quinta-feira, 23 de julho de 2015

Ainda a propósito de Tróia, Filomena Barata

partir de: Património, Setúbal na Rede
por Maria Filomena Barata
(Liga de Amigos de Miróbriga)

                 Fotografias aéreas da Península de Tróia, 1966, gentilmente cedidas por Rui Torrinha. 


Rua da Princesa, Fotografia Filomena Barata
A Real Sociedade Archeologica Lusitana, nascida em 1849, sob a protecção de D. Fernando II, (o qual por reconhecimento lhe faria conceder o título de “Real”) e o empenho do Duque de Palmela, entra em declínio após a morte deste último, pois perde um grande financiador das escavações.
Em 1863, funda-se em Lisboa a “Real Associação dos Architectos Civis e dos Archeologos Portugueses”, de que provém a actual Associaçäo dos Arqueólogos Portugueses.
António Cavaleiro Paixão nas Ruínas de Tróia
Em 1867, quando já praticamente extinta a Real Sociedade Archeologica Lusitana, afirma Almeida Carvalho: “Do Governo não vinham nenhum auxílio, nem um simples toro de pinho, para conter as areias, tirado das matas do Estado.”
Era o fim das românticas incursões da Sociedade pois à falta de condições, vieram juntar-se o “esmorecimento de alguns e a indiferença da maior parte.” E, malogradamente, o Museu previsto nos estatutos nunca veio a fundar-se.
E, contudo, o carácter percursor dessa Sociedade e da sua proposta de criação de um Museu local de carácter monográfico foi sobremaneira salientado, nomeadamente por Teixeira de Aragão que defendia a “descentralização” das instituições de índole educacional e formativa, nomeadamente os museus locais.
Aliás, o final da centúria de oitocentos, assiste a um acrescido interesse relativamente à museografia regional, sendo de salientar as posições defendidas por Gabriel Pereira e Joaquim de Vasconcellos (GOUVEIA, 1985).
 É de Carlos Ribeiro uma das melhores descrições das cetárias de Tróia. Escreve este autor, em 1858:
 “Proximo do Cabedelo e defronte da Setubal ha uma depressão por onde entra a maré e a que chamam a Lagoa.
É na margem direita desta lagoa e separada do Sado onde se encontram numerosos restos da antiga povoação e oficinas de salga de peixe.
Os tanques de salga mostram-se numa extensão de perto de 4 Kilometros proximadamente a contar da ponta N.O. da lagoa formam grupos separados por porções de praia sem vestígios destas contracções, no entanto as que se vêem são numerosissimas.
Cada grupo conta de um indeterminado número de aqueles tanques dispostos em series ou linhas perpendiculares à praia; cada linha compunha-se pelo menos de cinco tanques, hoje raros são os que apresentam este número, por estarem desmoronados pela acção das águas do rio e maré ou por se acharem cobertos pelas areias.
Os tanques afectam em geral uma mesma forma e têem uma mesma construção; mas variam muito nas dimensões da sua secção (….)
Toda a rocha empregada nestas construções é o grés e conglomerado vermelho do Alto do Viso. Também se vê ali o calcareo da Serra da Arrabida na alvenaria.
O interior das divisorias é alvenaria argamassada: para o lado de dentro dos tanques tem a parede um tal ou qual paramento sobre o qual leva um reboco de beton ou de argamassa signina mui fina com fragmentos muito angulosos (…)
Não pode formar-se ideia do numero de tanques que havia, a avaliar pelo que se vê, e de um modo muito grosseiro, aquele numero devia exceder a dois ou tres mil tanques (…).
Toda a praia na extensão de 3 kilometros a 4 proximadamente é coberta continuamente de tijolos quebrados (alguns inteiros), cacos de telha, de amphora, fragmentos de alvenaria, pedras soltas de calcareo, do conglomerado vermelho do outro lado do Sado e que resultam da demolição dos edifícios que havia deste lado.
Mais para N.O. ou água abaixo, nas visinhanças da capella da Snrª da Troia ainda se vêem: uma casa grande que estava completamente entulhada de areia, cujas paredes algumas delas estucadas conservam ainda as pinturas e umas thermas encerrando uma sala com o pavimento de um belo mosaico – as paredes estão por assim dizer novas.”



Mosaico dos balneários de Tróia. Fotografia Professor Manuel Heleno
Como já em anterior crónica referimos, o espólio da Sociedade Archeologica Lusitana foi depositado na Academia Real de Belas Artes, onde deve ter permanecido até 1904 e, posteriormente foi transferido para o Museu Etnológico Português, sendo, ainda hoje, com o nome de Museu Nacional de Arqueologia, o depositário da maioria do espólio de Tróia, quer documental, quer material.
Desde o início, o Museu Etnológico Português foi fundamental na história das escavações e pesquisas na estação arqueológica de Tróia.
 As intervenções directas no campo – como a escavação da sepultura de Galla –, a publicação desde o primeiro número do «Archeologo Portugues» de notícias sobre este sítio e todas as diligências em relação aos materiais exumados em Tróia são reflexo do empenho que Leite de Vasconcelos, desde sempre, votou a este sítio arqueológico.
 A Tróia estarão, também, ligados directamente todos os futuros Directores do Museu, quer financiando os projectos de investigação, quer através das escavações e publicação dos materiais exumados, a exemplo do Prof. Manuel Heleno, de D. Fernando de Almeida, e, mais recentemente, do Dr. Francisco Alves, no que respeita a pesquisas subaquáticas.

         Professor Manuel Heleno em Tróia. MNA. Levantamento das imagens Filomena Barata


O Archeologo Português, publicação do Museu Etnologico dirigido por José Leite de Vasconcelos, surge com o seu primeiro número em 1895. “Ruínas de Tróia (em frente de Setúbal)” é o título com que Leite de Vasconcelos assina um artigo sobre este local arqueológico. Para além da problemática relacionada com a identificação de Tróia com a Cetobriga romana, considerando-a despropositada “Tróia nada mais será do que uma designação litteraria dada anteriormente ao seculo XVI ás ruínas; para afirmar isto, fundo-me em que não são estas ruinas as unicas assim denominadas: no termo de Chaves ha outras ruinas a que se dá o mesmo nome de Troia”, o autor faz a análise de um “monumento funerário de forma pouco conhecida, que é a sepultura de Galla”. A lápide funerária e os materiais exumados transitarão para o Museu Etnológico em 1929, por morte do seu proprietário bem como, à época, do terreno onde se situam as ruínas, Sr. Francisco Cabral A. Mascarenhas. É nessa altura de Leite de Vasconcelos os pública, no Archeologo Português, vol. XXVIII.
São também estas as palavras de Leite de Vasconcelos: “No desejo de tornar cada vez mais conhecidas estas ruinas, que bem mereciam ser methodicamente e completamente exploradas por conta do Govêrno, porque d’isso resultaria, sem dúvida alguma, farto peculio scienifico” pois “as ruínas de Tróia de Setúbal constituem um enexgotavel manancial archeologico. Não de dá um passeio pela praia, não se mexe na areia, que não appareça alguma cousa. Oxalá que algum Ministro se amercie d’ellas! Tanto mais que é uma vergonha que esteja a findar o seculo XIX, o seculo chamado das luzes, e Portugal deixe perder para sempre estes eloquentes vestigios de grandeza do seu passado sem lhes prestar o culto que os povos civilizados prestam a tudo o que pode servir para aclarar os problemas históricos.”
No vol. III do Archeologo Português são publicados por Pedro A. de Azevedo os Autos de Visitação à Ermida de Nossa Senhora de Tróia da Ordem de Santiago, e Leite de Vasconcelos escreve uma nota “Escavações Reais em Tróia”, um curioso documento sobre a concepção romântica da actividade arqueológica em finais do século XIX, e também muito interessante pela sua dramática actualidade no que diz respeito à investigação deste sítio até anos próximos dos nossos dias:

Lê-se n’O Seculo, de 16 de Novembro de 1897, que tendo Sua Majestade El-Rei o Senhor D. Carlos manifestado ao sr. Morgado Francisco Cabral, dono das ruinas de Troia, desejo de obter alguns dos muitos objectos que estão alli sotterrados, o Sr. Cabral mandara immediatamente seis trabalhadores que começaram a fazer escavações no sítio do chafariz da Hortinha, sob a inspecção de El-Rei. No referido jornal, de 17 do mesmo mês, lê-se ainda:
“Continua hoje o Senhor D. Carlos nas suas explorações na Troia. Por enquanto nada de notavel se tem encontrado, a não serem umas quatro moedas antigas, grandes, que elle guardou.”

Diz o autor “Depois d’isto nada mais li sobre o assumpto. Creio que as escavações não continuaram, porque El-Rei se retirou para a sua capital.

Visto o interesse de Sua Magestade mostra peça archeologia, tomava eu a liberdade de tornar a lembrar a grande conveniencia que haveria em mandar proceder em Troia a explorações methodicas e extensas. Quem sabe quantos thesouros scientificos não estarão escondidos sob a areia? E talvez pelo estudo d’elles se pudesse por uma vez decidir onde foi Cetobriga! Em todo o caso, a nossa história antiga tão imperfeitamente conhecida, receberia sem dúvida luz brilhante que a esclarecesse um pouco.”


A “Sociedade Anónima para as Investigações de Cetóbriga”

No período que medeia as últimas intervenções da Sociedade Arqueológica Lusitana e as explorações a que acabámos de referir, encontramos um interessante documento lavrado pelo Tabelião de Setúbal. Trata-se de uma escritura de arrendamento de uma propriedade denominada “da Tróia” que fez o Sr. Francisco Maria Cabral de Aquino Mascaranhas à “Sociedade Anónima Francesa das pesquisas archeologicas de Cetobriga”, pelo tempo de dois anos e meio e pela renda anual de um conto de reis. Do mesmo ano é uma promessa de venda da propriedade “A Tróia” a essa “ Sociedade Anónima para as investigações de Cetóbriga” fundada por M.Blin em 1875, com a importância de 600000 francos. Foi, a primeira sociedade com fundos privados, aplicados na investigação arqueológica, em Portugal.
 Como já referimos, na primeira metade do século XX, Inácio Marques da Costa realizou vários trabalhos em Tróia, nomeadamente na “Rua da Princesa”, tendo registado, se bem que, julgamos, de uma forma algo “poética” as plantas, alçados e mesmo os motivos decorativos.


Marquês da Costa descreveu um baptistério, de que actualmente não resta qualquer vestígio, da seguinte forma:
 “Tais são as ruínas dum edifício ou casa em forma cilindrica, com toda a face interior da parede estucada e pintada a fresco de vermelho e que toda era coberta com uma abóbada, que devia formar uma elegante cúpula, da qual ainda restam vestígios.

No solo circular desta casa abrem-se quatro piscinas a ocuparem os lugares correspondentes aos quadrantes em que se dividia o dito solo. Alguém tomou erradamente êste edifício como templo dedicado a Vesta e uns nichos, que se vêem abertos na face interior da parede cilíndrica, como destinados a receber estátuas dos deuses.
Nas ruínas de Pompeia têm aparecido edificações, em tudo semelhantes a esta, e a elas se tem atribuído a função de Baptistério”.
Deste investigador, para além das tentativas de reconstituição da zona habitacional conhecida pela “Rua da Princesa”.

Há ainda pormenorizadas descrições da Basílica Paleocristã “compartimento rectangular que em duas paredes contíguas mostra restos de estuque, onde foram pintados a fresco várias figuras coloridas, como grande parte do monograma de Cristo (Crismon) ao centro da parede e circunscrito por uma coroa”.





Deste Crismon hoje desaparecido, não resta senão o desenho publicado por Marques da Costa, (1857-1933), acontecendo o mesmo com grande parte das estruturas da Rua da Princesa que descreveu e publicou.
Data ainda de finais da primeira metade do século XX o início dos trabalhos desenvolvidos pela Junta Nacional de Educação.
A partir de 1948 realizaram-se várias campanhas, sob a direcção do Professor Manuel Heleno, destacando aqui a escavação que efectuou no conjunto funerário ou necrópole, na margem esquerda da Caldeira.


Orla, Fotografia do Professor Manuel Heleno

Fotografia de mó, Professor Manuel Heleno
Posteriormente, D. Fernando de Almeida promoveu escavações em Tróia com a colaboração de assitentes e alunos da Universidade de Lisboa. A Basílica Paleocristã foi, novamente em 1968 e 1969, objecto de trabalhos arqueológicos , tendo sido publicados os rultados da mesma .
 Ainda sob a orientação de D. Fernando de Almeida e com a participação de Judite e António Cavaleiro Paixão, desenrolaram-se escavações que puseram a descoberto uma área de enterramentos de características únicas em Portugal, das sepulturas de mansae .
Uma outra área sepulcral, centrada por um Mausoléu (ou Columbarium) foi ainda escavada por D. Fernando de Almeida e seus colaboradores.

Mas essa “Arqueologia da Arqueologia” a outros caberá fazer, terminando por aqui este meu testemunho relativamente às Ruínas de Tróia.
 Do numeroso espólio recolhido em Tróia é de salientar a grande quantidade de cerâmica comum, a abundância de ânforas, que atesta a importância industrial e comercial deste Sítio Arqueológico, os artefactos piscatórios, como agulhas de cozer e pesos de rede, bem como a existência de terra sigillata, vidros, moedas, etc.


Zona residencial “Rua da Princesa”, Fotografia Professor Manuel Heleno
 Esculturas, inscrições, capitéis e fustes de coluna, para além do célebre relevo mitraico, constituem ainda parte dos materiais arqueológicos recolhidos em Tróia que, apesar da sua enorme dispersão , estão maioritariamente depositados no Museu Nacional de Arqueologia.
No entanto, desde longa data que se considera desejável associar às ruínas de Tróia um espaço para depósito e mostra do espólio proveniente do Sítio, e ainda criar condições de visita e fruição pública para o local através da criação de um “Núcleo Interpretativo”e de um “Centro de Estudos” sobre Tróia, situação que, estamos crentes, a breve prazo veremos acontecer.

O Museu de Évora (em elaboração)






Fotografia de Frei Manuel do Cenáculo, Biblioteca Pública de Évora.






O Museu de Évora que formalmente se constituíu com a Primeira República, mas teve a sua origem nas colecções que Frei Manuel do Cenáculo (1724-1814), nomeado bispo de Beja em 1777 e indigitado arcebispo de Évora, em 1802, reuniu na Biblioteca Pública de Évora. 

Parte das colecções foram trazidas de Beja, onde fora bispo. Já no século XX, esses materiais são incorporados no Museu de Évora, juntando-se aos materiais arqueológicos recolhidos por André de Resende, Cunha Rivara, Filipe Simões ou Gabriel Pereira. 
Actualmente esses materiais - estatuária e lapidária - podem ser vistos no na nova área expositiva, um espaço subterâneo obtido com a recente remodelação do Museu.
Podem também ver-se os materiais provenientes da Anta Grande do Zambujeiro (de escavações dos anos 60) e do Castelo da Lousa (Mourão), ou dos das escavações realizadas na Necrópole das casas (Redondo).
Exposta está também a célebre estátua de bronze de S. Manços, representando Efebo e datável dos séculos Id.C - II d.C.


Mas comece a visita ao Museu pela herança romana, entrando de costas para o templo imperial e forum , e, no interior do Museu, veja os vestígios dessa enorme praça pública romana e os restos de uma necrópole.

Olhe com atenção os vidros; as esculturas, a epigrafia e os fragmentos escultóricos e a célebre e belíssima escultura romana da «bacante».



Epigrafia romana do Museu de Évora. Fotografia de José Manuel Jerez linde.



Perca-se por aí na primeira visita ... que o restante para a próxima ficará, mas não saia sem ver in situ os vestígios que nos falam do grande Forum romano.
.


Busto feminino. Fotografia de José Manuel Jerez Linde





As Ruínas de Tróia II, Filomena Barata

AS RUÍNAS DE TRÓIA II

25 JUL 2011


Planta das Ruínas de Tróia. Arquivo de desenho do Museu Nacional de Arqueologia.
Ara proveniente de Tróia. Arquivo de desenho do M.N.A.
Planta Geral das Ruínas de Tróia, 1968, M.N.A.

AS RUÍNAS DE TRÓIA, DE NOVO.

(adaptado do artigo publicado na Setúbal na Rede em Julho 2011)
À memória de Maria Adelaide Pereira MaiaFoi com enorme satisfação que, no decurso do mês de Junho, se noticiou a reabertura ao público das ruínas de Tróia, com um novo percurso, preparado para pessoas com mobilidade reduzida.Novo arranjo paisagístico das Do programa de valorização, para além do conhecimento de novas áreas desta cidade industrial, designadamente das fábricas de salga, constava também a implementação da sinalética que, agora, permite melhor entender a visita que também se prevê possa ser guiada, mediante marcação prévia.Podem assim conhecer-se, agora em boas condições, a maior fábrica de salga de peixe do complexo, as termas, o mausoléu, a necrópole e a área residencial.Infelizmente a extraordinária basílica paleocristã, embora estando acessível, ainda não o é em iguais condições, havendo, no entanto, intenções de vir a ser objecto de um projecto de recuperação próprio e de ser também construído um Centro Interpretativo.Cumprimento, assim, como já o fiz noutras ocasiões, a IMOREIA/SONAE pela iniciativa, bem como a equipa liderada pela Doutora Inês Vaz Pinto pelo trabalho que têm vindo a efectuar, pois, apesar de múltiplos esforços empreendidos por vários arqueólogos que aí trabalharam, não havia sido possível implementar uma acção tão integrada.Não posso, contudo, deixar de dizer com algum pesar, pelo que representa de uma certa inércia por parte do próprio Estado Português que me orgulho servir, mas nem sempre objectiva as suas intervenções de forma a que os resultados possam ser devidamente conhecidos e optimizados os seus investimentos técnicos e financeiros, que já haviam existido circuitos de visita – lembro, por exemplo, entre tantas outras que se fizeram no local, duras campanhas efectuadas no final dos anos oitenta com a colaboração dos Fuzileiros portugueses onde foram colocadas lajes por toda a extensão das ruínas e terem sido executados painéis de sinalização executados que nunca chegaram a ser colocados nos locais apropriados e os próprios bilhetes com a planta das ruínas.Queria lembrar também aqui o empenho de alguns arqueólogos que por ali passaram durante o Século XX, entre tantos outros, D. Fernando de Almeida, e Professor Manuel Heleno, ambos Directores do Museu Nacional de Arqueologia, Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, António Cavaleiro Paixão e que, certamente, veriam ou poderão ainda ver os que a morte não vindimou hoje com satisfação que, embora não tenham conseguido levar por diante algumas das suas ideias, o seu trabalho valeu a pena, cumprimentando todos os investigadores que estudaram os seus materiais, de que hoje destaco, pedindo desculpa a todos os seus pares no estudo de Tróia por não os citar nominalmente, Maria Garcia Pereira Maia, pois porque de entre nós recentemente partiu e é a minha forma de lhe prestar aqui a minha sentida homenagem.

António Cavaleiro Paixão em Tróia. 1990.
Assim, relembrando também velhas páginas soltas do meu arquivo, venho trazer-vos um pouco mais das memórias deste extraordinário Sítio Romano, que já esta Verão, pode ser, finalmente, partilhado por todos nós.

Poço/cisterna junto aos balneários de Tróia. Fotografia Filomena Barata. 1988.
Para além de Gaspar Barreiros e André de Resende a que já aqui fizemos referência, muitos outros autores conheceram Tróia e a descreveram, a exemplo de Duarte Nunes de Leão, em inícios do século XVII:
« … Cetobriga a q vierão corrõper o nome em Setuual, para onde passou, foi tã bem situada em h~us areaes onde agora chamão Troia, cujo nome de Cetobriga lhe foi posto por as salgadeiras dos pescados q alli hauia de q ainda oje ha vestígios por o trato q nella hauia de pescados grãdes, salgados como dão sinal».
Mas também a ela se referiu do seguinte modo Fr. Bernardo de Brito na «Monarchia Lusitana, editada em Lisboa, em 1609.
« … nos tempos antigos florescera na povoação de Cetobriga a quem os moradores da terra chamam Troya, dando no tempo de agora os arruinados muros certos indicios de notável grandesa».
Por sua vez, João Baptista Lavanha na sua «Viagem da Católica Magestade del Rei D. Filipe II», Madrid, assim a nomeia:
«Setuual: He h~ua das maiores, & mais assinaladas villas de Portugal, por causa do seu porto formado do rio Çadão, que alli entra no Oceano, & de h~ua lingua de terra que o Mar ha estreitado. Nesta lingua de terra que fica de fronte da villa ouve na Antiguidade h~ua povoação chamada Cetobriga (…) onde ainda hoje se vem os vestigios dos tanques em que salgavão os Atuns, & outros pescados, & appareceram as ruinas de outros edificios de aquella cidade, & dellas se tirão estatuas, columnas, & muitas inscripções, que entre outras antiguidades dignas de eterna memoria se conservão na casa do Duque de Aveiro. A estas ruinas chama o vulgo Troya, com que quer dar a entender que são da povoação que alli ouve» (cit. in Fernando Castelo-Branco, Ocidente, Volume LXV, pp: 79-80)
Num notável trabalho de recolha e sistematização efectuado por Fernando Castello Branco e publicado em sucessivas revistas “Ocidente”, nos anos sessenta do século passado, foram-nos deixadas extraordinárias pistas sobre Tróia e sobre a problemática da sua localização, salientando ainda o trabalho de Fernando Bandeira Ferreira sobre o mesmo tema, já ante publicado na Conímbriga (1959).
Mas Tróia não foi sempre um Sítio a preservar. Num interessante artigo de Carlos Dinis Cosme, referem-se vários documentos sobre a doação em regime de sesmaria das terras da Península à Ordem de Santiago, em 1502, e outro sobre o emprazamento de Tróia, que curiosamente ressalvam a pedra que não existe na Península, senão a que os Romanos tinham deixado da sua cidade entretanto abandonada e que fazia falta para novas edificações, que ressalvam explicitamente: “fica de fora a pedra, que todos poderão tirar para fazerem casas e moinhos e os possuidores de sesmaria não poderão tolher a qualquer pessoa que a queira ir buscar.”.
Este tipo de referências repete-se por todo o século XVIII, em registos notariais, o que manifesta a destruição e abandono progressivo, e “saque” consentido, de que este sítio foi alvo desde o começo do século XVI.

Mas, o século XIX traz nova luz a este local, e iniciam-se as mais antigas escavações arqueológicas em Tróia no tempo da Infanta D. Maria, futura Rainha D. Maria I que incidiram na zona residencial das ruínas, pelo que é denominada essa zona, desde essa altura, como “Rua da Princesa”.

O espólio exumado nessas explorações foi totalmente disperso, e à então Vila de Setúbal foi oferecida uma coluna e um capitel coríntio, reutilizado, mais tarde, como pelourinho, colocado na Praça Marquês de Pombal, nessa cidade.

Em período posterior, em 1850, a Sociedade Arqueológica Lusitana iniciou aí trabalhos de que há relato e cujosDiários das escavações de Tróia, foram publicados na
Revista Popular:
“Foi por entre todas essas festas e galas, sempre acompanhadas de um vivo enthusiasmo, nascido das mais seductoras esperanças, alimentadas e fortalecidas à sombra grandiosa da alta protecçäo de um monarca e de um duque notavel e poderoso, que a Sociedade Archeologica deu começo às escavações.
As primeiras foram effectuadas desde o 1º de Maio até 2 de Junho de 1850 e logo com optimos resultados, cujas notícias muito satisfizeram a El-rei e não menos ao Duque.
…………….
Em resultado das pequenas excavações feitas colheram-se muitas e diversas antigualhas romanas, mas não tendo podido ser collocadas no Museu de Setubal como determinavam os Estatutos, força foi que ficassem em poder de alguns socios em quanto, por falta de meios, não houvesse casa apropriada.
  
A Sociedade Arqueológica Lusitana tinha surgido em 1849, impulsionada pelo Padre Manuel de Gama Xarro e por João Carlos de Almeida Carvalho, a que se foram, a pouco e pouco, juntando outros estudiosos.
O primeiro Duque de Palmela, que visita as ruínas de Tróia, a convite desses estudiosos, em 1849, é também convidado a ser protector da Sociedade, qualidade que reclina para El-rei D.Fernando II, que virá a ser o protector da Sociedade.”
Deste modo, o Duque de Palmela profere em Setúbal um discurso em que afirma:
“Foi hoje a primeira vez que tive o gosto de visitar as ruínas da antiga Cetobriga e, pelos vestígios das construções que ali observei, fiquei sumamente esperançado de que grandes vantagens arqueológicas, científicas e artísticas se podem obter por meio duma bem dirigida escavação, e da qual poderão resultar muita honra e vantagem para esta País e com particularidade para a Vila de Setúbal, sede desta respeitável associação.
Quando porém mesmo esses achados de preciosidades se não realizem de todo, ao menos sempre um grande proveito se tirará das escavações intentadas: descobrir-se-ão essas ruínas, marcar-se-á a sua extensão, e finalmente fixar-se-ão mais as ideias para se resolver um ponto de história e de geografia, que até agora não tem sido esclarecido pelos nossos escritores, história na verdade muito misteriosa, relativamente à fundação desta populosa cidade, cuja existência deve ser de mui remota antiguidade.”
Em 1850, são publicados na Imprensa Nacional os Estatutos da Sociedade Archeologica Lusitana, cujos artigos que consideramos de maior interesse passamos a citar:
“Artigo 1º – Debaixo da protecçäo de  Sua  Majestade El-Rei o Senhor D.Fernando é creada na Vila de Setúbal uma Sociedade denominada  = SOCIEDADE  ARCHEOLOGICA LUSITANA =

Artigo 2º – O fim desta Sociedade é  exclusivamente  promover por todos os meios  ao seu alcance, e effectuar uma excavação nas ruinas da antiga Cetobriga, e adquirir luzes e  conhecimentos  sobre   a historia, geographia e costumes antigos, de  que se tenham originado os que hoje existem.

Artigo 3º – Formar-se-ha na Villa de Setúbal um Museu Archeologico dos objectos que se descobrirem

……………….

Artigo28º – Todo o Socio que extraviar qualquer objecto descoberto na excavaçäo, além de incorrer nas penas comminadas nos Alvarás retrò citados, será  responsável pelo triplo do seu valor estimativo,excluido da sociedade, e seu procedimento publicado pela imprensa.”
O Duque de Palmela morre ainda durante o ano de 1850, tendo a Sociedade sofrido bastante com isso pois perde um grande financiador das escavações.
No entanto, ainda se realizam trabalhos de 5 de Novembro de 1855 até Outubro de 1856.
Num relatório publicado no Setubalense de 1875, da autoria de José de Groot Pombo, Sebastiäo Maria Pedroso Gamito e Joäo Carlos de Almeida Carvalho, pode ler-se:
“Em resultado desta escavação encontrou-se, proximo da Ermida de Nª Sra. de Troia e junto à embucadura da lagoa, um edifício de planta circular, com o diâmetro de 15 pés e 10 polegadas (5,225metros), encontrando-se ainda no alto das paredes o princípio da abóbada ou cúpula.

Nas paredes há três nichos que seriam possivelmente adornados com estátuas, a uso dos Romanos.

……………………….

Esta casa parece destinada a balneário, porque apresenta dois tanques ou banheiras. Cada banheira tem 4 pés e 10 polegadas de profundidade (ou sejam 1,595 metros), tudo construido com uma amálgama de cal, areia e pedra miuda, semelhante àquela que reveste as muitas salgadeiras, que se encontram no meio das ruinas de Cetobriga.

Dentro desta casa, encontrou-se uma moeda de cobre Fl.Constantinus Nob.C. e alguns pedaços de ânforas de barro e bocados de vidro.”
Ainda no relatório da S.A.L. a que nos referíamos, podemos ler:
“À distância talvez duns 100 metros a Sueste deste edifício e ao longo da lagoa (ou Caldeira), dessoterraram-se umas Thermas, e nelas em uma das salas, onde ainda se divisava haver sido guarnecida de mármore, encontrou-se uma banheira também de mármore guarnecida. A esta sala ligava-se outra, cujo pavimento de pedra dura é de optimo trabalho, havendo porçöes em muito bom estado.
Uma outra sala se descobriu, encontrando-se ali a base duma coluna de mármore branco, cujo fuste devia ter tido uns 2,5 palmos de diametro e nesta sala acharam-se umas 180 medalhas romanas, todas de cobre e em geral frustas. Foi o que com tão fracas posses pudemos tactear naquele imenso areal, que cobre os despojos da antiga Cetobriga.

Setubal, em assembleia geral da Sociedade Archeologica Lusitana, aos 21 de Dezembro de 1856″.
Era praticamente a última intervenção da Sociedade, afirmando em 1867 Almeida Carvalho: “Do Governo não vinham nenhum auxílio, nem um simples toro de pinho, para conter as areias, tirado das matas do Estado.”
Finalizavam assim as românticas incursões da Sociedade pois, à falta de condições, vieram juntar-se o“esmorecimento de alguns e a indiferença da maior parte.”
Mostrando em 1863 a Sociedade Arqueológica Lusitana pouca actividade, funda-se em Lisboa a “Real Associação dos Architectos Civis e dos Archeologos Portugueses”, de que provém a actual Associaçäo dos Arqueólogos Portugueses.
Inicialmente esta nova Associação tenta um trabalho conjunto com a S.A.L., tendo em vista a continuação das escavações das ruínas de Tróia, acordo que não foi possível, o que contribuiu em grande parte para a interrupção dos trabalhos nessa estação.
O espólio da Sociedade Archeologica Lusitana, incluindo livros e documentos foi depositado na Academia Real de Belas Artes, onde deve ter permanecido até 1904.
Por essa altura iniciam-se as diligências de Leite de Vasconcelos, fundador e director do Museu Etnológico Português para que as peças sejam transferidas para esse Museu, o que virá a acontecer por essa altura.
É, ainda hoje, no Museu Nacional de Arqueologia que se encontra depositada a grande parte do espólio de Tróia, não podendo, contudo, deixar de referir que se encontra disseminado por mais de uma vintena de locais, de Cascais, Lisboa (MNA), Setúbal (MAEDS) de que vos tentarei dar conta posteriormante.
O Museu Etnológico Português foi fundamental na história das escavações e pesquisas na estação arqueológica de Tróia.
As intervençöes directas no campo – como a escavaçäo da sepultura de Galla -, a publicação desde o primeiro número do Archeologo Portugues de notícias sobre este sítio e todas as diligências em relação aos materiais exumados em Tróia, são reflexo do empenho que Leite de Vasconcelos, desde sempre, votou a este sítio arqueológico. À sua accção nos voltaremos a referir aqui.
 A Tróia estarão, também, ligados directamente todos os futuros Directores do Museu, quer financiando os projectos de investigaçäo, quer através das escavaçöes e publicação dos materiais exumados. Referiremos posteriormente com mais detalhe as intervenções do Prof. Manuel Heleno, de D.Fernando de Almeida, e do Dr. Francisco Alves.


Fábricas de Salga. Fotografia de Manuel Heleno.

Balneários. Fotografia Manuel Heleno.

Mosaico dos balneários. Fotografia Manuel Heleno.




Mó. Fotografia de Manuel Heleno.
Archeologo Português, publicação do Museu Etnologico dirigido por José Leite de Vasconcelos, surge com o seu primeiro número em 1895. “Ruinas de Troia (em frente de Setúbal)” é o título com que Leite de Vasconcelos assina um artigo sobre este local arqueológico.
Para além da problemática relacionada com a identificaçäo de Tróia com a Cetobriga romana, o autor faz a análise de um “monumento funerário de forma pouco conhecida, que é a sepultura de Galla”. A lápide funerária e os materiais exumados transitarão para o Museu Etnológico em 1929, por morte do seu proprietário (e proprietário de terreno onde se situam as ruínas), Sr. Francisco Cabral A. Mascarenhas.
É nessa altura de Leite de Vasconcelos os publica, no Archeologo Português, vol.XXVIII.
No vol.III, são publicados por Pedro A. de Azevedo os Autos de Visitação à Ermida de Nossa Senhora de Troia da Ordem de Santiago, e Leite de Vasconcelos escreve uma nota “Excavaçöes Reais em Tróia”, curioso documento sobre a concepçäo romantica da actividade arqueológica em finais do século XIX, e curioso pela sua dramática actualidade no que diz respeito à investigação deste sítio:
” Lê-se n’O Seculo , de 16 de Novembro de 1897, que tendo Sua Majestade El-Rei o Senhor D. Carlos manifestado ao sr. morgado Francisco Cabral, dono das ruinas de Troia, desejo de obter alguns dos muitos objectos que estäo alli sotterrados, o Sr. Cabral mandara immediatamente seis trabalhadores que começaram a fazer excavaçöes no sítio do chafariz da Hortinha, sob a inspecção de El-Rei. No referido jornal, de 17 do mesmo mês, lê-se ainda:
“Continua hoje o Senhor D.Carlos nas suas exploraçöes na Troia. Por enquanto nada de notavel se tem encontrado, a näo serem umas quatro moedas antigas, grandes, que elle guardou.
Diz o autor ” Depois d’isto nada mais li sobre o assumpto. Creio que as excavações não continuaram, porque El-Rei se retirou para a sua capital.
Visto o interesse de Sua Magestade mostra peça archeologia, tomava eu a liberdade de tornar a lembrar a grande conveniencia que haveria em mandar proceder em Troia a explorações methodicas e extensas. Quem sabe quantos thesouros scientificos não estarão escondidos sob a areia? E talvez pelo estudo d’elles se pudesse por uma vez decidir onde foi Cetobriga! Em todo o caso, a nossa história antiga tão imperfeitamente conhecida, receberia sem dúvida luz brilhante que a esclarecesse um pouco.”
No período que medeia as últimas intervenções da Sociedade Arqueológica Lusitana e as explorações a que acabámos de referir, encontramos um interessante documento lavrado pelo Tabelião de Setúbal.
Trata-se de uma escritura de arrendamento de uma propriedade denominada “da Troia” que fez o sr. Francisco Maria Cabral de Aquino Mascaranhas à “Sociedade Anónima Francesa das pesquisas archeologicas de Cetobriga”, pelo tempo de dois anos e meio e pela renda anual de um conto de reis. Do mesmo ano é uma promessa de venda da propriedade “A Troia” a essa” Sociedade Anónima para as investigaçöes de Cetóbriga” fundada por M.Blin em 1875, com a importância de 600000 francos.
Foi, a primeira sociedade com fundos capitalistas, aplicados na investigação arqueológica, em Portugal.
Bem haja, pois, podermos ver hoje Tróia renascida.
Desenho de Marques da Costa. Rua da Princesa.
Desenho de Marques da Costa. Rua da Princesa.

Maria Filomena Barata – 20-07-2011 17:47