Fábrica Robinson, a sua produção industrial. Mas com a cortiça sempre se manufacturaram os utensílios fundamentais, a exemplo do tarro que agricultores e pastores utilizavam para guardar e transportar alimentos, pois as características térmicas do suporte permitiam-nos conservar, durante algum tempo, a uma temperatura próxima da da confecção. A singeleza do tarro e do cocharro para beber água fresca podem sintetizar a capacidade dos Alentejanos de manipular os seus recursos de forma singela, mas extraordinariamente inteligente.

E das suas peles se fazem casacos, tapetes e calçado belo e forte como o rigor do seu frio os da terra que os há-de gastar.
Também podemos lembrar as suas torres acasteladas, como a Torre d'Águias ou do Esporão; dos seus castelos e fortificações, pré-históricas e históricas, com particular incidência nas de origem medieval, quer seja islâmica, como o notável exemplo de Alcácer do Sal, tampão estratégico do Sado, onde no interior do castelo se espelha uma história milenar, quer cristã.
   
 
                
Fotografia de Alcácer do Sal gentilmente cedida por Esmeralda Gomes


Mas recordemos também o altaneiro castelo de Belver, Gavião, sobre o Tejo, o primeiro construído pela ordem dos Hospitalários, iniciado com o dealbar da nacionalidade, em 1194. E passeemo-nos junto ao rio, escultura de mãos dadas com a paisagem no caminho da Fonte velha, para o poder apreciar de longe, da margem de cá. Mas podemos ainda imaginar o que se terá passado em Évoramonte, onde um castelo medieval viu assistir, no seu interior, à construção da grandiosa torre/paço ducal manuelina, abraçando com laços de cordame de pedra e laços toda a edificação. Mas podemos ainda lembrar o Castelo de Avis cuja edificação se deve à antiga Ordem Militar de S. Bento de Aviz. Ou as torres medievas que viram quase nascer Portugal, como a do Esporão.
 
  Igreja da Torre do Esporão
                                                    Torre do Esporão, Reguengos de Monsaraz


Mas ainda é possível reconhecer no Alentejo os bens de outras ordens religiosas, como é o caso dos Espatários, que dominaram praticamente todo o litoral, de Palmela a Alvalade do Sado, Odemira, vale de Santiago adentro, e a zona Meridional, até Mértola.
As suas igrejas ou os seus marcos territoriais, simbolizados com a espada da Ordem e a vieira do caminhante de Santiago, são ainda os centros religiosos de muitas pequenas povoações desse extenso território. Ou também a marca do Hospital que, na Flor da Rosa, Crato, deixaram um dos mais notáveis mosteiros, mandado erguer pelo pai do Contestável, D. Nuno Álvares Pereira. Esse mesmo contestável que em Fronteira soube renegar Castela, não deixando que, no campo de Atoleiros ou de Santa Vitória do Ameixial, se "atolasse" Portugal e que, em Sousel, soube também originar povoação.

Marco com a Espada de Santiago, Alvalade do Sado
Feira medieval, Alvalade do Sado.
.
Imagem do Campo de Atoleiros a partir de: http://www.sal.pt/m_agenda_passeios/pp_vitoria_dos_atoleiros.shtml

Flor da Rosa, Crato

Tentativa de reconstituição do Castelo de Elvas. Alunos do Politécnico de Elvas.

As fortificações do Alentejo remetem-nos também para as convulsões de todas as épocas da História de Portugal: as da Reconquista Cristã e das infindáveis escaramuças entre Portugueses e Espanhóis, de que os exemplares de Campo Maior ou de Elvas, onde estão presentes várias cronologias, são de salientar. A sua grandeza, espelho do Tempo dentro do Tempo, conferiram-lhe uma candidatura a Património Mundial, honrando o Alentejo e as gentes que por ali passaram e que guardaram a Nação.  









  Évoramonte

No Pessegueiro, Sines, os fortes de Massai relembram a necessidade de continuar a proteger na Época Moderna uma costa onde, desde sempre, houve incursões de corsários.
Ou aquelas onde se desenvolveram intra-muros ou fora de portas aglomerados urbanos que o tempo ajudou a consolidar e a expandir, como são, e apenas a título de exemplo, pois poderíamos citar centenas, Alcácer do Sal de todos os tempos, Sines, Santiago do Cacém, essa onde um castelo medieval vem ocupar a colina fronteira à que Roma tinha abandonado, Montemor, Arraiolos, Monsaraz, Estremoz, conquistada aos Mouros em 1167, ao que consta pelos homens de Geraldo sem Pavor, com foral de D. Afonso III, Évoramonte, essa torre onde os laços da torre manuelina se sobrepõem a habitações da cintura medieval, Portalegre, Beja, Elvas, Serpa, Moura ou lá no Alentejo Alto Marvão, essa medieval e altaneira povoação, que a cidade latina de planura  Ammaia antecedera.


Ruínas da Ammaia, Marvão
                                            Castelo de Marvão
Por perto de Marvão deixaram outros Homens cuja Antiguidade ronda 3 milénios antes do Redentor e que ali deixaram antas e menhires, a exemplo do notável exemplar da Meada, erguendo-se para o Céu.



Mas quem sabe rume antes ao Baixo Alentejo, pois tanta vontade teria  hoje ver Serpa,  poder lá estar com tempo, saboreando no «Lebrinha» a imperial melhor tirada de Portugal, acompanhada do «marisco do Alentejo», os tremoços que antes haviam sido bem demolhados em potes cerâmicos ou latas, cozidos e lavados até adoçar.



      • Fotografias Tremoços: A partir da net.




Essa Serpa Cidade Branca, onde bem perto podemos ver, ao longo do Guadiana, os moinhos de água que permitiam dar vazão ao cultivo de cereais, designadamente o trigo, e cuja origem remonta na sua maioria aos séculos XVIII e XIX, havendo, contudo, há alguns de raiz medieval.
Mas quem sabe dali, rume novamente ao Pulo do Lobo, entre Serpa e Mértola,  esse ponto onde se unem dois troços do rio, e que aqui, nesta parte do leito,  treze metros de altura os fazem quebrar em estrondos e rugidos. Depois mergulharei já quase tarde finda nas piscinas das Minas de S. Domingos onde o Mundo todo se quer pacificar.


Caminharei para Beja, cruzando as terras vermelhas e já suadas, até que, à minha espera, estarão os arcos imperiais de Pax Iulia e outra cidade tão bela como a que acabara de deixar, imaginando nela tantas e tantas que no Alentejo conheci.


Castelo de Mértola

O Alentejo tem a qualidade dos seus montes ou das suas quintas de recreio que Santiago do Cacém mantém tão belos exemplares.


E também dos seus núcleos urbanos, sobranceiros ou de planura, de que a capital, Évora, a Liberalitas Iulia, fundada oficialmente por Romanos, onde um espelho de água contornando o templo imperial faz juz à Salus Imperal, a partir da qual se desenha uma cidade ortogonal, mas que tendo possível origem anterior, foi classificada como Património Mundial, e é segundo Orlando Ribeiro «a cidade mais bela de Portugal», abraçada que fora por muralhas romanas que D. Fernando parcialmente reaproveitou na sua "cerca" medieval e expandida, mais tarde, pelo aqueduto do Braço de Prata, e continua a ser de excelência, podendo ainda vir a ter mais, através da construção de um Amanhã que, retirando exemplo do Património de ontem, permita construir o património do Futuro.
  
Quem sabe, ouvindo os sons
Campo Maior

Castelo de Évoramonte, Estremoz
Ou de Beja, a Pax Julia romana onde, séculos adiante, construiu edificação D. Beatriz, e onde, mais tarde, viveu , sofreu e escreveu as suas «Cartas Portuguesas» Mariana Alcoforado, no convento tornado Museu conhecido por Rainha D. Leonor.


Da história da ocupação da cidade nos fala, para além de todos os outros locais que em Beja nos permitem rememorar a sua evolução, o Núcleo Paleocristão e o Museológico da Rua de Sembrano, recentemente inaugurado no centro histórico da cidade. O Alentejo é tudo isso. A Benção dos deuses que se misturam, pulverizando o espaço de mil formas de os cultuar. Os da Judiaria de Évora ou de Castelo de Vide, onde ecoa ainda o Ladino e gemem os sussuros dos mortos Judeus. Aqui, em Castelo de Vide, a quem muitos apelidaram de "Sintra do Alentejo", essa cidade que tem um dos mais belos fontanários que conheci, lá do alto a cerca e o castelo dionisinos falam dos tempos da primeira dinastia portuguesa.

 
 Sinagona de Castelo de Vide




A Senhora da Represa, Cuba, lembrando a toponímia a água e a barragem romana que ali perto está, é dos lugares mais mágicos que até hoje conheci.


Também a Igreja do Senhor dos Mártires em Alcácer do Sal tem nas suas proximidades uma necrópole de deu dos melhores materiais arqueológicos da Idade do Ferro que portugal tem.


Senhor dos Mártires, Alcácer do Sal

Santana do Campo, entre tantos, outros tantos lugares é a prova de como a Igreja tão bem deles se soube apropriar. E ali as paredes de um antigo templo romano guardam quietas entre a edificação da antiga igreja paroquial de Santana do Campo.

E rumarei eu saciada, depois de ver o templo romano que se esconde nas paredes da Igreja,quando a luz filtrada pelas nuvens deixa mais nítidas as marcas, para a sede do concelho, pois o caminho o caminho me levou entre a chuva até Arraiolos, onde circular já espreitava espreita o seu Castelo.
Ali, sob a praça onde tem o Município a sua sede e onde a Caixa Geral de Depósitos nos fala da melhor arquitectura contemporânea que Portugal tem, se hoje escondem as titurarias que denunciam que, desde a Idade Moderna, ali se tingiam as lãs dos mais belos tapetes de Portugal.
E dali seguirei até à pousada, outrora foi Convento dos Lóios, retirados do Tempo ali naquele lugar onde se acorda ouvindo os sinos a tocar. http://mirobrigaeoalentejo.blogspot.pt/2013/02/santana-do-campo-reed-250809.html
Mas o Alentejo é tudo isso! E as cilarcas assadas ao fim do dia de Pascoela, junto à barragem do Divor, de Odivelas, Monte Novo, ou outra qualquer, ouvindo cantar a «Senhora Cegonha» a quem já as vozes aqueceu.


Castelo de Santiago do Cacém
  



E principalmente o sincretismo o religioso pagão e cristão, que nem a Inquisição sediada em Évora conseguiu combater, e o cante com que entoam as gentes, chorando e bailando com a luz que banha a planura ... semeando o ALENTO.

Mesmo nos lugares onde a Cristandade cobriu de cal a pedra.


Talvez escolhesse a Anta de S. Brissos como uma das "obras-primas" do Alentejo, pela simplicidade, pela escala e pelo sincretismo religioso que representa.
A anta, datável do IV/III, foi transformada em capela no século XVII, pelo que é também conhecida por Anta-Capela de Nª Senhora do Livramento.
Localiza-se em Santiago do Escoural, pequeno núcleo que vale a pena conhecer, nomeadamente a sua Igreja e largo adjacente.
Nas proximidades, ao fim do dia, vê-se ainda, como nevoeiro se tratasse, os restos de fumo dos fornos de fazer carvão vegetal.



Dá-me uma gotinha d'água
Dessa que eu oiço correr!
Entre pedras e pedrinhas,
Entre pedras e pedrinhas
Alguma gota há-de haver
Alguma gota há-de haver,
Quero molhar a garganta,
Quero cantar com'a rola
Como a rola ninguém canta!






Ou lembraria comovida cantar a Senhora Cegonha, aquela canção de Alcácer do Sal, mas que também as gentes dão voz perto da Sra. do Carmo, Azaruja, em tempo de longos piqueniques feitos na altura da procissão, ou junto de qualquer Barragem consagrando a Pascoela e o borrego pascal, acompanhada a canção do bom vinho da região ou das cilarcas na brasa.

Sim, hoje choraria sem parar ouvindo o Cante ao Menino, sabendo que as Janeiras nunca vão terminar.





      Cantadeiras da Alma Alentejana                        video

 Vídeo: Rádio Alma Lusa Agradeço ao Joaquim Carvalho algumas das fotografias de Ammaia.  Fotografia (pequena) Évoramonte: Wikipédia E ficar depois a sonhar a sua costa atlântica, uma das mais belas que conheci, e aquela que deu em Sines ao navegador a vontade de o Mundo Novo conhecer!






o Alentejo está todo aqui... sentem-se os aromas, sentem-se os cheiros a ervas, a água corrente e os espaços largos... a presença humana de outras eras... e a sensibilidade imensa do olhar que o registou e o partilha!!! Obrigada Filomena Barata.
Postar um comentário