segunda-feira, 13 de julho de 2015

FILOMENA BARATA, A UTILIZAÇÃO DA ÁGUA EM MIRÓBRIGA

       



RECONSTITUIÇÃO ELABORADA POR VERENA WILLART E STEFFEN HAENDLER,
UNIVERSIDADE DE FRAKFURT

O elemento ÁGUA foi, em 2011, o tema aglutinador do Dia dos Monumentos e Sítios, efeméride assinalada a 18 de Abril e que,  no ano transacto, se dedicou a esse grande recurso.
Para os Romanos a Gestão da Água é funtamental, sempre presente nas suas preocupações e na edificação das cidades, ao ponto de Plínio o Velho lhe dedicar no Index do Livro XXXI da sua História Natural uma expressão curiosa :aquarvm mirabilia, referindo-se às características mediciais, seja profilática ou terapêutica, da água e sua importância a nível físico e mental.
Sobre o tema das representaçãoes marinhas se dedica a tese de Cátia Mourão Rodrigues, Mirabilia Aquarum, defendida em 2001, dedicando os primeiros capítulos da mesma tese à importância da água em Roma, quer como “pilar civilizacional”, quer na vida cotidiana.
Gostaria, pois, de aqui deixar um testemunho sobre os sistemas hidraúlicos de captação, distribuição, depósito e escoamento da água em ambiente urbano, em Miróbriga.
As ruínas de Miróbriga, estão referenciadas desde o século XVI pelo humanista André de Resende que, retomando as referências de Plínio, se referiu a uma povoação outrora chamada Merobrica, no seu De Antiquitatibus Lusitaniae, lib. 4, publicado em 1597, como aqui já foi dito noutro trabalho editado.
A existência de vestígios de muralhas cercadas de torres, de um aqueduto, de uma ponte e de uma fonte correndo de uma pedra quadrada fizeram-no concluir da existência de uma “antiga cidade”.
Se bem que não sejam visíveis, nos nossos dias, quaisquer vestígios de um aqueduto que servisse de transporte para alimentar de água a cidade, a exemplo do que acontece noutras cidades da Lusitânia, é um facto que ainda no século XIX, em 1969, o Padre Macedo e Silva traduz e comenta as informações de André de Resende do seguinte modo:
“A existência de muralhas cercadas de torres, umas inteiras, outras meio destruidas, de um aqueduto, de uma ponte (que ainda existe) lançada no vale imediato, e de uma fonte correndo de uma pedra quadrada, me dão a ver que n’este logar istiu uma antiga cidade”.

Cano de chumbo do aqueduto de Conimbriga.
De facto, em trabalhos efectuados na década de 90 do século passado, na zona limítrofe da ponte localizada junto aos imponentes balneários de Miróbriga de que falaremos de seguida, encontrou-se uma pedra de grandes dimensões perfurada no meio, que deveria servir para escoar a água. No entanto, porque nos pareceu estar já deslocada do seu local de origem, esta pedra foi colocada junto à entrada do actual Centro Interpretativo de Miróbriga. Não obstante, poderíamos quase assegurar que se trata, efectivamente, da boca de um poço, com os encaixes da sua tampa devidamente marcados.



Boca do poço de Miróbriga, hoje colocado na envolvente do Centro Interpretativo.

Poço romano de Tróia, construído em alvenaria, com escada de acesso para limpeza e manutenção. Fotografias de Filomena Barata. 1989

Conhecidos são também outros exemplares de poços na periferia de Miróbriga, alguns dos quais ainda hoje em uso, mas que indiciam construção antiga, similares aos que são visíveis em Tróia. São de planta circular, construídos em alvenaria irregular.
Poço romano de Tróia, construído em alvenaria, com escada de acesso para limpeza e manutenção. Fotografias de Filomena Barata. 1989


Logo que se inicia a visita a Miróbriga, é possível ver junto das imponentes escadas que davam acesso à calçada o muito bem conservado sistema de escoamento de águas urbanas, através de condutas construídas em alvenaria, revestidas com opus signinum, aquele aparelho de construção feito com base em telhas trituradas e cal que, em período romano, permitia impermeabilizar ou tornar estanques as edificações, ou mesmo servir como pavimento.

Condutas de Miróbriga, 
Fotografia de Portugal Romano
Meia cana junto à calçada de Miróbriga. Fotografia de Luis d’el Rey.
Meia cana junto à calçada de Miróbriga. Fotografia de Luis d’el Rey.

Também junto às calçadas romanas, e de forma a que as águas não pudessem infiltrar-se para o interior das casas, construía-se uma meia cana revestida com esse material, escoando-se assim a água pela rua fora.  Em alguns casos, era utilizado material pétreo com a mesma função.
A construção das calçadas de Miróbriga previa que as construções límitrofes não fossem inundadas com as águas pluviais.
Na imagem é visível pormenor de elemento construtivo, uma meia cana em opus signinum, que inviabilizava que as edificações adjacentes fossem inundadas.


Dada a elevada pluviosidade desta zona, por baixo do que deveriam ser os pavimentos de Miróbriga, de que hoje apenas se conhecem os revestidos a opus signum, motivo pelo que se presume que muitos fossem feitos de madeira, havia também um complexo sistema de desvio das águas, construído com grandes telhões curvos ou imbrices, que assim as conduziam para o exterior das casas, obviando a infiltrações no interior das edificações.
Ao longo das calçadas uma meia cana em opus signinum ajudava também a que as habitações não fossem inundadas, pois a água escorria rua fora.
Também as paredes dos balneários, nas zonas mais baixas, recorriam a esta técnica para escoar a água e mesmo no interior dos seus compartimentos.

Fotografia de Luis d’el Rey.
Nas casas mais ricas de Miróbriga, desenvolvidas em torno de um atrium , um dos quais indiciando ter um impluvium, existia canalização de água interna à própria domus, como bem podem confirmar os tubos de chumbo existentes nas suas paredes ou perto de alguns reservatórios.


Tanque revestido com opus signinum. Na zona central da parede frontal é visível um cano de chumbo. Fotografia Luis del Rey.

Cano de chumbo. Pormenor.
Fotografia Luis del Rey.

Podemos considerar que os balneários de Miróbriga são uma verdadeira aula de construção civil romana e neles a presença da água é obviamente marcante, pois é fundamental à sua manutenção.


Balneários de Miróbriga. Levantamento de Armando Guerreiro.
A existência de grandes reservatórios periféricos garante a manutenção de água para as piscinas de água quente e fria. Também construídos em alvenaria, eram revestidos a opus signinum, apresentando meias canas no fundo.
Junto aos balneários oeste existe um tanque, localizado num ponto alto, que fornecia as designadas «Termas Oeste»  e que se encontra infelizmente muito destruído.
Na zona limítrofe da ponte, existe um, de enormes dimensões, motivo pelo que julgamos poder tratar-se de uma  Natatio, mas que, muito provalelmente, também funcionaria como reservatório de água.
Contudo, e apesar da grandeza desses reservatórios, não tem Miróbriga nenhum exemplar como o conhecido em Tróia, com um sistema elevatório das águas salobras decantadas pelas areias, onde, ao que parece, uma roda hidráulica de aro compartimentado, similar às cuja introdução se cometia ao Mundo Islâmico, ajudaria a fazer transportar esse líquido para o interior de um tanque superior revestido a opus signinum.

Reservatório de água das Ruínas de Tróia com sistema elevatório.
De salientar, até pelo bom estado de conservação que apresenta, o sistema de escoamento de águas dos balneários de Miróbriga, executados com alvenaria em falsa cúpula, onde ainda hoje é possível ver a água drenar, escoando-se depois para a cloaca existente junto à ponte romana.
Ainda de referir que as condutas tinham elaborados sistemas de limpeza, encontrando-se também em bom estado de conservação muitos dos equipamentos que a viabilizavam, com a função das actuais sarjetas.
Cano de escoamento das piscinas de água quente.“Termas Este”
Sistema de limpeza das condutas dos balneários

Mas também podemos ver os belíssimos exemplares de as piscinas de água quente, aquecidas com vapor que se produzia a partir de uma fornalha e que, através das tijoleiras refractárias, viabilizavam o ambiente tépido ou mesmo o calor apropriado ao caldarium.
O mesmo acontecia nas “Termas Este” onde o sistema de drenagem das piscinas ou alvei, era extremamente cuidado, desaguando sempre em pontos onde a água era devidamente conduzida às condutas gerais do complexo dos balneários.
Encontram-se nas “Termas Estes” inúmeros canos cerâmicos que exerciam a função de escoamento.
Cano cerâmico de escoamento. 

“Termas Este”.


Nas latrinas circulava a água aproveitada do despejo da grande piscina do frigidarium  que se ligava ao escoamento geral dos balneários que depois desaguavam na cloaca, localizada junto da linha de água da ponte.
Se bem que apenas existam alguns restos dos seus assentos, podemos confirmar o paralelismo desta construção com outras existentes no Império.

Também na periferia dos balneários, numa zona mais alta, localizava-se um poço de decantação que permitia filtrar as águas pluviais, bem como uma piscina onde se guardava água para reserva de apoio ao complexo.
 Uma cloaca junto à ponte de Miróbriga que se sobreporia a um leito de águas alimentado pelas chuvas a que se juntavam as águas provenientes dos balneários,  escoava a água desse complexo.
Relembro também que a própria ponte apresentava um interessante sistema de escoamento da água a partir do seu tabuleiro para as paredes lateraias, o que evitava que houvesse inundações do mesmo.
Pode ver mais em pormenor o seu sistema construtivo, aqui neste mesmo site.

A ponte de Miróbriga tinha no seu tabuleiro um escoamento de águas que, através de canais as descarragavam na contrução de alvenaria
Na zona limítrofe do Fórum, as condutas de águas pluviais são também uma forte presença, escoando as águas pluviais e defendendo as construções de serem inundadas.
Até à presente data, também não é conhecida qualquer represa ou barragem para contenção e reserva de água, nem tão pouco uma cisterna ou mãe-de-água, já para não falar da inexistência de qualquer ninfeu.
Também não se conhece a existência de quaisquer estruturas de apoio aos “Militia Vigilum” que combateriam os fogos usando baldes e bombas de água, como se sabe que Roma teria desde o século I d.C .
Podemos, pois, considerar que as cidades romanas são ainda hoje uma grande lição sobre o uso desse recurso, a Água, e tentar com elas aprender que se pode usar e reciclar um bem fundamental de forma sustentável e equilibrada, sendo Miróbriga, a muitos níveis, uma desses grandes motivos de aprendizagem .
Tubo de chumbo no interior de um pequeno reservatório pertencente a uma das habitações de Miróbriga. Associada a este testemunho, também as pinturas a fresco denunciam que os seus proprietários tinham algum conforto financeiro.


FORTES, Mário Luís Soares, 2008, A XESTIÓN DA AUGA NA PAISAXE ROMANA DO OCCIDENTE PENINSULAR. Tese de Doutoramento. Director: Profesor Doutor Fernando Acuña Castroviejo. UNIVERSIDADE DE SANTIAGO DE COMPOSTELA. Facultade de Xeografía e Historia. Departamento de Historia I
MASCARENHAS, José Manuel; CARDOSO, João Luis, «Aproveitamentos Hidráulicos a Sul do Tejo». Ministério do Ambiente. Direcção Geral dos Recursos Naturais. CEHIDRO.
MOURÃO, Catia, 2001, Mirabilia Aquarum, Universidade Nova de Lisboa.
Portugal Romano, Exploração dos Recursos Naturais, MNA, 1997
VITRÚVIO, De Architetura, Livro VIII e X (Hidrologia e Máquinas Hidráulicas).

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O Solstício de Inverno, Filomena Barata

 07-12-2012 

Património
por Maria Filomena Barata
(Liga de Amigos de Miróbriga)
 

Vamos falar do Solstício de Inverno?



"Enquanto isso, o chefe da família escrava, cuja responsabilidade era oferecer sacrifício aos Penates , para gerenciar as disposições e dirigir as atividades dos empregados domésticos, chegou a dizer a seu mestre que a família tinha festejado segundo o costume ritual anual. Pois, este festival, em casas que mantêm a utilização religiosa adequada, que antes de tudo honrar os escravos com um jantar preparado como se fosse para o mestre e só depois é a mesa posta novamente para o chefe de família. Assim, então, o escravo chefe veio para anunciar a hora do jantar e convocar os mestres para a mesa".



Lucerna com representaçãso de Hélio ou Mitra. Centro Histórico de Sines. Museu de Sines.

O Solstício (do latim sol + sistere, que não se mexe) de Inverno tentarei falar um pouco da importância da Luz para a nossa vida e desse momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da linha do Equador.
Os solstícios ocorrem duas vezes por ano: no inverno, este que iremos comemorar agora, e no verão, em junho.
Variam o dia e a hora exactos. Contudo, no inverno, corresponde à noite mais longa do ano, ocorrendo por volta do dia 21 de dezembro, e, no verão, corresponde à duração maior do dia, por volta de 21 de junho.
Os Homens, desde remotas alturas, até pela sua relação íntima com a Natureza e com as estrelas, designadamente o Sol que rege a Vida e o Tempo, tiveram vários cultos dedicados ao Astro Rei.
O Sol, sendo a maior luz do céu visível aos Humanos, é para muitos povos um dos símbolos mais importantes, sendo até venerado como um Deus ou encarado como manifestação da divindade entre muitos. Ao contrário da Lua, o Sol que tem luz própria, é afinal a própria essência da Luz, e é quase sempre interpretado como símbolo masculino e por isso associado ao princípio Yang. Ou seja, representa em muitos culturas, se bem que nem em todas, o princípio activo, enquanto a Lua é um princípio passivo. Ao Sol associa-se a noção de calor e de Vida, pois sem ele nada sobrevive.
Em Roma, Saturnália era um festival em honra de Saturno, uma divindade de origem grega cujo culto foi importado para Roma, que ocorria no mês de Dezembro, também em correlação com o solstício de inverno (era celebrada no dia 17 de dezembro, mas ao longo dos tempos foi sendo estendida a uma semana completa, terminando a 23 de dezembro).
As Saturnálias tinham início com grandes banquetes e sacrifícios que eram acompanhados por doações simbólicas. Durante estas festividades, havia como que uma subversão da ordem social, um pouco como as brincadeiras que actualmente se fazem por altura do Carnaval: os escravos podiam comportar-se neste período como homens livres; elegia-se, à sorte, um "princeps" - uma espécie de caricatura da classe nobre - a quem se entregava todo o poder e eram usadas máscaras.
Contam algumas lendas que Saturno tinha sido expulso por Zeus do Monte Olimpo e se havia instalado no Capitólio, onde fundou um povo chamado Saturnia. Acredita-se também que foi acolhido por Jano, uma divindade igualmente oriunda da Grécia.
Mas também o deus Mitra cujo nascimento era celebrado, tal como o Menino Jesus, a 25 de dezembro, tinha uma forte relação com o Sol.
Este deus de origem oriental vai ter grande adesão junto dos soldados romanos, ou seja os legionários, quer pelos cidadãos.
Mitra, ou Mithras, cujo nome significa em Sânscrito "Amigo"; em Persa quer dizer "Contrato". Trata-Se de um Deus luminoso que incita os homens a seguirem o Seu caminho no combate pela Luz contra as Trevas. Mitra tem naturalmente um forte carácter solar, porque a sua Luz é a síntese da Luz do Sol e da Lua, e o Seu o Domingo é o dia dedicado ao seu culto.(no Latim pagão, domingo é «Dies Solis», ou «Dia do Sol»).
Ao que se sabe, o culto mitraico parece ter chegado ao Ocidente no decorrer do século II d.C., através das legiões romanas, tendo grande impacto em Roma e data dessa centúria a construção de inúmeros santuários, ou Mithraea. A primeira referência escrita ao culto mitraico é de Plutarco, datável do século I a.C., referido que os piratas cilícios praticaram os mistérios mitraicos até 67 a.C. Daqui, esta religião e culto chegou aos países do Danúbio e a Itália. Os principais adeptos de Mitra eram soldados, como acima dizíamos, funcionários administrativos e comerciantes.
No Ocidente, o seu culto acabou por confundir-se com o do Sol Invictus, ou Sol Invencível, pois verifica-se, em finais do século III, o sincretismo entre a religião de Mitra e outros cultos solares de procedência oriental. É em finais dessa centúria, em 274, ao reinado de Aureliano, que atribuiu a Sol Invictus as suas vitórias no Oriente, que esta religião se torna oficial, tendo o imperador mandado edificar em Roma um templo dedicado ao deus e foram incumbidos sacerdotes de lhes prestar culto. O máximo dirigente deste era o pontifex solis invicti. O mitraísmo manteve-se como culto não oficial, havendo quem professasse, ao mesmo tempo, o mitraísmo e a religião do Sol Invictus.


Sol Invictus (Século III d. C.) Pessinus (British Museum)
Fotografia a partir de: 
https://en.wikipedia.org/wiki/Sol_Invictus

Com a chegada dos invasores romanos à Península Ibérica, e particularmente dos exércitos, originou-se um novo surto desses cultos orientalizantes, apesar da sua penetração no Ocidente ser de período muito anterior ao romano. Quer na cidade romana de Tróia, Grândola, onde muitos autores querem ver a sua representação num beixo-relevo, quer em Beja está comprovado o Culto Mitraico, que se expandiu na Hispânia a partir de finais do século II – inícios do século III d. C., a par de outros cultos orientais, tais como de Serápis, Ísis, Cibele-Magna Mater. O Sol ou Ormuzd, para os Persas, enquanto fonte de Luz, representava a Vida, a Saúde e a Fertilidade da terra enquanto criadora de todas as coisas necessárias à sobrevivência do Homem; à Lua ou Arimânio, atribuíam-lhe forças maléficas; as trevas e a esterilidade da Terra. Mitra surge assim como um terceiro elemento, como uma espécie de divindade mediadora entre duas forças antagónicas, viabilizando o nascer de um novo dia, ou seja, não permitindo que a Lua ocultasse o Sol.
Assim, mais do que o Sol, Mitra representa a Luz Celestial, ou a essência da Luz, que desponta antes do Astro-Rei raiar e que ainda ilumina depois dele se pôr e, porque dissipa as trevas, é também o deus da Integridade, da Verdade e da Fertilidade, motivo pelo que também surge associado à força genésica do Touro, o Touro primordial que Mitra é incumbido de matar.
Que seja o Sostício que se aproxima um recomeçar de um ciclo solar no caminho de mais Luz.
E que a árvore da Vida, também ela já cultuada pelos povos da Antiguidade, nos traga um ano melhor, aproveito para citar uma frase do poeta latino do século I «os netos colherão os frutos das tuas árvores», nestes tempos em que a crise nos atormenta, como palavras de esperança do Futuro.

Sobre o culto mitraico:

https://www.academia.edu/1071483/O_Culto_Mitraico_e_a_sua_Representa%C3%A7%C3%A3o_em_Portugal

quinta-feira, 9 de julho de 2015

AS RUÍNAS ROMANAS DE TRÓIA, SETÚBAL, FILOMENA BARATA

Dedico, assim, este trabalho a todos os arqueólogos que trabalharam em Tróia e que lhe dedicaram atenção. 

À nova equipa que se encontra neste momento a efectuar trabalhos arqueológicos em Tróia, coordenada pela Doutora Inês Vaz Pinto, vai o meu desejo de muitos e profícuos resultados. 


Ruínas e Pensínsula de Tróia. Fotografias aéreas de 1966


Frescos da Basílica Paleocristã





  























“… as ruinas de Troia de Setubal constituem um enexgotavel manancial manancial archeologico. Não dá dum passeio pela praia, não se mexe na areia, que não appareça alguma cousa. Oxalá que algum Ministro se amercie d’ellas! tanto mais que é uma vergonha que esteja a findar o seculo XIX, o seculo chamado das luzes, e Portugal deixe perder para sempre estes eloquentes vestigios de grandeza do seu passado. sem lhes prestar o culto que os povos civilizados prestam a tudo o que pode servir para aclarar os problemas históricos. José Leite de Vasconcellos, Archeologo Português

«Quando Tróia se afundou três dias choveu areia só um homem se salvou no ventre de uma baleia». 

Hoje regressados a outra Tróia, a romana, das salgas de peixe e das histórias contadas do Humanista André de Resende e de Fr.Bernardo de Brito, da Escola Historiográfica de Alcobaça, que retoma identificação de Tróia com a Caetobriga romana escrevendo: “nos tempos antigos florescera na povoação de Cetobriga a que os moradores da terra chamam Troia”.(7) Muitos autores insistem nesta identificação, como Duarte Nunes Leão, João Batista Lavanha e a Frei António de Santa Maria, Carlos Ribeiro, entre outros. João Batista Lavanha na sua “Viagem da Catholica Real Magestade del Rey D.Filipe II a Portugal”, de 1622, diz que:” Setuval. He huma das maiores, e mais assinaladas villas de Portugal, por causa do seu porto formado do Rio Cadão (9), que alli entra no Oceano, e de huma lingua de terra que o mar ha estreitado. Nesta lingua de terra que fica de fronte da villa, ouve na antiguidade huma povoação chamada Cetobriga …. onde ainda oje se vem os vestigios de tanques em que se salgarão os atuns, e outros pescados, e aparecem as ruinas de outros edificios de aquella cidade, e dellas se tirão estatuas, columnas, e muitas inscripções, que entre outras antiguidades dignas de eterna memoria se conservão na casa do duque de Aveiro”. A estas ruynas chama o vulgo Troya com que quer dar a entender que são da povoação que alli ouve”. Regressarei a uma «Rua da Princesa», assim denominada porque D. Maria, rumando ao Pinheiro, aqui passou e resolveu desembarcar para conhecer os restos de Latinos, tendo identificado uma zona residencial; voltarei à Real Sociedade Archeologica Lusitana, cujo patrocinador, o Duque de Palmela, permitiu que as escavações aí se incrementassem e aos desenhos das mãos do oitocentista Marques da Costa, que tão pormenorizados até parecem efabulação. Voltarei às «Minhas Memórias de Tróia», retomando um velho tema adiado, mas agora, certamente, enriquecido porque será mais partilhado. Aos desenhos de grandes caricaturistas portugueses que colaboraram com José Leite de Vasconcelos, certamente porque era mais uma forma de prover o sustento, desenhos esses que o Museu de Arqueologia ainda conserva, bem como às primeiras fotografias que a Arqueologia Portuguesa viu, nas mãos de M. Apolinário. 

Regressados à Tróia do relevo mitraico, divindade de militares vinda do Império Oriental, que o Cristianismo acabou por banir,  que, embora sendo o único exemplar em território nacional, andou por destinos perdidos durante décadas.

E poderemos regressar também a essa Tróia do templo paleocristão.




E às sepulturas tardias de mansae, exemplares também raros e de que apenas existe um paralelo em toda a Península, onde deitados os comensais partilhavam ritualmente com os seus mortos alimentos e vinho com mel.




Tróia. Sepulturas de “mansae”.

Regressados assim à Tróia de poços, cisternas e reservatórios de água, para servir unidades fabris, bem como aos balneários com os seus tanques tépidos e quentes com os seus mosaicos que, alindando o espaço, permitiriam esquecer cheiros fétidos a peixe e dias suados de labor.



E às unidades fabris que parecem não acabar …quilómetros de praia cheios de cetárias, de que ainda se não conhece bem a organização, mas que, todos os anos, a erosão do rio, sem que haja meios o vontade política para o estancar, faz roubar à História .


 


































Novos poços e tanques denunciando que o labor não acabava na zona que agora mais “central”, que não é senão a ínfima parte de uma cidade ainda por conhecer, bastando andar pela praia para uma pálida imagem se poder ter.

Recordamos o reservatório com um sistema elevatório de água como poucos há e que foi objecto de estudo e publicação nos «Aproveitamentos Hidráulicos Romanos»

Podemos rumar depois ao Columbarium, esse lugar de sossego dos mortos que ocupa o espaço já desactivado de fábricas abandonadas, onde convive, no século III, a icineração e a inumação, e às sepulturas que se vão juntando em seu redor, transformadas as unidades fabris em lugares de solidão, pela crise anunciada de um Império a ruir.

E pensar no Baptistério, hoje já desaparecido, que Marques da Costa, no século XIX, tão bem desenhou.


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E podemos ainda ver a sepultura em forma de cupa que se implantou junto às termas e pensei na sepultura da Galla cuja Ara também se encontra no Museu Nacional de Arqueologia, bem como a Tróia do relevo mitraico, esse deus da Luz, importado por Romanos do Mundo oriental, a cujos mistérios se acedia através da matança do touro ritual.

Fotografia da Ara de Galla: Museu Nacional de Arqueologia


































Tróia da «Caldeira», onde, em dias especiais, ainda se pode ver plâncton fazendo brilhar a água naquele lugar.



Informações gerais sobre o Sítio Arqueológico:

Ruínas de Tróia, classificadas como Monumento nacional pelo Dec-Lei de 16 de Junho de 1910 Z.E.P. e área non aedificandi (DG,II Série, nº155 de 02/07/69), cujos limites precisos foram definidos na Portaria nº40/92 de 22 de Janeiro Localização : Extremo da Península de Tróia, Setúbal (Concelho de Grândola)
Caracterização: Trata-se de um dos mais interessantes conjuntos fabris de conserva de peixe do Império Romano conhecidos em território peninsular, construído nos inícios do século I d.C. e que deve ter laborado até aos séculos IV/V d.C. Para além dos tanques de salgas, estão identificadas uma área habitacional, conhecida por «Rua da Princesa», umas termas ou balnea, três necrópoles e um Templo Paleocristão que preserva ainda o revestimento com pinturas a fresco. Voltarei a Tróia, sim, mas hoje vou-me deixar levar pelo sono que o sol do dia me permitiu ter … com a alegria de saber que tanta coisa, finamente, se está a reiniciar.
À Inês Vaz Pinto e sua equipa, designadamente à Patrícia Magalhães, e à IMOAREIA os nossos parabéns!

E recordamos a descrição de Tróia de Hans Christian Andersen: «No cais havia grandes barcos de pesca; quem quisesse, podia dar uma volta e visitar a Pompeia de Setúbal – Tróia, a aldeia de pescadores, enterrada mas parcialmente escavada (…). Voltámos para trás, não em direcção a casa mas rumo ao canal para vermos os restos de Tróia, a cidade enterrada na atreia. Foi fundada pelos Fenícios; desde então, os Romanos viveram aqui e recolheram o sal da mesma maneira que ainda hoje é usada, tal como o testemunham as grandes ruínas. Em tempos idos, a entrada domar devia ser para leste; a entrada actual foi quebrada por uma grande inundação, que acabou por a bloquear com areia. Os seus habitantes foram todos obrigados a fugir; acredita-se que inicialmente procuraram as montanhas e fundaram a povoação que agora é Palmela, mas mais tarde dirigiram-se para baixo, para a costa, onde fundaram Setúbal, ainda existente. (…) Onde quer que puséssemos o pé em terra, havia grandes pilhas de pedras amontoadas, restos de lastro de navios que traziam as suas cargas de sal para a baía. Desta forma, havia ali pedras grandes e pequenas vindas de todas as artes do mundo – da Dinamarca e da Suécia, da Rússia e também da China. Podia escrever-se uma longa história sobre elas (1). (…) Tinham começado a fazer uma grande escavação, que parara devido a falta de meios
. Não se tinha ganho muito com isso, mas sinda assim podiam ver-se alicerces de casas, vários pátios, muros altos, restos de um jardim inteiro, com uma casa-de-banho parcialmente conservada, um chão de mosaico e paredes com lajes de mármore. mesmo dentro de água, havia fragmentos e pedaços de jarros antigos e até grandes muros de pedras».


(1) Julgamos tratar-se de uma curiosa interpretação de H.C.A., se bem que a maioria das pedras que se encontram espalhadas por 2 km de extensão de costa são de origem romana, fruto da destruição das construções. (2) Uma vez que a viagem de H. C. A. teve lugar em 1866, deverá estar a referir-se às escavações efectuadas pela Real Sociedade Archeológica Lusitana que teve, inicialmente, o patrocínio de D. Fernando e do Duque de Palmela. No entanto, já anteriormente se tinham feito “explorações” no tempo da infanta D. Maria.

1ª fotografia: Relevo Mitraico de Tróia Fotografia das sepulturas de mansae gentilmente cedida por Esmeralda Gomes
























                                 





















TRÓIA, A CAETOBRIGA DOS ROMANOS?

Durante muito tempo, Tróia foi identificada com a Caetobriga de Ptolomeu e do Itinerário de Antonino (século III d.C.), sendo a ela conotada tanto por André de Resende como por muitos dos arqueólogos que aí trabalharam até ao século passado. No entanto, os recentes resultados de escavações promovidas em Setúbal vieram corroborar a opinião que Caetobriga fosse, efectivamente, a cidade que seu origem à actual Setúbal e não Tróia.
Gaspar Barreiros‚ o primeiro autor que faz referência a Tróia, ” a qual Troia cuidaram alguns ser Salacia“, sustenta serem as ruínas de Tróia os vestígios da cidade de Cetóbriga, de cujo nome derivam igualmente o nome da península e o da cidade que se ergue na outra margem – Setúbal. Setúbal, segundo o mesmo autor, “…reteve o nome corrupto de Cetobrica, o qual nome de Cetobrica se corrompeu em Cetobra e depois em Tria onde ela foi”. Refere-se este autor aos tanques de salga de peixe de Tróia como:”salgadeiras em que se curava o peixe.” André de Resende, escritor e “arqueólogo” quinhentista, aí realizou as primeiras pesquisas de que há notícia. Como umas das figuras mais proeminentes do Humanismo Português, não será de admirar a curiosidade e fascínio que todos os testemunhos do passado clássico tenham exercido sobre este escritor. Na sua obra “De Antiquitatibus Lusitaniae”, Liv.IV – “De Cetobriga” retoma a argumentação de Gaspar Barreiros, afirmando: “Corrumpi coepit nonem in Cetobram, quam postea multo corruptius vulgos ineruditum triam fecit”. No início do século XVII, Fr.Bernardo de Brito retoma a mesma identificação escrevendo:”nos tempos antigos florescera na povoação de Cetobriga a que os moradores da terra chamam Troia”. Duarte Nunes de Leão, por sua vez, refere-se-lhe da seguinte forma:”Cetobriga que vieram corromper o nome de Setúbal para onde passou, foi também situada em uns areais onde chamam agora Troia”. Muitos autores insistem nesta identificação, de João Batista Lavanha a Frei António de Santa Maria, Carlos Ribeiro, entre outros. João Batista Lavanha na sua “Viagem da Catholica Real Magestade del Rey D.Filipe II a Portugal”, de 1622, diz que:” Setuval. He hua das maiores, & mais assinaladas villas de Portugal, por causa do seu porto formado do Rio Cadão, que alli entra no Oceano, & de huma lingua de terra que o mar ha estreitado. Nesta lingua de terra que fica de fronte da villa, ouve na antiguidade hua povoação chamada Cetobriga …. onde ainda oje se vem os vestigios de tanques em que se salgarão os atuns, & outros pescados, & aparecem as ruinas de outros edificios de aquella cidade, & dellas se tirão estatuas, columnas, & muitas inscripções, que entre outras antiguidades dignas de eterna memoria se conservão na casa do duque de Aveiro”. A estas ruynas chama o vulgo Troya com que quer dar a entender que são da povoação que alli ouve”. Em 1895, José Leite de Vasconcelos faz uma reflexão sobre este assunto e considera a identificação despropositada sob o ponto de vista linguístico:” Troia nada mais ser do que uma designação litteraria dada anteriormente ao seculo XVI às ruínas; para afirmar isto, fundo-me em que não são estas ruinas as unicas assim denominadas: no termo de Chaves ha outras ruinas a que se dá o mesmo nome de Troia”. A partir de 1957, volta a reacender-se o problema da localização de Cetobriga, uma vez que as escavações que o Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal revelaram a existência de um importante centro urbano da época romana. Tinha sido finalmente localizada a Cetobriga dos Romanos! Em 1960, José Marques da Costa em “Novos Elementos para a localização de Cetobriga diz a propósito deste assunto: “Caíu, há muito tempo, no campo das hipóteses indefensáveis, não sem que, antes, durante séculos, tivesse sido aceite e divulgada como verdade averiguada e incontroversa. Hoje, vergada sob o peso da provecia idade de quase quatrocentos anos – motivo de aparente autoridade! – não passa de sobrevivência dos estudos arqueológicos do Quinhentismo, incipientes, simplistas e falhos de fundamento”.
A designação da Tróia romana permanece, apesar de todas as pesquisas feitas, entre as quais muito se distingue Marques da Costa (arqueólogo que nada tem a ver com o homónimo acima mencionado), no início do nosso século, uma questão em aberto. Reconhecem os arqueólogos a possibilidade de o topónimo que hoje conhecemos ter conotação com a Tróia homérica, dado o seu desaparecimento misterioso e a sucessiva invasão que as areias fizeram às ruínas.


TRÓIA, SUA HISTÓRIA: AS PRIMEIRAS INTERVENÇÕES ARQUEOLÓGICAS





(Frescos da Basílica paleocristã de Tróia)


Retomando as referências a Tróia, de Setúbal, encontramos vários documentos datados já do século XVI.
De 1502 data um, através do qual a Ordem de Santiago dá o terreno de Troia, pertencente ao seu vasto domínio, em regime de sesmaria. Encontramos ainda um auto de visitação da mesma ordem à Ermida de Nª Sra.de Tróia.
Em 1700, Fr. Agostinho de Santa Maria refere-se, no Santuário Mariano, muito provavalmente ao “Templo Paleocristão” (que amanhaã irei de novo visitar) do seguinte modo: “sepultado na areia e debaixo dela um templo gentílico , com colunas e capitéis de que ainda tem um notavel fabrico”.”
Ainda no século XVIII se encontram documentos sobre o emprazamento de Tróia, que, tal como o estipulado no de 1502, salientam: “fica de fora a pedra, que todos poderão tirar para fazerem casas e moinhos e os possuidores de sesmaria não poderão tolher a qualquer pessoa que a queira ir buscar”. Esta regulamentação justifica-se pelo facto de não existir pedra em toda a Península e toda ela ser trazida pelos Romanos de diversificados locais, designadamente a Serra da Arrábida.
Este tipo de referências repete-se por todo o século XVIII, em registos notariais, o que manifesta a destruição progressiva, mas consentida, de que este sítio foi alvo desde o começo do século XVI. As mais antigas escavações arqueológicas em Tróia datam do tempo da Infanta D. Maria, futura Rainha D. Maria I, e incidiram na zona residencial das ruínas, pelo que foi denominada essa zona, desde essa altura, como “Rua da Princesa”. (1)
O espólio exumado nessas explorações foi totalmente disperso. À então Vila de Setúbal foi oferecida uma coluna e um capitel coríntio, reutilizado, mais tarde, como pelourinho, ainda hoje existente na Praça Marquês de Pombal, nessa cidade.
Em período posterior, em 1850, a Sociedade Arqueológica Lusitana iniciou aí trabalhos de que há relato e cujos Diários das escavações de Tróia, foram publicados na Revista Popular:  “Foi por entre todas essas festas e galas, sempre acompanhadas de um vivo enthusiasmo, nascido das mais seductoras esperanças, alimentadas e fortalecidas … sombra grandiosa da alta protecção de um monarca e de um duque notavel e poderoso, que a Sociedade Archeologica deu começo às escavações. As primeiras foram effectuadas desde o 1º de Maio até 2 de Junho de 1850 e logo com optimos resultados, cujas notícias muito satisfizeram a El-rei e não menos ao Duque. ……………. Em resultado das pequenas excavações feitas colheram-se muitas e diversas antigualhas romanas, mas não tendo podido ser collocadas no Museu de Setubal como determinavam os Estatutos, força foi que ficassem em poder de alguns socios em quanto, por falta de meios, não houvesse casa apropriada”.

(A Rua da Princesa, segundo desenhos de Marques da Costa)

A Sociedade Arqueológica Lusitana tinha surgido em 1849, impulsionada pelo Padre Manuel de Gama Xarro e por João Carlos de Almeida Carvalho, a que se foram, a pouco e pouco, juntando outros estudiosos, teve a protecção do rei D. Fernando II.
O primeiro Duque de Palmela, que visita as ruínas de Tróia, a convite desses estudiosos, em 1849, é também convidado a ser protector da Sociedade, qualidade que reclina para El-rei D.Fernando II, que virá a ser efectivamente o protector da Sociedade. O Duque de Palmela profere em Setúbal um discurso em que afirma: “Foi hoje a primeira vez que tive o gosto de visitar as ruínas da antiga Cetobriga e, pelos vestígios das construções que ali observei, fiquei sumamente esperançado de que grandes vantagens arqueológicas, científicas e artísticas se podem obter por meio duma bem dirigida escavação, e da qual poderão resultar muita honra e vantagem para esta País e com particularidade para a Vila de Setúbal, sede desta respeitável associação. Quando porém mesmo esses achados de preciosidades se não realizem de todo, ao menos sempre um grande proveito se tirar das escavações intentadas: descobrir-se-ão essas ruínas, marcar-se-á a sua extensão, e finalmente fixar-se-ão mais as ideias para se resolver um ponto de história e de geografia, que até agora não tem sido esclarecido pelos nossos escritores, história na verdade muito misteriosa, relativamente à fundação desta populosa cidade, cuja existência deve ser de mui remota antiguidade”.
Em 1850, são publicados na Imprensa Nacional os Estatutos da Sociedade Archeologica Lusitana, Associação essa que se pode considerar a precursora da Real Associação dos Arquitectos e Arqueólogos Portugueses. Mas a ela, voltarei outro dia, bem como a Marques da Costa, mas longo vai hoje este apontamento.

Crismon da Basílica Paleocristã de Tróia. Desenho de Marques da Costa.
Medalha em ouro procedente da Necrópole da Ermida da Achada de São Sebastião – Mértola, datada do Séc. IV-V d.C Trata-se de uma pequena medalha em ouro composta por um crismon (monograma dos inícios do cristianismos que corresponde às iniciais gregas das palavras Jesus Cristo). No braço horizontal da cruz estão representados o alfa e o ómega, significado que Cristo é o começo e o fim da evolução criadora. Na parte superior da medalha encontra-se uma argola que estabelece a ligação com os três elos entrelaçados da corrente também do mesmo metal. A peça provém do interior de uma sepultura de criança/jovem. Dimensões: Peso: 1,5gramas; diâmetro Max. 18mm Núcleo Museológico da Ermida de São Sebastião Bibliografia: LOPES, Virgílio; BOIÇA, Joaquim (1999): “Museu de Mértola – A Necrópole da Achada de S. Sebastião”, Mértola, Campo Arqueológico de Mértola e Escola Profissional Bento de Jesus Caraça. Info retirada do site do Campo Arqueológico de Mértola em http://www.camertola.pt/

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Desenhos a preto e branco: Marques da Costa



Lucerna com representação de Hélios proveniente de Tróia 


Lucerna, fragmentada na asa, de bico redondo, do tipo “Dressel/Lamboglia 30 A”. Orla decorada com cachos de uvas e rosetas, do tipo Loeschke VIIIa. Decoração moldada no disco, representando Hélios. Observa-se um busto masculino nimbado de auréola radiada, com o chicote do lado esquerdo. À direita desta figura localiza-se orifício de alimentação. Base plana com marca, delimitada por duas molduras, sendo a primeira, larga, decorada com pequenos círculos incisos, e a segunda, mais estreita e estriada. II d.C. – III d.C. – Época Romana. Museu Nacional de Arqueologia. 

Satisfaz-me ver alguns dos resultados já visíveis no sítio arqueológico, lamentando, contudo, que tantos dos estudos e trabalhos aí iniciados não se tenham levado a bom termo, pelo que me atrevo a deixar aqui algumas “velharias” dos idos anos oitenta do século passado que pude acompanhar de perto, designadamente no que respeita à valorização deste extraordinário Sítio Arqueológico, tal como os arranjos da envolvente das ruínas, a sua sinalética e mesmo a criação de bilhetes de ingresso. Trata-se de uma arqueologia ainda por fazer, mas que desejo se possa vir a efectuar.
Mais gostaria de um dia poder ver ainda publicados trabalhos coordenados por António Cavaleiro Paixão e sua equipa, bem como alguns dos belíssimos e exaustivos diagnósticos que foram acompanhados por Margarida Monteiro.





(1) Ver o trabalho mais recente, entretanto publicado por Patrícia Santiago Pinto Brum «Contributos para a programação museológica do acervo arqueológico romano de Tróia. Museu ou centro de interpretação?» Setembro 2013.
 http://run.unl.pt/bitstream/10362/13853/1/Contributos%20para%20a%20programacao%20museologica%20do%20acervo%20arqueologico%20romano%20de%20Troia.pdf