segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Um Bom Dia de Magos! (reed.)

Património
por Maria Filomena Barata


Um Bom Ano Novo 

Publicado em Setúbal na Rede. Janeiro 2015

https://www.academia.edu/10098588/Um_Bom_Ano_Set%C3%BAbal_na_Rede_Janeiro_2015

Pseudo-Jacopino di Francesco (ativo 1320-1350) The Nativity and the Adoration of the Magi, 1325. Chrysler Museum.

Fotografia a partir de: thehttp://arteseanp.blogspot.pt/2015/01/imagem-semanal-reis-magos.html

Tinha iniciado esta crónica, convicta de que um Novo Ano é sempre um momento de Renovação, dedicando-me a analisar o simbolismo da romã e dos Reis Magos que recentemente comemorámos, esse momento que, em termos genéricos, representa a Viagem no sentido da Luz e a Humildade. Mas o massacre hediondo que teve em lugar em Paris, essa pátria da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, atentando contra os Valores Universais e a possibilidade da expressão, veio, confesso, toldar-me os pensamentos.

Sou de uma geração moldada pelos princípios da Democracia e da Tolerância, cresci enquanto ser mais consciente nos valores democráticos, num mundo multicolor e de muitas raças, acreditando que na diferença se fazia a União.

Cria mesmo que os próprios Reis Magos espelhavam essa interculturalidade, um mundo feito de raças, e que segundo a Cristandade acabou por representar a ideia dos poderosos que são capazes de se vergar perante um Menino de nascimento humilde.

Crê-se até que não seriam efectivamente reis, mas sacerdotes ou mesmo astrónomos, pois mago é também o que detém Sabedoria e Filosofia.

Pouco se sabe sobre as suas origens, mas vinham do Oriente e Baltazar, o mago negro, provavelmente era oriundo de Sabá, um local mítico que se supõe ser na Península Arábica, mas que os etíopes pretendem identificar com a Abissínia.

Representavam as três raças bíblicas já referidas no Génesis, isto é, os semitas (sem nome) e que parece terem povoado a Ásia, sendo progenitores dos iranianos, assírios, turcos; os jafetitas, descendentes de Jafé; e os camitas, de onde se pensa serem oriundos os povos da Ásia Oriental e da África, como os egípcios, líbios e etíopes,tratando-se, portanto, a sua viagem guiada por uma estrela de uma homenagem de todos os Homenagem dos Homens da Terra ao “Rei dos Reis”, mesmo que o seu “Reino não fosse deste Mundo”, de acordo, aliás, com os Salmos 72:11  “Os reis de toda a terra hão de adorá-Lo”.

Costuma associar-se aos seus nomes a diferentes características: Gaspar, o mais novo, é o portador de incenso como reconhecimento da Divindade, é “Aquele que vai inspecionar”; Melchior ou Belchior era velho e o que porta o ouro em reconhecimento da Realeza, significa “Meu Rei é Luz”; e Baltazar, com 40 anos, é o que oferece a mirra em reconhecimento da Humanidade.

Lembro ainda, por exemplo, que a especiaria que Baltazar oferece ao Menino, a mirra, feita de uma erva resinosa, é uma das mais antigas resinas conhecidas como fixadora de perfume, sendo combinada com o cravo, lavanda, e sândalo. Foi usada pelos Romanos pelas suas qualidades terapêuticas e medicinais, sendo recomendada por Dioscórides, que foi médico das legiões romanas na Palestina, no século I, para situações febris e para dores de costas, desinterias e outros problemas intestinais. Também se usava como tonificante energizante e eram conhecidas as suas propriedades anti-sépticas, repelentes, antiinflamatórias, desinfetantes, diuréticas, entre outras. 
O óleo da mirra, através da destilação a vapor, era extraído da resina da planta e era usada para embalsamar entre os egípcios, no processo de mumificação e utilizada como incenso em funerais e cremações., o que simbolicamente poderá associar-se à Imortalidade.  Era cultivada na Somália, África e Etiópia . 

Eliphas Levi defende que 
«A estrela alegórica dos magos outra coisa não é senão o misterioso pentagrama; e estes três reis, filhos de Zoroastro (discípulos), guiados pela estrela flamejante ao berço do Deus microcósmico, seriam suficientes para provar as origens inteiramente cabalísticas e verdadeiramente mágicas do dogma cristão. Um destes reis é branco, outro preto e o terceiro é moreno. O branco oferece ouro, símbolo da vida e da luz; o preto oferece mirra, imagem da morte e da noite; e o moreno apresenta o incenso, emblema do dogma divino, conciliador dos dois princípios (vida e morte); depois voltam ao seu país por um outro caminho, para mostrar que um culto novo é simplesmente um novo caminho para levar a humanidade à religião única, a do ternário sagrado (Santíssima Trindade) e do irradiante pentagrama, um único catolicismo... [p 275 | 276]


A Estrela Flamejante, aliás como o número cinco, são símbolos de perfeição em muitas religiões mistéricas ou iniciáticas.

Por sua vez, a Romã, conhecida por “malum punicum”, isto é, “maçã púnica”, lembrando os velhos Fenícios, aparece associada na miltologia greco-romana, a Afrodite (Vénus), Hera e Perséfone.

A romã já era conhecida dos hebreus nos tempos bíblicos, sendo referida uma pintura dessa fruta nos pilares do templo de Salomão. De acordo com as Sagradas Escrituras, o Rei Salomão falava de um pomar de árvores de romã e, quando os filhos de Israel vagueavam pelo deserto, recordavam-se das refrescantes romãs do Egipto. A sua simbologia tem analogias com o figo em termos místicos e bíblicos.

A romã era também conhecida de sírios e fenícios, mas é na mitologia grega que passa a ser considerada um símbolo de fertilidade e, por isso a sua associação a Demeter, Perséfone, Afrodite, Atena.

Entre os Muçulmanos, Maomé incitava que esta fruta fosse comida para protecção contra o ódio e a inveja.

Na Mitologia Grega foi usada para simbolizar a alegoria das estações do ano e do ciclo anual das colheitas.

A fertilidade está simultaneamente ligada à morte, uma vez que incontáveis “mãe-deusas” também foram adoradas como governantes do mundo dos mortos e senhoras da guerra. Afinal representantes de um ciclo de vida.

Ainda segundo a mitologia Greco-romana, Perséfone passava forçadamente metade de cada ano com Hades, porque tinha comido algumas sementes de romã durante o tempo em que vivera com ele no mundo dos infernos, quando fora raptada pelo deus. O acordo que Zeus havia feito com Hades pressupunha que Perséfone/Properpina regressasse para a superfície da terra sem nada ter comido.

Como não o fez, tendo ingerido seis bagos de romã antes do seu regresso, Perséfone passava assim parte do ano junto dos pais, assumindo-se como Koré, a eterna adolescente, e o restante com Hades, quando representava a Perséfone das profundezas.

Também Hera, esposa de Zeus, ostentava na sua mão uma romã, simbolizando aqui a fertilidade, o sangue e morte.

O seu sumo é considerado o sangue do deus Dionísio e segundo a mitologia Afrodite, a deusa do amor, havia-a plantado na terra, como acima mencionámos.

Ao que diz também a Mitologia, Afrodite tê-la-á plantado em Chipre e Odisseu encontrou-a no palácio de um rei fenício.

Em Roma, o fruto da romã na mão da deusa Juno foi um símbolo de união. Esta árvore, por causa das suas flamejantes flores vermelhas, representava o amor, o casamento e a fertilidade. As noivas usavam guirlandas feitas com galhos de romã em flor.

Os persas, quando se tornaram seguidores de uma religião iraniana do fundador Zaratustra, construíram vassouras sagradas feitas de galhos de árvores da romã. Este fruto também era importante no nascimento e na morte. “Os recém-nascidos eram agraciados com um cordão para acompanhá-los durante toda a vida. Durante esta cerimónia, as sementes de romã eram atiradas ao ar. E, no leito de morte, sumo de romã era dado de beber aos moribundos persas. Ardvi Sura Anahita, a deusa iraniana de todas as águas e da fertilidade, é apresentada com uma flor de romã sobre os seios. Também no Budismo, a romã é considerada como um dos frutos sagrados. Na alquimia, ela foi considerada como uma fruta que prolonga a vida. Para os representantes da alquimia chinesa, este sumo avermelhado brilhante era “alma concentrada” e trouxe longevidade e até mesmo imortalidade”.

A romã já era conhecida dos hebreus nos tempos bíblicos, sendo referida uma pintura dessa fruta nos pilares do templo de Salomão. De acordo com as Sagradas Escrituras, o Rei Salomão falava de um pomar de árvores de romã, e quando os filhos de Israel vagueavam pelo deserto, recordavam-se das refrescantes romãs do Egito. A sua simbologia tem analogias com o figo em termos místicos e bíblicos.

Por isso, ainda hoje, a Romã está presente em muitas das festividades judias, sendo uma das 12 frutas especiais para o povo judeu. De acordo com um testemunho de Beatriz Montoito, ela faz parte da mesa do sêder em datas especiais porque ela possui 613 sementes lembrando que “uma pessoa tem falhas mas também tem méritos”.

Entre os Muçulmanos Maomé incitava que esta fruta fosse comida para protecção contra o ódio e a inveja.

Mas a Romã simboliza ainda a ideia de união e da solidariedade na individualidade de cada grão e é,enquanto tal, que é usada como símbolo de rituais mistéricos e iniciáticos. No fundo, o “Unir o disperso”.

Não consigo, portanto, imaginar um mundo dominado em que à interculturalidade seja substituída pelos divórcios extremistas, pelo Medo, pela xenofobia ou pelos fanatismos que conduzem à Intolerância ou a discursos políticos contra a multiculturalidade como alguns a que assistimos.

Por isso, em homenagem aos que morreram, fica hoje a minha apreensão e a consciência clara de que defenderei ainda mais a Liberdade de pensamento e de coexistência na diferença, independentemente do sítio onde possa estar ou do tema que possa abordar.

Porque não posso imaginar que qualquer divindade me exija que não seja livre ou que mate em nome de uma "Fé" ou Ideologia.

Por isso, hoje direi ainda mais alto: viva a liberdade, igualdade e fraternidade! 


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