terça-feira, 9 de agosto de 2016

O que é a Arqueologia? Filomena Barata e Antónia Tinturé


Este pequeno livrinho foi concebido para distribuir numa escola secundária de Santiago do Cacém, visando o envolvimento de alunos e docentes com interesse pela Arqueologia, no âmbito de um «Clube Europeu de Arqueologia» criado nesse estabelecimento para sensibilização à temática.
Embora incipiente e desactualizado, reproduzimos aqui o seu conteúdo, para testemunho dos vindouros.
Trata-se da sua 2ª edição, publicada em 1996.


 




segunda-feira, 1 de agosto de 2016

No Mês de Augusto

No Mês de Augusto
Filomena Barata


Retrato de Augusto. proveniente de “Myrtilis” (Mértola) .
Fotografia Museu Nacional de Arqueologia

A partir de crónica publicada em Setúbal na Rede, Agosto 2014

Ainda no mês em que se comemora a morte do Imperador Augusto (23 de Setembro de 63 a.C. — 19 de agosto de 14 d.C.) cuja importância para o actual território português foi notória, quer no que respeita à pacificação do mesmo –a  Pax Augusta – quer da grande reforma administrativa que implementou, tentaremos falar de cidades, um dos fundamentais alicerces da Romanização.
A cidade é um dos alicerces de um Império, que assenta, por um lado, na «normalização» que tenta imprimir às mais longínquas fundações, mas que se sustenta, por outro lado, à custa da diversidade local e da maximização das potencialidades regionais, faz-nos dimensionar a complexidade de questões que se levantam ao estudo da organização urbana em época de dominação romana.
A noção de urbanidade, de que já os Romanos fizeram um dos pilares «civilizadores», contempla não só o fenómeno citadino propriamente dito, mas também a ideia de centros polarizadores de unidades territoriais, administrativas, económicas e produtivas que geram e partilham da dinâmica da cidade e das permutas feitas entre esta e outros «lugares centrais».
À volta de um aglomerado central do ponto de vista político e económico, desenvolvem-se no território pertencente à ciuitas um conjunto de actividades económicas de características fundamentalmente rústicas, pois nelas assenta maioritariamente a estrutura do Império que, gradualmente se vai tornando mais comercial.
A relação entre estes «centros» e as suas «capitais» e entre eles e os seus «territórios» fornecedores dos produtos indispensáveis para a manutenção dos aglomerados urbanos não é, por seu lado, estanque ou fixa no tempo, dependendo das relações de dominação militar e política que se estabelecem entre vencidos e vencedores, ou da permeabilidade que se consegue com as pré-existências culturais e económicas.
E será essa mesma vontade de entender as fundações urbanas de Época Romana o motivo pelo que, ainda este mês, no próximo dia 23, visitaremos as Ruínas Romanas de Tróia e Caetobriga (Setúbal) com o Projecto  «Portugal Romano», a exemplo de outras visitas já realizadas, como Felicitas Iulia Olisipo (Lisboa), Ammaia, Marvão; Sines; Miróbriga, Santiago do Cacém, Liberalitas Julia (Évora), Scallabis (Santarém), entre outras. Embora existam algumas fundações de época augustana, ou pelo menos assim indicie a topomímia, a exemplo de Bracara Augusta (Braga), é sabido que muitas das cidades romanas em território actualmente português, embora já existentes, sofreram uma ampla alteração urbanística nessa época, como se pode confirmar em Conímbriga, quando foi alvo de importante renovação urbanística sob esse principado e que se estenderá até finais do século I. Assim viu aparecer as infra-estruturas comuns aos meios urbanos: casas pobres e ricas, domus decoradas profusamente com mosaicos, apartamentos, vias, termas, lugares de espectáculo, como o anfiteatro, e o seu centro cívico ou Forum.
Embora ainda seja mal conhecida a rede de centros urbanos da província da Lusitânia, instituída por Augusto, sobretudo, por falta de investigação, e passarei a citar as palavras de Carlos Fabião, um especialista da Época Romana, os «textos antigos e epigrafia revelam um leque variado de núcleos urbanos de que conhecemos somente pequenas parcelas, por outro, desconhecemos em absoluto onde se localizariam muitos dos identificados por estas fontes».
No entanto, inúmeros dos núcleos urbanos referidos por Plínio-o-Velho no século I d.C. foram sendo gradualmente conhecidos e identificados, alguns dos quais acima referimos, não esquecendo ainda Pax Iulia, a capital do conventus, o Conventus Pacensis) criado também no tempo de Augusto que ocupava o sul do actual território português, tendo por limite, mais a Norte, o Conventus Scallabitanus.
Mas, sem dívida, a criação da Lusitânia, provalvelmente em 16 ou 15 a.C. com a capital em Augusta Emerita (actual Mérida), fundada como colonia em 25 a.C. e a divisão em novas circunscrições administrativas, os conventus, vem originar a criação de novas capitais: Augusta Emerita; Pax Iulia e Scallabis (Santarém), as três com estatuto colonial, que, por sua vez, vem originar a proliferação de núcleos urbanos de menor escala que estruturaram o território#.
Poderemos dizer, assim, que o período imperial que se instala em ambiente de pacificação com Augusto cria uma nova concepção filosófica e cultural que se reflecte no urbanismo e na na arquitectura.
A cidade da "utilitas" (utilidade), "venustas" (beleza) e "firmitas" (solidez) que o Arquitecto Vitrúvio  defende na sua obra “De Architectura” , escrita ao que se sabe entre 27 e 16 a.C., assume, com o novo regime, um carácter mais monumental e mais sumptuário, coroando o poder do imperador, "instrumento divino da nova ordem". A arquitectura torna-se, com o Império, a arte por excelência.
Suetónio (69?-160 d.C.) um biógrafo latino que teria nascido na época do imperador Adriano e se terá mesmo tornado seu epistolarum register e, por isso teve acesso aos arquivos do Estado e, inclusivamente, a conhecer a correspondência de Augusto, dedicou-se a escrever a vida d’ «Os Doze Césares». Assim se refere na biografia que dedicou a Júlio César, antecessor de Augusto, que " sobre o embelezamento e enriquecimento de Roma, assim como sobre a defesa e emgrandecimento do império, (ele) concebia diariamente os mais variados e vastos projectos; propunha-se, antes de mais, um templo dedicado a Marte, maior que nenhum dos que existiam em algum lugar do mundo (...); (e) pôr à disposição do público as bibliotecas gregas e latinas, tão ricas como fosse possível".
Por sua vez a obra do imperador Augusto, para além da implementação da ampla reforma administrativa já mencionada e da criação de novos núcleos urbanos, foi, em grande parte, consagrada a reparar as ruínas deixadas em Roma pelas guerras fraticídas dos últimos tempos da República.
Os restauros em antigos templos e a construção de novos, com a finalidade de reacender o espírito religioso canalizando-o para o culto imperial, são sintomas da clara consciência que os romanos têm da vantajosa associação de construções monumentais às manifestações de índole religiosa e política. Só no ano 28 d.C. se restauraram 80 templos em Roma e terminaram-se muitas obras que tinham ficado incompletas.
Suetónio diz-nos ainda na Vida dos Doze Césares que Augusto "Embelezou a cidade de Roma, (que) não (era) ornamentada segundo a magestade do Império e exposta a inundações e incêndios, de tal forma que com razão se vangloriou de " deixar de mármore a que tinha herdado de ladrilho". O Forum de Augusto "uma das obras mais belas jamais vista", segundo Plínio (23 d.C. – 79 d.C.) na sua História Natural o primeiro exemplo de um grande conjunto arquitectónico totalmente construído em mármore. Augusto também deixou Roma segura para a posteridade, "quanto pode prever-se com a razão humana", tendo criando um corpo de guardas nocturnos que vigiavam os incêndios e mandando limpar o leito do Tibre, responsável por muitas inundações.
Também refere ainda Suetónio que Augusto construiu muitíssimos monumentos públicos, referindo como principais um foro com um templo de Marte Vingador, um templo de Apolo no Palatino, outro de Júpiter no Capitólio. "Além disso, exortou os notáveis a embelezar a cidade, segundo as possibilidades de cada um, com monumentos novos ou reconstruindo e enriquecendo (os existentes)". Ao reconstruir os templos em ruínas ou destruídos, "enriqueceu-os a uns e a outros com presentes esplêndidos".
Por outro lado, a reorganização municipal de Roma permite uma reforma de índole religiosa. Aos Lares de cada vicus Augusto associa o Génio do príncipe que, deste modo, consuma a religião imperial. Muitas das iniciativas religiosas passaram a ser subordinadas às do princeps que se tornou, a partir de Augusto, sumo pontífice. (31)
Um outro autor, Virgílio (70 a.C – 20 a.C.) a que nos dedicaremos numa outra entrada, "celebrando a terra italiana e a pátria romana, tornar-se-á o auxiliar da obra restauradora de Augusto", ao reanimar a velha epopeia romana e ao exaltar as qualidades inerendes à latinidade, designadamente no que se refere às suas raízes agrícolas.
Sem querer, nem de longe, nem de perto, prestar-lhe as honras como fazia o colégio sacerdotal que ele próprio criou para lhe render culto, o Colégio dos Augustais, gostaria apenas deixar como apontamento que Augusto foi exímio propagandista de si próprio, tendo criado um conjunto de símbolos religiosos que têm reflexo e invadem a própria na vida cotidiana, mas a que também nos dedicaremos em posterior trabalho, deixo apenas uma nota, pois falamos de Setúbal e do Sado, e os golfinhos foram também símbolos do próprio imperador.

# Sobre as cidades romanas, para uma consulta simples, poderá ler neste mesmo site:

http://ascidadesdalusitania.blogspot.pt/p/as-cidades-romanas-da-lusitania.html

Lembremos que este mês de Augusto era marcado por inúmeros festivais, rementendo para o artigo publicado em  IMPERIVM ROMANVM , disponível em:

http://www.romanoimpero.com/2016/08/agosto.html











domingo, 3 de julho de 2016

Filomena Barata, O Forte e a Ilha do Pessegueiro

Filomena Barata, O Forte e a Ilha do Pessegueiro

Património
por Maria Filomena Barata
(Liga de Amigos de Miróbriga)
(a partir de artigo publicado na Setúbal na Rede)
O Forte e a Ilha do Pessegueiro
No momento em que escrevo esta crónica, ligeiramente atrasada, pois o corpo tem vezes que nos tolhe a todos e uma forte gripe fez com que tivesse os olhos vidrados e febris, relembro com alguma saudade o dia que Fui de novo ver a minha oliveira preferida. Plantada em Miróbriga, tem crescido mal, nas imediações de outras que se têm elevado rapidamente, tornando-se mães de frutos que já se vão apanhar. Esta não, mirrada, vai dando uns rebentos verdes, para dizer que a morte ainda não a tolheu. Mas fui vê-la e acabei por decidir que, afinal, continuaria a crescer, que não ia arrancá-la do chão. Porque, já o dissera aqui, tão difícil é decidir-se da eutanásia de alguém ou de alguma coisa de que gostamos. Mas, estou certa, saberá segredar-me um dia o destino que quer ter e eu saberei ouvir o mistério que me vai sussurrar.
E, por isso mesmo, decidi-me fazer novamente a triangulação dos meus afectos: Miróbriga, Sines e o Pessegueiro e lembrei-me dos velhos caminhos romanos, potenciando o que mar fornecia, transformado o pescado em garum e salmoura, quer em Sines, quer nas fábricas de salga do Pessegueiro, que funcionaram entre os séculos II e IV, o que resta do forte filipino e as pedreiras mandadas fazer por Alexandre Massai, sem terem, contudo, obtido resultados proveitosos que fazem daquela ilha fendida um lugar mágico e especial.
Vi ainda, ao longe, o Cercal, cheirando a serra ao metal que tornava ferruginosas as ribeiras; vi o Sado de Alcácer e as lagoas que, mais a Sul, viabilizaram uma agricultura mais fértil.
Mas já a noite havia chegado, e os tons se tinham esbatido no silêncio que lhe deu lugar. Como um dos dias mais fantásticos que vivi e que por lá passei, onde se desvendaram afectos como na “Ilha dos Amores”….
E, a propósito disso, e de um circuito que há dois anos fiz, a propósito da leitura de uma tese de Mestrado em Museologia e Património Cultural defendida por Rui Manuel José Fragoso na Faculdade de Letras de Coimbra, cujos primeiros capítulos se reportavam, fundamentalmente, a uma experiência já consolidada de visitas guiadas, a partir do Porto de pesca de Porto Covo, resolvi retomar nesta crónica a ideia que aí era defendida: a existência de um “Parque Arqueológico do Pessegueiro”, cuja figura, como “instrumento de protecção, valorização e salvaguarda do património e bens culturais, (…) possibilitasse a observação e fruição de quem o visita”.
No que respeita à criação de infraestruturas consideradas necessárias à existência desse Parque, fazia essa dissertação, do nosso ponto de vista com toda a razão de ser, particular ênfase no Forte do Pessegueiro, mandado construir por Filipe III, em 1603.
A esta fortificação que não resistiu às devastações dos piratas, de que falaremos de seguida, socorrendo-nos do brilhante trabalho da autoria de António Quaresma, nem aos ataques castelhanos durante a Guerra da Restauração, sucedeu, no final do século XVII, novo forte, erguido no reinado de D. Pedro II, uma vez que a costa continuava a ter necessidade de ser defendida de piratas e corsários. É conhecida a existência de guarnição até pelo menos 1844. Era usado em conjunto com o fortim erigido dentro da ilha, arruinado pelo terramoto de 1755.
Através do estudo de António Quaresma acima referido de que resultou uma edição sobre o Forte do Pessegueiro, fez-se alguma luz sobre a necessidade de fortificar a costa portuguesa, pois o corso e a pirataria, conhecidos já desde o Período Romano, atacando barcos mercantes e populações ribeirinhas, foram prática corrente até ao século XVII.
No século XVI, o confronto entre potências europeias cristãs e o islâmico império otomano acentuaram, segundo esse historiador, a componente corsária.
A partir de África, designadamente da república corsária de Argel, na alçada do Império Otomano, ameaçando os navios e as populações saiam constantemente frotas que atacavam as costas europeias atlânticas, designadamente a portuguesa, o corso prove populações ribeirinhas viviam “com o credo na boca”, quando se suspeitava que “andava mouro na costa”.
Muitas vezes, nessa atividade que exigia bom conhecimento da costa e dos costumes, participavam renegados portugueses, participando na pilhagem de bens e no rapto de pessoas que escravizadas eram posteriormente vendidas ou resgatadas. Como também refere António Quaresma houve instituições que se especializaram no resgate de cativos, a exemplo da Ordem da Santíssima Trindade, atividade que se tornou bastante lucrativa.
Segundo o historiador que temos vindo a referir, “em finais do século XVI, a situação agravou-se, com o aparecimento de uma geração de capitães corsários, muitos deles renegados provenientes de países europeus, em que avultaram lendários nomes, como Murad Rais. No período filipino, a guerra com a Inglaterra veio, temporariamente, complicar ainda mais as coisas. Terminada esta guerra, em 1604, persistiu o corso “mouro”, ou “turco”, como era designado o corso norte-africano, que constituiu o grande problema de segurança das povoações do litoral português, entre os séculos XVI e XVIII”.
Ao longo do século XVII, vemos, portanto, os corsários, especialmente argelinos, a fazer regularmente incursões na costa alentejana. “Em resposta, tinha sido fortificada, como se pôde, a costa do Pessegueiro, de que ainda existem as ruínas do fortim da ilha e edificado o forte de Milfontes (1599-1602), pelo engenheiro italiano (de Florença) Alexandre Massai, aquando de obras para construção de um porto oceânico, tudo conjugado com um sistema de vigias e rondas a cavalo, cuja despesa corria às custas dos moradores”.
Com a Guerra da Restauração (1640-1668), as principais preocupações voltaram-se para a fronteira terrestre, de onde podia chegar uma invasão castelhana.
No fim da guerra da Restauração que chamou a terra as principais atenções, é, de novo, assumida a necessidade de se proteger o litoral dos assaltos dos corsários mouros, sendo sentida a necessidade de ser reconstruído o forte existente no Pessegueiro, do tempo de Massai.
Em 1678, após reestruturação militar promovida pelo Regente D. Pedro, e visita do Marquês da Fronteira, Marechal de Campo General da Estremadura, às fortalezas que haviam sido colocadas, nesse ano, sob a sua competência foram ordenados melhoramentos nas praças de Sines e Milfontes.
“Iniciou-se, desta forma, ainda em tempo da regência, uma importante campanha de obras na costa alentejana, sob a direcção do engenheiro oliventino João Rodrigues Mouro, que dirigia o trabalho nas fortificações da praça de Setúbal: Na costa de Sines foram construídos dois fortes: forte de Nossa Senhora das Salas [hoje chamado do Revelim], em 1680, e forte da Senhora do Queimado, mais conhecido por forte da Ilha do Pessegueiro, ou simplesmente do Pessegueiro [terminado em 1685], este último edificado sobre as ruínas da antiga fortificação da época filipina. Ambos da autoria do engenheiro Mouro”.
Pese alguns trabalhos pontuais de recuperação e de consolidação de taludes, o Forte do Pessegueiro é, do meu ponto de vista, um dos imóveis que tristemente se encontra praticamente votado ao abandono e que mereceria um grande investimento, quer pela sua privilegiada localização, quer porque permitiria torná-lo um lugar de excelência como observatório da Natureza e da antropização daquele território desde tempos imemoriais, como se pode confirmar ali bem perto nas cistas da Idade do Bronze da Herdade do Pessegueiro, escavadas por Carlos Tavares da Silva.
Independentemente da sua vocação mais ou menos turística, reitero a ideia de que este imóvel pudesse, de facto, funcionar como o pólo central de um “parque”, acrescentando à tese de Rui Fragoso uma forte componente ambiental e da Natureza que ali nos privilegia.
Contudo, apresento aqui a proposta de ocupação de espaços por ele defendida, pois pode ser um bom ponto de partida para outras abordagens:
Piso 0: recepção/Loja/Biblioteca/Centro de Documentação/Laboratório/vestiários/sanitários/auditório.
Piso 1: Sala de exposição permanente/Bar/restaurante e área de repouso e sala de exposições temporárias.
Ainda no piso 2: terraços.
Que a ilha vendida do Pessegueiro continue a contar-nos segredos imemoriais e o Forte que lhe fica fronteiro, observando-a, nos surpreenda um dia, não de atalaia aos “mouros da costa”, mas de todos os que por percurso terrestre ou marítimo o queiram visitar e ali conhecer o mar, a costa e os seus habitantes faunísticos e florísticos, bem como os Homens que aí se foram fixando!
Maria Filomena Barata – 04-02-2011 14:43
>[Setúbal na Rede] –
 
http://mirobrigaeoalentejo.blogspot.com/
Caso possa sair de Lisboa neste fim de semana ou nas suas férias, recomendo que vá ao Alentejo Litoral e espreite o que em Tróia, Santiago do Cacém, Sines e a Ilha do Pessegueiro, Vila Nova de Milfontes há para ver.
Aproveite e faça também um regresso ao tempo dos Romanos.
E se tiver a sorte de ser guiado pelo arqueólogo Rui Fragoso (C.M. Santiago do Cacém) à Ilha do Pessegueiro, ainda melhor; ajudá-lo-á também a contactar o Senhor Matias, que o conduzirá a partir do cais de Porto Côvo e tão bem conhece os segredos do mar e daquele lugar: a fauna, a flora; o construído – cetárias romanas, dos séculos II a IV; o que resta do forte filipino e as pedreiras mandadas fazer por Alexandre Massai, sem se terem obtido, contudo, resultados proveitosos para a construção do referido forte … tudo isso pode ver naquele mágico sítio.
Telemóvel Sr. Matias: 965535683
Imagens 5 a 12: Rui Fragoso
Pequenas imagens: a partir de Google.

domingo, 29 de maio de 2016

Os Centros Históricos e seus Territórios, Filomena Barata

Poderá ser lido a partir de;

Os Centros Históricos e seus Territórios
http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/10058.pdf

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Luís Fraga da Silva: Nova versão de uma carta síntese da ocupação romana do actual território português. Um ponto de vista da Geografia Histórica, em construção.





Mapa e comentário: Luis Fraga da Silva.

Um ponto de vista da Geografia Histórica, em construção.

Padrões regionais de povoamento e ocupação rural entre a Idade do Ferro e a Antiguidade Romana. Aspectos formativos e de transformação do povoamento anterior.

Zonas macro-tipológicas de ocupação, tendo em conta: factores de reorganização política territorial; factores ambientais e de capacidade de uso agrícola; e áreas de captação de centros urbanos.

Corografia elementar: lugares centrais e rede viária.

A informação arqueológica é do sistema Endovélico do ex-IPA. A cartografia agrícola é do Atlas do Ambiente.


LEGENDA DO MAPA
1 - Zonas de baixa densidade estrutural de ocupação. Áreas alagadas ou insalubres, florestas, terrenos montanhosos e de má qualidade agrícola. Povoamentos temporários e ocupações sazonais ou periódicas. Pastorícia extensiva, exploração florestal, recursos de recolecção.

2 - Zonas de alta densidade de ocupação em solos com boa capacidade de uso agrícola.

3 - Zonas de ocupação em maus solos agrícolas. Capacidade agropecuária extensiva e florestal. Zonas mineiras dispersas.

4 - Zonas com ocupação persistente e mantida desde a Idade do Ferro.

5 - Zonas com reorganização espacial do povoamento entre a Idade do Ferro e a época romana. Processos de relocalização dos lugares centrais locais, sobretudo por razões de "pacificação" e organização administrativa.

6 - Zonas despovoadas durante a época romana, com abandono dos sítios de ocupação anteriores.
Tipos de ocupação similares a 1. Causas múltiplas: genocídios, relocalizações forçadas ou sistémicas, crises ambientais.

7 - Lugares centrais (urbanos e equiparados, em construção)

8 - Villas (zonas de modo de exploração e apropriação agrária de tipo itálico, importado e assimilado).

9 - Sobreposição muito esquemática da rede viária principal, em construção, a partir do modelo de Pedro Soutinho (http://viasromanas.pt/index.html).



sexta-feira, 15 de abril de 2016

AS RUÍNAS ROMANAS DE TRÓIA, SETÚBAL, Filomena Barata




Ruínas e Pensínsula de Tróia. Fotografia aérea de 1966
Frescos da Basílica Paleocristã
  

























“… as ruinas de Troia de Setubal constituem um enexgotavel manancial archeologico. Não dá dum passeio pela praia, não se mexe na areia, que não appareça alguma cousa. Oxalá que algum Ministro se amercie d’ellas! tanto mais que é uma vergonha que esteja a findar o seculo XIX, o seculo chamado das luzes, e Portugal deixe perder para sempre estes eloquentes vestigios de grandeza do seu passado. sem lhes prestar o culto que os povos civilizados prestam a tudo o que pode servir para aclarar os problemas históricos. José Leite de Vasconcellos, Archeologo Português.


 «Quando Tróia se afundou três dias choveu areia só um homem se salvou no ventre de uma baleia».

Hoje regressei a outra Tróia, a romana, das salgas de peixe e das histórias contadas do Humanista André de Resende e de Fr.Bernardo de Brito, da Escola Historiográfica de Alcobaça, que retoma identificação de Tróia com a Caetobriga romana escrevendo: “nos tempos antigos florescera na povoação de Cetobriga a que os moradores da terra chamam Troia”.(7) Muitos autores insistem nesta identificação, como Duarte Nunes Leão, João Batista Lavanha e a Frei António de Santa Maria, Carlos Ribeiro, entre outros. João Batista Lavanha na sua “Viagem da Catholica Real Magestade del Rey D.Filipe II a Portugal”, de 1622, diz que:” Setuval. He huma das maiores, e mais assinaladas villas de Portugal, por causa do seu porto formado do Rio Cadão (9), que alli entra no Oceano, e de huma lingua de terra que o mar ha estreitado. Nesta lingua de terra que fica de fronte da villa, ouve na antiguidade huma povoação chamada Cetobriga …. onde ainda oje se vem os vestigios de tanques em que se salgarão os atuns, e outros pescados, e aparecem as ruinas de outros edificios de aquella cidade, e dellas se tirão estatuas, columnas, e muitas inscripções, que entre outras antiguidades dignas de eterna memoria se conservão na casa do duque de Aveiro”. A estas ruynas chama o vulgo Troya com que quer dar a entender que são da povoação que alli ouve”. Regressarei a uma «Rua da Princesa», assim denominada porque D. Maria, rumando ao Pinheiro, aqui passou e resolveu desembarcar para conhecer os restos de Latinos, tendo identificado uma zona residencial; voltarei à Real Sociedade Archeologica Lusitana, cujo patrocinador, o Duque de Palmela, permitiu que as escavações aí se incrementassem e aos desenhos das mãos do oitocentista Marques da Costa, que tão pormenorizados até parecem efabulação. Voltarei às «Minhas Memórias de Tróia», retomando um velho tema adiado, mas agora, certamente, enriquecido porque será mais partilhado. Aos desenhos de grandes caricaturistas portugueses que colaboraram com José Leite de Vasconcelos, certamente porque era mais uma forma de prover o sustento, desenhos esses que o Museu de Arqueologia ainda conserva, bem como às primeiras fotografias que a Arqueologia Portuguesa viu, nas mãos de M. Apolinário. Regressarei à Tróia do relevo mitraico, divindade de militares vinda do Império Oriental, que o Cristianismo acabou por banir. Pensarei, de novo, sim, no relevo mitraico que, embora sendo o único exemplar em território nacional, andou por destinos perdidos durante décadas e regressarei outrossim ao templo paleocristão.

















Relevo Mitraico de Tróia. Cópia no Museu Nacional de Arqueologia.

E regressarei ainda às sepulturas tardias de mansae, exemplares também raros e de que apenas existe um paralelo em toda a Península, onde deitados os comensais partilhavam ritualmente com os seus mortos alimentos e vinho com mel.




Fotografia das sepulturas de mansae gentilmente cedida por Esmeralda Gomes
Regressei à Tróia de poços, cisternas e reservatórios de água, para servir unidades fabris, bem como aos balneários com os seus tanques tépidos e quentes com os seus mosaicos que, alindando o espaço, permitiriam esquecer cheiros fétidos a peixe e dias suados de labor.
Voltei às unidades fabris que parecem não acabar …quilómetros de praia cheios de cetárias, de que ainda se não conhece bem a organização, mas que, todos os anos, a erosão do rio, sem que haja meios o vontade política para o
estancar, faz roubar à História . Novos poços
e tanques denunciando que o labor não acabava na zona que agora mais “central”, que não é senão a ínfima parte de uma cidade ainda por conhecer, bastando andar pela praia para uma pálida imagem se poder ter.
E recordei o reservatório com um sistema elevatório de água como poucos há e que foi objecto de estudo e publicação nos «Aproveitamentos Hidráulicos Romanos»
Rumei depois ao Columbarium, esse lugar de sossego dos mortos que ocupa o espaço já desactivado de fábricas abandonadas, onde convive, no século III, a icineração e a inumação, e às sepulturas que se vão juntando em seu redor, transformadas as unidades fabris em lugares de solidão, pela crise anunciada de um Império a ruir.
E pensei no Baptistério, hoje já desaparecido, que Marques da Costa, no século XIX, tão bem desenhou.
Regressei ainda à sepultura em forma de cupa que se implantou junto às termas e pensei na sepultura da Galla, cujo desenho, dos mais belos que já vi, também se encontra no Museu Nacional de Arqueologia, bem como a Tróia do relevo mitraico, esse deus da Luz, importado por Romanos do Mundo oriental, a cujos mistérios se acedia através da matança do touro ritual.A Tróia da «Caldeira», onde, em dias especiais, ainda se pode ver plâncton fazendo brilhar a água daquele lugar.
































































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A Tróia da «Caldeira», onde, em dias especiais, ainda se pode ver plâncton fazendo
A Tróia da «Caldeira», onde, em dias especiais, ainda se pode ver plâncton fazendo brilhar a água daquele lugar.Mas, para já, vão apenas informações gerais sobre este fantástico Sítio Arqueológico

Ruínas de Tróia, classificadas como Monumento nacional pelo Dec-Lei de 16 de Junho de 1910 Z.E.P. e área non aedificandi(DG,II Série, nº155 de 02/07/69), cujos limites precisos foram definidos na Portaria nº40/92 de 22 de Janeiro Localização : Extremo da Península de Tróia, Setúbal (Concelho de Grândola)
Caracterização: Trata-se de um dos mais interessantes conjuntos fabris de conserva de peixe do Império Romano conhecidos em território peninsular, construído nos inícios do século I d.C. e que deve ter laborado até aos séculos IV/V d.C. Para além dos tanques de salgas, estão identificadas uma área habitacional, conhecida por «Rua da Princesa», umas termas ou balnea, três necrópoles e um Templo Paleocristão que preserva ainda o revestimento com pinturas a fresco. Voltarei a Tróia, sim, mas hoje vou-me deixar levar pelo sono que o sol do dia me permitiu ter … com a alegria de saber que tanta coisa, finamente, se está a reiniciar.
À Inês Vaz Pinto e sua equipa, designadamente à Patrícia Magalhães, e à IMOAREIA os meus parabéns!
E adormecerei esta noite com a descrição de Tróia de Hans Christian Andersen: «No cais havia grandes barcos de pesca; quem quisesse, podia dar uma volta e visitar a Pompeia de Setúbal – Tróia, a aldeia de pescadores, enterrada mas parcialmente escavada (…). Voltámos para trás, não em direcção a casa mas rumo ao canal para vermos os restos de Tróia, a cidade enterrada na areia. Foi fundada pelos Fenícios; desde então, os Romanos viveram aqui e recolheram o sal da mesma maneira que ainda hoje é usada, tal como o testemunham as grandes ruínas. Em tempos idos, a entrada domar devia ser para leste; a entrada actual foi quebrada por uma grande inundação, que acabou por a bloquear com areia. Os seus habitantes foram todos obrigados a fugir; acredita-se que inicialmente procuraram as montanhas e fundaram a povoação que agora é Palmela, mas mais tarde dirigiram-se para baixo, para a costa, onde fundaram Setúbal, ainda existente. (…) Onde quer que puséssemos o pé em terra, havia grandes pilhas de pedras amontoadas, restos de lastro de navios que traziam as suas cargas de sal para a baía. Desta forma, havia ali pedras grandes e pequenas vindas de todas as artes do mundo – da Dinamarca e da Suécia, da Rússia e também da China. Podia escrever-se uma longa história sobre elas(1). (…) Tinham começado a fazer uma grande escavação, que parara devido a falta de meios (2). Não se tinha ganho muito com isso, mas sinda assim podiam ver-se alicerces de casas, vários pátios, muros altos, restos de um jardim inteiro, com uma casa-de-banho parcialmente conservada, um chão de mosaico e paredes com lajes de mármore. mesmo dentro de água, havia fragmentos e pedaços de jarros antigos e até grandes muros de pedras». 
(1) Julgo tratar-se de uma curiosa interpretação de H.C.A., se bem que a maioria das pedras que se encontram espalhadas por 2 km de extensão de costa são de origem romana, fruto da destruição das construções. (2) Uma vez que a viagem de H. C. A. teve lugar em 1866, deverá estar a referir-se às escavações efectuadas pela Real Sociedade Archeológica Lusitana que teve, inicialmente, o patrocínio de D. Fernando e do Duque de Palmela. No entanto, já anteriormente se tinham feito “explorações” no tempo da infanta D. Maria.
 

Dedico, assim, este trabalho a todos os arqueólogos que trabalharam em Tróia e que lhe dedicaram atenção. À nova equipa que se encontra neste momento a efectuar trabalhos arqueológicos em Tróia, coordenada pela Doutora Inês Vaz Pinto, vai o meu desejo de muitos e profícuos resultados.


Desenho Ara: Dario de Sousa, MNA. Lisboa.































TRÓIA, A CAETOBRIGA DOS ROMANOS?
Durante muito tempo, Tróia foi identificada com a Caetobriga de Ptolomeu e do Itinerário de Antonino (século III d.C.), sendo a ela conotada tanto por André de Resende como por muitos dos arqueólogos que aí trabalharam até ao século XIX. 
No entanto, os resultados de escavações promovidas em Setúbal vieram corroborar a opinião que Caetobriga fosse, efectivamente, a cidade que deu origem à actual Setúbal e não Tróia. 
Gaspar Barreiros‚ o primeiro autor que faz referência a Tróia, ” a qual Troia cuidaram alguns ser Salacia“, sustenta serem as ruínas de Tróia os vestígios da cidade de Cetóbriga, de cujo nome derivam igualmente o nome da península e o da cidade que se ergue na outra margem – Setúbal. Setúbal, segundo o mesmo autor, “…reteve o nome corrupto de Cetobrica, o qual nome de Cetobrica se corrompeu em Cetobra e depois em Tria onde ela foi”. Refere-se este autor aos tanques de salga de peixe de Tróia como:”salgadeiras em que se curava o peixe.” André de Resende, escritor e “arqueólogo” quinhentista, aí realizou as primeiras pesquisas de que há notícia. Como umas das figuras mais proeminentes do Humanismo Português, não será de admirar a curiosidade e fascínio que todos os testemunhos do passado clássico tenham exercido sobre este escritor. Na sua obra “De Antiquitatibus Lusitaniae”, Liv.IV – “De Cetobriga” retoma a argumentação de Gaspar Barreiros, afirmando: “Corrumpi coepit nonem in Cetobram, quam postea multo corruptius vulgos ineruditum triam fecit”. No início do século XVII, Fr.Bernardo de Brito retoma a mesma identificação escrevendo:”nos tempos antigos florescera na povoação de Cetobriga a que os moradores da terra chamam Troia”. Duarte Nunes de Leão, por sua vez, refere-se-lhe da seguinte forma:”Cetobriga que vieram corromper o nome de Setúbal para onde passou, foi também situada em uns areais onde chamam agora Troia”. Muitos autores insistem nesta identificação, de João Batista Lavanha a Frei António de Santa Maria, Carlos Ribeiro, entre outros. João Batista Lavanha na sua “Viagem da Catholica Real Magestade del Rey D.Filipe II a Portugal”, de 1622, diz que:” Setuval. He hua das maiores, & mais assinaladas villas de Portugal, por causa do seu porto formado do Rio Cadão, que alli entra no Oceano, & de huma lingua de terra que o mar ha estreitado. Nesta lingua de terra que fica de fronte da villa, ouve na antiguidade hua povoação chamada Cetobriga …. onde ainda oje se vem os vestigios de tanques em que se salgarão os atuns, & outros pescados, & aparecem as ruinas de outros edificios de aquella cidade, & dellas se tirão estatuas, columnas, & muitas inscripções, que entre outras antiguidades dignas de eterna memoria se conservão na casa do duque de Aveiro”. A estas ruynas chama o vulgo Troya com que quer dar a entender que são da povoação que alli ouve”. Em 1895, José Leite de Vasconcelos faz uma reflexão sobre este assunto e considera a identificação despropositada sob o ponto de vista linguístico:” Troia nada mais ser do que uma designação litteraria dada anteriormente ao seculo XVI às ruínas; para afirmar isto, fundo-me em que não são estas ruinas as unicas assim denominadas: no termo de Chaves ha outras ruinas a que se dá o mesmo nome de Troia”. A partir de 1957, volta a reacender-se o problema da localização de Cetobriga, uma vez que as escavações que o Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal revelaram a existência de um importante centro urbano da época romana. Tinha sido finalmente localizada a Cetobriga dos Romanos! 
Em 1960, José Marques da Costa em “Novos Elementos para a localização de Cetobriga diz a propósito deste assunto: “Caíu, há muito tempo, no campo das hipóteses indefensáveis, não sem que, antes, durante séculos, tivesse sido aceite e divulgada como verdade averiguada e incontroversa. Hoje, vergada sob o peso da provecia idade de quase quatrocentos anos – motivo de aparente autoridade! – não passa de sobrevivência dos estudos arqueológicos do Quinhentismo, incipientes, simplistas e falhos de fundamento”.
A designação da Troia romana permanece, apesar de todas as pesquisas feitas, entre as quais muito se distingue Marques da Costa (arqueólogo que nada tem a ver com o homónimo acima mencionado), no início do nosso século, uma questão em aberto. Reconhecem os arqueólogos a possibilidade de o topónimo que hoje conhecemos ter conotação com a Tróia homérica, dado o seu desaparecimento misterioso e a sucessiva invasão que as areias fizeram às ruínas.
TRÓIA, SUA HISTÓRIA: AS PRIMEIRAS INTERVENÇÕES ARQUEOLÓGICAS




(Frescos da Basílica paleocristã de Tróia)
Retomando as referências a Tróia, de Setúbal, encontramos vários documentos datados já do século XVI.
De 1502 data um, através do qual a Ordem de Santiago dá o terreno de Troia, pertencente ao seu vasto domínio, em regime de sesmaria. Encontramos ainda um auto de visitação da mesma ordem à Ermida de Nª Sra.de Tróia.
Em 1700, Fr. Agostinho de Santa Maria refere-se, no Santuário Mariano, muito provavalmente ao “Templo Paleocristão” (que amanhaã irei de novo visitar) do seguinte modo: “sepultado na areia e debaixo dela um templo gentílico , com colunas e capitéis de que ainda tem um notavel fabrico”.”
Ainda no século XVIII se encontram documentos sobre o emprazamento de Tróia, que, tal como o estipulado no de 1502, salientam: “fica de fora a pedra, que todos poderão tirar para fazerem casas e moinhos e os possuidores de sesmaria não poderão tolher a qualquer pessoa que a queira ir buscar”. Esta regulamentação justifica-se pelo facto de não existir pedra em toda a Península e toda ela ser trazida pelos Romanos de diversificados locais, designadamente a Serra da Arrábida.
Este tipo de referências repete-se por todo o século XVIII, em registos notariais, o que manifesta a destruição progressiva, mas consentida, de que este sítio foi alvo desde o começo do século XVI. As mais antigas escavações arqueológicas em Tróia datam do tempo da Infanta D. Maria, futura Rainha D.Maria I, e incidiram na zona residencial das ruínas, pelo que ‚ denominada essa zona, desde essa altura, como “Rua da Princesa”. O espólio exumado nessas explorações foi totalmente disperso. À então Vila de Setúbal foi oferecida uma coluna e um capitel coríntio, reutilizado, mais tarde, como pelourinho, ainda hoje existente na Praça Marquês de Pombal, nessa cidade.
Em período posterior, em 1850, a Sociedade Arqueológica Lusitana iniciou aí trabalhos de que há relato e cujos Diários das escavações de Tróia, foram publicados na Revista Popular:  “Foi por entre todas essas festas e galas, sempre acompanhadas de um vivo enthusiasmo, nascido das mais seductoras esperanças, alimentadas e fortalecidas … sombra grandiosa da alta protecção de um monarca e de um duque notavel e poderoso, que a Sociedade Archeologica deu começo às escavações. As primeiras foram effectuadas desde o 1º de Maio até 2 de Junho de 1850 e logo com optimos resultados, cujas not¡cias muito satisfizeram a El-rei e não menos ao Duque. ……………. Em resultado das pequenas excavações feitas colheram-se muitas e diversas antigualhas romanas, mas não tendo podido ser collocadas no Museu de Setubal como determinavam os Estatutos, força foi que ficassem em poder de alguns socios em quanto, por falta de meios, não houvesse casa apropriada”.
(A Rua da Princesa, segundo desenhos de Marques da Costa)
A Sociedade Arqueológica Lusitana tinha surgido em 1849, impulsionada pelo Padre Manuel de Gama Xarro e por João Carlos de Almeida Carvalho, a que se foram, a pouco e pouco, juntando outros estudiosos. O primeiro Duque de Palmela, que visita as ruínas de Tróia, a convite desses estudiosos, em 1849, é também convidado a ser protector da Sociedade, qualidade que reclina para El-rei D.Fernando II, que virá a ser efectivamente o protector da Sociedade. O Duque de Palmela profere em Setúbal um discurso em que afirma: “Foi hoje a primeira vez que tive o gosto de visitar as ruínas da antiga Cetobriga e, pelos vestígios das construções que ali observei, fiquei sumamente esperançado de que grandes vantagens arqueológicas, científicas e artísticas se podem obter por meio duma bem dirigida escavação, e da qual poderão resultar muita honra e vantagem para esta País e com particularidade para a Vila de Setúbal, sede desta respeitável associação. Quando porém mesmo esses achados de preciosidades se não realizem de todo, ao menos sempre um grande proveito se tirar das escavações intentadas: descobrir-se-ão essas ruínas, marcar-se-á a sua extensão, e finalmente fixar-se-ão mais as ideias para se resolver um ponto de história e de geografia, que até agora não tem sido esclarecido pelos nossos escritores, história na verdade muito misteriosa, relativamente à fundação desta populosa cidade, cuja existência deve ser de mui remota antiguidade”.
Em 1850, são publicados na Imprensa Nacional os Estatutos da Sociedade Archeologica Lusitana, Associação essa que se pode considerar a precursora da Real Associação dos Arquitectos e Arqueólogos Portugueses. Mas a ela, voltarei outro dia, bem como a Marques da Costa, mas longo vai hoje este apontamento.
Crismon da Basílica Paleocristã de Tróia. Desenho de Marques da Costa.

Medalha em ouro procedente da Necrópole da Ermida da Achada de São Sebastião – Mértola, datada do Séc. IV-V d.C Trata-se de uma pequena medalha em ouro composta por um crismon (monograma dos inícios do cristianismos que corresponde às iniciais gregas das palavras Jesus Cristo). No braço horizontal da cruz estão representados o alfa e o ómega, significado que Cristo é o começo e o fim da evolução criadora. Na parte superior da medalha encontra-se uma argola que estabelece a ligação com os três elos entrelaçados da corrente também do mesmo metal. A peça provém do interior de uma sepultura de criança/jovem.
Bibliografia: LOPES, Virgílio; BOIÇA, Joaquim (1999): “Museu de Mértola – A Necrópole da Achada de S. Sebastião”, Mértola, Campo Arqueológico de Mértola e Escola Profissional Bento de Jesus Caraça. Info retirada do site do Campo Arqueológico de Mértola em http://www.camertola.pt/
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Lucerna com representação de Hélios proveniente de Tróia. Museu Nacional de Arqueologia. 
Fotografia a partir de: http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=136168



Na imagem: Lucerna com representação de Baco.
Fotografia de Matthias Tissot


Satisfaz-me ver alguns dos resultados já visíveis no sítio arqueológico, lementando, contudo, que tantos dos estudos e trabalhos aí iniciados não se tenham levado a bom termo, pelo que me atrevo a deixar aqui algumas “velharias” dos idos anos oitenta do século passado que pude acompanhar de perto, designadamente no que respeita à valorização deste extraordinário Sítio Arqueológico, tal como os arranjos da envolvente das ruínas, a sua sinalética e mesmo a criação de bilhetes de ingresso. Trata-se de uma arqueologia ainda por fazer, mas que desejo se possa vir a efectuar.
Mais gostaria de um dia poder ver ainda publicados trabalhos coordenados por António Cavaleiro Paixão e sua equipa, bem como alguns dos belíssimos e exaustivos diagnósticos que foram acompanhados por Margarida Monteiro.