Um
soldado romano (texto a ser publicado na Revista Portugal Romano nº 4)
Botim ou sandária abotinada em estuque. Museu Monográfico de Conímbriga.
Parafraseando
Carlos Fabião, diria que «Marte era o deus da guerra na complexa religiosidade
romana, onde assumia também outras funções. Usualmente aparece representado com
os atributos militares e, pode dizer-se, foi sob a égide desta divindade que se
construiu o domínio romano na Península Ibérica».
É no
fundo sob a égide de Marte que os Romanos chegam à Hispania, no contexto da II
Guerra Púnica que opunha Roma aos Cartagineses que viam neste território um bom
ponto de apoio para os seus exércitos. E é assim que, em 218, se dá o
desembarque dos Romanos em Ampúrias e devagar se conquistam os principais
núcleos urbanos do sudoeste da Península Ibérica e, no século II, já está
desenhada a primeira divisão administrativa com a criação de duas Províncias: a
Hispania Citerior, a oriente, e a Hispania Ulterior, a Ocidente, estando à
frente de cada uma delas um Governador com o seu exército.
Durante
todo o século II a.C., são conhecidas notícias de numerosos confrontos entre os
governadores da Província Ulterior e grupos cuja origem étnica parece ser
diversa, conhecidos genericamente por Lusitanos. Desde 154 até 78 a.C. surgem várias
referências à cidade de Conistorgis (de localização desconhecida mas provavelmente
no local da futura colónia de Pax Iulia/Beja ou um pouco mais a sul), primeiro como
centro aliado dos romanos e alvo de ataques lusitanos e depois como
aquartelamento legionário estratégico nas guerras civis do sudoeste peninsular.
Não nos
prenderemos porém aqui com as lutas travadas no território hoje nacional, referindo
apenas que o geógrafo Estrabão e o historiador Apiano nos dão nota da primeira grande
campanha militar desenvolvida no ocidente em 138 a.C., tendo à frente Júnio Bruto,
governador da Ulterior e que tinha o seu quartel-general sediado no Baixo Tejo,
usando Olisipo e Móron, muito possivelmente localizado em Chões de Alpompé,
Santarém, confrontos esses que se alastrarão a outros locais do litoral
atlântico na Província Ulterior.
Na
década de oitenta do século I a.C., o Ocidente Peninsular e a Hispânia tornam-se
palco de um conflito interno entre Romanos, a rebelião encabeçada por Quinto
Sertório.
Data da
década de 60 a.C. a passagem de Júlio César pelo governo da Ulterior e as
importantes campanhas no entre Tejo e Douro, ficando grande parte desta zona
ocidental sob domínio romano. Com Octaviano, filho adoptivo de Júlio César, consuma-se
a pacificação interna de Roma e o desenho de uma nova estrutura político
administrativa das províncias, a que não esteve isenta a Hispânia e mais
especificamente o que é o actual território português. A importância de muitas divindades de clara conotação militar é atestada na Lusitânia. Não esqueçamos que entre 12 a.C. e o último quartel do século IV, o imperador, para além de chefe supremo do exército, também desempenhou o cargo de Pontifex Maximus, assumindo deste modo a primazia religiosa. Marte Augusto, acompanhando na guerra e na paz, encontra-se mesmo representado na Lusitânia, em Conímbriga e em Sines. Já para não falar de Mitra, essa divindade de origem iraniana, difundida fundamentalmente pelos militares e que também se encontra representada na Lusitânia.
Ara consagrada a Mars. por Marcus Coelius Celsus. Séculos I-II d.C.
Torre de Palma. Museu Nacional de Arqueologia.
«Ara trabalhada nas quatro faces (...). Ostenta ao centro da face principal, um alto-relevo figurando Marte de pé sobre um suporte irregular, representando um troço de solo, com a perna esquerda ligeiramente flectida, vestindo - qual legionário - de saio e couraça, com capacete, segurando na mão direita a lança (pilum) e com a mão esquerda amparando o escudo pousado no chão (...).
M(arcus).COELI(VS) / CELSVS / MARTI /
A(nimo) L(ibes) //
«Marcus Coelius Celsus, a Marte, de bom grado»
C.A.F. in Religiões da Lusitânia - Loquuntur Saxa. MNA. 2002, p. 426.
Representação de Marte no disco de uma lucerna. Muso Nacional de Arte Romano. Mérida. Fotografia José Manuel Jerez Linde.
Mas lembremos ainda Victoria Augusta, a quem muitos atribuem forte conotação militar, tem ampla representação nesta província.
Mas
afinal que força é essa, a de um exército que ficou na História e que levou
longe os estandartes de Roma e que a tornou um dos maiores impérios do mundo? Como
se compunha esse exército no período de maior expansão militar romana, entre o
século I a.C. e o século II d.C.?
Fragmento de pé calçado com sandália de couraçado em mármore.
Origem romana, Século I. d.C. Museu Monográfico de Conimbriga.
Fotografia de José Manuel Jerez Linde.
A
divisão básica do exército romano é a Legião, a unidade onde reside o grande
sucesso das campanhas militares.Era composta basicamente por
soldados chamados Legionários e Auxiliares. Cada legião era designada por um
número e um epíteto (por exemplo, Legio
VII Gemina Pia Fidlis). Inicialmente, as forças auxiliares eram atribuídas
às legiões, mas gradualmente acabaram por se tornar em unidades independentes.
O governador
de cada província comandava as legiões aí estacionadas e a partir de Augusto o
chefe de cada legião era um representante do imperador, por ele nomeado e
destituído: o legatus legionis, que
pertencia à ordem senatorial e que a comandava por um período de cinco anos.
No
Império Romano, os legionários estavam organizados em pequenos grupos de
10. Os soldados eram voluntários vindos de todas as partes do Império, comprometendo-se
a 25 anos de serviço exaustivo. Inicialmente, apenas eram integrados proprietários
de terras e bens. Mas no século I a.C. qualquer pessoa se poderia alistar, tornando-se
os cidadãos legionários e os não-cidadãos soldados auxiliares.
As
legiões podiam variar em número de efectivos, mas a sua maioriatinha 4.800
homens, podendo ter 6.000 efectivos.
As
cohortes eram subdivisões das legiões, que, em número de dez, podiam ter
aproximadamente 600 homens.
Mas o
elemento mais significativo da estrutura militar romana, tal como a legião, é a
centúria, sendo o seu responsável o centurião. Como o nome indica, o centurião
tinha a seu cargo 100 homens (chamo a atenção que algumas fontes referem 80
homens em vez dos 100) que compunham a centúria, ou seja cada Coorte tinha 6
centúrias.
As cohortes urbanae, criadas por Augusto
em número de três, eram uma espécie de força policial urbana, que tinham como
finalidade zelar pela segurança das cidades, sobretudo de Roma, sendo apenas em
casos muito excepcionais levadas para o campo de batalha e, ao que se sabe, o
seu número elevado para quatro na dinastia flaviana.
A
partir de Augusto o exército romano torna-se uma profissão,chamando-se
"milites mei" o laço que
unia osoldadoao imperador e queestabelece as suas obrigações e privilégios.
O legionário romano era normalmente um cidadão
com a idade inferior a27 anos, era
alistado para servir 25 anos, sendo os seus últimos anos, como veteranos, mais leves, altura em que lhes eram
atribuídas terras depois dasreformas
agrárias do século I d.C. e sendo-lhe outorgados outros privilégios.
Durante
a época imperial, os requisitos para converter-se em legionário eram os
seguintes: ser magro, mas musculoso; ter boa visão e audição. Era necessário
saber ler e escrever e, acima de tudo, ser cidadão romano.
Aosoldado(militia) era atribuídoum soldo (stipendium) e ainda tinha vários tipos
de benefíciosintermédios, financeiros ou
jurídicos. As armas mais comuns queutilizava
e transportava consigo eram:
Gladius - espada curta, de dois gumes, de mais ou menos 60cm, mais larga na
extremidade. era a espada utilizada pelas legiões romanas. Era muito mais uma
arma de perfuração do que de corte, ou seja, devia ser manipulada como um
punhal, ou uma adaga, no combate corpo-a-corpo
Pugio - pequena adaga usada pelos
romanos como uma arma auxiliar ou reserva. Era também uma arma comummente usada
para assassinatos e suicídios, sendo reconhecido o seu uso na more de Julio
César.
Cingulum - Um cinto de onde pendiam
várias tiras de couro com discos metálicos
Lorica segmentata – armadura
Scutum - escudorectangular, curvado, de madeira forrado a couro e com
reforços metálicos nas bordas e no centro, visando proteger a mão.
Galae – capacete de ferro.
Pilum – dardo que tinha quase três metros de comprimento,
com uma flecha de metal que se torcia com o impacto, e que não era recuperada.Era composta, assim, de uma parte de ferro, mais fina e pontiaguda, e
outra de madeira, maior e mais pesada
Consigo
levava ainda uma bolsa de carga sarcina
com alimentos que deveriam permitir-lhe sobreviverquase quinze
dias, utensílios de cozinha e de construção, como estacas, sudes murales, e as sandálias - caligae.
Como era altamente disciplinado e preparado
fisicamente, fazia marchaslongas com
esse equipamento que poderia pesar entre 20 e 50 quilos.
Mas existiam também soldados especializados em
actividadessecundárias, tais como a
engenharia, a carpintaria e a medicina e,embora
fossem poupados a algumas das tarefas mais duras, podiam sertambém colocados em campo de batalha.
Os
recrutas não tinham preparação prévia quando se alistavam e eram enviados para
um acampamento onde havia soldados experimentados e esperava-os uma vida dura,
mesmo quando não combatiam, levantando-se antes do alvorecer e desfilavam mal
se fardavam.
Era
nesse momento que era passada revista às tropas e eram dadas instruções do dia.
Os
soldados rasos eram os miles gregarius.
A
unidade mais pequena da legião era conhecida por contubernium, agrupando oito soldados que viviam na mesma tenda.
No aquartelamento dedicavam-se ao
exercício militar e faziam manobras simulando o campo de batalha para se
manterem em forma, e superavam obstáculos carregados com as suas armas,
ensaiando o seu uso. Marchavam em linhas paralelas, formavam círculos e
cerravam ou afastavam as fileiras.
Todos os meses realizavam marchas
de cerca de 30 km carregando uma mochila com cerca de 30 kg, o peso que teria a
sua roupa, os víveres e os utensílios que podiam usar na construção, pois a
isso se dedicavam, apoiando os engenheiros. Eram os próprios soldados que
colaboravam na construção das pontes, calçadas, aquedutos.
O pão era um alimento fundamental
no Exército de tal forma que muitas variedades eram conhecidas pelas suas
associações militares:
Panis militaris - pão de soldado. É comumente feito em duas
variedades:
Casternsis: Pão de acampamento.
Mundus: Pão de marcha.
Panis nauticus- Muito parecido com pão soldado. Conhecido
como biscoitos navio. (XXII-Plinio.
N.H. 138).
Em terra o Exército era composto
por três ramos: Infantaria, Cavalaria e Artilharia.
A Infantaria era o ramo mais
numerosoe dividia-se em três categorias distintas de
soldados, com posição fixa de batalha, ou seja, combatiam em três filas:
• Hastati (os homens dos dardos) – os soldados mais novos e menos
experientes. Cada um estava armado com duas lanças de arremesso – a hasta (dardo pesado) ou o pilum.
• Principes – soldados mais velhos e experientes que usavam armas
semelhantes aos hastatis e os apoiavam caso a linha inimiga aguentasse
firme.
• Triarii – veteranos da
guerra, que criavam uma parede defensiva por onde escapuliam os principes caso, o seu ataque, também
falhasse.
A Cavalaria era considerada
o ramo mais nobre e na Artilharia pontuavam as catapultas, os aríetes e as
torres de guerra.
As formações de batalha
romanas tinham formas rectangulares. Cada coluna possuía um determinado número
de linhas que se diferenciavam por estarem mais próximas do inimigo, na
vanguarda, ou mais afastados destes, na retaguarda.
Os legionários que se
localizam na primeira linha começavam o ataque ao inimigo através de uma
poderosa e destrutiva investida a curta distância com a lança pillum já acima referida e as fileiras
imediatamente anteriores utilizavam lanças mais leves. No final da formação localizava-se
um corneteiro e no meio um porta-estandarte. Na lateral direita de cada
formação ficava o centurião. Os decuriões encarregavam-se de organizar as
fileiras.
Após as primeiras
cargas, os legionários travavam um combate mais corpo-a-corpo, utilizando a
espada mais curta e muito afiada, o gladius. A formação era compacta e dava espaço à realização
de outras tácticas, a exemplo da formação em tartaruga (testudo).
A águia era um símbolo
da Roma Antiga, sendo usada pelo exército romano como insígnia das legiões
romanas. No tempo de Gaio Júlio César era feita de prata e ouro. A partir da
reforma de Augusto passou a ser feita só de ouro. A águia era custódia da
primeira coorte e só saía do acampamento romano em ocasiões raras, quando toda
a legião se movimentava. Para garantir a sua segurança havia um legionário,
denominado "aquilifer". Relativamente aos escudos, e citando Francisco Morales Campos, en Las legiones de Roma
«En la época republicana el escudo de las legiones romanas era ovalado, y a comienzos del Imperio fue haciéndose rectangular. El revestimiento central del escudo estaba construido por una aleación de cobre o de hierro. Los bordes del escudo también estaban forrados de metal para mayor protección. Cada legión tenia sus propios dibujos característicos en los escudos, para ser identificados en el campo de batalla. La Guardia Pretoriana era una de las unidades que más utilizaba el emblema del rayo de Júpiter».
Passei a Miróbriga, Sines e o Pessegueiro e lembrei-me dos velhos caminhos romanos, potenciando o que mar fornecia, transformado o pescado em garum e salmoura, quer em Sines, quer nas fábricas de salga do Pessegueiro, que funcionaram entre os séculos II e IV, o que resta do forte filipino e as pedreiras mandadas fazer por Alexandre Massai, sem terem, contudo, obtido resultados proveitosos que fazem daquela ilha fendida um lugar mágico e especial.
Vi ainda, ao longe, o Cercal, cheirando a serra ao metal que tornava ferruginosas as ribeiras; vi o Sado de Alcácer e as lagoas que, mais a Sul, viabilizaram uma agricultura mais fértil.
Mas já a noite havia chegado, e os tons se tinham esbatido no silêncio que lhe deu lugar. Como um dos dias mais fantásticos que vivi e que por lá passei, onde se desvendaram afectos como na “Ilha dos Amores”…. A Ilha do Pessegueiro localizada a cerca de 15 km a Sul de Sines tem vestígios arqueológicos da Idade do Ferro, sendo relevantes as estruturas da época romana, datáveis entre o século I e IV d.C. Foram identificadas zonas residênciais bem como fábricas de conservas de peixe. No século IV é edificado um balneário de pequenas dimensões, que funcionou até finais dessa centúria ou inícios do século V sendo identificável parte da estrutura do hipocausto.
A indústria conserveira está, deste modo, também representada na ilha do Pessegueiro, que alguns investigadores admitiram tratar-se da ilha de Poetanion citada na Ora Marítima, e que possa ter funcionado temporariamente como entreposto relacionado, por um lado, com o escoamento, por via marítima, de minérios e, por outro, com a importação de produtos mediterrânicos (SILVA, Carlos Tavares da, 1983-84, «Escavações Arqueológicas na Ilha do Pessegueiro», Al-madan, 2, Almada, pp. 20-22.20-22. SILVA, Carlos Tavares da e SOARES, Joaquina,1993, Ilha do Pessegueiro. Porto Romano da Costa Alentejana. Instituto da Conservação da Natureza. Lisboa).
E, a propósito disso, e de um circuito que há dois anos fiz, relendo uma tese de Mestrado em Museologia e Património Cultural defendida por Rui Manuel José Fragoso na Faculdade de Letras de Coimbra, cujos primeiros capítulos se reportavam, fundamentalmente, a uma experiência já consolidada de visitas guiadas, a partir do Porto de pesca de Porto Covo, resolvi retomar nesta crónica a ideia que aí era defendida: a existência de um “Parque Arqueológico do Pessegueiro”, cuja figura, como “instrumento de protecção, valorização e salvaguarda do património e bens culturais, (…) possibilitasse a observação e fruição de quem o visita”.
No que respeita à criação de infraestruturas consideradas necessárias à existência desse Parque, fazia essa dissertação, do nosso ponto de vista com toda a razão de ser, particular ênfase no Forte do Pessegueiro, mandado construir por Filipe III, em 1603.
A esta fortificação que não resistiu às devastações dos piratas, de que falaremos de seguida, socorrendo-nos do brilhante trabalho da autoria de António Quaresma, nem aos ataques castelhanos durante a Guerra da Restauração, sucedeu, no final do século XVII, novo forte, erguido no reinado de D. Pedro II, uma vez que a costa continuava a ter necessidade de ser defendida de piratas e corsários. É conhecida a existência de guarnição até pelo menos 1844. Era usado em conjunto com o fortim erigido dentro da ilha, arruinado pelo terramoto de 1755.
Através do estudo de António Quaresma acima referido de que resultou uma edição sobre o Forte do Pessegueiro, fez-se alguma luz sobre a necessidade de fortificar a costa portuguesa, pois o corso e a pirataria, conhecidos já desde o Período Romano, atacando barcos mercantes e populações ribeirinhas, foram prática corrente até ao século XVII.
No século XVI, o confronto entre potências europeias cristãs e o islâmico império otomano acentuaram, segundo esse historiador, a componente corsária.
A partir de África, designadamente da república corsária de Argel, na alçada do Império Otomano, ameaçando os navios e as populações saiam constantemente frotas que atacavam as costas europeias atlânticas, designadamente a portuguesa, o corso prove populações ribeirinhas viviam “com o credo na boca”, quando se suspeitava que “andava mouro na costa”.
Muitas vezes, nessa atividade que exigia bom conhecimento da costa e dos costumes, participavam renegados portugueses, participando na pilhagem de bens e no rapto de pessoas que escravizadas eram posteriormente vendidas ou resgatadas. Como também refere António Quaresma houve instituições que se especializaram no resgate de cativos, a exemplo da Ordem da Santíssima Trindade, atividade que se tornou bastante lucrativa.
Segundo o historiador que temos vindo a referir, “em finais do século XVI, a situação agravou-se, com o aparecimento de uma geração de capitães corsários, muitos deles renegados provenientes de países europeus, em que avultaram lendários nomes, como Murad Rais. No período filipino, a guerra com a Inglaterra veio, temporariamente, complicar ainda mais as coisas. Terminada esta guerra, em 1604, persistiu o corso “mouro”, ou “turco”, como era designado o corso norte-africano, que constituiu o grande problema de segurança das povoações do litoral português, entre os séculos XVI e XVIII”.
Ao longo do século XVII, vemos, portanto, os corsários, especialmente argelinos, a fazer regularmente incursões na costa alentejana. “Em resposta, tinha sido fortificada, como se pôde, a costa do Pessegueiro, de que ainda existem as ruínas do fortim da ilha e edificado o forte de Milfontes (1599-1602), pelo engenheiro italiano (de Florença) Alexandre Massai, aquando de obras para construção de um porto oceânico, tudo conjugado com um sistema de vigias e rondas a cavalo, cuja despesa corria às custas dos moradores”.
Com a Guerra da Restauração (1640-1668), as principais preocupações voltaram-se para a fronteira terrestre, de onde podia chegar uma invasão castelhana.
No fim da guerra da Restauração que chamou a terra as principais atenções, é, de novo, assumida a necessidade de se proteger o litoral dos assaltos dos corsários mouros, sentindo-se a necessidade de ser reconstruído o forte existente no Pessegueiro, do tempo de Massai.
Em 1678, após reestruturação militar promovida pelo Regente D. Pedro, e visita do Marquês da Fronteira, Marechal de Campo General da Estremadura, às fortalezas que haviam sido colocadas, nesse ano, sob a sua competência foram ordenados melhoramentos nas praças de Sines e Milfontes.
“Iniciou-se, desta forma, ainda em tempo da regência, uma importante campanha de obras na costa alentejana, sob a direcção do engenheiro oliventino João Rodrigues Mouro, que dirigia o trabalho nas fortificações da praça de Setúbal: Na costa de Sines foram construídos dois fortes: forte de Nossa Senhora das Salas [hoje chamado do Revelim], em 1680, e forte da Senhora do Queimado, mais conhecido por forte da Ilha do Pessegueiro, ou simplesmente do Pessegueiro [terminado em 1685], este último edificado sobre as ruínas da antiga fortificação da época filipina. Ambos da autoria do engenheiro Mouro”.
Pese alguns trabalhos pontuais de recuperação e de consolidação de taludes, o Forte do Pessegueiro é, do meu ponto de vista, um dos imóveis que tristemente se encontra praticamente votado ao abandono e que mereceria um grande investimento, quer pela sua privilegiada localização, quer porque permitiria torná-lo um lugar de excelência como observatório da Natureza e da antropização daquele território desde tempos imemoriais, como se pode confirmar ali bem perto nas cistas da Idade do Bronze da Herdade do Pessegueiro, escavadas por Carlos Tavares da Silva.
Independentemente da sua vocação mais ou menos turística, reitero a ideia de que este imóvel pudesse, de facto, funcionar como o pólo central de um “parque”, acrescentando à tese de Rui Fragoso uma forte componente ambiental e da Natureza que ali nos privilegia.
Contudo, apresento aqui a proposta de ocupação de espaços por ele defendida, pois pode ser um bom ponto de partida para outras abordagens:
Piso 0: recepção/Loja/Biblioteca/Centro de Documentação/Laboratório/vestiários/sanitários/auditório.
Piso 1: Sala de exposição permanente/Bar/restaurante e área de repouso e sala de exposições temporárias.
Ainda no piso 2: terraços.
Que a ilha vendida do Pessegueiro continue a contar-nos segredos imemoriais e o Forte que lhe fica fronteiro, observando-a, nos surpreenda um dia, não de atalaia aos “mouros da costa”, mas de todos os que por percurso terrestre ou marítimo o queiram visitar e ali conhecer o mar, a costa e os seus habitantes faunísticos e florísticos, bem como os Homens que aí se foram fixando!
Recomendo assim que vá ao Alentejo Litoral e espreite o que em Tróia, Santiago do Cacém, Sines e a Ilha do Pessegueiro, Vila Nova de Milfontes há para ver.
Aproveite e faça também um regresso ao tempo dos Romanos.
A Ponta da Piedade (nas fotografias) descrita por Manuel Teixeira Gomes, sétimo Presidente que a República Portuguesa teve, homem do mundo e algarvio de Portimão:
«Caminho estreito e arenoso, entre sebes de cornicabra por onde assomam com frequência as pás das figueiras da Barbaria, ali muito definhadas pela exposição e violência dos ventos reinantes.
(…) Ao longo da “Ponta da Piedade”, e depois cercando-a, crescem no mar inúmeras rochas acasteladas, algumas ligadas por arcos naturais, e dispostas em tôrno de pátios onde a água se faz transparente como esmeralda líquida (…).
A água conserva-se até onde a vista alcança, no mesmo tom de turqueza molhada, e o corte perfeito da penha de Sagres, perpendicular, rectíssimo, acaba no horizonte a linha de costa.»
Manuel Teixeira Gomes, in Regressos
O território hoje designado por Algarve entrou na esfera de influência romana nos finais do século III ou inícios do século II a.C., quando Gadir (Cádis) reconheceu a supremacia latina.
As fontes clássicas referem que foi ocupado, antes da chegada de Túrdulos e Celtas, na segunda metade do I milénio a. C., pelos Cónios, um povo de origem não Indo-Europeu. Na costa algarvia quer Plínio, quer Pompónio Mela e Ptolomeu nomeiam a existência de uma importante localidade designada Lacobriga, entre as outras que também foram referenciadas como tal no período compreeendido, entre os dois primeiros séculos de dominação romana. Plínio situa-a entre as populações célticas e Mela refere-se-lhe junto ao Promontório Sacro … Muitos arqueólogos defenderam que a povoação Lacobriga referida pelos autores latinos se deveria situar junto de Monte Molião, onde se encontraram importantes vestígios arqueológicos, se bem que sejam também conhecidos achados de origem romana em Lagos, muito possivelmente devido ao desenvolvimento de um núcleo portuário. Efectivamente a zona de Monte Molião deve ter devido a sua importância à produção de preparados de origem piscícola, como o denuncia a existência de conjuntos de cetárias. Mas também alguns outros autores defenderam poder-se situar em locais como a Fonte Coberta, Serro da Amendoeira, Figueira da Misericórdia, Figueiral, e o Paúl. Mas actualmente sabe-se que a «área da baía de Lagos foi intensamente ocupada durante a época romana. Se o início dessa ocupação está aparentemente relacionada com episódios militares decorrentes da conquista romana do extremo Ocidente peninsular, não parecem restar hoje dúvidas que, entre o século I a.C. e os finais do VI da nossa Era, cidadãos romanos estavam instalados na região. De ambas as situações restam vestígios abundantes na área da baía, evidenciando alterações e rupturas em relação à abordagem do espaço em épocas anteriores. Por outro lado, o novo modelo de instalação, bem como as novas estruturas sociais e políticas que, de alguma forma o motivaram, também provocou modificações significativas em termos da exploração dos recursos». in: http://vimeo.com/29196559
As escavações efectuadas no Centro Histórico de Lagos atestam a existência de uma importante ocupação de carácter industrial de época romana, para produção e envasamento de preparados piscícolas.
Leitura fundamental: ARRUDA, Ana Margarida. Laccobriga: A Ocupação Romana na Baía de Lagos. Lagos: Câmara Municipal de Lagos, 2007. 80 p. SILVA, Luís Fraga da, LACOBRIGA, http://imprompto.blogspot.pt/2005/10/lacobriga.html
Se quiser conhecer um pouco mais de Lagos em Período Medieval, proponho a leitura de:
Entre Muralhas e Templos: a Intervenção Arqueológica no Largo de Santa Maria de Graça (2004-2005),coordenada por Marta Diaz-Guardamino e Elena Morán.
A obra centra-se na intervenção efectuada no Largo de Santa Maria de Graça (onde se teria implantado a Igreja Matriz de Santa Maria de Graça, que fora edificada no século XIV), onde se situava um cemitério medieval, utilizado durante a Época Moderna e Contemporânea, até ao século XIX.
No século XV, este cemitério recebeu a primeira sepultura do Infante D. Henrique, falecido em Sagres, tendo sido posteriormente trasladado para o Panteão Régio de Santa Maria da Vitória, na Batalha.
Por saber que estes elementos são inéditos, apenas queria dar conta, através de uma nota que tenciono vir a desenvolver, de uma escavação efectuada em sepulturas de inumação das Ruínas de Tróia, sob a coordenação de António Cavaleiro Paixão, nos idos anos 80 do século passado.
Infelizmente desta intervenção, onde apenas participei como colaboradora, somente detenho fotocópia dos elementos que publicarei de seguida, não me sendo possível, como tal, fazer uma nota mais elaborada, mas apenas dar a conhecer que, efectivamente, na Basílica Paleocristã de Tróia, já ela construída sobre cetárias de período anterior, foram, em data posterior à sua construção, colocadas sepulturas de inumação, como se pode identificar na planta.
Estas sepulturas, escavadas no solo revestido por opus signinum, eram em forma de caixas, construídas com tijoleiras revestidas de tijolos e tégulas, como se pode verificar no desenho, similares a algumas das que foram escavadas junto ao Columbarium de Tróia, devendo contemporânoas das mesmas.
http://www.almadan.publ.pt/17Adenda039-052.pdf
No interior de uma destas sepulturas, encontrava-se depositada uma tampa de vidro incolor, de que damos nota e apontamos paralelos.
No entanto, deixo desde já estas referências para que tudo o que possuo de documentação sobre este Sítio Arqueológico possa ser partilhado, a exemplo de artigos já aqui anteriormente publicados.
GOMES, Francisco B. ; Vidros romanos das necrópoles de Alcácer do Sal depositados no Museu Nacional de Arqueologia(UNIARQ – Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa; FCT)
Silva, Ana Patrícia Miranda da, 2010, «A terra sigillata da oficina de salga 1 de Tróia: contextos de escavações antigas (1956-1961) e recentes (2008-2009)».
“The recent works preparing the redevelopment and presentation of the ruins of Tróia led to the identification of a level of construction from the time of Tiberius, including materials from Augustan times, associated with the walls… more
More Info: Co-authored with Inês Vaz Pinto and Patrícia Brum