sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sabia que o Sol e a Lua ... Filomena Barata

Por Filomena Barata,
Publicado na Revista Portugal Romano

Sabia que …




Medalhão de prata, datado do século III com representação do Sol Invictus. 
Fotografia a partir de Wikipédia.
Pessinus, Turquia (British Museum)


O Sol e a Lua assumem em quase todas as religiões antigas e mistéricas um papel fundamental.
O Sol com a força vivificante dos seus raios, desempenha genericamente o papel masculino e patriarcal e, por isso, foi associado quer a Febo/Apolo, quer a Hórus; e a Lua, telúrica, é a força feminina e matriarcal que se associa a Cibele, Ísis, Proserpina, que faz desabrochar os frutos e condiciona o crescimento de ervas e plantas.
A propósito da Lua, astro satélite sem luz própria, recordo uma velha oração que conheci no Alentejo que várias vezes tenho tazido à lembrança e ainda uma outra citada no «Asno de Ouro» de Apuleio que dão conta, por um lado, do sincretismo religioso daquele território e do papel que os cultos lunares desempenham nas crenças e religiões desde épocas remotas.



Lucerna com representação de Hélios

Proveniente de Tróia

Séc. II d. C. - III d. C. (Época Romana)

Museu Nacional de Arqueologia, 983.3.3252



Lucerna, fragmentada na asa, de bico redondo, com orla decorada com cachos de uvas e rosetas. Decoração moldada no disco, representando Hélios. Observa-se um busto masculino nimbado de auréola radiada, com o chicote do lado esquerdo. À direita desta figura localiza-se o orifício de alimentação.


Base plana com marca, delimitada por duas molduras, sendo a primeira, larga, decorada com pequenos círculos incisos, e a segunda, mais estreita e estriada.

Fotografia e descrição a partir de:

Isís com disco solar, lua e cornos, proveniente da Extremadura. 
Museo Nacional de Madrid.


Passarei a citar:
"Lua, Luar
Toma lá este Bébé
Ajuda-mo a criar
Tu és Mãe e eu sou ama
Cria-o tu que eu lhe dou mama
Em louvor da Virgem Maria
Padre Nosso, Avé Maria"


Estrabão menciona que os povos celtiberos ofereciam sacrifícios a um "deus sem nome", e que nas noites de lua cheia lhe eram dedicadas danças colectivas até ao alvorecer: "Dizem alguns que os Calaicos não têm nenhum deus, mas os Celtibérios e os seus vizinhos do Norte oferecem sacrifícios a um deus sem nome nas fases da lua cheia, durante a noite, em frente às portas das suas casas, e todas as famílias dançam em coro durante toda a noite" (5, Livro III, Cap. IV, 16). 

A outra «oração», citada por Apuleio, no "Asno de Ouro", faz também eco da mesma devoção lunar, pois atribui ao burro na sua caminhada iniciática uma oração dedicada à "Lua cheia resplandecente de admirável brilho" a quem confere uma "transcendente majestade, e que todas as coisas humanas se regiam por sua providência; que não somente o gado e as bestas feras, mas também as inanimadas, vegetavam pelo divino influxo de sua luz e divindade (...)".
E o Asno suplica à Lua, apelando a atributos que lhe foram conferidos ao longo dos tempos:
" Rainha dos céus, ou tu sejas Ceres criadora, primeira mão dos frutos (...); ou tu sejas a celeste Vénus, que na primeira origem das cousas ajuntaste os diferentes sexos gerando amor, e propagaste a espécie humana de eterna descendência (...) que, favorecendo o parto das mulheres com brandos remédios, tens dado à luz tantos povos (...); ou tu sejas Prosérpina, horrível pelos uivos nocturnos, que reprimes com a triforme face os ímpetos dos espectros, e encerras os arcanos da terra e, vagueando por diversos bosques, és aplacada com diferentes modos de culto: tu que alumias os muros de todas as cidades com a tua feminina luz, que crias as alegres sementes com teu húmido fogo e esparges uma luz incerta segundo as revoluções do Sol: por qualquer nome, quaisquer ritos e debaixo de qualquer forma que é lícito invocar-te, tu me socorre agora em minha extrema calamidade (...), tu dá-me paz e repouso depois de tão cruéis desgraças sofridas”.

«Venus riding a quadriga of elephants, fresco from Pompeii, 1st century AD»
Imagem legenda a partir de:https://www.pinterest.pt/pin/627618898047106977/


Na primeira oração ainda hoje rezada por grávidas ou por mães que vão oferecer à Lua os seus bébés, é clara a associação da Lua com a feminilidade e a maternidade.
Na segunda oração, a que Apuleio põe na boca do Asno, a Lua aparece-nos com uma feição mais complexa: ora símbolo criador, fecundador; ora rainha e regradora do mundo humano, animal e inanimado; ora símbolo do amor e da união dos sexos, associada a Vénus.
Mas a Lua também nos surge aí associada a uma divindade do mundo subterrâneo, Prosérpina, "horrível pelos seus uivos nocturnos", pois esta divindade, filha de Zeus e Deméter, a Ceres romana, foi raptada por Hades/Plutão o deus dos mortos que fez dela a sua esposa, vivendo com ela parte do ano, nesse mundo das "entranhas da Terra".

Também Diana, antiga divindade itálica, foi identificada com a grega Artemisa, protectora das margens, da caça e da natureza selvagem, assumindo também a protecção das mulheres. No caso de algumas regiões da Hispânia, aparece relacionada com o culto da Lua, com Prosérpina e, possivelmente, com cultos de cariz funerário, a exemplo de uma árula da zona de Sines, estudada por José d’Encarnação (IRCP. 104).
Daí advêm, certamente, muitas das associações maléficas que se atribuem à Lua na tradição popular, com efeitos perniciosos de mau-olhado ou de "quebranto".

Mas também por isso a Lua representa a passagem da vida para a morte, tanto mais que, como astro que aparece e desaparece, ela tanto está tanto morta, como viva.
Ainda por esses ritmos de aparecimento/desaparecimento; Luz/Escuridão; Morte/Vida, a Lua funcionou como símbolo dos ritmos biológicos, motivo porque ainda hoje a gravidez é marcada pelas Luas, atribuindo-se-lhe também grande importância nas marés e nos ciclos agrícolas.


Selene (lua) representada no disco de uma lucerna. MNAR (Mérida).
Fotografia José Manuel Jérez Linde

Também por isso alguns calendários da Antiguidade se regeram pelos ciclos lunares.
A Lua na sua conotação com o mundo feminino, sem Luz própria, ou seja o astro satélite natural da Terra que reflecte a Luz do Sol de forma descontínua, simboliza também transformação e crescimento. Caminho ou caminhada.
Mas é do casamento místico entre o Sol e Lua que se faz a verdadeira Luz, sendo por isso comum a sua associação em santuários, a exemplo do SOLI AETERNO LUNAE, localizado no sofé da «Serra da Lua» em Sintra.




Mão de Urânia segurando o Globo Cósmico. Villa romana da Quinta das Longas, Elvas


Placa da lua
Mérida Séculos VI-VII d. C.
60 × 50 × 6 cm
Museo Nacional de Arte Romano, Mérida
ce26793

«Placa de mármore com representação de edícula, constituída por base de cordão sogueado, colunas de capitel compósito e frontão triangular, delimitado por análogo cordão e vieira no interior. Debaixo do frontão situa-se a inscrição

et ante lvna sedis eivs 

e a figura da lua em quarto minguante rebaixada.

Com a seguinte tradução:

E antes da Lua está a sua (de Deus) sede.

Em cada uma das enjuntas figura uma flor tetrapétala.
A placa da lua é uma peça que recebeu especial atenção por parte dos especialistas devido à interessante linguagem formal e simbólica que apresenta.
Enquanto a estrutura compositiva em edícula é bem conhecida na escultura visigótica emeritense, tanto a inscrição — que Cruz Villalón muito acertadamente relaciona com certos salmos bíblicos — como a representação da Lua são excecionais no âmbito hispânico.
No entanto, os numerosos exemplares semelhantes do ponto de vista compositivo, presentes na coleção visigótica do Museu, e a similitude do formato, permitem interpretá-la como peça da decoração escultórica de um edifício religioso, datando-se entre final do século VI e princípio do século VII. A presença da Lua deverá corresponder assim à simbologia astral, a Lua e o Sol.
A peça foi encontrada durante umas obras efetuadas na casa n.º 1 da calle Vespasiano, na esquina com a calle Almendralejo. Numa localização muito próxima do atual Parador (antigo Convento de Jesus Nazareno), e onde já foram localizadas peças de esculturas visigóticas, algumas das quais integradas nas coleções do mnar.
O historiador emeritense Moreno de Vargas cita uma ermida goda dedicada ao Apóstolo Santiago, próxima do Arco de Trajano. Mélida diz que visitou os restos de uma «basílica visigótica» dentro do que é hoje o Parador.
A importância da mensagemesculpida, bem como a qualidade da execução, induzem-nos a pensar que formaria parte da decoração de algumas das numerosas igrejas e ermidas presentes na topografia emeritense visigótica, muitas das quais são citadas na obra Vitas Sanctorum Patrum
Emeritensium, excecional fonte para a arqueologia da cidade».
Comentário de Nova Barrero Martín

Fotografia e comentário a partir do Catálogo da Exposição: «Lusitânia Lusitânia Romana. Origem de dois povos /

Por sua vez, o Sol, sendo a maior luz do céu visível aos Humanos, é para muitos povos um dos símbolos mais importantes, sendo até venerado como um Deus ou encarado como manifestação da divindade entre muitos.
Ao contrário da Lua, o Sol que tem luz própria, é afinal a própria essência da Luz, e é quase sempre interpretado como símbolo masculino e por isso associado ao princípio Yang.
Ou seja, representa em muitos culturas, se bem que nem em todas, o princípio activo, enquanto a Lua é um princípio passivo.

Ao Sol associa-se ainda a noção de calor e de Vida, pois sem ele nada sobrevive.
Na Alquimia ele corresponde ao Ouro, encarnando a ideia do espírito imutável.
Sendo muitas vezes invocado como "olho omnipresente do Sol", como acontece no Prometeu Agrilhoado, ou "Olho do Deus Supremo", como acontece entre os Bosquímanos, relembro aqui com mais pormenor o culto mitraico e o papel que o Sol assume nesse culto de características mistéricas.


Lucerna decorada com o deus Helios deificação do Sol. Museu Arqueológico de Odrinhas.
«Apresenta o disco decorado com uma representação do busto de "Helios" visto de frente, com coroa de sete raios e o braço direito erguido segurando um chicote. A orla está decorada com motivos pouco definidos, talvez cachos de uvas ou mesmo pérolas.
O chicote remete para uma representação frequente desta divindade, condutora dos cavalos que puxavam o carro da Aurora na sua diurna travessia dos céus.
Ainda que as lucernas sejam frequentes entre os objectos depositados nas sepulturas, esta poderá ter um especial significado, considerando-se a associação simbólica entre o Sol e a suposta heroicização astralizada dos mortos».
Desenho e legenda: Museu Arqueológico de S. Miguel de Odrinhas



Na Antiga Roma, com o principado de Augusto, assiste-se, por um lado, a um retorno dos valores antigos da religião romana, assumindo-se o império como um período de "Restauração" dos valores religiosos ancestrais e, por outro, à oficialização de alguns cultos orientais, que vão ter particular adesão, quer pelos orientais com domicílio no Ocidente, quer pelos cidadãos e legionários romanos, como se verifica com o culto desse deus solar de origem persa, Mitra.
O culto mitraico parece ter chegado ao Ocidente no decorrer do século II d.C., através das legiões romanas.
Com a chegada dos invasores romanos à Península Ibérica, e particularmente dos exércitos, originou-se um novo surto desses cultos orientalizantes, apesar da sua penetração no Ocidente ser de período muito anterior ao romano.
Quer na cidade romana de Tróia, Grândola, quer em Beja está comprovado o Culto Mitraico, que se expandiu na Hispânia a partir de finais do século II – inícios do século III d. C., a par de outros cultos orientais, tais como de Serápis, Ísis, Cibele-Magna Mater.
O Sol ou Ormuzd, para os Persas, enquanto fonte de Luz, representava a Vida, a Saúde e a Fertilidade da terra enquanto criadora de todas as coisas necessárias à sobrevivência do Homem; por sua vez, à Lua ou Arimânio, atribuíam-lhe forças maléficas; as trevas e a esterilidade da Terra.
Mitra surge assim como um terceiro elemento, como uma espécie de divindade mediadora entre duas forças antagónicas, viabilizando o nascer de um novo dia, ou seja, não permitindo que a Lua ocultasse o Sol.
Mais do que o Sol, Mitra representa a Luz Celestial, ou a essência da Luz, que desponta antes do Astro-Rei raiar e que ainda ilumina depois dele se pôr e, porque dissipa as trevas, é também o deus da Integridade, da Verdade e da Fertilidade, motivo pelo que também surge associado à força genésica do Touro, o Touro primordial que Mitra é incumbido de matar, como de seguida falaremos.
Segundo as lendas de origem persa, Mitra terá recebido uma ordem do deus-Sol, seu pai, através de um seu mensageiro, na figura de um corvo. Deveria matar um touro branco no interior de uma caverna.
O ritual de iniciação nos mistérios de Mitra era o Taurobólio, porque exigia o sacrifício do touro que foi, aliás, uma constante no mundo mediterrânico oriental e greco-latino, onde esse sacrifício assume um carácter fundacional, pois o culto deste animal assenta a sua sacralidade no vigor e violência cósmica, e num poder fecundante.
É a morte ritual do touro que dá origem à vida com o seu sangue, à fertilidade, à dádiva das sementes que, recolhidas e purificadas pela Lua, dão origem aos “frutos” e das espécies animais, pois a sua carne é comida e o seu sangue é bebido.
Os candidatos à iniciação dos mistérios mitraicos, praticados quer na Pérsia, quer em Roma, tinham vários graus de iniciação, passando por provas severas e o iniciado, antes de fazer o seu voto sagrado (sacramentum) prometia não trair o que lhe havia sido revelado. Depois, o iniciado subia os sete degraus, recebendo em cada um deles um nome diferente.
O banquete ritual da morte do touro, o taurobolium, sempre em companhia do Sol, viabiliza ainda aos adeptos do culto mitraico o “nascimento para uma nova vida” ou "Renascimento" que o Cristianismo, que baniu a ideia de sacrifício iniciático do touro, transformou na água do baptismo e através da Eucaristia em pão e vinho, substituindo o sangue e a carne do touro divino.
O deus solar Mitra parece ter nascido numa gruta que simboliza o firmamento e, a sua abóbada, o céu de onde sairá a Luz para a Terra. Por isso mesmo os rituais de iniciação mitraicos eram também praticados em gruta.
Geralmente Mitra, que se faz sempre acompanhar do Sol, tem ainda um corvo à sua esquerda – que curiosamente é também o totem do deus solar de origem celta Lug, - e no ângulo esquerdo tem a figura do Sol e, à direita, da Lua.
Mas há quem que Lug, parece tenha tido também no Promontorium Sacrum um dos seus locais de culto.
Pela associação que quer Mitra, quer Lug têm aos corvos, quer a cultos solares e ainda porque se trata também de um finis tarrae como o templo SOLI AETERNO LUNAE, recordamos aqui o Promontorium Sacrum, esse lugar onde, desde tempos imemoriais, se sacralizavam pedras, e se temia o pôr do Sol, porque se dizia que fazia um rugido ao "deitar-se" no Oceano.
Desconhecendo-se se efectivamente se tratava do cabo de S. Vicente ou de uma área compreendida entre o Cabo de Sagres e o Cabo de S. Vicente, é um facto que esta área foi descrita desde a Antiguidade.
Uma das primeiras referências ao promontório é a de Avieno, que na "Ora Marítima", escrita no século IV d.C., mas baseada num périplo comercial massaliota do século VI a.C. com acrescentos gregos e latinos, a ele se refere como o Cabo Cinético: «Então, lá onde declina a luz sideral, emerge altaneiro o cabo Cinético, ponto extremo da rica Europa, e entra pelas águas salgadas do Oceano povoado de monstros» (vv. 201-205)». Avieno refere ainda que o promontório era dedicado a Saturno e «que assusta pelos seus rochedos».
O Promontório Sacro deveria tratar-se, em período pré-romano e romano, de um santuário ao ar livre dedicado muito possivelmente ao deus púnico Baal Hammon, associado por um fenómeno de sincretismo ao Saturno dos latinos, pois o geógrafo Estrabão nega, no século I, a existência de qualquer templo dedicado a Hércules ou a qualquer outro deus no local.
Este autor descreve-o como o ponto mais ocidental da Ibéria: «Este é o ponto mais ocidental não só da Europa, mas também de toda a oikouméne» (Estr. III, 1, 4) onde «Não é permitido oferecer sacrifícios nem aí pernoitar pois dizem que os deuses o ocupam àquelas horas. Os que o vão visitar pernoitam numa aldeia próxima, e depois, de dia, entram ali levando água, já que o lugar não o tem» (Estr. III, 1, 4) e acrescenta Estrabão que, segundo tradições populares, neste local o Sol aumenta no Ocaso, pondo-se com ruído, como que a extinguir-se entre as águas do Oceano (Estr. III, 1, 5).
O Ocidente, para lá das Colunas de Hércules era, pois conotado com o mundo lunar, infernal e da morte o «Mundo das Trevas» como que a entrada num mundo fantástico e mítico, povoado de monstros e onde a natureza é inóspita, onde Saturno impera.
Quer se tratasse de um santuário dedicado a Baal Hammon/Saturno ou a Melkart/Hércules, como alguns autores defendem, é, contudo, evidente a identificação deste local com entidades sagradas de clara conotação marítima e astral, aliás como acontecia noutras Finisterrae, a exemplo do Cabo Carvoeiro, em Peniche, onde Avieno, na sua Ode Marítima, atribui também ao local o culto de Saturno. Aliás, Kronos, o Tempo, quase sempre surge aliado a estes lugares do fim do mundo onde o Sol se põe.
O Promontorium Sacrum foi desde sempre lugar de peregrinação, tendo, em período de dominação islâmica, acolhido peregrinos cristãos e muçulmanos que lhe chamavam Chakrach .
A Igreja do Corvo, associada ao acolhimento das relíquias do santo levantino S. Vicente, porque diz a lenda que o corpo do Santo Mártir do século IV terá dado à costa neste local, quando era levado de Valência, onde tinha sido martirizado, para Lisboa, parece ter desempenhado um papel fundamental na própria fundação do reino português, ou não tivesse D. Afonso I organizado duas expedições para resgatar o corpo do santo, trazendo-o para Lisboa.
Lugar de culto moçárabe, como acima dissemos, Sagres acolherá depois outras lendas mais ou menos infundamentadas como a de ter sido o local onde se fundou a "escola" de navegadores criada pelo Infante D. Henrique, que ali, ou, muito possivelmente na vizinha povoação de Vila do Bispo, estadiava frequentes vezes.
Ali no Promontorium terá sido, pois, guardado o Santo mártir, S. Vicente - o que vem dar a origem ao nome com que é denominado, a partir de certa altura, o próprio Cabo, até que também sempre acompanhado pelos corvos chega a Lisboa, em 1173, tornando-se assim esse pássaro negro, atributo de divindades conotadas com a Luz, o símbolo da cidade que ainda hoje mantém a barca que transportou o féretro e os dois corvos que o terão acompanhado, no seu escudo de armas.
Serão ainda os corvos, segundo reza a história, que acompanharão os Portugueses, no seu caminho para o Sol rumo ao Ocidente, seguindo a Via Láctea.
Por sua vez, desde o ano de 274 DC o imperador Aureliano tornou o culto ao deus sol invicto um culto oficial romano, assumindo essa divindade uma importância enorme no Império.
Desde essa data até o ano de 387 d.C. o culto ao sol invicto (invensível) manteve estatuto oficial.
A data de 25 de dezembro que era comemorada como “natalis solis invicti” acabou por ser adotada pela religião católica romana como data do nascimento de Jesus Cristo.



Imagem obtida a partir de:
http://penelope.uchicago.edu/~grout/encyclopaedia_romana/calendar/invictus.html

A expressão invicto,  acrescenta ainda este autor, significa invencível e desde o século III a.C. já havia sido empregue em várias divindades como Hércules, Apolo, Marte e Júpiter.

«O uso mais antigo registrado de sol invicto é do ano de 158 A. C: “inventori lucis soli invicto augusto” – para o inventor da luz – o augusto sol invicto. Há provavelmente ligação directa entre a figura do deus sol e a figura da casa real romana, inclusive a origem da coroa radiante, tem ligação direta com a associação da figura reinante e o deus sol».


Mas lembremos ainda o Santuário do Sol e da Lua, Sintra, cujo desenho foi incluído por Francisco de Holanda  na sua obra "Da Fábrica que Faleçe ha Çidade de Lysboa", em 1571, tendo-o descrito da segunte forma "hu çirculo ao redor cheo de çipos memorias dos Eperadores de Roma". 
Tratava-se de um recinto circular implantado numa plataforma, sobre a qual se distribuíam 16 aras prismáticas, organizadas com espaços regulares; ao centro seria visível um disco solar raiado, provavelmente executado em mosaico, que deveria ter à sua esquerda um crescente lunar. Todavia, admite-se que o desenho de Francisco de Holanda possa ser apenas um esboço, e as aras tratarem-se de simples bases, ou socos de uma colunata ou de estátuas e terem um número de doze,  dando um carácter astrológico do santuário. 



Santuário do Sol e da Lua, segundo desenho de Francisco de Holanda


Citamos José Cardim Ribeiro a propósito deste santuário da época romana,  provavelmente sacralizado em época muito anterior: "Estamos claramente perante uma intencional forma de sincretismo entre um culto de cariz astral e o culto imperial, operada num santuário carregado de simbolismos pela sua singular localização geográfica e, porventura, também herdeiro de remotas tradições religiosas regionais, quer ligadas ao ciclo solar, quer à ancestral deusa lunar e salutífera que, de noite, vaguearia pelas penedias e pelos densos bosques do monte Sagrado, da Serra da Lua" (RIBEIRO, Cardim - Soli Æterno Lunæ. O Santuário, in Religiões da Lvsitânia-Loquuntur Saxa, Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia, 2002, p. 236).



Ver:
Sol Invictus and Christmas
http://penelope.uchicago.edu/~grout/encyclopaedia_romana/calendar/invictus.html
Sol Invictus:
Encounters Between East & West in the Ancient WorldJulius Evola
http://www.counter-currents.com/2011/03/sol-invictus-encounters-between-east-west-in-the-ancient-world/
 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Ainda a propósito de Tróia, Filomena Barata

partir de: Património, Setúbal na Rede
por Maria Filomena Barata
(Liga de Amigos de Miróbriga)

                 Fotografias aéreas da Península de Tróia, 1966, gentilmente cedidas por Rui Torrinha. 


Rua da Princesa, Fotografia Filomena Barata
A Real Sociedade Archeologica Lusitana, nascida em 1849, sob a protecção de D. Fernando II, (o qual por reconhecimento lhe faria conceder o título de “Real”) e o empenho do Duque de Palmela, entra em declínio após a morte deste último, pois perde um grande financiador das escavações.
Em 1863, funda-se em Lisboa a “Real Associação dos Architectos Civis e dos Archeologos Portugueses”, de que provém a actual Associaçäo dos Arqueólogos Portugueses.
António Cavaleiro Paixão nas Ruínas de Tróia
Em 1867, quando já praticamente extinta a Real Sociedade Archeologica Lusitana, afirma Almeida Carvalho: “Do Governo não vinham nenhum auxílio, nem um simples toro de pinho, para conter as areias, tirado das matas do Estado.”
Era o fim das românticas incursões da Sociedade pois à falta de condições, vieram juntar-se o “esmorecimento de alguns e a indiferença da maior parte.” E, malogradamente, o Museu previsto nos estatutos nunca veio a fundar-se.
E, contudo, o carácter percursor dessa Sociedade e da sua proposta de criação de um Museu local de carácter monográfico foi sobremaneira salientado, nomeadamente por Teixeira de Aragão que defendia a “descentralização” das instituições de índole educacional e formativa, nomeadamente os museus locais.
Aliás, o final da centúria de oitocentos, assiste a um acrescido interesse relativamente à museografia regional, sendo de salientar as posições defendidas por Gabriel Pereira e Joaquim de Vasconcellos (GOUVEIA, 1985).
 É de Carlos Ribeiro uma das melhores descrições das cetárias de Tróia. Escreve este autor, em 1858:
 “Proximo do Cabedelo e defronte da Setubal ha uma depressão por onde entra a maré e a que chamam a Lagoa.
É na margem direita desta lagoa e separada do Sado onde se encontram numerosos restos da antiga povoação e oficinas de salga de peixe.
Os tanques de salga mostram-se numa extensão de perto de 4 Kilometros proximadamente a contar da ponta N.O. da lagoa formam grupos separados por porções de praia sem vestígios destas contracções, no entanto as que se vêem são numerosissimas.
Cada grupo conta de um indeterminado número de aqueles tanques dispostos em series ou linhas perpendiculares à praia; cada linha compunha-se pelo menos de cinco tanques, hoje raros são os que apresentam este número, por estarem desmoronados pela acção das águas do rio e maré ou por se acharem cobertos pelas areias.
Os tanques afectam em geral uma mesma forma e têem uma mesma construção; mas variam muito nas dimensões da sua secção (….)
Toda a rocha empregada nestas construções é o grés e conglomerado vermelho do Alto do Viso. Também se vê ali o calcareo da Serra da Arrabida na alvenaria.
O interior das divisorias é alvenaria argamassada: para o lado de dentro dos tanques tem a parede um tal ou qual paramento sobre o qual leva um reboco de beton ou de argamassa signina mui fina com fragmentos muito angulosos (…)
Não pode formar-se ideia do numero de tanques que havia, a avaliar pelo que se vê, e de um modo muito grosseiro, aquele numero devia exceder a dois ou tres mil tanques (…).
Toda a praia na extensão de 3 kilometros a 4 proximadamente é coberta continuamente de tijolos quebrados (alguns inteiros), cacos de telha, de amphora, fragmentos de alvenaria, pedras soltas de calcareo, do conglomerado vermelho do outro lado do Sado e que resultam da demolição dos edifícios que havia deste lado.
Mais para N.O. ou água abaixo, nas visinhanças da capella da Snrª da Troia ainda se vêem: uma casa grande que estava completamente entulhada de areia, cujas paredes algumas delas estucadas conservam ainda as pinturas e umas thermas encerrando uma sala com o pavimento de um belo mosaico – as paredes estão por assim dizer novas.”



Mosaico dos balneários de Tróia. Fotografia Professor Manuel Heleno
Como já em anterior crónica referimos, o espólio da Sociedade Archeologica Lusitana foi depositado na Academia Real de Belas Artes, onde deve ter permanecido até 1904 e, posteriormente foi transferido para o Museu Etnológico Português, sendo, ainda hoje, com o nome de Museu Nacional de Arqueologia, o depositário da maioria do espólio de Tróia, quer documental, quer material.
Desde o início, o Museu Etnológico Português foi fundamental na história das escavações e pesquisas na estação arqueológica de Tróia.
 As intervenções directas no campo – como a escavação da sepultura de Galla –, a publicação desde o primeiro número do «Archeologo Portugues» de notícias sobre este sítio e todas as diligências em relação aos materiais exumados em Tróia são reflexo do empenho que Leite de Vasconcelos, desde sempre, votou a este sítio arqueológico.
 A Tróia estarão, também, ligados directamente todos os futuros Directores do Museu, quer financiando os projectos de investigação, quer através das escavações e publicação dos materiais exumados, a exemplo do Prof. Manuel Heleno, de D. Fernando de Almeida, e, mais recentemente, do Dr. Francisco Alves, no que respeita a pesquisas subaquáticas.

         Professor Manuel Heleno em Tróia. MNA. Levantamento das imagens Filomena Barata


O Archeologo Português, publicação do Museu Etnologico dirigido por José Leite de Vasconcelos, surge com o seu primeiro número em 1895. “Ruínas de Tróia (em frente de Setúbal)” é o título com que Leite de Vasconcelos assina um artigo sobre este local arqueológico. Para além da problemática relacionada com a identificação de Tróia com a Cetobriga romana, considerando-a despropositada “Tróia nada mais será do que uma designação litteraria dada anteriormente ao seculo XVI ás ruínas; para afirmar isto, fundo-me em que não são estas ruinas as unicas assim denominadas: no termo de Chaves ha outras ruinas a que se dá o mesmo nome de Troia”, o autor faz a análise de um “monumento funerário de forma pouco conhecida, que é a sepultura de Galla”. A lápide funerária e os materiais exumados transitarão para o Museu Etnológico em 1929, por morte do seu proprietário bem como, à época, do terreno onde se situam as ruínas, Sr. Francisco Cabral A. Mascarenhas. É nessa altura de Leite de Vasconcelos os pública, no Archeologo Português, vol. XXVIII.
São também estas as palavras de Leite de Vasconcelos: “No desejo de tornar cada vez mais conhecidas estas ruinas, que bem mereciam ser methodicamente e completamente exploradas por conta do Govêrno, porque d’isso resultaria, sem dúvida alguma, farto peculio scienifico” pois “as ruínas de Tróia de Setúbal constituem um enexgotavel manancial archeologico. Não de dá um passeio pela praia, não se mexe na areia, que não appareça alguma cousa. Oxalá que algum Ministro se amercie d’ellas! Tanto mais que é uma vergonha que esteja a findar o seculo XIX, o seculo chamado das luzes, e Portugal deixe perder para sempre estes eloquentes vestigios de grandeza do seu passado sem lhes prestar o culto que os povos civilizados prestam a tudo o que pode servir para aclarar os problemas históricos.”
No vol. III do Archeologo Português são publicados por Pedro A. de Azevedo os Autos de Visitação à Ermida de Nossa Senhora de Tróia da Ordem de Santiago, e Leite de Vasconcelos escreve uma nota “Escavações Reais em Tróia”, um curioso documento sobre a concepção romântica da actividade arqueológica em finais do século XIX, e também muito interessante pela sua dramática actualidade no que diz respeito à investigação deste sítio até anos próximos dos nossos dias:

Lê-se n’O Seculo, de 16 de Novembro de 1897, que tendo Sua Majestade El-Rei o Senhor D. Carlos manifestado ao sr. Morgado Francisco Cabral, dono das ruinas de Troia, desejo de obter alguns dos muitos objectos que estão alli sotterrados, o Sr. Cabral mandara immediatamente seis trabalhadores que começaram a fazer escavações no sítio do chafariz da Hortinha, sob a inspecção de El-Rei. No referido jornal, de 17 do mesmo mês, lê-se ainda:
“Continua hoje o Senhor D. Carlos nas suas explorações na Troia. Por enquanto nada de notavel se tem encontrado, a não serem umas quatro moedas antigas, grandes, que elle guardou.”

Diz o autor “Depois d’isto nada mais li sobre o assumpto. Creio que as escavações não continuaram, porque El-Rei se retirou para a sua capital.

Visto o interesse de Sua Magestade mostra peça archeologia, tomava eu a liberdade de tornar a lembrar a grande conveniencia que haveria em mandar proceder em Troia a explorações methodicas e extensas. Quem sabe quantos thesouros scientificos não estarão escondidos sob a areia? E talvez pelo estudo d’elles se pudesse por uma vez decidir onde foi Cetobriga! Em todo o caso, a nossa história antiga tão imperfeitamente conhecida, receberia sem dúvida luz brilhante que a esclarecesse um pouco.”


A “Sociedade Anónima para as Investigações de Cetóbriga”

No período que medeia as últimas intervenções da Sociedade Arqueológica Lusitana e as explorações a que acabámos de referir, encontramos um interessante documento lavrado pelo Tabelião de Setúbal. Trata-se de uma escritura de arrendamento de uma propriedade denominada “da Tróia” que fez o Sr. Francisco Maria Cabral de Aquino Mascaranhas à “Sociedade Anónima Francesa das pesquisas archeologicas de Cetobriga”, pelo tempo de dois anos e meio e pela renda anual de um conto de reis. Do mesmo ano é uma promessa de venda da propriedade “A Tróia” a essa “ Sociedade Anónima para as investigações de Cetóbriga” fundada por M.Blin em 1875, com a importância de 600000 francos. Foi, a primeira sociedade com fundos privados, aplicados na investigação arqueológica, em Portugal.
 Como já referimos, na primeira metade do século XX, Inácio Marques da Costa realizou vários trabalhos em Tróia, nomeadamente na “Rua da Princesa”, tendo registado, se bem que, julgamos, de uma forma algo “poética” as plantas, alçados e mesmo os motivos decorativos.


Marquês da Costa descreveu um baptistério, de que actualmente não resta qualquer vestígio, da seguinte forma:
 “Tais são as ruínas dum edifício ou casa em forma cilindrica, com toda a face interior da parede estucada e pintada a fresco de vermelho e que toda era coberta com uma abóbada, que devia formar uma elegante cúpula, da qual ainda restam vestígios.

No solo circular desta casa abrem-se quatro piscinas a ocuparem os lugares correspondentes aos quadrantes em que se dividia o dito solo. Alguém tomou erradamente êste edifício como templo dedicado a Vesta e uns nichos, que se vêem abertos na face interior da parede cilíndrica, como destinados a receber estátuas dos deuses.
Nas ruínas de Pompeia têm aparecido edificações, em tudo semelhantes a esta, e a elas se tem atribuído a função de Baptistério”.
Deste investigador, para além das tentativas de reconstituição da zona habitacional conhecida pela “Rua da Princesa”.

Há ainda pormenorizadas descrições da Basílica Paleocristã “compartimento rectangular que em duas paredes contíguas mostra restos de estuque, onde foram pintados a fresco várias figuras coloridas, como grande parte do monograma de Cristo (Crismon) ao centro da parede e circunscrito por uma coroa”.





Deste Crismon hoje desaparecido, não resta senão o desenho publicado por Marques da Costa, (1857-1933), acontecendo o mesmo com grande parte das estruturas da Rua da Princesa que descreveu e publicou.
Data ainda de finais da primeira metade do século XX o início dos trabalhos desenvolvidos pela Junta Nacional de Educação.
A partir de 1948 realizaram-se várias campanhas, sob a direcção do Professor Manuel Heleno, destacando aqui a escavação que efectuou no conjunto funerário ou necrópole, na margem esquerda da Caldeira.


Orla, Fotografia do Professor Manuel Heleno

Fotografia de mó, Professor Manuel Heleno
Posteriormente, D. Fernando de Almeida promoveu escavações em Tróia com a colaboração de assitentes e alunos da Universidade de Lisboa. A Basílica Paleocristã foi, novamente em 1968 e 1969, objecto de trabalhos arqueológicos , tendo sido publicados os rultados da mesma .
 Ainda sob a orientação de D. Fernando de Almeida e com a participação de Judite e António Cavaleiro Paixão, desenrolaram-se escavações que puseram a descoberto uma área de enterramentos de características únicas em Portugal, das sepulturas de mansae .
Uma outra área sepulcral, centrada por um Mausoléu (ou Columbarium) foi ainda escavada por D. Fernando de Almeida e seus colaboradores.

Mas essa “Arqueologia da Arqueologia” a outros caberá fazer, terminando por aqui este meu testemunho relativamente às Ruínas de Tróia.
 Do numeroso espólio recolhido em Tróia é de salientar a grande quantidade de cerâmica comum, a abundância de ânforas, que atesta a importância industrial e comercial deste Sítio Arqueológico, os artefactos piscatórios, como agulhas de cozer e pesos de rede, bem como a existência de terra sigillata, vidros, moedas, etc.


Zona residencial “Rua da Princesa”, Fotografia Professor Manuel Heleno
 Esculturas, inscrições, capitéis e fustes de coluna, para além do célebre relevo mitraico, constituem ainda parte dos materiais arqueológicos recolhidos em Tróia que, apesar da sua enorme dispersão , estão maioritariamente depositados no Museu Nacional de Arqueologia.
No entanto, desde longa data que se considera desejável associar às ruínas de Tróia um espaço para depósito e mostra do espólio proveniente do Sítio, e ainda criar condições de visita e fruição pública para o local através da criação de um “Núcleo Interpretativo”e de um “Centro de Estudos” sobre Tróia, situação que, estamos crentes, a breve prazo veremos acontecer.