terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Sabia que uma cidade romana ...


Sabia que uma cidade romana ...

A cidade é um dos alicerces de um Império, que assenta, por um lado, na «normalização» que tenta imprimir às mais longínquas fundações, mas que se sustenta, por outro lado, à custa da diversidade local e da maximização das potencialidades regionais, faz-nos dimensionar a complexidade de questões que se levantam ao estudo da organização urbana em época de dominação romana (1).
A própria Romanização não consistiu num processo de aculturação único ou unidireccional, mas numa trama complexa de interacções entre grupos de agentes muito variados. Todo este complexo processo de interacções, a variedade e diversidade infindável de situações e as estruturas urbanas pré-existentes com que os Romanos se deparam na Hispânia fez «flutuar», numa primeira fase, os estatutos administrativos dos aglomerados urbanos, a definição dos seus «territórios», das ciuitates, a unidade territorial de dimensão variável, organizada em torno de um lugar-chave urbanizado, a cidade, segundo conceito utilizado por Le Roux, tratando-se, em primeiro lugar, de uma divisão territorial dotada de relativa autonomia e correspondente, nos limites do possível, a uma unidade étnica, segundo Pierre Gross e Torelli, tese esta questionável pois é sabido que uma mesma etnia pode ter muitas ciuitas, entendidas como um núcleo urbano e seu correspondente território.
Digamos, que o conceito engloba, portanto, o aglomerado urbano e o território sobre o qual exerce autoridade administrativa e o próprio conceito de cidadania.
A noção de urbanidade, de que já os Romanos fizeram um dos pilares «civilizadores», contempla não só o fenómeno citadino propriamente dito, mas também a ideia de centros polarizadores de unidades territoriais, administrativas, económicas e produtivas que geram e partilham da dinâmica da cidade e das permutas feitas entre esta e outros «lugares centrais».
À volta de um aglomerado central do ponto de vista político e económico, desenvolvem-se no território pertencente à ciuitas um conjunto de actividades económicas de características fundamentalmente rústicas, pois nelas assenta maioritariamente a estrutura do Império que, gradualmente se vai tornando mais comercial.
A relação entre estes «centros» e as suas «capitais» e entre eles e os seus «territórios» fornecedores dos produtos indispensáveis para a manutenção dos aglomerados urbanos não é, por seu lado, estanque ou fixa no tempo, dependendo das relações de dominação militar e política que se estabelecem entre vencidos e vencedores, ou da permeabilidade que se consegue com as pré-existências culturais e económicas.

Não obstante, a cidade foi, como continua a ser, o local onde se organizam modelos, onde se apreende o sistema de símbolos comuns que participam de uma determinada cultura dominante, pese a capacidade de nela serem ou não integrados, ou miscigenados, valores de outras que lhe são «alheios».
A urbs foi, embora se tenha que atender ao amplo processo de adaptação entre conquistadores e conquistados, o veículo e o suporte da ordem romana dominante e do império: «um poder ecuménico cimentado em cidades e estas num corpo social hierarquizado, em cujo seio a elite perpetuava a ordem tradicional. .... Se para os gregos ... não existia fora da polis espaço para a liberdade, também o sentido romano de libertas era impossível fora de uma colónia ou um município. A romanização jurídica substituía, portanto, no plano ideal o “homem bárbaro” pelo “cidadão”», utilizando as palavras de Abascal e Espinosa, e, 1989: 45, como se poderá confirmar na bibliografia específica deste tema.
A criação de núcleos urbanos foi, pois, um dos veículos usados para a penetração e difusão da Romanidade, favorecida pelas elites locais, que procuravam a todo o custo manter a sua situação privilegiada, garantida ou mesmo beneficiada à medida que a municipalização desses núcleos se vai alargando. Fot. 1.
É, pois, nesta relação territorial que se afirma o poder da urbs; e é nessa articulação que se enforma o conceito de ciuitas.
De uma cidade, podemos, em traços largos, dizer que se conforma dos seus edifícios públicos que no Forum, o centro cívico da cidade, têm a sua maior concentração, pois é aí que se localizam os espaços administrativos e lugares de decisão, os templos, as basílicas judiciais e em redor do qual, ou nas proximidades, se localiza geralmente uma zona comercial com o seu macellum. Obviamente, e tal como anteriormente referimos, também a estruturação do Forum se altera ao longo do tempo, salientando-se, que o período imperial assiste a um ensimesmamento do mesmo que se passa a fechar mais, pois os templos dedicados ao culto imperial também exigem essa centralidade.
Mais do que em qualquer outro lugar do Império, no Ocidente, onde a arquitectura urbana se afirma tardiamente, o forum «representa o local no qual se concentram todos os símbolos da dignidade municipal, os edifícios administrativos e religiosos que definem a paisagem urbana e no qual as gerações que se sucedem, qualquer que seja o estatuto da cidade, adquirem a consciência de pertencer a uma comunidade». Os seus monumentos são a «verdadeira memória da cidade ... da sua autonomia, e das suas relações com o poder central» , utilizando as palavras de Pierre Gros.
Em termos gerais, o modelo básico de fora construídos na Hispânia, em período imperial, é caracterizado pela combinação de três elementos fundamentais: templo, praça e basílica e ainda a Cúria, edifício destinado a sede oficial do Senado do Município ou da cidade que, gradualmente, vai perdendo a sua importância.
Mas a cidade é também feita da sua estrutura viária que a organiza, quer os espaços privados e domésticos, os seus bairros ou insulae, os quarteirões de prédios que podem ter vários pisos; das suas habitações ou domus, as casas abastadas; dos seus edifícios termais ou dos balneários, garante da higiene e saúde públicas; dos seus templos ou mercados; das suas estruturas hidráulicas, garantindo o fornecimento e escoamento de águas; dos seus aquedutos, poços e cisternas; das suas actividades artesanais ou industriais, das suas olarias, instalações metalúrgicas, geralmente periféricas, ou piscatórias; das suas zonas comerciais, e ainda dos lugares de espectáculo através dos quais Roma se impõe também nos seus mais longínquos territórios, fossem eles os teatros, anfiteatros ou circos.
Dotadas ou não de muralhas ou portas, de plantas hipodâmicas que denunciam fundações de raiz ou precedidas de acampamentos romanos, ou de malhas urbanas menos recticuladas, adaptando-se a topografias ou a fundações de épocas anteriores que inviabilizam o modelo ideal ortogonal, as cidades são, sem dúvida os grandes alicerces do Império Romano e o símbolo de um sistema organizativo religioso, social e político. Falar de Cidade, é pois, falar de uma vida intensa que, em Roma, a capital, fez concentrar tanta gente e tantas actividades que fez surgir a necessidade de criar corpos de bombeiros e legislação adequada ao tráfego de veículos de transporte de mercadorias e que, em escala maior ou menor, as capitais do império quiseram mimetizar.
No que respeita ao Ocidente da Península Ibérica, Roma elege três cidades onde centraliza a estruturação da sua nova realidade político Administrativa: Pax Iulia (Beja), uma colónia de cidadãos romanos; Liberalitas Iulia Ebora (Évora), uma cidade de direito latino, e Felicitas Iulia Olisipo (Lisboa), com estatuto de município, todas com o epítetos que evocavam César e as virtudes “júlias”, utilizando as palavras de Carlos Fabião (2006) - ver bibliografia disponível no link abaixo mencionado.
Mas a criação da Lusitânia, provalvelmente em 16 ou 15 a.C. com a capital em Augusta Emerita (actual Mérida), fundada como colonia em 25 a.C. e a divisão em novas circunscrições administrativas, os conventus, vem originar a criação de novas capitais: Augusta Emerita; Pax Iulia e Scallabis (Santarém), as três com estatuto colonial, que, por sua vez, vem originar a proliferação de núcleos urbanos de menor escala que estruturaram o território.
Mas sobre essa temática das cidades da Lusitãnia, deixaremos a quem tanto ao tema se tem dedicado …


Para a Bibliografia específica sobre cidades, ver:http://www.portugalromano.com/2011/01/mirobriga-e-as-cidades-romanas-bibliografia-por-filomena-barata/

(1) Este artigo baseia-se parcialmente na introdução da tese de mestrado da signatária, disponível em:http://independent.academia.edu/FilomenaBarata/Papers/833828/Mirobriga_Arquitectura_e_Urbanismo
 — em Beja

Arco romano de Pax Iulia (Beja).

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Setúbal na Rede, Lembrando a Arqueologia


Maria Filomena Barata
Liga de Amigos de Miróbriga
Estando Caetobriga (Setúbal), a que já tantas vezes aqui nos referimos, incluída na Província romana da Lusitânia, não poderei deixar de registar os encontros que, e boa hora, se estão a desenrolar no Museu Nacional de Arqueologia.
Inserida no programa “Extremadura es Cultura” decorreram já nesse Museu três conferências, sendo a primeira delas, submetida ao tema "Lusitânia romana: um projecto de Portugal e Espanha". O tema foi apresentado por Trinidad Nogales Basarrete, Conselheira de Educação e Cultura do Governo da Extremadura, e António Carvalho, Director do Museu Nacional de Arqueologia de Lisboa.
Interessante foi tomar conhecimento dos vários projectos de âmbito cultural já corporizados através de candidaturas financiadas pelo Quadro Comunitário, designadamente o INTERREG, e, principalmente, ver apontadas novas linhas de trabalho que se prevê venham a ser desenvolvidas em parceria, designadamente encontros sobre as cidades da Lusitânia e a eventual criação de itinerários entre as mesmas.
Lembramos que, em 2014, se comemora os 2.000 anos da morte de Augusto, esse imperador que pôs fim à guerra, originando a que foi conhecida por Pax Augusta.
Responsável por uma grande reforma administrativa, Augusto criou novas províncias na Iberia, tendo aparecido a Lusitânia, com capital em Mérida.
Citando Amilcar Guerra, “deve, em primeiro lugar, ter-se sempre presente que o termo Lusitani é uma criação romana e que a ideia de um território chamado Lusitania nunca chegou a consolidar-se antes da criação tardia de uma província romana comesse nome».
Data também do seu reinado a subdivisão em conventus, sendo o que abrangia uma vasta área do sul do território actualmente português o Conventus Pacensis, com capital em Pax Iulia (Beja), cuja designação fazia juz à Paz de Augusto. e a criação de outras importantes cidades da Lusitânia e outras províncias.
Assim, pese ser bem pequena a minha crónica de hoje, não posso deixar de referir que também a Associação Portugal Romano deseja juntar-se a essa efeméride através da edição de uma revista, em 2014, dedicada à obra de Augusto e vejo com algum optimismo que as realizações culturais ainda estão na agenda, salientando ainda a importância da conferência do Doutor Carlos Tavares da Silva, dedicada a Caetobriga, no próximo dia 16 de Novembro, na Casa da Cultura (Setúbal), pelas 21h 30m.
Crónica de Novembro de 2013, Setúbal na Rede.
Na fotografia: Pulseira proveniente de Miróbriga, Museu Municipal de Santiago do Cacém.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Sabia que Santiago do Cacém muito sofreu com o Terremoto? (reed. de 13 de Agosto 2012)




Acima: No Museu Municipal de Santiago do Cacém. Homenagem a Dr. Cruz e Silva, fundador do Museu
                                                                                                Abaixo: Com António Chinita, GTL. 1992
.....


Ao Gentil Cesário, porque não posso ir ao lançamento do seu livro.
Ao José Matias que tanto me ensinou sobre Santiago do Cacém.
Ao António Chinita que melhor quis conhecer a cidade, enquanto coordenador do seu GTL.
Ao António Bairinhas que tão bem a fotografou.
Ao José Carlos Quaresma e Isabel Inácio pelo seu contributo no estudo que dedicámos à cidade e seu território, parte dele no âmbito do Programa Cultura 2000.
Hoje a todos eles, porque estando febril não os posso visitar, pese tantas serem as saudades!
















Santiago do Cacém tem sido, desde longa data, objecto de inúmeros estudos locais e de trabalhos científicos sistematizados.

A obra de Bernardo Falcão, no século XVIII, e o levantamento feito pelo padre António de Macedo e Silva, no século passado, são exemplos paradigmáticos da historiografia local, indispensáveis a qualquer tentativa de abordagem histórica.
As pesquisas arqueológicas que incentivou Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, no inic¡o do século passado, e as de Cruz e Silva, na década de 50 na centúria passada, e ainda as de

D. Fernando de Almeida, nos anos 70, são também exemplos da investigação que tem tido por objecto esta zona.
O guia toponímico de António Jacinto de Vilhena, de 1938, e fundamentalmente, o livro editado sobre a Toponímia das Ruas de Santiago do Cacém do professor Manuel João da Silva e uma mais recente monografia dedicada à cidade são os principais trabalhos nesse domínio.
Os estudos de João Madeira, Sérgio Bento e Maria Ascenção Beja dos Reis, editados nos Anais da Real Sociedade Arqueológica Lusitana e noutras publicações da especialidade, ou ainda não editados, são representativos da continuidade que a investigação tem tido em Santiago do Cacém, bem como os estudos de José Matias e o que agora editado de Gentil Cesário.

Mas se bem que muita documentação exista sobre a história deste aglomerado, podemos afirmar que ainda há muitas lacunas ao nível da compreensão histórica, fundamentalmente no que diz respeito aos primórdios do núcleo urbano. Para um melhor conhecimento dos per¡odos de ocupação menos conhecidos haveria que incrementar trabalhos arqueológicos no concelho que, recentemente, têm tido apenas intervenções pontuais.


                         O primeiro automóvel - Panhard Levassor - Conde Avilez (Santiago do Cacém) 1895


II - CARACTERÍSTICAS GEO-MORFOLÓGICAS

Santiago do Cacém fica situada no limite de uma faixa acidentada que se desenvolve a Este, constitu¡da pelos contrafortes da Serra de Grândola e do Cercal, de que Santiago se pode considerar a retaguarda.

A altímetria de Santiago varia entre 254m acima do n¡vel do mar, que corresponde ao ponto mais alto da colina onde está implantado o castelo, e os 200m, nas zonas mais baixas, que correspondem aos acessos viários entre o Cercal do Alentejo e Santiago.

A colina da Sra. do Monte, muito possivelmente um dos focos de crescimento urbano a partir do século XVI aproxima-se dos 224m.


A zona do Forum romano de Miróbriga situa-se, curiosamente, a uma cota altimétrica de aproximadamente 246m, numa situação geo-estratégica dominante, muito semelhante à que ocupará, mais tarde, o castelo.

Podemos concluir que existe aqui uma ocupação de "crista" e uma penetração de vale.

A oeste, uma faixa arenosa e plana estende-se praticamente até ao mar. Uma série de lagunas fazem o contacto entre a terra e o oceano, fertilizando as zonas mais interiores.

Não são bem conhecidas nesta zona as modificações das linhas da costa que deverão ter contribuído para alterações nas formações lagunares.

A cartografia desta zona representa, desde o século XVI, uma lagoa, denominada comummente como "da Pera" que se desenvolveria até Santiago do Cacém. Trata-se, muito provavelmente, de um erro de representação cartográfica, uma vez que ela era feita, na maioria dos casos, e até ao século XIX, por repetição de mapas anteriores, sem devida batida de campo.

No entanto, admitimos a exitência de uma lagoa que melhor favorecesse a relação entre o mar e as zonas mais interiores.


2 - RESUMO HISTÓRICO


São conhecidos vest¡gios de ocupação humana no território de Santiago desde o Paleol¡tico. Contudo, os mais marcantes, porque devem ter tido um importante papel como ordenadores do território, são os da cidade de romana adjacente a Santiago do Cacém.

Miróbriga, importante urbe latina, desenvolveu-se assim numa das colinas fronteiras a Santiago do Cacém, denotando a preocupação geo-estratégica dos seus fundadores proto-históricos.
A dominação romana evidencia a estruturação do território, quer sob o ponto de vista pol¡tico-religioso e administrativo, quer comercial. Os eixos de comunicação estabilizam-se com a romanização e, embora não sejam conhecidos vest¡gios de estradas vicinais, a teia de relações entre Miróbriga e Sines (muito provavelmente o porto que servia esta cidade) a Oeste, entre Salacia e Caetobriga e Tróia, a Norte, e entre Miróbriga e o interior deve ter-se afirmado.
A ponte do Cacém, possivelmente constru¡da no século XVI, deve sobrepôr-se a um caminho anterior que ligaria a Sines. Não se conseguiu detectar, no entanto, na construção desta ponte indíc¡os da sua origem romana.
Uma outra estrada uniria Miróbriga a Beja, passando pela zona de Aljustrel (centro mineiro) e, talvez, por Alvalade do Sado ( onde existem vest¡gios de antigas Villae e que deveria ser um grande centro de fornecimento de produtos agr¡colas na região). Para Sul, muito provavelmente se faria a ligação através do Cercal (onde, embora desconhecidos testemunhos de mineração romana, deveria certamente ter havido importante exploração que, na actualidade, mantém o seu vigor) em direcção a Vila Nove de Milfontes. A cartografia que consultámos demonstra estas ligações, ao longo de séculos (o mapa mais antigo que encontrámos data do século XVI).

Segundo Estrabão, as cidades romanas mais importantes do Sul são as que se situam junto dos rios, canais ou do mar, sendo o comércio o grande responsável pelo desenvolvimento do urbanismo.
Miróbriga, situada num cruzamento de eixos onde se interligam várias actividades extractivas e provida, como já anteriormente dissémos, de uma favorável posição geo-estratégica, deve ter-lhe devido o seu crescimento. O rio Sado, relativamente próximo, e o mar eram os ve¡culos de transporte dos bens e das gentes.
Continuam sem ser bem conhecidos o per¡odo de domínio "bárbaro" (visigótico?) e muçulmano, podendo afirmar-se o mesmo em relação aos primórdios da Reconquista Cristã.
Nos arredores de Santiago, apareceram vest¡gios arqueológicos, mais especificamente dois sarcófagos, que indiciam uma população de primitivos cristãos, mas desconhecem-se os povoados que lhes corresponderiam.
O aglomerado urbano foi, nesse per¡odo, esvaziado do seu poder centralizador, dada a fragmentação do Estado romano e do poder, que passa a depender dos grandes proprietários e dos chefes militares."A relação jurídica entre o pólo urbanizado da cidade e o territ¢rio envolvente do seu distrito começam a quebrar-se", utilizando as palavras de Carlos Alberto Ferreira de Almeida.

Muito possivelmente no per¡odo islâmico, a ocupação humana transferiu-se para a colina do castelo.
D. Fernando de Almeida, arqueólogo responsável por algumas campanhas de escavação em Miróbriga, adiantava a hipótese de a¡ ter existido um castellum romano no qual assentaria o castelo. Não existem, no entanto, até à presente data, quaisquer documentos ou dados arqueológicos seguros que o possam assegurar. As escavações arqueológicas dirigidas por Sérgio Bento na tulha do castelo deram alguns materiais que foram classificados como árabes, se bem que numa reduzid¡ssima quantidade.
No "termo" de Santiago a toponímia e o vocabulário, fundamentalmente o ligado às actividades agrícolas que, no passado, como hoje, definiram o carácter económico da região, atestam marcante influência muçulmana.

É sabido que "com a organização do estado cordovês, islâmico, sob os emires, o território português fica dividido, a sul do Tejo, em duas Koras, ditas de Beja e de Ossónoba.
A existência de um governador à cabeça de um território, dotado de um corpo militar, cria a necessidade de um castelo-alcáçova que garanta a segurança. Santiago do Cacém pode ter assumido o controle de um determinado território, mas como já foi referido, nada nos permite afirmá -lo convictamente.

Não obstante, é muito comum na orla do Mediterrâneo, sobretudo no mundo muçulmano, que "os novos detentores do poder (se fixem) nas mesmas cidades do que os romanos, embora com algumas transferências de lugar, e mantêm, portanto o vigor da civilização urbana. O mundo árabe não n¢mada adopta a fixação espacial do poder em centros urbanos e, consequentemente, assegura a continuação das cidades.
Já não acontece assim com o mundo feudal. O poder político fragmenta-se. As funções estatais caem nas mãos dos senhores privados leigos ou religiosos.(...) As cidades só voltam, e, ainda assim lentamente, a recuperar o seu dom¡nio sobre os seus termos, quando nela se fixam, de novo, os princípes e reis, quer façam a¡ a sua residência permanente ou temporária, quer a¡ se apoiem em delegados seus para governarem territórios mais vastos, quer o fa‡am directamente. Ou então, quando os senhores feudais, leigos ou eclesiásticos, acabam por dominar territórios mais vastos , e se tornam assim de recursos sufucientes para concentrarem o poder pol¡tico num ponto, atraindo, então, mesteirais e mercadores (José Mattoso in Cidades e História).

Os primórdios da Reconquista Cristã são também mal conhecidos. Dada a posição geográfica que tem este s¡tio e dados os avanços e recuos dos cristãos no termo de Álcacer, a data da tomada de posse deste território pelos cavaleiros cristãos deve situar-se entre 1218 (quando se reconquistou Alcacer) e 1234, quando é tomada Aljustrel.
Esta zona deveria, então, passado para a mão dos Espatários que, no interior da fortaleza, deveriam albergar alguns elementos da Ordem.

No entanto, para um estudo pormenorizado da Reconquista haveria que conhecer melhor a geo-estratégia utilizada pelos Cristãos e as relações pol¡tico-diplomáticas entre árabes e soldados de Cristo e ainda a autonomia das Ordens Religiosas. Este estudo está nesta área ainda por fazer.
A Reconquista deve, no entanto, ter-se feito ao longo dos vales, penetrando em territ¢rios controlados por praças eminentemente defensivas e que ocupavam terras férteis e economicamente desejadas.
Só as Ordens Religiosas estão capacitadas, dada a sua organização, a responder às necessidades da Reconquista; só elas podem assegurar, nessa época, os recrutamentos e treinos militares sistem ticos, colectar e investir as rendas, angariar povoadores e reconstruir núcleos devastados. A Ordem de Santiago, a mais poderosa a Sul do Tejo e que possui a mais vasta extensão de terras, controla as pricipais povoações e portos, acumula privilégios fiscais, o que contribuir para que se torne autónoma em relação a Castela em finais do século XIII.

Datam do reinado de D. Dinis os primeiros documentos conhecidos sobre privilégios dados a este lugar, que obteve com D. Manuel a confirmação do seu foral.


4 - A FUNDAÇÃO DE SANTIAGO E A EVOLUÇÃO URBANÍSTICA
PERÍODO MEDIEVAL

Em Portugal, a criação de meios urbanos capazes de colonizar as terras conquistadas aos muçulmanos, atraindo colonos com benef¡cios e foros especiais, permitiu o desenvolvimento concelhio, fundamentalmente a partir de D. Afonso III. " No que toca à legislação, o direito municipal estava praticamente terminado com Afonso III" (4 - O Espaço Medieval da Reconquista no Sudoeste da Pen¡nsula Ibérica, p. 19).

O surto económico dos aglomerados urbanos, a partir do século XIII, e a dinâmica dos seus burgueses com o apoio da iniciativa régia, irão dar às cidades um novo papel, muito relevante, na administração regional, tornando-as cabeça de territ¢rios, mais ou menos extensos. Toda a cidade procura ter um "termo", sobre o qual tem direitos judiciais ou outros, tais como o de impor - sempre com a autorização régia, mas de algum modo ainda "senhorialmente" - tributos para as suas obras "públicas", sejam muralhas, calçadas ou novos arruamentos"((5 - Carlos Alberto Ferreira de Almeida in As Cidades e a História, p. 137).
A partir do século XII, concorre, com ela (cidade), a palavra "vila", com sentido novo, de aglomerado cercado, urbanizado, não episcopal.(...) "Fazer vila" significava, nesse tempo, cercar uma povoação com uma obra defensiva" (6 idem, ibidem, p.138)

Em carta de 1285, D. Dinis confirma "ao concelho de Santiago do Cacem" os seus "foros escritos, e seus usos e seus custumes boons, assim como ouveram em tempo de meu padre, e de meus avoos. ( 7 -ANTT, Gaveta 14, Maço 8, Documento 9).
Em chancelaria de D. Afonso IV , este monarca refere-se a um montado da "dita vila de Samtiaguo de seu termo" (8 - ANTT, Livro de Guadiana, Folha 50 verso). Em 1363, o mesmo rei confirma os privilégios da "vila" de Santiago (9 - ANTT, Gaveta 14, Maço 3, Documento 18), acontecendo o mesmo no reinado de D. Fernando:" D. Fernando pela Graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves a quantos esta carta virem fa‡o saber que eu querendo fazer graça e mercê ao concelho, e homens bons de Santiago do Cacém outorgo-lhes e confirmo todas as honras e privilégios e liberdades que lhes foram dados e outorgados pelos reis que antes de mim foram, e todos seus bens foros, e usos e costumes que sempre houveram, e mando que os hajam, e usem deles pela quiza que as houverem, e usaram até à morte de El-Rei meu pai a quem Deus perdoe (...) (10 - ANTT Gaveta 14, Maço 3, Documento 28).

Fernão Lopes, na Crónica de D. João I, refere esta vila como um dos "logares que teveram voz por Portugall", confirmando, deste modo o partido que Santiago tomou pela causa do mestre de Avis.


A muralha ou cerca, característica da cidade medieval, define a fronteira entre a vida urbana e a rural , marca a dominação estratégica de um território, veda um espaço, controla as entradas e a cobrança de portagens e dá ao aglomerado um prestígio maior.
No sudoeste peninsular, muitos núcleos urbanos assumem um recúo em relação ao litoral, e possuem, muitas vezes, um canal fluvial de ligação à costa, condições que criam o controlo de uma bacia mais ou menos vasta.

A partir do século XIII, o movimento comercial marítimo aumenta, provocado pela expansão demográfica e urbana e pelo melhoramento dos meios de transporte, principalmente os mar¡timos. Os núcleos populacionais situados perto do mar reflectem, portanto, essa expansão, que se manifesta através do aparecimento de novos bairros burgueses que crescem, em muitos casos, fora das muralhas. Nestes novos burgos com arruamentos artesanalmente e especializados, como a Rua dos Açougues, Rua dos Couros, Rua da Sapataria, da Ferraria, etc."( 9 - p.140), passa a haver uma nova dinâmica urbana e uma população que tende a aumentar, organizando-se em confrarias, corporações, vizinhanças."É, tendencialmente, junto destes mesteres e nestes novos burgos que, por todos os motivos, até institucionais, se começam a estabelecer as novas ordens mendicantes, os franciscanos e os dominicanos" (...) Este tipo de expansão da cidade, fazendo-se na direcção dos principais acessos, e servindo as diferentes direcções, deu azo a um urbanismo tendencialmente radioconcentrico, tão t¡pico da Idade Média(10 - idem, ibidem, p.140).

O castelo de Santiago, de fundação templária, passou às mãos da Ordem de Santiago em 1186.


Em Santiago do Cacém, as ruas escorrem pelo declive da colina, não acontecendo o desenvolvimento radioconcentrico comum às cidades medievais, mas um crescimento mais radial.
A topografia, as condições climatéricas e estratégicas definem, deste modo, um outro modelo urban¡stico: bem abrigada dos ventos marítimos, a povoação vai crescer usando apenas a vertente nordeste da colina, protegida pela fortificação que a encima. O castelo e a igreja funcionam como o poder atractivo dessas vielas, onde se vão definindo especializações profissionais e que, gradualmente, se vão interligando entre si.

A toponímia de Santiago é clara quando atribui a ruas antigas os nomes de Rua dos Mercadores, Rua do Açougue.

A Rua da Carreira deve, possivelmente, o seu nome ao facto de ser a¡ a principal via de acesso à vila, do lado poente, para quem vinha de Sines, Relvas Verdes, Valverde .

Na sequência de uma troca havida entre a Ordem de Santiago, em 1314, parece ter-se fixado na vila D. Bataça, que herdara grandes dom¡nios por morte de D. Dinis. José António Falcão atribui à fixação da sua corte senhorial no paço do castelo e de mercadores, como Estevão Anes e sua fam¡lia, que, por esse motivo, a¡ se instalaram, o grande incremento urbano que se sentiu nessa época. O mesmo autor afirma ter-se devido a D. Bataça a edificação de um hospital-hospício, sob a invocação do Espírito Santo e a reconstrução da Igreja Matriz.
A povoação terá regressado ao controle da Ordem de Santiago após a morte de tão poderosa donatária, em 1336.

Em 1477, a vila ‚ doada ao comendador Pero Pantoja pela Ordem de Santiago.

O novo poder municipal parece ter-se sediado, em Santiago do Cacém, num dos pólos extra-muralhas - O Campo de Santa Maria, hoje denominado Largo do Conde do Bracial, onde se vão edificar os Paços do Concelho, O Hospital do Espírito Santo e a Misericórdia, com a respectiva igreja, onde se encontra um belo portal manuelino.


Assim, pode dizer-se que a partir de meados do século XV se encontrava formado o núcleo essencial da localidade, estruturado ao longo de cinco pólos de dinamização urbana: O Rossio, isto é, o Campo de Santa Maria, que coincide sensivelmente com a actual Praça do Conde do Bracial, a Carreira - Rua dos Condes de Avilez -, as ruas Direita - Dr. Francisco Beja da Costa -, Quente - Fonseca Achaiolli - e dos mercadores - Padre António de Macedo.
Símbolo do poder municipal por excelência, o pelourinho actual foi reconstruído em 1845, substituindo o antigo, muito degradado, datado do século XVIII, que havia sido construído com uma coluna proveniente de Miróbriga.
O pelourinho original, muito possivelmente da época dos Forais Novos de D. manuel, havia sido destruído com o terramoto de 1755. Localiza-se, portanto, nessa praça denominada Conde do Bracial, onde também funcionavam as Casas da Câmara e onde se instalarão também, mais tarde, palácios da nova nobreza oitocentista.


Maria José Ferro cita a existência de uma judiaria em Santiago do Cacém, atestada pelo topónimo da Rua da Judiaria - actual Travessa da Central Eléctrica.

O século XIX e o acelerado crescimento urbano que o assiste vão originar grandes alterações urbanísticas, tendo sido construído o Antigo Passeio Público, aberto em 1840. Em inícios do século XX, possuía coreto e foi local de convívio até 1920.

O Passeio Público conhecido por "Passeio das Romeirinhas" circunda toda a meia encosta da colina do castelo, sendo um miradouro da área envolvente, até ao mar, de eleição.


Mas a merecer nota são ainda em Santiago do Cacém os seus chafarizes, os moinhos e pequenas ermidas que, como atalaias ocupam as zonas de crista, para não falar dos belos exemplares que, no século XX, a arquitectura modernista conseguiu construir na cidade.









Sintetizando, poderíamos referir como grandes marcos da evolução urbana:


•OCUPAÇÃO ISLÂMICA – ÁREA DO ACTUAL CASTELO
•CONQUISTA CRISTÃ – ORDEM DE SANTIAGO DE ESPADA E REINADO DE D. DINIS (FORAL, DOAÇÃO A D. VATAÇA, MUNICÍPIO)
•SÉCULO XVI – INCREMENTO EM SERVIÇOS PÚBLICOS (MISERICÓRDIA, ENRIQUECIMENTO DOS EDIFÍCIOS EXISTENTES)
•TERRAMOTO DE 1755 – DESTRUÍÇÃO E RECONSTRUÇÃO DA VILA
•SÉCULO XIX – FONTISMO – (EXTINÇÃO DAS ORDENS MILITARES – CRIAÇÃO DE UMA BURGUESIA RICA, E CRESCIMENTO URBANISTICO)
•IMPLANTAÇÃO DA REPÚBLICA – REMODELAÇÃO DE ESPAÇOS RELIGIOSO





Fotografias a cores: António Bairinhas
Fotografias a preto e branco: Autor desconhecido (meados do século XX) e Revista Panorama, 1843.



Cartografia: Serviços de Engenharia Militar do Exército.


Nas duas primeiras gravuras, publicadas nos Annais do Município de Santiago do Cacém, em 1866 representando o mesmo pano de muralha do castelo (Este).
À esquerda representa o que se imaginava ser o castelo na sua fase inicial – século XIII.


A gravura da direita representa o castelo, em avançado estado de ruína em 1850, onde se destaca a presença da Igreja Matriz já com a sua fachada em estilo barroco tardio.

Sobre os efeitos do Terramoto, recomendo a leitura da obra de Gentil Cesário:


sexta-feira, 24 de maio de 2013

[Setúbal na Rede] - Patrimónios de Maio

[Setúbal na Rede] - Patrimónios de Maio


Filomena Barata
Liga de Amigos de Miróbriga

Patrimónios de Maio





Á Tita, ao Carlos e à Joana, todos do mês de Maio

Está quase Maio a findar. Esse mês que dizem ser das rosas e de tantas flores mais.
Recordo Miróbriga, Santiago do Cacém, e os visitantes que ali se deslocavam durante este mês de propósito para ver as colinas da cidade romana, repentinamente cobertas de um vermelho dançante das papoilas que a invadiam.
Maio é também o mês dessas flores que eram atributo de Hipno, a personificação do sono, da sonolência e irmão gémeo da morte a que Romanos fizeram equivaler a Somnus.
Segundo o escritor Ovídio, poeta latino dos séculos I a.C – I d.C. (43 a.C. - 17 ou 18 d.C.), autor de uma vasta obra, mas de que destaco o poema mitológico Metaformoses, o deus Mercúrio carregou os sonhos de Morfeu do Vale dos de Somnus aos seres humanos dormentes.  Já muitas centúrias antes, Hesíodo, no século VIII, também ele poeta, dizia que a divindade era filho sem pai de Nix (Νύξ, "noite"), a escuridão, Géia, a deusa das Trevas Primordiais ou da Terra no momento da criação. Teve Somnus muitos irmãos, entre os quais o mais importante é seu irmão gémeo Thanatos (Θάνατος, "morte"), a personificação da morte.
Mas a papoila bailante dos nossos campos aparece também associada a Deméter, a deusa da fertilidade e do trigo, considerado símbolo da Civilização, enquanto capacidade dos humanos moldarem a Natureza e das Estações do ano. A papoila era, sem dúvida, a sua flor. 

Teve Deméter uma filha do seu irmão Zeus chamada Perséfone que vivia meio ano nas profundezas da Terra e outra metade vinha ajudar a sua mãe. Com o seu regresso inaugurava-se a Primavera, marcado pelo Equinócio da Primavera.

Mas regressando a Miróbriga, embora lá não tendo podido ir este ano, foi um dos locais que recomendei para visita neste mês de Maio, vencidos alguns temores que a Pandemia nos deixou.

Ao tema dos Museus não me prenderei muito, pese ter-me dado o destino de nele nascer, mas saliento a sua reabertura ao público, este ano de 2020, após longo período de confinamento.
Recordo, contudo, que Maias constituem um ciclo de festivais que, em Roma, se relacionavam com o despertar da natureza, lembrando antiquíssimos cultos agrários.
Para os gregos, Maia era a mais velha das Plêiades, uma das sete filhas de Atlas e que, unida a Zeus, foi mãe de Hermes, o mensageiro dos deuses, conhecido por Mercúrio entre os romanos, ancestralmente considerado uma divindade agrária e da pastorícia.
Já na mitologia romana, Maia surge-nos como uma antiga divindade itálica, filha de Fauno e esposa de Vulcano, o deus romano do fogo (Hefesto na mitologia grega). Era designada de Maia Maiestas e também de Fauna ou Bona Dea (deusa das Deusas).  Maiestas personifica o despertar da natureza na primavera.
Deusa da primavera, Maia deu nome ao mês de Maio, que lhe era consagrado. No primeiro dia de maio, o flâmine de Vulcano sacrificava-lhe uma porca grávida. Era essencialmente venerada por mulheres, sendo os homens excluídos do perímetro sagrado dos seus templos. Embora não estando relacionadas originalmente, as duas divindades de origem grega e romana acabaram por ser identificadas uma com a outra. Muito provavelmente associando-se remotamente a esses rituais de sagração da primavera, provém o hábito de pendurar giestas às portas e janelas, nos portões, cancelas, carros de lavoura e até nos próprios animais, em muitas localidades portuguesas, afastando o “burro”, igualmente chamado em algumas zonas o “carrapato”, ou seja, o mau agouro que possa ser nefasto para as colheitas, no início do mês de maio. E as Maias, meninas vestidas de branco e coroadas de flores, ou as “marafonas”, as bonecas de pano ou de palha vão sentar-se à porta de casa, na esquina da rua ou na praceta, pedindo “um tostãozinho para a Maia”. Regiões há onde se enfeitam ruas e edifícios com coroas de flores de giestas, chamadas maia ou maio. Ainda hoje as Mais se podem considerar um dos rituais mais expressivos do ponto de vista da história religiosa antiga, que permaneceu, segundo alguns estudiosos, sem grandes alterações desde o século V, e que se exprime, com variantes, em vários pontos do País, celebrando, tal como acontecia na Roma Antiga, o despertar da natureza e a fertilidade. 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A Ammaia está de parabéns! E hoje lhe regressarei ... (actual. Março 2010)

















A Fundação Gulbenkian atribuiu o prémio «Vasco Vilalva - Para a recuperação e Valorização do Património" à Fundação Cidade de Ammaia.
Este prémio visa distinguir as instituições que se evidenciaram na Salvaguarda do Património, tendo considerado que o trabalho de investigação e de Apresentação ao Público desenvolvido nesta cidade romana - fundada no século I a.C. com ocupação até ao século VII - se bem que gradualmente abandonada a partir do século IV, deveria ser destacado.

Este núcleo urbano cujas estruturas arqueológicas melhor conhecidas são a sua Porta Sul, as termas e o podium de um templo, parece ter tido cerca de 20 hectares, defendendo os arqueólogos a existência de uma basílica, um teatro e de um anfiteatro.

Na mesma altura em que foi homenageado o trabalho aqui desenvolvido, foi apresentado o projecto «Radio-Past» -Radiografia da Cidade Romana de Ammaia», que pretende através de métodos e abordagens integradas e não destrutivas contribuir para "compreeender e valorizar sítios arqueológicos complexos".


Sobre este Sítio Arqueológico, poderá consultar:


http://www.portugalromano.com/20...


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Vale a pena, portanto, persistir!
Hoje o dia será dedicado a pensar no seu Museu.


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Se puder, aproveite bonita luz do Outono, vá até ao Alto Alentejo e quede-se por Marvão, porque vale mesmo a pena estar e conhecer.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Alentejanos no Facebook, uma nova etapa


Em tempos, havia desejado fazer um trabalho de fundo sobre o Alentejo através dos seus recursos, tendo como pano de fundo os QUATRO ELEMENTOS: TERRA, ÁGUA, FOGO E AR.
Partia do princípio que a todos eles correspondia um conjunto de recursos e de actividades em seu redor.
Acabados de tratar os concelhos do Alentejo na etapa que terminámos, venho assim propor uma nova abordagem temática.
A TERRA será a primeira a ser tratada, pois à volta dos recursos agrícolas, agro-pecuários e da pastorícia se fixaram as gentes, desde a Pré-História, no Alentejo.
A ÁGUA faz do Alentejo uma Mesopotâmia e foram os rios, as represas e barragens que permitiram alagar terras e fertilizá-las e ainda trocar produtos, pois muitos deles eram navegáveis e escoavam os produtos agrícolas e os minérios.
O FOGO permitiu manipular os minérios e produzir carvão. É o FOGO que permite que nos fornos do Alentejo se coza o pão e se faça o Borrego assado e tantos outros pitéus.
O AR, como essência etérea, é aqui o elemento que servirá de base para o tratamento do SAGRADO, pois também desde tempos imemoriais o Homem não só se fixou como se relacionou com o Divino de várias formas e de acordo com todas as culturas e povos que ocuparam este território.
Será também o elemento escolhido para representar a música.

Contudo, gostaria de ter da parte dos aderentes um comentário sobre a proposta de organização do nosso GRUPO, pois implicará de todos nós uma nova forma de partilhar a informação.
Paralelamente, tentaremos ir dando conta dos acontecimentos culturais que considerarmos relevantes.
Fica o repto e a enorme vontade de continuar.

Ao Luís Milhano agradeço ter-me convidado um dia para esta viagem e a confiança que em mim depositou!

Ao João Simas, colega e amigo de longa data, que, doravante, comigo o admnistrará o meu obrigada por ter aceite.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Santana do Campo, Arraiolos




Regressando, novamente ao Alentejo, 

Por ali o Tempo todo escorre. Santana do Campo, no concelho de Arraiolos de cuja sede dista aproximadamente 20 km, teve primitivamente a designação de Santana da Franzina, sabendo-se que já existia no século XVI (em 1534).
As paredes de um antigo templo romano guardam quietas entre a edificação da antiga igreja paroquial de Santana do Campo.

Sirvo-me aqui da informação publicada em http://santana6.no.sapo.pt/aldeia_santana.htm
cuja consulta recomendo:

«A Direcção Geral dos Edificios e Monumentos Nacionais descreve assim o nosso monumento:

“ -Edifício de planta rectangular centralizada, composta pela articulação horizontal de nave e ábside, com cobertura homogénea de telhado de duas águas para os dois elementos, que de resto se articulam em continuidade plena. Fachada principal virada a O., rasgada pelo vão do pórtico de cantaria granítica esquadriada, com o lintel datado de 1715, sobre o qual o paramento cego é ornamentado com tabela ovalada de estuque, com a data de 1884; remate triangular definido pelo pendente dos beirados. As fachadas N., S. e E. são marcadas por sequências de gigantescos pilares graníticos de silharia almofadada, com secção quadrada, que parecem reforçar e ornamentar os paramentos de imponente construção romana, que devem andar embebidos no revestimento de alvenaria do templo cristão.

Época Construção : Romana

Cronologia : Séc. 2 / 3 d. C. - templo romano cujas ruínas ficaram incorporadas na cabeceira da Igreja; Séc. 15 - fundação do templo cristão, deduzida do vestígio mais antigo, imagem da padroeira (ESPANCA, 1975); 1534, após - reforma geral do templo cristão; 1715 - data aposta no dintel do pórtico, correspondente a reforma integral da fachada e interior.

Bibliografia : PEREIRA, Gabriel, Antiguidades Romanas em Évoa e seus Arredores in Estudos Eborenses, Évora, 1891; CORREIA, Vergílio, Monumentos e Esculturas, Coimbra, 1924; ALARCÃO, Jorge, Portugal Romano, Lisboa, 1973; ESPANCA, Túlio, Inventário Artístico de Portugal-Distrito de Évora, Vol. 8, Lisboa, 1975; ALARCÃO, Jorge, Roman Portugal, London, 1988.”

Refira-se que “em 1916 o ilustre arqueólogo Vergílio Correia estudou o edifício, confirmou a importância das milenárias ruínas e admitiu, com bases cientificas as suas características, projectou uma planta conjectural e atribuiu, ao TEMPLO, o culto de “Carneus”, dinvidade lutitânica ou cúnea.

Se este monumento prova que a povoação é antiga, certa é ainda na área envolvente a presença humana deste o IV Milénio a.C., como o atestam as Antas das Coelhas, das Picanceiras e da Freixa, importantes monumentos megalíticos referenciados nos estudos para a “Carta Arqueológica de Arraiolos”.

Nesta publicação, António Carlos Silva e José Perdigão referenciam ainda que os vestigios romanos em Santana do Campo, poderiam corresponder a um “vicus” em resultado da romanização de uma anterior localidade indígena.

Se os estudos realizados e as referências escritas deixaram dúvidas quanto a datas e factos vejamos os dados irrefutáveis:

O Padre Luis Cardoso diz no Diccionario Geographico – tomo 1º pág 486: Santana. Freguesia na província do Alentejo, Arcebispado de Évora, comarca de Vila Viçosa, termo da Vila de Arraiolos... A paróquia tem por orago Santana ... E a capela-mor e a parte da Igreja feita de pedras de demarcada grandeza, lavrada, e fabricada; tem cal até ao telhado e dizem fora obra dos romanos, o que se parece se prova de uma pedra mármore, onde se vêem umas letras latinas, nesta forma:


AFCA

NANII

IERME

LAVS


Está outro pedaço de pedra, que parece ser de algum edifício, na qual, por estar quebrado se veêm somente as letras seguintes:

CARNEO

CALANTICE

Parece que assim se prova que neste local fosse algum dia a cidade de Calantica.


Autores há que defendem que aqui se situou a dita cidade, provavelmente fundada por Galo-Celtas nos anos 360 A.C..

Nisto das antiguidades é difícil ser perentório quanto a certos acontecimentos, mas sabemos que Mário Saa se referiu à nossa terra como localizada sobre a antiga estrada de Évora a Santarém, e, portanto local de passagem, antes da vila de Arraiolos.

Certo será também que a ruína do Templo, o fim do império romano e as diversas invasões terão tirado importância a este local».


E rumei eu, depois de ver saciada o templo romano que se esconde nas paredes da Igreja,quando a luz filtrada pelas nuvens deixa mais nítidas as marcas, para a sede do concelho, pois o caminho o caminho me levou entre a chuva até Arraiolos, onde circular já espreitava espreita o seu Castelo.


Ali, sob a praça onde tem o Município a sua sede e onde a Caixa Geral de Depósitos nos fala da melhor arquitectura contemporânea que Portugal tem, se hoje escondem as titurarias que denunciam que, desde a Idade Moderna, ali se tingiam as lãs dos mais belos tapetes de Portugal.

Marcando a praça, não a fazendo esquecer o tempo que ela já tem, pontua o pelourinho, tão belo como poucos há, pois fica naquele lugar especial e não noutro qualquer.
Actualmente sede do concelho, conhecida internacionalmente pela qualidade e beleza dos seus tapetes, o cabeço de Arraiolos parece ter sido ocupado desde o século III a.C.
Após a reconquista Cristã, as terras de Arraiolos foram entregues ao cabido de Évora.
Teve 1º Foral, de D. Dinis, em 1290, tendo sido o Castelo - em cujo interior se confirmou arqueologicamente uma ocupação anterior - mandado edificar em 1305, durante esse mesmo reinado.

O primeiro conde de Arraiolos e donatário da vila, D. Álvaro Pires de Castro, irmão de Inês de Castro, a “rainha depois de morta” celebrizada pelo grande poeta nacional Camões, mandou edificar os seus paços no Vale de Flores ou Vale Formoso, muito próximo da vila.
A partir de 1387, foi doado por D. João I a D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável do reino, o 2º conde de Arraiolos – que ali permaneceu longos períodos, antes de ter recolhido ao Convento do Carmo em Lisboa.

Com D. Manuel, Arraiolos recebe Foral Novo, em 1511.

O pelourinho a que nos referimos, implantado na praça central de Arraiolos, é o símbolo dessa autonomia concelhia.
Em 1527 inicia-se a construção do mosteiro dos Lóios, onde actualmente se localiza a Pousada de nossa Senhora da Assunção, de acordo com o orago da Igreja, pelo que são evidentes as características renascentistas do seu claustro. A Igreja, datada de 1585, sofreu obras no século XVIII, tendo sido por essa altura coberta de azulejaria, ao que se sabe, da autoria de Gabriel del barco.
Os limites do concelho são definidos Com a partir de 1736, tendo sofrido, contudo, várias alterações do ponto de vista administrativo, pois, em 1835, foi incluída no distrito de Évora e sido integrada ora no concelho de Vimieiro (1855) ; ora no de Mora (1895) de que foi desanexada em 1898.
De características profundamente rurais, Arraiolos ocupa 684,08Km2, e tem uma população de 8207 habitantes (segundo os censos de 1991) e é constituído pelas seguintes freguesias: Arraiolos, Vimieiro, Igrejinha, S. Pedro da Gafanhoeira, Sabugueiro, S. Gregório e Santa Justa.



Conhecida, como anteriormente dissemos, pelos seus Tapetes de Arraiolos, um dos mais belos bordados nacionais, chegaram até aos nossos dias graças a gerações e gerações de bordadeiras que lhes imprimiram com traços da vida da grande planície alentejana.

Ao que reza a História, nos finais do século XV, ali se terão fixado várias famílias mouriscas que, por mandato de D. Manuel I, terão sido expulsas da Mouraria (Lisboa) e que se dirigiam ao norte de África e ao sul de Espanha.

Tratando-se de artesãos exímios e face à receptividade da população local, estes indivíduos que se tornaram “Cristãos-Novos” dedicaram-se à manufactura de tapeçarias.

Os documentos mais antigos que se referem ao fabrico destes tapetes na vila de Arraiolos datam de finais do seculo XVI, supondo-se, no entanto, que a sua date de tempos mais recuados, como parece terem confirmado as escavações arqueológicas efectuadas no centro da vila.


E depois de tudo isto ver, vou encontrar o silêncio no espaço que, hoje pousada, outrora foi Convento dos Lóios, retirados do Tempo ali naquele lugar onde se acorda ouvindo os sinos a tocar.