terça-feira, 19 de janeiro de 2016

FILOMENA BARATA, O PROMONTORIUM SACRUM E O ALGARVE ENTRE OS ESCRITORES DA ANTIGUIDADE (reed.)

Este texto foi elaborado e actualizado a partir do texto com o mesmo nome publicado em «Algarve, Noventa Séculos entre a Serra e o Mar», Filomena Barata.




O Promontorium Sacrum e São Vicente
 

Cit. in M.F.B. “O Promontório Sacrum e o Algarve entre os Escritores da Antiguidade”, Algarve:Noventa Séculos entre a Serra e o Mar. IPPAR.
Refira-se que este texto foi elaborado a partir de artigo com o mesmo nome, publicado na obra que tive o gosto de coordenar, acima mencionada, se bem que numa versão mais sintética com algumas alterações. Contudo, na parte final, citá-lo-ei na íntegra, caso não seja fácil o acesso ao livro.


 «No Cabo de S. Vicente não há propriamente um monumento. Há um monte artificial de cascalho, – pedras miúdas –, chamado muledre (i.e. moledo); diz o povo que aquelas pedras são soldados encantados de D. Sebastião, e que quem levar uma para casa e a puser à noite no travesseiro, verá de manhã aparecer- -lhe um soldado, que logo desaparece. Aqui parece haver um eco longínquo da passagem estraboniana, que aliás está corrupta, e por isso se não percebe toda. § No cabo há muitas aparições: figuras a andar pela praia, luzes à noite. Ouve-se uma música longínqua, sumida… e depois as luzes começam a voltijar [sic]. Aqui é que temos sem dúvida a lenda contada por Estrabão».

José Leite de Vasconcelos, 1894

cit. in: José Leite de Vasconcelos (1858 – 1941): um archeólogo português
CARLOS FABIÃO, in O Arqueólogo Português, Série IV, 26, 2008, p. 97-126
http://www.uniarq.net/uploads/4/7/1/5/4715235/fabiao_2008b.pdf

«A Noite deu à luz o destino assustador e o negro Fim.
e a Morte, e deu também o Sono, e ainda toda a raça dos Sonhos.
Depois deu à luz o sarcasmo e o Lamento doloroso,
a Noite tenebrosa, sem se ter unido a nenhum dos deuses,
e as Hespérides, que, para lá do Oceano ilustre, guardam maças de ouro, 
belas, e as macieiras de onde elas nascem.»
Hesíodo, Teogonia, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2014



Estrabão, no século I a. C., e Avieno, no século IV d.C., descrevem-nos pormenorizadamente a área compreendida entre o Estreito de Gibraltar e o Cabo de S. Vicente, esse lugar mágico onde o corpo do Santo que lhe conferiu o nome deu à costa, fazendo uma viagem mítica de Oriente, de Valência, para Ocidente.

Na descrição de Avieno, na sua Ora Marítima, diz-se do Cabo de S. Vicente que

“Então, lá onde declina a luz sideral, emerge altaneiro o Cabo Cinético, ponto extremo da rica Europa, e entra pelas águas salgadas do Oceano povoado de monstros”, sabendo-se que foi dedicado um templo a Saturno no Promontorium Sacrum.
O lugar que, em período pré-romano, já era sacralizado, devendo ter-se tornado santuário dedicado ao deus de origem púnica Baal Hammon, associado por fenómeno de sincretismo religioso ao Saturno dos Latinos, é referido por Estrabão como um local onde“não é permitido oferecer sacrifícios nem aí pernoitar. Os que o vão visitar pernoitam numa aldeia próxima, e depois, de dia, entram ali levando água, já que o local não o tem”.
Aí, desde a Pré-História, se poderão ter desenrolado rituais religiosos que Estrabão descreve da seguinte forma: (há) ” pedras organizadas em grupos de três ou quatro, as quais, segundo um antigo costume, são viradas ao contrário pelos que visitam o local e depois de oferecida uma libação são recolocadas na sua posição anterior”.
A impressão que o local deve ter causado é de tal forma que se dizia entre alguns autores da Antiguidade, como Posidónio, que o Sol aqui aumentava com o Ocaso, pondo-se com ruído, como que a extinguir-se entre as águas do Oceano.
Também Plínio (4, 115) se refere ao Promontorium Sacrum da seguinte forma:
« o Tejo é famoso pelas suas areias auríferas. Distando dele cento e sessenta milhas, ergue-se o promontório Sacro, aproximadamente a meio da parte frontal da Hispânia».


O PROMONTORIUM SACRUM
E O ALGARVE ENTRE OS ESCRITORES DA ANTIGUIDADE
FILOMENA BARATA


             Promontorium Sacrum, Fotografia de Filomena Barata                                                
                         Estranha-se a pedra porque está ali onde a olhamos e ela vê-nos à sua maneira com indiferença máxima pelo nosso andar. Andamos-lhe em volta não a ignoramos nem a conhecemos nem a domesticamos só podemos admirá-la. Virá-la para dentro. Para o tempo. Que ela mostra. É um relógio de um ponteiro que marca séculos se os contarmos e tudo o que neles acontece. Um soldado morto vive numa pedra e só nasce debaixo do travesseiro. É um sonho de pedra pequena e muita guerra vista em volta. Com muito tempo. Ninguém as retirava do seu moledro lá por Sagres.

Impressões da Lusitânia, Álvaro Lapa
(A Phala nº39, 1994)


                         Várias são as referências de autores Gregos e Romanos ao território actualmente algarvio, sendo a descrição do geógrafo grego Estrabão (século I a.C.) uma das mais pormenorizadas no que diz respeito à área compreendida entre o Estreito de Gibraltar e o Cabo de S. Vicente.
                         No entanto a Ora Maritima, de Avieno, escrita no século IV d.C., mas que se baseia fundamentalmente num périplo comercial massaliota do século VI a.C., se bem que com posteriores acrescentos fundamentados em informações gregas e latinas, continua a ser o texto mais antigo que se conhece descrevendo o Ocidente da Ecúmena e, consequentemente, a costa do Sudoeste e Sul peninsular. Apesar de continuar a levantar questões de vária índole, que se prendem com aspectos geográficos, etnológicos, gentílicos, e outros, ela é ainda uma fonte importante de informações sobre esta zona.
                         Como metodologia para a abordagem dos textos clássicos, e dada a quantidade de dados que contêm, optámos por focalizar os aspectos religiosos que o texto citado por Avieno coloca e, a partir dele, iniciar o levantamento dos autores latinos que se referem ao território actualmente algarvio.


                         1. O Promontorium Sacrum

                         Ao descrever as povoações contíguas às dos Cempsos, Avieno refere-as como tratando-se das dos Cinetes (Avieno, v. 201) e introduz o litoral algarvio referindo o Cabo Cinético (Cabo de S. Vicente): «Então, lá onde declina a luz sideral, emerge altaneiro o cabo Cinético, ponto extremo da rica Europa, e entra pelas águas salgadas do Oceano povoado de monstros» (vv. 201-205). E mais adiante, expressa Avieno «Segue-se um promontório, que assusta pelos seus rochedos, também ele consagrado a Saturno. Ferve o mar encrespado e o litoral rochoso prolonga-se extensamente» (vv. 215-217). Este segundo cabo é o que Avieno considera o «Sacro».
                         Nos versos que anteriormente citámos, Avieno diz que o promontório é também ele dedicado a Saturno. Este «também» poderá remeter-nos para um passo anterior do seu texto, onde descreve «uma ilha abundante em ervas e consagrada a Saturno. Nela a força da natureza é tanta que, se alguém navegando se aproxima dela, de imediato em volta o mar se excita: a própria ilha se agita e a água revolta-se toda, em fortes ondas, enquanto o resto do pego permanece silencioso como se fora um lago» (Avieno, vv. 165-172).
                         A tendência, entre os Antigos, de atribuir sacralidade a lugares distantes ou pouco conhecidos (Caro Baroja, 1981, 18) pode justificar a conotação religiosa destes locais.
                         Às Terríveis Górgonas foi dada como habitação o Oceano ocidental, a região da «meia-luz», onde se situava a Ibéria (Caro Baroja, 1981, 18) e o «luminoso Ocidente » (Ésquilo, ed. s/d, 61). Mela e Plínio apontavam para a morada das mesmas as ilhas Górgades — Insulae Gorgades (Pompónio Mela, III 9, 89-96, 99; Plínio VI, 200), situadas em frente ao promontório chamado «Hesperu Ceras, a partir do qual a terra firme começa a dobrar-se até ao ocaso e até ao Mare Atlanticum» (Plínio VI, 200).
                         Tal como os Titãs, Prometeu, desterrado num pico rochoso do Cáucaso ou da remota Cítia, vivia no «extremo ponto da terra» (Plínio, 17), tendo a seus pés o mar. Atlante, por sua vez, carregava a terra no «extremo ocidental do mundo» e Crono foi também exilado, após a vitória de Zeus, nas terras distantes do Ocidente.
                         Balboa Salgado admite que, na Ora Maritima, o Ocidente para lá das Colunas de Hércules é identificado com o mundo lunar, infernal e da morte, como que a entrada num mundo fantástico e mítico, onde Saturno impera. O Ocidente é o «Mundo das Trevas», da barbárie, povoado de monstros, onde se misturam o «Homem e a Besta» e onde a natureza é inóspita (Balboa Salgado, 1992, 379-381).
                         Há alguns autores que querem ver no culto associado aos corvos, manifesta na existência de una "Igreja do Corvo" no Cabo de S. Vicente, descrita por Idrisi, mais tarde uma remota relação com o seus celta Lug, também ele paralelamente senhor das trevas e da luz (Fernandes, 1993)
                         Em Avieno, encontramos várias outras referências a cabos e promontórios sacros, nomeadamente quando se refere a Herma, ou «via de Hércules», que possivelmente se deveria tratar do Cabo Trafalgar: «Depois para ocidente o cabo Sacro ergue os soberbos rochedos» (Avieno, vv. 321-22).
                         Os promontórios e as montanhas são na Antiguidade, lugares comummente sujeitos a sacralização, pelas suas características imutáveis — são «cenários fixos» da paisagem —, pelo seu aspecto grandioso e imponente que sugere a eternidade, que transcende a vida humana (Eliade, 1992, 277). Constituem pois por essa permanência marcos sacralizados da paisagem, moradas ou tronos dos deuses (Hanão, ed. 1994, 107; Blázquez, 1993, 90). E, por sua vez, muitos dos monstros a eles associados são os guardiões dessa sacralidade e imortalidade — do desconhecido afinal — onde um iniciado está proibido de penetrar (Eliade, 1992, 472).
                         Alguns autores defendem mesmo que os povos do comércio marítimo poderiam ter usado a crença nesses monstros como um estratagema que tinha em vista assustar possíveis concorrências no domínio marítimo.
                         Curiosamente, esse tipo de referências literárias a monstros é retomado no humanista Camões, quando retrata o Adamastor e as façanhas dos heróicos marinheiros portugueses na passagem do cabo das Tormentas (Camões, Os Lusíadas, V, L, LI)
                         Não é pois de estranhar que Avieno atribua ao culto de Saturno o «Cabo Cinético».
                        A Saturno dos romanos têm alguns autores querido fazer uma correspondência directa ao Crono dos Gregos, o que aliás não é totalmente correcto, se bem que exista uma clara transposição de muitas das características do deus Baal púnico para o Crono grego e Saturno latino.
                         E, muito possivelmente, pela clara conotação com as «viagens míticas», atribuídas quer a Saturno quer a Hércules, se associou o Promontório Sacro ao culto destes deuses. Saturno, detentor do Tempo e da perdida «Idade de Ouro», quando os homens estavam unidos aos deuses, tem ainda como atributo o remo e navegação. Plínio, o Antigo, situa um promontório dedicado a Saturno em Cartago Nova (III 4, 18-30), fundação cartaginesa marcadamente comercial que foi romanizada. Por sua vez, um périplo escrito possivelmente no século V a.C. inicia-se com a viagem de Hanão para além das «Colunas de Hércules», onde este rei será consagrado no templo de «Crono», em direcção ao «sol poente». Este deus (Crono) corresponde, aqui, muito provavelmente, ao deus púnico Baal Hammon, o Saturno dos romanos. Estas transposições dos deuses púnicos para a mitologia grega e latina poderão justificar ainda a sagração de muitos cabos a Poseídon, irmão de Zeus, que substitui, de certo modo, o deus Baal Ras cartaginês.
                         Hércules, herói civilizador por excelência, teria, segundo o mito, vencido simbolicamente, impondo-se a Cronos/Saturno (Balboa Salgado, 1992, 388) e lutado com Atlas na sua expedição ao jardim das Hespérides, situadas nos extremos ocidentais do mundo conhecido. Deste facto provêm muitas das designações geográficas do Norte de África na Antiguidade e algumas das quais continuadas até aos nossos dias: «Colunas de Hércules», Atlas e o próprio Oceano Atlântico (García y Bellido, 1947, 46). Pompónio Mela relata mesmo a abertura do Estreito de Gibraltar por Hércules (Mela, I, 27). Aliás, muitos historiógrafos islâmicos, medievais e modernos têm atribuído à viagem de Hércules a fundação de muitas cidades e monumentos na Hispânia, e ao seu descendente Hispan o seu primeiro reino (Estévez Sola, 1990, 139-152; Estévez Sola, 1993, 207-217). Em Portugal, essa visão mitológica e exaltante tem em Frei Bernardo de Brito, na Monarquia Lusitana , o seu expoente.
                         Para alguns desses historiógrafos Cádis era mesmo o ponto mais ocidental do mundo conhecido, ponto de união de duas grandes rotas, europeia e africana, onde Hércules deixara as suas marcas (Ordónez Agulla, 1993, 251). Por sua vez, Dante, em O Inferno, faz Ulisses conduzir o seu barco entre as Colunas de Hércules, «para um mundo sem homens, do outro lado do sol».
                         A seu modo, S. Vicente fará, segundo a lenda, a mesma «viagem mítica» de Oriente para Ocidente, até ao limite do mundo conhecido (Dias, 1990, 29), quando das invasões dos Sarracenos o seu corpo é deslocado de Valência para o «Cabo de S. Vicente do Corvo», onde se depositaram os restos mortais do mártir do século IV d.C (Nascimento, 1990, 28). A partir desse momento, o Promontorium Sacrum passou a atrair peregrinos cristãos, islâmicos e moçárabes. Do culto praticado paralelamente por cristãos e muçulmanos no local há testemunho, tendo o do geógrafo muçulmano Edrisi particular importância pelos pormenores da descrição.
                         O Promontório Sacro, e independentemente da sua localização exacta, deveria tratar-se, em período pré-romano e romano, de um santuário ao ar livre dedicado ao deus púnico Baal Hammon, associado por um fenómeno de sincretismo ao Saturno dos latinos (Schulten e Blázquez), pois Estrabão nega a existência de qualquer templo dedicado a Hércules ou a qualquer outro deus no local.
                         Admite-se pois tratar-se de um local sagrado e de sacrifício como os consagrados a Baal Hammon— tophet —. É também clara a influência semita no culto praticado no Cabo Sagrado, onde não se podia pernoitar (Estr. III, 1, 4), situação que apresenta algum paralelismo com a descrita por Avieno quando se refere ao templo de Melkart (Salinas de Frias, 1988, 138). Em todo o Antigo Testamento são constantes as referências a santuários ao ar livre localizados em pontos altos, e é no cimo de uma montanha que Elias combate os profetas de Baal.
                         O Hieron Akroterion seria, muito possivelmente, dedicado a Melkart, o «Hércules tírio» — o «Hercules Aegyptius» de Mela (Mela III, 46) — culto que, implantado por Fenícios e cartagineses, tinha grande influência em toda a área do Estreito e do Golfo Gaditano, como o comprova a existência do santuário de Heracleion (Salinas de Frias, 1988, 139; Rodríguez Ferrer, 1988, 101-110; Chaves Tristán e Garcia Vargas, 1994, 376).
                         A negação de Estrabão dever-se-ia apenas ao facto de o geógrafo grego não reconhecer os rituais de culto aí praticado. No entanto, o mesmo já não se passa em relação ao santuário de Cádis (Estr. III, 5, 5), o «Herákleion», a que dedica grande atenção.
                         O culto a Melkart/Hércules, que teve grande importância no desenvolvimento da religiosidade do Sul da Península Ibérica, assumira particular relevo em Cartago, a partir do momento em que Amílcar Barca, assimilando o conceito de monarquia helenística, adopta Melkart/Hércules como divindade dinástica (Rodríguez Ferrer, 1988, 101, 105)
                         O Cabo de S. Vicente poderia ter sido, deste modo, consagrado ao deus do panteão cartaginês (Alarcão, 1990, 297) Baal Hammon/Saturno e, por influência do poderio de Gades, a Melkart/Hércules, testemunhando a importância cultural fenício-púnica no litoral algarvio (V. Mantas, texto deste catálogo).
                         Podemos, pois, concluir que, quer se tratasse de um santuário dedicado a Baal Hammon/Saturno ou a Melkart/Hércules, não deixa de ser evidente a identificação deste local com entidades sagradas de clara conotação marítima. Leite de Vasconcellos admitira como provável, e baseando-se nas informações de algum modo divergentes dos autores clássicos, que poderia ter existido uma dualidade de santuários: um em Sagres, consagrado a Saturno e outro, no Cabo de S. Vicente, dedicado a Hércules (Vasconcellos, 1905, 214), hipótese que, pelo exposto, nos parece pouco provável.
                         Se bem que não se conhecendo vestígios arqueológicos de qualquer templo dedicado a Saturno ou de quaisquer antigos santuários do Cabo de S. Vicente, hipótese que Estrabão, segundo a interpretação de alguns autores, já havia acentuado quando cita Artemidoro: «E diz que ali não há nenhum templo de Hércules, como falsamente afirmou Éforo, nem qualquer altar a ele dedicado ou a qualquer outro deus» (Estr. III, 1, 4) — parece, no entanto, terem ali sido praticados, ao longo do tempo, rituais religiosos que se poderiam ter desenvolvido desde o Neolítico (Gomes et alii, 1987, 23). A concentração de menires no concelho de Vila do Bispo tem consentido interpretar a referência de Estrabão a «pedras organizadas em grupos de três ou quatro, as quais, segundo um antigo costume, são viradas ao contrário pelos que visitam o local e depois de oferecida uma libação são recolocadas na sua posição anterior» (Estr. III, 1, 4) como alusões a monolitos com funções cultuais (Gomes et alii, 1987, 18).
                         No entanto, a existência de rituais ligados a pedras, acompanhados amiúde de oferendas ou libações às mesmas, está atestada em muitos locais, nomeadamente em Tiro, havendo mesmo referências bíblicas a este tipo de rituais, como no sonho de Jacob:
                         «Verdadeiramente, Iawe|Deus está neste local e eu mesmo não o sabia [...] De modo que Jacob se levantou de manhã cedo e tomou a pedra que tivera ali como apoio para a sua cabeça, e erigiu-a como coluna e despejou óleo sobre o topo dela [...] E esta pedra que ergui como coluna se tornará uma casa de Deus...» (Genesis, 28, 12-22). Vários rituais ligados a pedras estão patentes em todo o Antigo Testamento, herdando-os, de certo modo, o próprio Cristianismo; Jesus diz a Pedro: «Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja e as portas do inferno nada poderão contra ela» (São Mateus, 16).
                         São inúmeras as superstições ligadas a pedras ainda vivas no Cabo de S. Vicente no início do século (Vasconcellos, 1905, 202-206), tal como, nos nossos dias, é ainda comum a prática de rituais «fertilizadores» associados a antas ou a outras «pedras».
                         Se bem que podendo admitir-se a estreita relação de práticas religiosas ligadas a pedras, como as descritas por Estrabão, com alguns rituais praticados em cultos de origem semita (Salinas de Frias, 1988, 137; Eliade, 1992, 539), não será descabido, no entanto, questionar se eles terão tido uma difusão ainda anterior ao período fenício-púnico.
                         O texto de Estrabão assume ainda, para alguns autores, uma grande importância ao nível da história das religiões antigas, porque tem sido conotado como uma das poucas notícias sobre libações de água de que há conhecimento (Blázquez, 1981, 183):
                         «Não é permitido oferecer sacrifícios nem aí pernoitar [no Promontório Sacro] pois dizem que os deuses o ocupam àquelas horas. Os que o vão visitar pernoitam numa aldeia próxima, e depois, de dia, entram ali levando água, já que o lugar não o tem» (Estr. III, 1, 4).
                         Esta interpretação não é, no entanto, isenta de dúvidas, uma vez que nada permite assegurar que a água seja usada efectivamente para libações e não sirva apenas para beber.
                         Estrabão, baseando-se em Posidónio — que desmente o fenómeno — diz que, segundo tradições populares, neste local o Sol aumenta no Ocaso, pondo-se com ruído, como que a extinguir-se entre as águas do Oceano (Estr. III, 1, 5). Estrabão tenta dar uma explicação «científica» para este fenómeno.
                         Crenças idênticas, e vigentes em período possivelmente contemporâneo, encontram-se noutros pontos da costa ocidental da Ibéria (Sousa, 1990, 365), denunciando cultos astrais de óbvia proveniência remota. «O fim do dia seria rematado por uma agonia astral que se traduziria como um baptismo cósmico semelhante ao que acontecia com Hélios no seu carro solar ao despenhar-se ritualmente no mar» (Dias, 1990, 29).
                         A associação de S. Vicente com os corvos mantém ainda uma forte conotação com a luz, aves que possuem a capacidade de dar (ou retirar) a visão (luz/sabedoria).


                         2 - O Algarve entre os escritores da Antiguidade

                         Os romanos devem ter chegado ao Algarve pelos finais do século III a.C. ou nos primeiros anos do século II a.C. na sequência do tratado de 206 a.C. pelo qual Gadir (Cádis) reconheceu a supremacia romana (Rodríguez Neila, 1980, 25-34).
                         Célticos e Túrdulos ocupariam, à chegada dos romanos, o território do Sul actualmente português. No entanto, fontes clássicas confirmam que este era habitado, antes das imigrações Túrdulas e de Celtas, por volta da segunda metade do I milénio a.C., por uma população não indo-europeia, possivelmente indígena, o dos Cónios ou Cinetes (Alarcão, 1990, 357-8) .
                         Os Cónios, que segundo Apiano se tornaram aliados dos Romanos, devem ter sofrido alguns ataques pontuais dos Lusitanos, alguns dos quais poderão ter atingido o território algarvio (Arruda e Gonçalves, 1993, 459). Esta região tornou-se, pois, palco de escaramuças entre Romanos e Lusitanos no século II a.C. e novamente local de confronto durante as guerras sertorianas. No entanto, só no século I a.C. se deve ter iniciado uma romanização efectiva da área.
                         Baseando-se também maioritariamente em autores anteriores, até porque Estrabão não conhecia pessoalmente a Ibéria, este geógrafo do tempo de Augusto usa informações gregas e latinas, tais como as de Éforo (século IV a.C.), Homero (século VIII a.C.), de Políbio (século II a.C.), de Artemidoro (século II a.C.) e de Possidónio (século I a.C.), entre outros.
                         Destinado fundamentalmente aos soldados e aos governantes, mais do que aos estudiosos (González Ponce, 1990, 83), os textos da Geografia de Estrabão utilizam, em grande parte, dados desactualizados (Abascal e Espinosa, 1989, 14). No entanto, algumas informações do texto de Estrabão são mais actuais, pois o autor já conhece a divisão administrativa de 27 a.C., a reorganização de Agripa de 19 a.C. ou 18 a.C. e a divisão de Augusto, feita entre 7 a.C. e 2 a.C. A este último momento correspondem os dados mais recentes de Estrabão, que equivalem ao definitivo ajuste da divisão provincial da Hispânia (Pérez Vilatela, 1990, 100, 114).
                         Em termos gerais, o autor deixa transparecer um relativo desconhecimento do território compreendido entre o Hieron Akroterion e o Anas (Arruda e Gonçalves, 1993, 456).
                         O livro III da Geografia é o que mais exaustivamente se prende à descrição da Hispânia, iniciando-se praticamente com a descrição do Cabo Sacro. O geógrafo grego refere-o, tal com se verifica no texto citado por Avieno, como o ponto mais ocidental da Ibéria: «Este é o ponto mais ocidental não só da Europa, mas também de toda a oikouméne» (Estr. III, 1, 4).
                         O facto de Estrabão reconhecer o promontório como o ponto mais ocidental da «oikouméne» contribuiu para várias interpretações àcerca da localização exacta do Cabo Sacro, ao ponto de Schulten considerar, a um dado momento, que se poderia tratar do Cabo da Roca, esse efectivamente o ponto mais ocidental da Europa (Schulten, 1952, 23; Mantas, 1990, 154). Contudo, o texto parece ser conclusivo quando situa o Cabo entre os Cúneos, tal como o périplo massaliota citado por Avieno no século IV d.C.
                         Da Turdetânia, região que Estrabão refere indiscriminadamente, em passos diferentes da sua Geografia, como entidade geográfica — cujos limites são indefinidos, mas que, em termos gerais compreende a «mesopotâmia» formada entre o Tejo e o Guadiana, abrangendo, portanto, o litoral algarvio, chegando mesmo a citar a cidade de Ossonoba; como unidade étnica — área de influência dos Turdetanos — e como unidade política — correspondente à província da Bética — (Pérez Vilatela, 1990, 101) Estrabão faz uma pormenorizada descrição:
                         «A Turdetânia é uma região extremamente próspera; e porque produz todas as coisas e em grande quantidade esta prosperidade é duplicada pela exportação; porque o que sobra dos produtos vende-se facilmente dado o grande número de navios mercantes. Isto torna-se possível graças aos rios e também aos estuários que, como já se disse, parecem rios e como rios são navegáveis, não só com barcos pequenos, mas também com barcos grandes, desde o mar até às cidades do interior, porque é plana em grande extensão toda a costa entre o Cabo Sagrado e as Colunas» (Estr. III, 2, 4).
Através deste trecho deduz-se o importante comércio marítimo e fluvial que se fazia na região e para os pontos do interior. Estrabão clarifica-nos quanto aos produtos originários da Turdetânia:
                         «Obtém-se da Turdetânia trigo, muito vinho e azeite não tanto, mas é de excelente qualidade [...] é abundante em carnes e peixes sazonados, não só aqui, mas no resto do litoral, depois das Colunas, em nada inferiores aos do Ponto» (Estr. III, 2, 6).
                         «Abundam as indústrias de salga de peixe, que produzem salmouras tão boas como as pínticas» (Est. III, 2, 6).
                         «A excelência das exportações da Turdetânia manifestam-se no grande número e no grande tamanho das naves» (Estr. III, 2, 6). No entanto, Estrabão elucida-nos que o comércio de maior porte é o de Cádis, onde os navios são em maior número e tamanho (Estr. 5, 3), confirmando a reconhecida importância deste porto que negoceia quer através do «Mare Nostrum» e do «Exterior».
                         Em relação à abundância de metais Estrabão reafirma, por várias vezes, a excelência da Ibéria, tal como o haviam feito Políbio, Possidónio (in Estr. III, 2, 9 e Diodoro, V, 35, 3) e o farão Tito Lívio (Liv. XXVI, 47, 7, XXVIII, 38, 5 e outros) Pompónio Mela (Chorogr. II, 84-6, 85-97; III, 8), Plínio (N.H. III, 4, 18-3; XXXIII, 61, 96, 106, 118 e outros) e Marcial (Epigr. I, 62), entre outros: «pois se toda a terra dos Iberos está cheia deles, nem todas as regiões são igualmente férteis e ricas, e com mais razão as que têm abundância de minerais, já que é raro que numa região se dêem ambas as coisas ao mesmo tempo, e raro é também que numa pequena região exista toda a espécie de metais. Mas na Turdetânia e nas regiões comarcãs abundam ambas as coisas».
                         E Estrabão é concludente quando se refere à Turdetânia:
                         «Com efeito, nem ouro, nem prata, cobre ou ferro, em nenhuma parte da terra, nem de tanto nem de tão bom se falou até agora» (Estr. III, 2, 8). A abundância era tão grande que usavam tonéis de prata (Estr. III, 2, 14).
                         Estrabão informa-nos ainda da localização dos principais centros urbanos da Turdetânia: «Os indígenas, conhecedores da natureza da região, e sabendo que os esteiros podem servir para o mesmo que os rios [refere-se às trocas comerciais] construíram as suas cidades e povoados nas suas margens, como o fazem nas ribeiras dos rios. Assim foram fundadas Asta, Nabrissa, Onoba, Ossónoba, Mainoba e outras mais» (Estr. III, 2, 5).
                         Estrabão localiza a cidade de Conistorgis em território céltico (Estr. III, 2, 2). Se bem que ainda não seja conhecida a sua localização exacta, esta povoação deveria situar-se no Baixo Alentejo ou em região a nordeste da Serra do Caldeirão (Arruda e Gonçalves, 1993, 456).
                         Em relação à localização do Promontório Sacro, Plínio (século I d.C.), contribui, de algum modo, para alimentar alguma confusão sobre a sua localização (Guerra, 1995, 35, 96). Primeiro, porque distingue dois cabos: o Cabo Cúneo e o Cabo Sacro; depois porque os situa entre os lusitani que ocupavam uma área compreendida entre as desembocaduras do Tejo e do Guadiana (Plínio, IV, 116; Berrocal, 1992, 40). No entanto, o texto é mais clarificador quando os relaciona com cidades junto a rios ou a outros acidentes naturais, o que permite considerar seguramente o Sacrum Promontorium na costa algarvia ao nomear, de Norte para Sul: Olisipo, Salacia, Merobrica, o Sacrum Promunturium, o promontório Cúneo, e os oppida Ossonoba, Balsa e Myrtils (Plínio, 116).
                         Pomponio Mela, por sua vez, localiza Lacobriga e Portus Hannibalis, perto do Promontório Sacro (Pompónio Mela, De Chorogr. III, 7), devendo, pois, admitir-se uma ligação entre estas localidades e Mirtili, Balsa e Ossonoba no «Campo Cúneo».
                         Da costa algarvia Ptolomeu refere, como já anteriormente dito, apenas Balsa (Luz de Tavira), Ossonoba e Lacobriga (Lagos), e, entre as duas últimas, situa Portus Hannibalis (Mela, III, 7). Enquanto Lacobriga é referenciada por Plínio entre as populações célticas (V. Mantas, neste catálogo), Portus Hannibalis parece sugerir uma fundação cartaginesa (Bendala Galán, 1990, 26; Alarcão, 1990, 432).
                         Vasco Mantas defende que parte do barlavento algarvio dependesse de Lacobriga e que o território de Ossonoba, município promovido no tempo de César (Alarcão, 1985, 104), passasse entre Albufeira e Lagoa, limitado a Norte pela Serra do Caldeirão (Mantas, 1990, 184).
                         A Balsa referem-se, pois, Pompónio Mela (Chorogr. III, 7), Plínio, que a integra entre as populações estipendiárias, designando-a como oppidum; Ptolomeu e Antonino (Itinerário Antonino 425, 6-426, 2). De origem provavelmente fenícia (Mascarenhas, 1978), Balsa parece ter-se tornado num importante aglomerado pesqueiro dominando um território rico do ponto de vista agrícola e mineiro (Mantas, 1990, 198-199). Jorge de Alarcão admite mesmo que Balsa poderá ter obtido o estatuto de municipium (Alarcão, 1985, 104).
                         Do Algarve temos, pois, uma visão mítica da maioria dos escritores gregos e, à medida que o Império se vai consolidando, as descrições vão-se tornando cada vez mais realistas, contribuindo para uma melhor identificação do espaço físico e das populações que nele habitam.

                           Séculos mais tarde, veremos esse Santo a quem Lisboa dedicou a sua primeira cristianizada ter como lugar de partida o Promontório Sagrado. Para Lisboa terá sido levado em barcaça conduzida por dois corvos, essas aves com capacidade de dar e retirar a visão, a luz, viu neles o símbolo que havia de guardar para a cidade.
Painéis de São Vicente

Fotografia a partir de: 
http://www.museudearteantiga.pt/colecoes/pintura-portuguesa/paineis-de-sao-vicente
(Nos seis painéis do Retábulo de São Vicente, atribuído a Nuno Gonçalves, pintor do rei D. Afonso V, revela-se um dos mais notáveis retratos colectivos da pintura europeia. Sendo este políptico fonte inesgotável de leituras e interpretações, um segmento considerável da recente historiografia concorda no facto da representação se centrar na Veneração a São Vicente no contexto das campanhas da Dinastia de Avis contra os mouros, em Marrocos. – Segundo Museu Nacional de Arte Antiga)
  


BIBLIOGRAFIA

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                         Santos, M. L. E. da V. A. dos — Arqueologia Romana do Algarve, I, Lisboa, 1972.


                         Schulten, 1952:

                         Schulten, A. —Estrabón. Geografia de Iberia (= Fontes Hispaniae Antiquae, VI), Barcelona.


                         Sousa, 1990:

                         Sousa, É. M. — Núcleo de Gravuras Rupestres Proto-Históricas Descoberto a N. do Cabo da Roca: Breve Notícia, «Zephyrus», XLIII, 1990, 363-369.


                         Vasconcellos, 1905:

                         Vasconcellos, J. L. de — Religiões da Lusitânia, II, Lisboa, 1905.

Ilustrações
Fig. 1 — O promontório de Sagres.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Mis recuerdos de la Bahía de La Coruña. Eduardo César.





Mis recuerdos de la Bahía de La Coruña.
(A long, long time ago…)

 Eduardo César.


  





            Me permito usar la licencia de comenzar este pequeño trabajo haciendo una similitud entre aquellas inmersiones furtivas de juventud, las historias de los pescadores de la zona, el poco afortunado destino del sitio en la actualidad, la cantidad de vestigios perdidos para siempre y el frío, no solo del agua, que se ha metido entre los huesos.




            Quiero incluir esta fotografía para marcar el terreno de nuestras aventuras o “prospección” como lo catalogará Felipe- Senen ya que en estas aguas resultaba difícil mantener un entramado de cuadriculas con puntos de referencias fijos tanto por la acción de las aguas (corrientes, mareas) como por el trabajo efectuado por la acción de las artes de pesca y marisqueo.
            Se aprecia bastante bien el área todavía no perdida que en la actualidad ocupa el complejo de la Solana en la que se aprecia un sombreado en la zona correspondiente al hotel y otro a la altura de Jardín de San Carlos y el Hospital. Nosotros situamos en dichas zonas restos de construcción que corresponden a los antiguos astilleros y zona de reparación de los buques que otrora recalaban en El Parrote.
            Continuando en línea recta y entre ambos se aprecia una nueva zona de sombreado que coincide con un área rocosa o edificada que así nos parecía en nuestras incursiones. Va a ser esta área y en línea recta hacia la pedregosa playa la que nosotros consideramos digna de recordar. Durante muchos años la hemos considerado como “El Puerto Romano” de La Coruña.
Si, fueron tiempos de juventud; tiempos heroicos; tiempos en los que necesitábamos creer; necesitábamos algo a lo que aferrarnos. Ahí empezó nuestra búsqueda y del mismo modo que las frías aguas calaban los huesos, Roma calaba en nuestras medulas.


Los Inicios.



            No sabía por entonces que la investigación iba a ir pareja con los incipientes pasos de la arqueología submarina en Galicia. ¿Qué pasos seguir? Sin dudarlo ni un momento era el agua. Aletas, mascara y un arpón. El mundo se abría para dejarnos sumidos en sombra. Una vez y otra, y otra… Una tarde, mientras nos vestíamos nos preguntó un hombre ¿Qué buscáis? Nos dijo: “más adelante, afuera”. Y nos contó que más de una vez han salido en los rastrillos de la almeja “cacharros viejos de barro”. “Los devolvemos al agua, están rotos, no valen”. Fue este hombre el que nos dijo:”estas pedras son mais novas, as vellas estan mas afora”. Tenia razón estaban más allá mas profundas y parecían bien alineadas. Eso si, cuando las algas y las aguas lo permitían. ¿Pedras ou rochas?.
            En eso momento llegan a nosotros noticias de que el Club del Mar y Submarinistas de la Armada se hallan realizando prospecciones. Nos pareció muy bien y en lugar de desanimarnos seguimos hacia delante. Precisamente en este punto recibo por parte de  Don Carlos Alonso Del Real y Ramos la “idea” de participar en una travesía hacia las Casiterides navegando en una embarcación de palos y piel.
            El tramo entre la puerta la Puerta do Clavo, rocas, base moderna y antigua hacia la Pebsa quedó repasado dando un fondo marino donde se observaba cambios, rellenos, fondos arenosos y abundantes y cambiantes zonas de algas.

           
           
Playa del Parrote. Años 20.

Materiales.

                       


                        Es en la década de los años setenta  y posteriores que ya tenemos materiales tangibles situados en el Museo Arqueológico del Castillo de San Anton. Ahora el complejo de la Solana ocupa toda la zona del Parrote y el material procede generalmente del dragado portuario y se clasifica en dos tipos principalmente:   1 Cerámica prerromana de tipología castreña. 2 Distintas variedades de ánforas romanas tipo Dressel 1 que incluye un disco de tierra cocida para cerrarlas. 3 Las anclas de las embarcaciones  halladas en el dragado del puerto. 4  Laudes a los D.M.S. del STATOR.











El exsactor Fortunato





                        Va a ser esta lapida dedicada a los Manes la que aporte gran información sobre el Puerto Romano de La Coruña. Sus interpretaciones son dos:
1ª Consagrado a los dioses Manes. El exsactor Fortunato (dedica este monumento) a los libertos Decimo Statorio , Principe y Félix.
2ª  El exsactor Fortunato a Decimo Statorio Principe y al liberto Decimo Statorio Félix.
                        Sea como quiera que sea, lo más importante es que los Exactores eran los recaudadores de impuestos del estado romano y esto sumado al otro exsactor Regino, que figura en los epígrafes que se conservan en la iglesia de Santiago nos sitúan en La Coruña una Statio (Oficina de recaudación relacionada con las transacciones comerciales  que son llevadas a cabo en el puerto marítimo).


Conclusiones.
                       
                        Para comprender la situación del Puerto Romano de La Coruña debemos tener en cuenta la existencia de unos determinantes previos en el entorno geográfico de la época:
1-      La existencia de la Torre de Hércules.
2-      Una ciudad romana.
3-      La existencia de castros costeros (Los Castros).
4-      Castro de Elviña. (Caput).
5-      Zona sacral megalítica. Monte das Moas.

La Torre ya es en sí misma un signo de relevancia para la que se le encarga la construcción, nada mas ni menos, que a un arquitecto lusitano llamado Caio Sevio Lupo de la ciudad de Aeminium (Coimbra), para regular el tráfico comercial de la ruta marítima del Atlántico. Y todo esto acontece en una ciudad romana con una Statio  de Exsactor  en la que se han hallado dos importantes bases estatuarias (Conservadas en la Iglesia de Santiago) dedicadas a Neptuno. En dicha ciudad se encuentra una villa con numerosas dependencias dedicadas a la industria de pesca y salazón con ánforas de diversas topologías incluidas las africanas.
La existencia de castros costeros y el de Elviña, junto con un complejo sacralizado de origen megalítico, nos dejan suponer la presencia de regulares transacciones comerciales entre lo que podemos denominar el Caput castrexo y el entorno romano. De este modo se explican la abundante presencia de ánforas en el castro de Elviña y recurriendo al profesor Luis Monteagudo tenemos otro de los productos deseados por Roma: el metal. Luis las halla en la zona de Los Castros y denomina este tipo con el nombre genérico de Tipo Coruña.(1405- 1406).
La abundancia de ánforas en la ciudad debió de ser importante ya que parte de las que se conservan en la actualidad proceden del material constructivo que se utilizó antaño en casas de la Ciudad Vieja y se entregaron al museo cuando se realizaron reformas modernas.
Con todas estas consideraciones resulta bastante elocuente que aunque no lo tengamos físicamente en la actualidad, el Puerto Romano de La Coruña fue una realidad tangible y necesaria. Debía estar asentado por fuerza en la zona del Parrote y debía adentrarse en dirección a la Pebsa con posibles pasarelas de madera.












Bibliografía sucinta.

-          Luengo Martínez J.M.1956. Noticias sobre las excavaciones del Castro de Elviña (La Coruña)
-          Blázquez Martínez José María. Puertos de la España Romana. Versión digital. Gabinete de Antigüedades de la Real Academia de la Historia.
-          Senen Lopez F. 1980. Arqueoloxía submariña: os materiais procedentes da Badia Coruñesa. Brigantium Vol. I.
-          Naveiro J.  As  ánforas romanas de A Coruña (I). Brigantium Vol. II.





A Coruña 10- XII- MMXV.





quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Conheça o hipódromo ou circo de Miróbriga (actualizado em 2023). Filomena Barata

A partir de artigo publicado em Actas do Encontro El Circo en Hispania Romana, Museu Nacional de Arte Romano, Mérida. NOGALES BASARRATE Trinidad e SÁNCHEZ-PALENCIA, Francisco Javier,(coord.), Ministerio de Educación, Cultura y Deporte deEspanha, com a colaboração da Dirección General de Patrimonio de la Consejería deCultura de la Junta de Extremadura. Madrid, 2001. 304 p., ilust. ISBN: 84-369-3532-2

Propostas de reconstituição do Hipódromo: Andrea Alves e Nuno Cruz
Maqueta: Maqueta de Miróbriga e seu Hipódromo. Alunos da Faculdade de Arquitectura, Coimbra (Professor Paulo Providência)

Fotografias aéreas: as duas primeiras do tempo de D. Fernando de Almeida
A última: Filomena Barata, 1995






Tentativa de reconstituição: Andrea Alves e Nuno Cruz



Os lugares de espetáculo, tais como os teatros, os anfiteatros e os circos foram, nas
províncias, uma das formas utilizadas para facilitar o processo de Romanização, pois
incentivavam as deslocações periódicas dos rurais à cidade, (ALARCÃO, 1992: 60).
O ecumenismo, tema fundamental da propaganda, imposto pela extensão territorial
e pela variedade étnica do Império, encontrava nos anfiteatros (e nos lugares de
espetáculo em geral) os locais ideais para a expansão da "mística imperialista"
porque neles se transcendiam todas as diversidades culturais (GROS, 1994: 22).
A construção de um hipódromo ou circo em Miróbriga, no século II d. C. deve ter
obedecido aos mesmos princípios, contribuindo para consumar a ideologia imperial.
Usamos aqui os dois conceitos baseando-nos na definição apresentada por GROS, 1996: 346. «No caso do hipódromo grego o que conta é a pista (...); se bem que o espectador não seja excluído, mas o espaço não é organizado em função da sua presença. Em Roma, pelo contrário as instalações essenciais foram desde cedo concebidas para o espectador: as bancadas que envolvem a pista definem o próprio edifício e as infraestruturas, cada vez mais desenvolvidas, do circus tinham como finalidade melhorar a qualidade do espectáculo». No caso de Miróbriga o facto de nada indiciar a existência de bancadas laterias monumentais pode fazer-nos admitir que se trate de um lugar de espectáculo que mais se aproxima da ideia do hipódromo grego.

Em Roma, os jogos circenses inseriam-se nos ludi, festivais públicos de caráter
religioso, celebrados como oferendas aos deuses em nome de um indivíduo ou de
uma comunidade. Inicialmente eram compostos exclusivamente por espetáculos
circenses (ludi circenses), aos quais se acrescentaram espetáculos teatrais e
gladiatórios (ludi scaenici e munera gladiatoria). (ELVIRA, 1991: 8-9).
Os ludi oficiais eram pagos com dinheiros públicos e, na época imperial,
correspondiam a 135 dias do ano (CRUZ, 2017: 51). No entanto, também eram
financiados por evérgetas, como veremos de seguida.
Representações teatrais (ludi scaenici), as corridas de cavalos (ludi circenses) e as
lutas de gladiadores (munera gladiatoria) são, portanto, muito mais do que meros
entretenimentos públicos, antes constituem oportunidades ideais para testar o
equilíbrio entre as várias classes e componentes da vida social romana e para
reafirmar o poder das elites que são, afinal, os verdadeiros mecenas/evergetas.

As práticas do desporto foram, no entanto, sendo alteradas, evoluindo também de
acordo com modificações que iam sendo desenvolvidos nos lugares de espectáculo e
vice-versa. A corrida padronizada era precedida de uma procissão ou pompa, onde
as equipas eram apresentadas ao público. As opiniões dividem-se no que toca ao
circuito percorrido pelo cortejo (CRUZ, 2017: 51)
Por vezes eram patrocinados por elementos das elites locais, em busca de prestígio
ou com aspirações políticas ou religiosas.
Em Miróbriga, não foram, contudo, identificados quaisquer evergetas que possam
ter (co)financiado a sua edificação, desconhecendo-se também o papel que as elites
locais possam ter desempenhado na construção de qualquer outra obra
monumental. Apenas uma inscrição com invocatória a Esculápio atesta um legado
testamentário feito por um medicus pacensis, Gaio Átio Januário, que deixou
dinheiro ao conselho municipal para que organizasse os quinquatrus 2
(ENCARNAÇÃO, 1984: 218).
O hipódromo de Miróbriga dista aproximadamente 1Km em linha reta da zona
central do aglomerado urbano, como acontece em muitos locais de espetáculo com
estas características, que são afastados por motivos práticos, dada a grande afluência
de público e localiza-se numa zona relativamente mais plana.
O acesso ao hipódromo ou circo de Miróbriga deveria fazer-se através de uma fachada
que se localizava frontalmente em relação a uma estrada de saída do aglomerado
urbano. Justifica-se, desse modo, o facto da entrada se fazer de costas viradas para o
centro da cidade.

Tentativa de reconstituição do Hipódromo: Andrea Alves e Nuno Cruz

Maqueta de Miróbriga e seu Hipódromo
Alunos da Faculdade de Arquitectura, Coimbra
(Professor Paulo Providência)






































Reconhecido por Cruz e Silva em 1949 quando da construção de uma estrada que afectou parcelarmente a zona da entrada, este estudioso promoveu trabalhos arqueológicos no local e efectuou a primeira planta conjectural do hipódromo que vos apresentamos de seguida.


Anexo à carta de Cruz e Silva, a Leite de Vasconcellos, 1935, documento 21176.
Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa.

Posteriormente o imóvel foi escavado por D. Fernando de Almeida, tendo sido ainda efectuadas sondagens pela equipa luso-americana, que contribuiram para definir mais exactamente as suas características, e feito novo levantamento das suas estruturas, o mais actualizado até este momento.

Podendo considerar-se um recinto de média proporção, se comparado com o de Mérida e o de Todelo, a arena de Miróbriga é, contudo, de maior dimensão do que a do circo de Tarragona. O hipódromo de Miróbriga mede aproximadamente 359m de comprido por 77,5m de largo.

Este lugar de espectáculo está orientado NE/SW, orientação que é considerada a conveniente para não ofuscar os agitadores ou aurigae a qualquer hora do dia. A sua implantação foi condicionada pela topografia do local, que aqui é incomparavelmente mais plano do que o sítio onde cresceu o aglomerado urbano.

Do hipódromo conhecem-se as fundações da spina, construída em opus caementicium, e os limites da arena. Pesem os restauros e reconstituições parcelares, é clara a evidência de metae - meta prima e meta secunda. Ainda é visível o revestimento que era utilizado em grande parte da spina, tratando-se de opus signinum, a exemplo do que sucede no circo de Mérida e no recentemente posto a descoberto de Olisipo.

Os muros que delimitam a arena são simples, construídos em opus caementicium, variando a sua grossura entre 60 a 90cm. A construção do hipódromo deve datar do século II d. C. e o auge da sua utilização terá correspondido ao século III d. C., seguida do seu declínio a partir de finais dessa centúria.

No lado sul do circo situam-se algumas construções que D. Fernando de Almeida identificou como tratando-se dos carceres, comparando-o ao circo de Mérida.

De bancadas perenes ou pétreas e do derrube das mesmas não existem quaisquer referências ou vestígios arqueológicos. Pode admitir-se, portanto, que as mesmas fossem construídas de madeira, suportadas por postes feitos do mesmo material. Nunca poderiam, portanto, ter tido a monumentalidade das reconhecidas em circos da Hispânia.




Por seu lado, a pista deveria ser térrea, pois é visível ao longo da spina uma camada de terra muito escura e compactada.




Da cidade de Balsa é conhecida uma inscrição de finais do II, princípios do III d.C.com referência a um circo.





Placa - L (ucius) · CASSI VS · CELER / PODIVM CIRCI / PEDES · C (entum) / SVA IMPENSA / 5 D(ono) · D(edit) · Museu do Carmo, Lisboa.



"Editis circensibus": el circo romano como espacio del evergetismo y de la auto-representación cívica de las elites hispanas [La glòria del circ. Curses de carros i competicions circenses, Tarragona, 2017, pp. 37-41]
Javier Andreu Pintado
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UN DÍA EN EL CIRCO MÁXIMO. ORGANIZACIÓN Y PROFESIONES

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A Estrutura viária e as habitações de Miróbriga, Filomena Barata

A Estrutura viária e as habitações de MiróbrigaPDFImprimire-mail

Ver também:As habitações de Miróbriga e os ritos domésticos romanos

http://www.patrimoniocultural.gov.pt/media/uploads/revistaportuguesadearqueologia/2_2/5.pdf



Escrito por Maria Filomena Barata   
01-Jun-2007
Publicado em: 
http://mirobriga.drealentejo.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=62&Itemid=1

A estrutura viária e as habitações conhecidas em Miróbriga






Pelas características peculiares do urbanismo de Miróbriga, não é possível visualizar qualquer resquício de uma malha urbana definida por eixos viários principais - cardo e decumanus -, como é comum nas fundações latinas de plano ortogonal.
No entanto, os arruamentos conhecidos permitem-nos delinear o espaço ocupado por algumas das insulae da cidade onde se instalam aedificia privata e definir os percursos de acesso a alguns dos seus núcleos polarizadores, como é o caso das opera publica conhecidas em Miróbriga - o forum e as termas. O forum deveria ser circundado por uma rede viária que constituía como que uma espécie de «circunvalação», permitindo o crescimento do casario em anéis concêntricos (ALARCÃO, 1990: 465) que, a alguns níveis, mais lembram algumas malhas urbanas medievais. Ao longo dessas calçadas e entre elas desenvolviam-se os quarteirões onde se implantavam  as áreas comerciais e habitacionais. A maioria desses quarteirões estão apenas relativamente clarificados, como acontece na zona por onde se faz a entrada actual nas ruínas. Uma ampla calçada estrutura uma área habitacional, que se desenvolve quer para Norte quer para Sul da mesma. Do lado sul constata-se que as casas se adaptam à pendente e que os desníveis são vencidos através de grandes escadas que permitiam o acesso pedonal à via. Muito possivelmente, a uma cota mais baixa, se desenvolveria uma outra via que poderia fazer a ligação, mais a sul, às termas. Continuando pela via inicialmente referida, na direcção do forum, chega-se a um ponto onde a via se ramifica, permitindo o acesso ao mesmo, a Este, aos quarteirões que se desenvolviam do seu lado norte e ainda às termas, a Sul. Junto às termas verifica-se um caso semelhante de bifurcação, porque, por um lado, a calçada acede directamente aos balnea e, por outro, inflecte no sentido de Nordeste, onde poucos vestígios restam, mas que deveria articular uma segunda plataforma que circundava, do lado sul e este, o forum. Perto das tabernae implantadas a Sul do forum, vencendo também uma enorme pendente, é visível uma calçada que, também ela, deveria fazer uma circunvalação à zona central da cidade. Todos os troços de calçadas conhecidos são construídos com grandes lajes assentes directamente no afloramento xistoso ou sobre o solo, e carecem de qualquer tratamento para a sua colocação ou seja statumen e rudus. Medem, em média, 10-11 pés de largarem alguns pontos, as calçadas apresentam rebordos laterais isolados com opus signinum, nomeadamente na que desce em direcção às termas. Julgamos que a sua funcionalidade poderá ser a de contribuir para a impermeabilização na zona da entrada[1] das tabernae e habitações, que se situam ao longo desta via construída em declive. Não existem quaisquer vestígios de, sob o opus, haver canalizações de evacuação laterais em materiais cerâmicos ou outros[2].Noutros casos, ao longo das calçadas, foram construídas as condutas dos esgotos em opus incertum pavimentadas com lateres, como acontece na «área habitacional», junto da entrada actual das ruínas, e do lado sudoeste do forum, onde apenas restam alguns vestígios da via pública. Estes esgotos deveriam ser cobertos com laterae ou tegulae, mas não existem quaisquer vestígios dessas coberturas. As construções que se desenvolvem quer a Oeste quer a Este do forum, são infelizmente mal conhecidas, mas os vestígios identificados permitem-nos admitir que também aí existiria uma zona comercial e habitacional, confirmada arqueologicamente com várias edificações localizadas a nascente e poente  do mesmo, algumas das quais parcelarmente postas a descoberto por D. Fernando de Almeida. Uma construção desenvolvida em torno de um atrium, que foi também parcialmente escavada pela equipa luso-americana, a  nordeste do forum, e de que há apenas uma pequena referência publicada (BIERS, 1988: 24), e a existência de colunas que delimitam uma zona porticada fazem-nos aceitar a possibilidade de se tratar de uma habitação. Um outro núcleo de construções, localizadas junto às termas, foram publicadas por Maria de Lurdes Costa Artur, na década de 40, como tratando-se de habitações, estando actualmente, na sua maioria, de novo soterradas. No entanto, ao longo do troço de calçada que se dirige às termas, são visíveis de um lado as tabernae, a que já nos referimos, noutro trabalho; do outro, há vários indícios de soleiras de portas e vestígios de muros alinhados. De um lado e do outro da calçada que se encontra logo à entrada actual das ruínas, são visíveis várias insulae, que parecem ter tido uma ocupação sucessiva entre os séculos I d. C. (CAEIRO, 1985: 129) e o século IV d. C. Dessas escavações coordenadas por José Olívio Caeiro, nos anos 80, na área limítrofe à capela de S. Brás, apenas existe uma pequena notícia (CAEIRO, 1985: 128-129), tendo sido algumas das pinturas a fresco publicadas pela equipa de Missouri. Apesar do conhecimento incipiente das zonas habitacionais existentes nessa área, pode-se verificar que as insulae dessa zona são de métricas diferentes, em função das ruas e acessos públicos, variando entre 25 a 30 m[3]. As escadarias que se desenvolvem  a sul desta delimitam claramente insulae, em torno das quais se pode ainda ver o respectivo sistema de esgotos. A sua organização adapta-se perfeitamente à topografia do sítio, indo o casario sendo implantado em plataformas artificiais, que desde o ponto mais alto, onde se implantará a Capela de S. Brás, a Norte da via, até à zona mais baixa, a Sul da mesma, formam como terraços. Algumas das construções conhecidas a Sul dessa via tinham água canalizada, como se pôde verificar aquando dos trabalhos de limpeza e de restauro efectuados numa «casa com frescos». Junto à entrada da casa havia um pequeno tanque, possivelmente para aprovisionamento de água que era depois conduzida por uma tubagem de chumbo. Nesta casa e, mais especificamente, no compartimento decorado com estuques pintados a fresco o pavimento é de opus signinum. A Este desta construção, ao longo da via, quer do lado norte quer do Sul da mesma, são visíveis vários muros dispersos, devendo tratar-se de habitações. No entanto, como todos eles foram postos a descoberto, em anteriores trabalhos arqueológicos, através de valas abertas paralelamente aos mesmos, nada se pode concluir, porque nenhuma planta está clarificada. A equipa luso-americana admitia a hipótese de uma das estruturas - localizada junto do local onde a via bifurca para as termas - poder ser identificada como um pequeno templo, atendendo às  suas fundações (BIERS et alii, 1988: 13). Efectivamente essa construção, localizada junto a um talude, apresenta muros de grossura superior à que é comummente utilizada na arquitectura doméstica, mas o desconhecimento em relação à sua planta não nos permite avançar qualquer hipótese quanto à sua funcionalidade. A DOMUS LOCALIZADA NA ZONA LIMÍTROFE DA CAPELA DE S. BRÁS Mais a Oeste, do lado norte da via, iniciámos em 1996 uma escavação numa área que já havia sido parcialmente assinalada pela equipa luso-americana, e que veio a revelar a existência de uma domus, cujos compartimentos se desenvolvem em torno de um átrio. Este átrio tinha uma zona coberta, como o comprovam a concentração de telhas no local e os entalhes definidos no afloramento xistoso que deveriam servir para apoiar o telhado. O pavimento da zona circundante do átrio era revestido a opus signinum, ainda visível em alguns pontos. Na zona central, subdividida num segundo momento da ocupação da casa, poderia ter existido uma pequena zona ajardinada. Por seu lado, os pavimentos das salas que se desenvolvem em seu redor deveriam ser feitos com traves de madeira, pois não existe qualquer vestígio de revestimento e o afloramento xistoso é bastante irregular, o que aliás deveria acontecer em muitas das residências localizadas nesta área. A evidência de vários orifícios circulares escavados no xisto, na residência que escavámos, assemelhando-se a «buracos de poste», mas distribuídos sem qualquer aparente regularidade, contribuem para colocar esta hipótese. Numa destas concavidades estava perfeitamente conservada, ao nível da rocha de base, que havia sido escavada, em período romano, para o efeito, uma tigela ou patella invertida[4] contendo no seu interior ossos de pássaro, que pensamos poder tratar-se de um ritual fundacional. Uma situação paralela detectou-se também na casa cuja escavação se terminou em 1999.Num dos compartimentos paralelos à calçada, à entrada da casa, e que possivelmente se trataria de uma oficina de metalurgia[5], até porque se detectou uma grande concentração de escória de ferro, foi posta a descoberto, por cima do afloramento xistoso, um sistema de drenagem construída com imbrices encaixados uns nos outros, que escoava para a rua. Essa drenagem passava por debaixo de um dos muros que definem o limite sul da casa, junto à soleira da porta de entrada. Em alguns dos compartimentos desta construção são visíveis estuques, mas não foram ainda identificados quaisquer indícios de pinturas a fresco. A casa encontra-se praticamente ao nível das fundações, à excepção de alguns muros mais altos construídos em opus incertum. Pode-se daí deduzir que as pedras devem ter sido roubadas e reutilizadas, porque há poucos vestígios de derrube das mesmas, ao contrário do que acontece com os materiais de construção cerâmicos dos telhados - imbrices e tegulae. Ainda atendendo aos muros conservados com uma maior altura e pertencentes à mesma construção, nada nos permite concluir que pudessem os restantes ter sido edificados em adobe ou taipa. Os materiais arqueológicos entretanto exumados atestam uma ocupação que vai do século I ao século IV d. C., tendo mesmo sido encontrado um numisma republicano. Esta casa poderia ter tido dois pisos, porque se adossou, do lado oeste, uma escada, que deveria dar também serventia às construções que se desenvolvem num plano mais elevado, a Noroeste da habitação. Dessas edificações foram já postos a descoberto alguns muros, cujas fundações são ligeiramente «enterradas» no afloramento xistoso, que foi escavado para permitir uma maior estabilidade ao edifício. Entre a calçada, que se desenvolve a Sul, e a soleira da porta de entrada da «construção de átrio» que escavámos, existe um pavimento em opus signinum, desaparecido em grande parte, que permitia um acesso mais confortável e higiénico à mesma. É junto a esta zona que desaguavam as águas drenadas pela conduta de imbrices anteriormente referida. A escavação na íntegra desta casa e das adjacentes é fundamental, pois só ela permitirá a compreensão de uma insula de Miróbriga. É, no entanto, de salientar que a planta da casa em escavação é paralela à da capela de S. Brás, edificada, a Noroeste, ao lado e sobre estruturas romanas, devendo pertencer ao mesmo programa urbanístico. Os restos de uma casa romana, escavada por José Olívio Caeiro nos anos 80, e que são ainda visíveis junto à capela, pertenceriam, portanto, a um conjunto residencial mais vasto que se estendia do lado norte da calçada,  adaptando-se ao declive natural do terreno. Numa área recentemente adquirida, a Oeste da actual entrada de Miróbriga, iniciaram-se, em 1997, trabalhos arqueológicos, tendo sido feitas algumas sondagens para averiguar da possibilidade de aí ser construído o «Núcleo Interpretativo». À superfície foi encontrada uma moeda de Marco Aurélio e, já pertencente a um nível arqueológico bem selado, de fundação de algumas construções, foi encontrado um outro, cunhado em Mérida no reinado de Augusto. Esta área, cujas construções nos parecem estar articuladas com a «área residencial», pois obedecem à mesma orientação das casas localizadas na área limítrofe da capela de S. Brás, se bem que entre as duas zonas devesse haver uma outra via.  Desta via restam ainda algumas lajes, que são visíveis junto a um caminho de terra batida, por onde se acede do lado poente à zona adjacente às termas. Junto a uma dessas construções, em fase final de escavação, detectou-se uma enorme concentração de escória, associada a uma terra barrenta que foi sujeita a alta temperatura, porque se encontra cozida, como se de terracota se tratasse. Deveria tratar-se, também, de uma zona onde existiam ateliers metalúrgicos[6].Nessas construções em fase final de escavação detectou-se também a existência num dos vários buracos ao nível do afloramento xistosos, sobre o qual deveria assentar o pavimento. Pelo numisma augustano anteriormente referido e por alguns fragmentos de cerâmica campaniense, pode deduzir-se que a ocupação desta área do oppidum romanizado se deverá ter processado desde bastante cedo, não conferindo, portanto, à zona onde foi implantado o forum (o único local onde apareceram in situ materiais da Idade do Ferro) o papel único de polarizador de crescimento de Miróbriga em período de dominação latina, pois essa intervenção monumental é mais tardia. ALARCÃO, Jorge de, 1990, «O Domínio Romano», Nova História de Portugal, Editorial Presença, Lisboa. CAEIRO, José Olívio, 1985, «Miróbriga - 1982. Santiago do Cacém», Informação Arqueológica, n.º 5, Lisboa, pp. 128-129.




Maria Filomena Barata, IPPAR



[1] A exemplo do que se verifica em Itálica (LUZÓN NOGUÉ, 1982: 94, fot. 3).

[2] Como por exemplo acontece em Pompeios (ADAM, 1989: 259).

[3] As insulae de Bracara Augusta têm uma modulação quadrada, medindo aproximadamente 150 pés (44,33m) com uma área construída de 1 actus  - aprox. 120 pés =  35 m - (ALARCÃO et alii, 1994: 74). Um outro módulo havia sido apontado por Vasco Mantas (75x80 m), através da análise estereoscópica de fotogramas da cidade de Braga, que seriam provavelmente subdivididos. As insulae de Beja têm aproximadamente 40x80 m, medidos entre os eixos das ruas, e o módulo das de Évora deverá ter sido o mesmo (ALARCÃO, 1990: 462 e 1992: 80). Vasco Mantas  havia proposto um valor de 2 actus = aproximadamente 70 m (MANTAS, 1987: 42). Para as insulae de Beja propõe, portanto, uma média de 35x75 m (MANTAS, 1990: 86). As de Conimbriga têm 25 m, parecendo adaptar-se aos quarteirões do oppidum pré-latino, tal como todo o urbanismo da cidade romana, que «parece um compromisso entre um traçado pré-romano e um alinhamento novo definido pelo forum de Augusto» (ALARCÃO, 1992: 90). As insulae de Tongobriga parecem formar um quadrado com cerca de 34 m de lado (DIAS, 1997: 78). As de Corduba têm 35 m entre os cardines e as de Itálica variam consoante a separação entre as ruas situando-se entre 115,70x57,20 m, 113,90x39,10 m e 114,50x75,20 m (LUZÓN NOGUÉ, 1982: 85). A Ampúrias latina tinha insulae de 1x2 actus   (35x70 m), ocupando o forum o espaço de 4 insulae (ARBULO, 1992: 27).

[4] Para a  tigela ou patella de calote esférica recentemente encontrada em Miróbriga existem inúmeros paralelos, podendo referir os espécimes provenientes de necrópoles romanas do Alto Alentejo publicadas sob a designação de «taças» por Jeannette Nolen (NOLEN, 1985: 100), o de Conímbriga, publicado nas Fouilles com o número 979 (ALARCÃO et alii, 1975, V: 121) e os da necrópole de Gulpilhares, publicados com os números 35 e 36 (LOBATO, 1995: 44). Aparecidos também em Miróbriga são dois exemplares de características muito semelhantes e que se encontram em depósito no Museu Municipal de Santiago do Cacém. Leite de Vasconcelos dá-nos notícia de «uma tigela de barro grosseiro, cuja forma é o protótipo das nossas Malgas» (VASCONCELOS, 1914: 318 e Fig. 44), pertencente a uma colecção particular e proveniente do concelho de Santiago do Cacém, que aparenta ter semelhanças com  a taça  exumada nas escavações de 1995.

[5] Em Tongobriga foi também detectada no interior de uma construção uma oficina de metalurgia (DIAS, 1997: 79).

[6] Cruz e Silva havia, no entanto, referido a existência de fornos siderúrgicos de grandes dimensões: 2,30 m de diâmetro e 4,60 m de altura (Album Alentejano: 1057).

Actualizado em ( 04-Jun-2007 )