segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O Vinho e a Medicina na Antiguidade

A imagem pode conter: texto

Poderá consultar o texto em:

https://www.academia.edu/37752143/O_VINHO_E_A_MEDICINA_NA_ANTIGUIDADE


terça-feira, 25 de setembro de 2018

«Memórias dos Deuses e dos Homens», Museu Machado de Castro, 29 de Setembro.

No dia 29 de Setembro, no Museu Machado de Castro, pelas 11h, ouviremos falar da
«Memórias dos Deuses e dos Homens», inserida n
as Jornadas Europeias do Património e a Noite Europeia dos Investigadores.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Da Religião e da Mitologia


Poderá ver o resumo em:

https://www.academia.edu/37347908/DA_RELIGI%C3%83O_E_DA_MITOLOGIA


terça-feira, 21 de agosto de 2018

UM PERCURSO AO LONGO DO SADO



O PATRIMÓNIO É UM RECURSO: UM PERCURSO AO LONGO DO SADO

Publicado em: [Setúbal na Rede] - O Património é um recurso: um percurso ao longo do Sado (reed. 20.06.2010)
Foto de Filomena Barata.
Este trabalho relaciona-se com um velho projecto que, exactamente há vinte anos, tinha apresentado num congresso promovido pelo Conselho da Europa em Malta, tendo sido apresentado recentemente em Sines, no Congresso de História do Litoral Alentejano, um balanço de acções concretizadas, no que respeita ao que genericamente aqui trato como «um percurso ao longo do Sado».
Muitas das acções preconizadas nesse encontro de Malta, Archaelogical Parks and Cultural Tourism, em Setembro de 1990, no âmbito do Conselho da Europa, sob o tema:«Cultural Tourism – The archaelogical sites in southern Portugal», foram-se, felizmente, desenvolvendo, assumindo-se em muitas delas a necessidade de fazer uma mais estreita relação entre os recursos culturais e valores patrimoniais e ambientais, tanto mais que muitos dos vestígios e os sítios arqueológicos se encontram em locais privilegiados do ponto de vista geográfico e de enquadramento paisagístico.Propunha eu em 1990, como antes dizia, que se fizesse um itinerário ao longo do Sado, esse rio que, atravessando o Alentejo de Sul para Norte, sempre foi um caminho fluvial, e que, em Período Romano, ligava em Cetobriga (Setúbal), o fronteiro complexo industrial de salga de peixe de Tróia, os fornos de ânforas do Pinheiro, a cidade de Alcácer e o fértil vale em que a cidade romana de Miróbriga ainda se pode incluir.Para além dessa ligação física ao rio, haveria que encontrar condições logísticas que viabilizassem não só o percurso terrestre, ou mesmo parcialmente fluvial, como eventuais infra-estruturas de acolhimento e de apoio a turistas e visitantes, nunca perdendo a ideia central do rio que sempre foi recurso e permitiu escoar milenarmente produtos mineiros, agrícolas, ou piscícolas, e que assiste ainda nos nossos dias, se bem que menos navegável do que já foi, a um conjunto de actividades que se geram em seu redor.Conhecido ao tempo dos Romanos como Callipus, e, a partir provavelmente da ocupação islâmica, como Sadão, o Sado foi sempre gerador de vida, pois, alagando a terra, a fertiliza, permitindo que a água e a terra fossem, efectivamente, os grandes motivos de fixação de gentes.Assim, iniciamos este itinerário em Setúbal, a antiga Caetobriga, onde vestígios de fábricas de salga de peixe são conhecidos e visitáveis, aproveitando para visitar o Museu Distrital de Setúbal, local onde se pode conhecer a história da ocupação do território e os hábitos e costumes de gentes ligadas à terra e ao mar.Fazendo a travessia do Sado, no caminho fluvial que outrora ligava as povoações estuarinas de Caetobriga e Tróia a outras cidades importantes, designadamente Salacia, permitindo trocas comerciais, pode ainda vislumbrar-se um pouco o que restará da paisagem da Península de Tróia, eventualmente a antiga Ilha de Achale, ou da Serra da Arrábida.Após a travessia do rio, junto à Caldeira, localizam-se as ruínas de Tróia, um dos maiores complexos fabris conhecidos no Mundo Romano Ocidental, que se mantém em laboração desde o século I d.C., cronologia atestada pela existência de terra sigillata itálica, bem como por algumas inscrições funerárias, até, pelo menos, ao século IV d.C., período em que entram em decadência as actividades ligadas à pesca e transformação do pescado, como acontecera com as suas congéneres da Península Ibérica e do Norte de África.

A importância destas ruínas é de tal forma que podemos hoje, já um século passado, parafrasear José Leite de Vasconcelos, sem que nada de estrutural tivéssemos a objectar:

“… As ruinas de Troia de Setubal constituem um enexgotavel manancial archeologico. Näo se dá um passeio pela praia, não se mexe na areia, que não appareça alguma cousa. Oxalá que algum Ministro se amercie d’ellas!  tanto mais que é uma vergonha que esteja a findar o seculo XIX, o seculo chamado das luzes, e Portugal deixe perder para sempre estes eloquentes vestigios de grandeza do seu passado sem lhes prestar o culto que os povos civilizados prestam a tudo o que pode servir para aclarar os problemas históricos”.

Felizmente, os recentes trabalhos arqueológicos promovidos pela IMOAREIA/SONAE, sob a coordenação da Doutora Inês Vaz Pinto, vêm dar alguma tónica positiva quanto à tomada de consciência de que é um património que tem que ser devidamente estudado, divulgado e dinamizado, pois, apesar dos inúmeros trabalhos de valorização efectuados ao longo de séculos, de que destacamos o século XX, pois foi notória a incrementação não foi possível dar às ruínas as condições que merecem.
Durante muito tempo Tróia foi identificada com a Caetobriga de Ptolomeu e do Itinerário de Antonino (século IIId.C.), sendo-lhe conotada tanto por André de Resende como por todos os arqueólogos que aí trabalharam durante séculos.
As mais antigas escavações arqueológicas em Tróia datam do tempo da Infanta D. Maria, futura Rainha D. Maria I, e incidiram na zona residencial das ruínas, pelo ainda nos nossos dias é denominada essa zona como “Rua da Princesa”.
O espólio exumado nessas explorações foi totalmente disperso. À então Vila de Setúbal foi oferecida uma coluna e um capitel coríntio, reutilizado, mais tarde, como pelourinho, colocado na Praça Marquês de Pombal, nessa cidade.
A partir de 1957, volta a reacender-se o problema da localização de Cetobriga, uma vez que as escavações que o Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal revelaram a existência de um importante centro urbano da época romana em Setúbal, assumindo-se esta cidade era a Cetobriga dos Romanos!
Rumando nós de Tróia em direcção à Comporta, após demorada visita ao Sítio Arqueológico, vamos acompanhando o Sado até ao local onde se defende o mar ter já rodeado uma ilha que originou a actual Península de Tróia, provavelmente a antiga ilha de Achale.

O Sado em Alcácer do Sal. Fotografia Filomena Barata
Na Comporta, aproveitaremos para visitar o “Museu do Arroz”, ou, eventualmente, almoçar no restaurante que centra nesse cereal a sua oferta gastronómica, fazendo justiça à fertilidade do rio que, nas suas margens, tudo vivifica.

Foto de Filomena Barata.Comporta, Filomena Barata
Seguiremos ainda o seu curso, e preferencialmente se se puder fazer uma viagem fluvial, dentro da Reserva Natural do Estuário do Sado, na sua margem direita, na Herdade do Monte Novo de Palma, pode-se fazer uma paragem para conhecer a importante feitoria fenícia de Abul, conhecida desde 1990.
Os vestígios dessa feitoria datam dos séculos VII e VI a.C., tratando-se do primeiro assentamento fenício conhecido em Portugal e em toda a fachada atlântica europeia.
No local funcionou, desde o século I d.C. a meados do século III d.C. uma olaria romana.
Propomos se faça uma inflexão em direcção a Alcácer do Sal, em cuja direcção de pode conhecer a interessante aldeia palafítica da Carrapateira, extraordinário exemplo da organicidade e adaptação do Homem às condições da Natureza, nomeadamente aos recursos piscatórios.

Em Alcácer do Sal, mal chegados, podemos logo aperceber-nos da importância do Sado na vida económica daquele concelho, esse rio que até muito recentemente foi navegável até ali.
Os arrozais são ainda hoje a grande fonte de riqueza agrícola e parte do assoreamento do rio parece que se deve aos trabalhos hidráulicos necessários à plantação de arroz, desenvolvidos desde o século XIX:
Propomos assim que em Alcácer se possa estar e ficar, pois quer a paisagem, quer a oferta cultural e turística a tal apela.

Alcácer do Sal. Cripta arqueológica do Castelo. Fotografia João Tatá
A abertura cripta arqueológica do Castelo ao público, em 2008, revestiu-se da maior importância, pois permitiu que, uma vez mais, Alcácer estivesse na encruzilhada de novos caminhos a percorrer: neste caso do saber, do conhecer.
Ainda neste local aproveite-se para visitar o Museu Arqueológico e não se deixe de ir à Igreja do Olival dos Mártires, onde, nas proximidades, se conhece uma das mais notáveis necrópoles da Idade do Ferro, espelhando, tal como os vestígios encontrados no Castelo, o controlo do território que, desde época proto-histórica (Idade do Ferro), Alcácer assume e que Roma torna ainda mais forte, transformando Salacia numa cidade de importância vital.

Foto de Filomena Barata.
A Idade Média, quer a islâmica, quer a cristã consumaram a necessidade de assumir aquele território como fonte inesgotável de recursos e como sítio estratégico para qualquer dominação.
Rumando ao Sul, se bem que mais afastado do curso do rio, situa-se a cidade romana de Miróbriga, cuja visita recomendamos.
Dados os inúmeros estudos publicações sobre este importante Sítio Arqueológico, não me prenderei excessivamente a esta capital de ciuitas, e Município romano.
Localizando-se no concelho de Santiago do Cacém, e nas franjas da Serra de Grândola, a17 km de Sines e da Lagoa de Santo André, numa zona privilegiada de transição entre o mar (fornecedor de produtos píscicolas) e as regiões ricas em minérios, designadamente cobre e ferro, Miróbriga deveria já funcionar como núcleo polarizador na Idade do Ferro, tendo-se tornado Município romano no século I d.C.

Ruínas de Miróbriga. Junho 2013. Fotografia Filomena Barata

Sugiro, após visita a Miróbriga, que se rume a Alvalade, onde na Igreja da Misericórdia, se encontrou patente ao público uma exposição, que permitia conhecer o território e sua ocupação, desde épocas remotas.
Nesse mesmo local, está previsto que venha a ser o Núcleo Museológico de Alvalade que pretende dar a conhecer os vestígios que desde o Mesolítico remetem à importância que o rio teve na fixação de gentes, pois o Sado continuou a banhar as suas margens fertilizando-as e a ser escoadouro de produtos.
O rio Sado, testemunhou essa evolução, continuando a banhar a terra e a ser escoadouro dos seus produtos.
A presença romana marcou fortemente esta região e os vestígios de inúmeras uillae agrícolas comprovam a fertilidade dos solos.
Da presença árabe lhe ficou provavelmente o nome, tendo pertencido com a Cristianização à Ordem de Santiago da Espada que na matriz ainda conserva as insígnias.
Façamos pois juntos esta caminhada pelo vale do Sado e pelo Litoral Alentejano, com as suas formações lagunares, sendo este primeiro trabalho uma espécie de ideia central que posteriormente se desenvolverá.

Foto de Filomena Barata.


Lagoa de Melides. Fotografia Filomena Barata

terça-feira, 14 de agosto de 2018

[Setúbal na Rede] - O Sol, esse Património Universal (reeditado de 09.12.2013)

[Setúbal na Rede] - O Sol, esse Património Universal

O Sol, esse Património Universal
Filomena Barata

Crónica Publicada na Revista Setúbal na Rede



Na fotografia: Sol Invictus e Mitra.
Século III d. C. Museu do Vaticano


Quis o momento que esta crónica fosse as que com mais dificuldades escrevi.
Regressada há uma semana da terra que me viu nascer, Angola, onde o Atlântico nos oferece praias sem fim, quando em Portugal, através do Projecto Portugal Romano, havíamos inaugurado o mês de Agosto a falar desse Oceano, sinto-me ainda como que num ponto no meio do mar.
Numa ilha pequena, talvez olhando o Sol a poisar-se devagar, ou um ponto entre a terra vermelha com árvores quase descabeladas a marcar a paisagem, silhuetas feitas de catos e imbondeiros, e um Portugal cujo Património deu ao Mundo a língua, costumes, tradições e uma arquitectura cujo estudo e conservação há que garantir a curto prazo.
Sinto-me ainda com desejo de mergulhar, numa viagem sem tempo e regressar para a minha terra-mãe, onde o sol se deita a maioria das vezes rubro como as rosas, mas a vida exige-me que fique deste lado do Atlântico, tentando semear devagarinho, para que um dia o «disperso se una num só», esperando que a Luz me acompanhe nessa Viagem.
E, porque, ao Atlântico que une os dois países de que sou cidadã, Angola e Portugal, já havia dedicado alguns pequenos trabalhos, aproveito este espaço para falar do Sol que, embora mais para uns do que para outros, ainda nasce para todos, pois, pelos motivos enunciados me sinto incapaz de falar hoje de um lugar específico.
Assim honrarei, agora que se aproxima o fim do Verão e em que os dias vão encurtando já, esse Astro que, pela sua força energética, condiciona a vida na Terra, e que, por isso mesmo foi reverenciado por muitas culturas e tradições, que o reconheciam como uma das principais forças no universo. 
 Adorado desde as primeiras sociedades nómadas, ao Egipto com Rá, o deus da "barca solar", o seu culto prevalece do Oriente ao Ocidente mediterrânico em época Greco-romana.

O Sol com a força vivificante dos seus raios desempenha genericamente o papel masculino e patriarcal e, por isso foi associado quer a Febo, quer a Hórus e mesmo a Mitra, essa divindade monoteísta que os soldados romanos importam do Oriente.
Ao contrário da Lua, o Sol que tem luz própria, é afinal a própria essência da Luz, e é quase sempre interpretado como símbolo masculino e por isso associado ao princípio Yang.
Ou seja, representa em muitos culturas, se bem que nem em todas, o princípio activo, enquanto a Lua é considerada um princípio passivo.
Ao Sol associa-se a noção de calor e de Vida, pois sem ele nada sobrevive.
Na Alquimia ele corresponde ao Ouro, encarnando a ideia do espírito imutável.

Sendo muitas bem vezes invocado como "olho omnipresente do Sol", como acontece no «Prometeu Agrilhoado», de Ésquilo, onde se adivinha a influência persa, pois ali Ormuzd é o mestre e criador do mundo, soberano, onisciente, deus da ordem, e o Sol é seu olho, o céu suas vestes bordadas de estrelas, na lenda mitológica grega prometeu é castigado por roubar o Fogo do Olimpo e dá-lo aos Homens. Também para os  Bosquímanos o Sol funciona como o "Olho do Deus Supremo".

O Sol ou Ormuzd, para os Persas, enquanto fonte de Luz, representava a Vida, a Saúde e a Fertilidade da terra enquanto criadora de todas as coisas necessárias à sobrevivência do Homem; por sua vez, à Lua ou
Ahrimã, atribuíam-lhe forças maléficas; as trevas e a esterilidade da Terra. 
As forças de Ahrimã, princípio da obscuridade, da desordem, do mal, são repelidas por Ormuzd, deus da luz, da ordem e do bem, que usa como arma o relâmpago, Atar.
Por sua vez, Mitra, essa divindade também de origem persa que os soldados romanos importaram para o Império, surge assim como um terceiro elemento, como uma espécie de divindade mediadora entre duas forças antagónicas, viabilizando o nascer de um novo dia, ou seja, não permitindo que a Lua ocultasse o Sol. 
Mais do que o Sol, Mitra representa a Luz Celestial, ou a essência da Luz, que desponta antes do Astro-Rei raiar e que ainda ilumina depois dele se pôr e, porque dissipa as trevas, é também o deus da Integridade, da Verdade e da Fertilidade, motivo pelo que também surge associado à força genésica do Touro.

Mitra, ou Mithras, cujo nome significa em Sânscrito «Amigo»; em Persa quer dizer «Contrato», trata-se de um Deus luminoso que incita os homens a seguirem o Seu caminho no combate pela Luz contra as Trevas.

Mitra tem naturalmente a força da LUZ, porque é a síntese da Luz do Sol e da Lua, e o Seu dia o Domingo é o dia dedicado ao seu culto. (no Latim pagão, domingo é «Dies Solis», ou «Dia do Sol»).

Talvez por isso mesmo a data do seu nascimento corresponda, tal como o nascimento de Jesus Cristo, ao Solstício de Inverno, momento a partir do qual os dias çomeçam novamente a crescer.

Em Roma, o culto do Sol remonta à sua fundação e ao que se conhece existiria um santuário dedicado Sol Indiges no Quirinal, construído por Tácio, rei dos sabinos.
E existiria um templo do Sol (assim como um para a Lua) no Circus Maximus, onde corridas de bigas decorreriam sob os auspícios dessas divindades (Tácito, Anais , XV.74; Tertuliano, De spectaculis , VIII.1) . 
Quer as festividades que se desenrolariam na Colina do Quirinal, bem como a fundação do templo se desenrolariam em Agosto, quando o calor do sol é mais intenso.

Em Roma, em 219 d.C., quando o imperador Heliogábalo havia regressado da Síria, onde ele tinha sido o sacerdote hereditário do deus sol Elagabal, introduz-se o culto do Sol Invictus.





Ao que dizem as memórias latinas, Heliogábalo, imperador da Dinastia Severa, nascido em Emesa Síria, em c. 203 d.C. e assassinado a 11 de Março de 222 d.C. que reinou entre 218 e o ano da sua morte,  ampliou em 219 d.C. o templo de Júpiter Ultor tentando manter os anteriores deuses romanos, por um lado, «mas também os de todo o mundo, e seu único desejo é que o deus Heliogábalo deve ser adorado em todos os lugares" (Historia Augusta , VI.7).


Ápós o assassinato do jovem imperador, três anos depois, o culto foi suprimido, para ser restabelecido meio século depois pelo imperador Aureliano (foi imperador entre 270-275), que erigiu um magnífico templo de Sol no Campus Agrippae ( Historia Augusta , XXV.6, XXXV.3, XXXIX.6; Aurelius Victor, XXXV.7; Eutrópio, IX.15.1).


Ao que dizem as fontes, terá sido em 274 d.C. um ano depois, do regresso do imperador da conquista de Palmira, onde vira "uma forma divina" (Sol) apoiá-lo na batalha contra Zenobia (XXV.3, 5).
«A partir daí, Aureliano identificou-se como a personificação do deus, que foi proclamado o protetor divino do imperador. A festa do solstício de inverno, quando os dias escuros do inverno começou a alongar e clarear, era conhecido como Natalis Solis Invicti , o aniversário do Sol invencível. (Mithras foi outra divindade solar oriental cuja festa foi celebrada em 25 de dezembro, seus ritos introduziu a Roma no primeiro século d.C por piratas cilícios, segundo Plutarco, Vida de Pompeu , XXIV.5)».

Ver:
http://penelope.uchicago.edu/~grout/encyclopaedia_romana/calendar/invictus.html


Deixemos, pois, que o Sol se vá escondendo mais cedo no Outono que se aproxima, sob os auspícios de Baco, cuja hera dará frutos, para que breve possamos provar o vinho novo e as castanhas que nos aquecerão as tardes mais frias.



quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O Forum de Miróbriga, Filomena Barata (com actualizações)





CARACTERIZAÇÃO GERAL DE MIRÓBRIGA

Embora recentes trabalhos arqueológicos arqueológicos, coordenados por José Carlos Quaresma, em 2017 e 2018, possam vir a esclarecer alguns aspectos da zona comercial adjacente ao Forum, aproveitamos para fazer uma revisão na tese de mestrado defendida em 1997 sobre o centro administrativo de Miróbriga.

1. O aglomerado urbano e a sua fundação


Foto de Filomena Barata.

Fotografia aérea de Filomena Barata.

Forum e balneários. Miróbriga. 1995



Topónimo muito frequente no Sul de Portugal, a zona onde se implanta o forum de Miróbriga, é conhecida vulgarmente por «Castelo Velho», e deve ter sido ocupada desde a Idade do Bronze. A existência de uma ocupação sidérica no local que estudamos é confirmada arqueologicamente a partir do século V a. C. (SILVA e SOARES, 1979: 163; PONTE, 1979: 195) e, apesar das dúvidas levantadas quanto à sua designação e à identificação com a «Miróbriga Céltica», quer as suas características topográficas, quer a existência de uma muralha construída com aparelho pequeno e médio de pedra seca, característico da II Idade do Ferro, poderiam justificar o sufixo «briga» deste oppidum. O radical deste topónimo tem contribuído, como acabámos de verificar, para que alguns autores associem a «Miróbriga Céltica» ao rio Mira, como já o admitira José Leite de Vasconcelos inclinando-se assim para que a sua localização se situasse em Odemira .

Marcada, possivelmente, por uma componente continental/«celticizante», Miróbriga tornar-se-á permeável às influências das regiões meridionais e costeiras (GOMES, 1994: 173), como o demonstram os materiais anfóricos de origem púnica aí encontrados (SILVA, 1979: 160). Tratando-se de um oppidum fortificado que foi romanizado, a implantação latina de Miróbriga foi condicionada pela pré-existente ocupação e pela teia de relações estabelecida entre as comunidades da II Idade do Ferro (BERROCAL: 1992: 243-267).

A forma como se estruturou a própria ciuitas foi seguramente marcada pela organização territorial precedente, uma vez que a óptima localização do ponto de vista geo-estratégico, que lhe deve ter conferido, desde bastante cedo, importância como «local central» desfrutando, contudo, os membros destas comunidades de todos os direitos de cidadania romana e ficando submetidos a todo o tipo de imposições e cargas fiscais.

Sujeita à influência romana desde, pelo menos, inícios do século II a. C., como o demonstram os materiais arqueológicos aí exumados, como alguns espécimes numismáticos, que comprovam a existência de uma circulação monetária republicana (PEREIRA, 1997: 23); as terra sigillata itálica (FERRER DIAS, 1976-77: 362); algumas «paredes finas - grupo A» , datáveis de fins da República e inícios do Império (NOLEN, 1976-77: 425), ou mesmo as campanienses tipo B (ALMEIDA, 1964: 28; ARTHUR, 1983; BERROCAL, 1992: 116), Miróbriga terá tido uma ocupação plena a partir do século I d. C. , sendo construídas as infra-estruturas comuns às cidades provinciais , como o forum, na segunda metade da centúria. A epigrafia confirma essa ocupação plena nos séculos I e II d. C. Verifica-se em Miróbriga a incidência no uso dos tria nomina, reflexo seguro de uma profunda romanização e indicativos da cidadania (MANTAS, 1987: 39 e 19962: 357) mais comum na epigrafia urbana e rural, mas que em Miróbriga denuncia a origem de uma população de indígenas romanizados (ENCARNAÇÃO; 1984: 217-247).

Apesar de não haver praticamente cognomina gregos nem indivíduos que se identificam com um único nome, como acontece nas zonas portuárias e industriais de Tróia e de Salacia (MANTAS, 1987: 39 e 19962: 364) há contudo algumas referências a libertos, como é o caso do testamentário da ara de Esculápio, Gaio Átio Januário (ENCARNAÇÃO, 1984: 218-220), que se tratatá de um «medicus pacensis».
Foto de Filomena Barata.

Fragmento de Corona Muralis (?) de uma estátua da deusa Cibele (?). Miróbriga, Santiago do Cacém.
in Barata, Filomena, Miróbriga, Arquitectura e Urbanismo.

Um fragmento marmóreo, proveniente de Miróbriga, e que se encontra no Museu Municipal de Santiago do Cacém, poderá ter pertencido a uma estátua da deusa Cibele, com uma torre e respectiva porta. 
Esta representação de uma Cibele citadina, admitindo que efectivamente se trata de um fragmento da torre que encimava o penteado da deusa, aponta para um símbolo propiciatório de cariz urbano, a alegoria da Cidade.
Proveniente de Myrtilis existe um exemplar de inícios do século I com a simbologia da corona muralis no alto da cabeça, representando Cibele (SOUZA, 1990:9; MATOS, 1995: 54/55).
A corona muralis, remonta às tradições honoríficas helénicas de carácter atlético e era concedida aos militares que primeiro entrassem numa muralha inimiga. Representava uma cidade amuralhada ou uma torre, ou seja era a metáfora de uma cidade ou país (LIBERATI, 1988: 65).
A deusa Cibele tinha-a como símbolo, fazendo-se representar com ela encimando a cabeça.
De referir ainda o exemplar, proveniente de Bracara Augusta, de Itálica, publicado em La Ciutat Hispano-Romana, 1993: 20, 21 e 263 e em LÉON, 1995: 46:149.

Do exemplar de Miróbriga não se conhecem mais nenhuns fragmentos.

Muito interessante é o busto de Octavia (69-11/10 a.C), a irmã mais velha de Augusto que foi casada com Marco António que se faz representar com a Corona Muralis. http://www.livius.org/cn-cs/corona/corona_muralis.html

É provável que Miróbriga tenha também obtido a sua municipalização na época flaviana, e que tenha beneficiado do «Edito de Latinidade» decretado por Vespasiano em 73 ou 74 d. C. que concede o ius latii, sendo os seus habitantes inscritos numa das tribos romanas, neste caso a Quirina . A existência de um magister em Miróbriga, Caius Iulius Rufinus, dedicante de uma ara a Vénus, e as funções que Marco Júlio Marcelo deve ter exercido, nomeadamente de edil e duúnviro (IRCP 150), confirmam a complexificação administrativa a que Miróbriga assistiu, correspondendo ao seu estatuto municipal (ALARCÃO, 1989: 244; ENCARNAÇÃO, 1996: 136). A ara dedicada a Esculápio, para além da importância religiosa que assume, contém também informações de índole administrativa que importa reter.

A referência a splendidissimus ordo que, apesar de não esclarecer o «estatuto administrativo do aglomerado populacional a que diz respeito, não especificando sequer, através dum desejável adjectivo, o nome desse aglomerado implica a existência duma organização de tipo municipal, splendidissimus, como é habitual» (ENCARNAÇÃO, 1984: 220; GONZÁLEZ BLANCO, 1996: 104). Miróbriga trata-se, portanto, de um aglomerado dotado de ordo decurionum , logo de assembleia ou Senado local , que, como em tantos municípios, deveria sancionar quase todos os actos da vida local e, nomeadamente, a organização dos actos religiosos e do calendário festivo e lúdico e até, com toda a probabilidade, a existência de quinquatrus em Miróbriga. Até ao século III confirma-se uma enorme vitalidade e uma ocupação intensa em Miróbriga, atestada pela concentração de materiais cerâmicos desse período, que tendencialmente vai diminuindo na segunda metade do século IV d. C., sendo muito escassas as importações de Terra Sigillata Africana (QUARESMA).

As razões que motivaram o abandono de Miróbriga não foram determinadas, mas os vestígios arqueológicos indicam uma gradual desactivação a partir do século IV d. C. (BIERS et alii, 1988: 10).

No entanto, não se pode falar propriamente de um colapso, pois apesar do decréscimo que se verifica a partir do século IV, continuam a verificar-se importações de cerâmicas de origem africana a que se juntam trocas com o Mediterrâneo oriental (QUARESMA).

2. Características gerais do aglomerado urbano


Foto de Filomena Barata.

Foto de Filomena Barata.


Fotografia aérea do Forum. Filomena Barata. 1995

Assentando num aglomerado anterior fortificado, de que desconhece a verdadeira dimensão, a urbanização romana de Miróbriga deverá ter-se adaptado à ocupação anterior e à topografia do local. Os Romanos utilizaram, para além de outras zonas, o alto da «acrópole» ou fortificação pré-romana, dotada de uma muralha construída com pedra-seca , numa situação de domínio em relação ao território envolvente. Deverão ter utilizado a zona fortificada, na fase inicial de Romanização, se bem que rompendo com o amuralhamento em algumas zonas, como se pode verificar junto do templo centralizado. Embora não sejam bem conhecidos o perímetro e a malha urbana da cidade, que só se poder clarificar com futuras escavações, é manifesto que Miróbriga não apresenta as características ortogonais do modelo ideal de urbanismo romano a exemplo de algumas fundações do território actualmente português, como Ebora, Pax Iulia, Bracara Augusta, Seilium (MANTAS, 1987: 40-55 PONTE, 1989: 11 ALARCÃO et alii, 1994: 71-81). A dispersão dos vestígios e dos materiais arqueológicos romanos abrange uma área de cerca de 8/9 ha sendo, contudo, desconhecido se toda ela foi intensa e uniformemente ocupada . Os recentes trabalhos de prospecção coordenados por Félix Teichner da Universidade de Frankfurt apontam, contudo, para uma grande densificação da área.

Atendendo ainda às calçadas existentes, quer no local por onde actualmente se faz a entrada em Miróbriga, quer a Norte do Forum, é óbvio que todo o aglomerado se estendia pelas áreas limítrofes à actualmente vedada. As prospecções efectuadas na zona limítrofe e os achados materiais fazem-nos concluir, não obstante, de uma área de dispersão do núcleo urbano semelhante a algumas pequenas cidades da Hispânia, inserindo-se, portanto, no contexto conhecido das províncias ocidentais . Ainda mal conhecido em toda a sua extensão, este aglomerado urbano distingue-se pelo seu Forum, pela zona residencial e comercial, pelo seu complexo termal (um dos melhor conservados em território peninsular), pelas suas calçadas, pelos seus sistemas hidráulicos, pela sua ponte e ainda pelo seu hipódromo, o único exemplar de planta conhecida em território português. Sobre essa linha de água existe uma ponte que deveria funcionar, fundamentalmente, para criar um vão debaixo do qual corriam as águas provenientes dos esgotos que drenavam para a cloaca, localizada junto às «Terma Este».



O CONJUNTO FORENSE DE MIRÓBRIGA

Tentativa de reconstituição do Fórum António José Cruz

1. O forum - características gerais




Corte do Forum e tentativa de análise das volumetrias de construções. Desenho de Armando Guerreiro, segundo interpretação de Filomena Barata


Mais do que em qualquer outro lugar do Império, no Ocidente, onde a arquitectura urbana se afirma tardiamente, o forum «representa o local no qual se concentram todos os símbolos da dignidade municipal, os edifícios administrativos e religiosos que definem a paisagem urbana e no qual as gerações que se sucedem, qualquer que seja o estatuto da cidade, adquirem a consciência de pertencer a uma comunidade».

Os seus monumentos são a «verdadeira memória da cidade (...) da sua autonomia, e das suas relações com o poder central» (GROS, 1992: 339).

A par de Munigua, Tarragona (GRÜNHAGEN, 1970: 101; GROS e TORELLI, 1992: 280-81; HAUSCHILD, 1992: 133), Bilbilis , localizada num ponto alto onde o forum e templo dedicado ao imperador se destacava de todo o aglomerado urbano (MARTÍN BUENO, 1987: 101; PINA POLO, 1993: 91) e Saguntum , construídas em locais acidentados, onde é necessário vencer desníveis (JIMÉNEZ, 19872: 174; ARANEGUI et alii, 1987: 73, 1994: 73), ou ainda Iuliobriga, onde as edificações se adaptam à topografia através de terraços (IGLESIAS-GIL, 1994: 209; FERNÁNDEZ VEGA, 1993: 23), Miróbriga é um dos bons exemplares de implantação em patamares da Península Ibérica. O aspecto cenográfico é acentuado, porque construindo-se o forum em terraços, na zona mais elevada, onde existira o povoado da Idade do Ferro, a zona central da cidade é visível de quase toda a povoação. Um podium e um templo centralizado coroam, por seu lado, a praça pública . O enquadramento com pórticos e a sua elevação em relação ao nível da praça, dominando todo o forum, foram, aliás, características comuns aos edifícios religiosos em período imperial (JIMÉNEZ, 19872: 175).

Estruturas do Forum de Miróbriga. SIG.

Presidindo a todo o conjunto forense, com a fachada principal do templo orientada para a praça pública, o forum de Miróbriga parece, assim, corresponder ao esquema básico de um forum romano ocidental, do início do período imperial (JIMÉNEZ, s/d: 49). O traçado da praça segue uma orientação Noroeste/Sudeste . Se bem que os resultados publicados das sondagens efectuadas na praça pública pela equipa luso-americana no forum não sejam suficientes para podermos aferir cronologias, um facto é que, do ponto de vista arquitectónico, o programa do forum aparenta ser o mesmo. Inclinamo-nos a admitir que todo o conjunto monumental deverá ter sido construído na segunda metade do século I d. C., na época flávia, correspondendo muito possivelmente às obras que andam associadas à municipalização . Os materiais arqueológicos provenientes de algumas sondagens efectuadas no canto sudeste do forum pela equipa luso-americana, onde foram exumados, sob o pavimento, fragmentos de Terra Sigillata itálica e sudgálica, datáveis entre o período tiberiano e flaviano (BIERS et alii, 19811), e os da época de Cláudio ou Nero, encontrados abaixo do nível do pavimento da calçada que se desenvolve a Sul , numa cota bastante mais baixa, junto às tabernae, parecem apoiar a hipótese da intervenção monumental no forum se ter realizado, efectivamente, no período flávio. A praça pública era porticada e ladeada de inúmeras construções cuja função deveria corresponder às comuns a um forum provincial alto-imperial de pequenas dimensões e uma Basílica asseguraria a administração da justiça e permitiria o comércio e na Cúria decorreriam os actos administrativos e eleitorais. A zona ao ar livre era rodeada de pórticos de todos os lados, porque admitimos que a mesma fosse completamente fechada. Kathleen Slane defendeu que o forum tinha pórticos dos três lados (BIERS et alii, 1988: 15). No entanto, se se aceitar que junto às alae do templo centralizado havia uma zona porticada, que fechava a praça do lado norte, e que o mesmo se passaria no topo sul, temos então um forum ocluso, característico do período imperial, que se assume como um espaço sob o «controlo dos deuses e do imperador» (BALTY, 1994: 96). A partir de finais da época republicana ou melhor da construção do Forum Caesaris ou Forum Iulium em Roma, iniciada em 51 a. C. e que se tornará rapidamente num modelo, pelo seu rigor planimétrico e poder simbólico, centrado no templo dedicado a Venus Genetrix (GROS, 1996: 212), a arquitectura forense foi-se alterando. Passa a vigorar a ideia de uma praça porticada dos três lados, rodeada de tabernae ou de outras construções, templo ao fundo e basílica no extremo oposto (MORA e ORIA, 1991-92: 121), ou seja o forum bloco. A praça passa a ser fechada à circulação viária e a unicidade de acesso à mesma rompe definitivamente com o sistema aberto do forum tradicional (GROS, 1996: 212-13). Esse modelo fechado foi o mais difundido em todo o Império em função do próprio desenvolvimento do culto imperial: «tímida ainda nos inícios do Império, a divinização do imperador triunfou sob os imperadores flávios» (ALARCÃO, 19922: 91) contribuindo para que se erguessem recintos exclusivamente consagrados ao culto imperial. Assiste-se, portanto, a uma perda de protagonismo na manifestação do culto da tríade capitolina em função dos cultos dinásticos, mais ou menos directamente ligados à pessoa do imperador (JIMÉNEZ SALVADOR, 19872: 173; BALTY, 1994: 94). A noção de axialidade ganhou, assim, um grande impulso, vindo o culto dedicado ao imperador a reforçar esta centralidade. Por outro lado, o desenvolvimento das actividades administrativas e judiciais que se prende com o desenvolvimento das próprias instituições romanas determinou a separação funcional e física das funções administrativas e religiosas, permitindo o protagonismo crescente da Basílica. A Basílica torna-se fundamental ao conceito alto-imperial, e sobretudo augustano, de forum, enquanto que a Cúria foi perdendo representatividade entre os esquemas monumentais.

O mesmo se verifica em relação aos edifícios comerciais que passam a agrupar-se em mercados independentes (JIMÉNEZ, 19871: 173).

Em território actualmente português também se fazem sentir essas alterações ideológicas. Se, por um lado, a construção do forum augustano de Conímbriga inclui templo, basílica, cúria e tabernae porticadas que ocupavam os lados menores do complexo arquitectónico, concentrando portanto as funções religiosas, administrativas e comerciais, já no forum flaviano «foram expulsos administração e comércio» (ALARCÃO, 1988: 67 e 72; 19922: 91) .

Em Miróbriga também parece, de algum modo, confirmar-se esta alteração ideológica, uma vez que no forum se instalam somente os edifícios administrativos e religiosos (BALTY, 1991: 403). No entanto, e se bem que não exista propriamente um edifício destinado a ser mercado - macellum - as tabernae são afastadas do centro do conjunto forense, desenvolvendo-se nas áreas limítrofes, como veremos noutro ponto deste trabalho. Todas estas alterações contribuíram para a concepção de um modelo construtivo, presidido pela oposição topográfica entre templo e basílica, protótipo que ganhou grande divulgação no período imperial e que colaborou no aspecto fechado que se verifica nos fora do período alto-imperial (JIMÉNEZ, 19872: 176).

Por seu lado, a existência de uma zona porticada em alguns fora contribui para solenizar o espaço sagrado definido pela construção religiosa, segundo os modelos de forum da dinastia júlio-claudiana (JIMÉNEZ, 19871: 52). A posição tradicional da basílica, frontal ao templo, ou seja, com os eixos do templo e da basílica perpendiculares, que Ward-Perkins denominou basilica-forum type, não se parece verificar, contudo, em Miróbriga. Embora se tenha levantado a hipótese de poder ter existido uma grande construção frontal ao templo, com funções de Basílica, ocupando todo o lado sul do mesmo, sustentada pelas tabernae que aí se desenvolviam, a uma cota inferior, e que poderiam ter exercido uma função similar a um criptopórtico, é um facto que os vestígios arqueológicos existentes, nomeadamente os restos de um grande talude de contenção que se eleva até a uma altura assinalável, não nos permitem demonstrar essa ideia, pois a construção teria que ser estreitíssima. Admitimos, portanto, que a praça seria fechada também desse lado sul, mas utilizando como oclusão os pisos superiores das tabernae que se desenvolviam até essa cota. A opção de localizar uma Basílica do lado oeste da praça, paralela ao seu eixo longitudinal, como julgamos acontecer em Miróbriga, é comum a outros fora, nomeadamente às edificações augustanas de Conímbriga e de Emporiae, a Bilbilis , cuja construção é datável de Augusto-Tibério (MARTIN-BUENO, 1987: fig. 2; JIMÉNEZ, 19871: 116; GROS, 1994: 96) e ainda a Saguntum (ARANEGUI et alii, 1987: 90-92; ARANEGUI, 1994: 74). Em termos gerais, o modelo básico de fora construídos na Hispânia, em período imperial, é caracterizado pela combinação de três elementos fundamentais: templo, praça e basílica (JIMÉNEZ, 19871: 116). Em todo o mundo romano, a basilica forensis é, normalmente, um espaço relativamente grande (segundo os cânones vitruvianos é um espaço rectangular mais ou menos alongado, spatium medium, rodeado por uma colunata que define um deambulatório, porticus), onde um dos lados mais compridos dá para a praça pública (GROS, 1996: 235).

Na Península Ibérica a maioria destas construções são efectivamente rectangulares, de proporções variáveis, tendo o seu comprimento pelo menos duas vezes mais do que a sua largura. Têm normalmente uma colunata no seu interior que define um espaço central à volta do qual se desenvolve um deambulatório que, muitas vezes, toma o aspecto de um pórtico do lado virado para o forum (GROS, 1996: 248). Na maioria dos casos em que a basílica se desenvolve lateralmente, o seu comprimento corresponde à largura da praça (JIMÉNEZ, 19871: 46), o que aliás parece acontecer em Miróbriga, onde a largura da praça é de 22,08 m e o comprimento da basílica e construção anexa (Cúria?) é quase o mesmo (19,50 m).

Em Miróbriga a construção que interpretámos como basílica tem uma só nave, à frente da qual, na fachada que dá para a praça pública, se desenvolveria uma colunata. Esta zona porticada delimitava uma espécie de deambulatório que corria ao longo da Basílica e da Cúria (?). Edificada numa posição frontal em relação à basílica, existe uma construção, identificada por D. Fernando como «casa de peristilo», cuja funcionalidade continua indefinida. A sua planta, centrada num pequeno podium ladeado por escadas, sugeriu-nos a existência de um altar. No entanto, o átrio possivelmente porticado e revestido a opus signinum coloca-nos algumas questões quanto à sua interpretação. Chegámos a admitir, numa primeira fase, a hipótese de se tratar da cúria, uma vez que, ao longo dos muros que se desenvolvem no compartimento centrado pelo átrio, se adossam umas banquetas, que poderiam ter servido como assentos. Apesar da sua presença identificar, muitas vezes, as cúrias (BALTY, 1991: 33), não encontrámos, contudo, quaisquer paralelos seguros para uma construção com as características da de Miróbriga , embora a cúria de Sabathra tenha alguns aspectos que se assemelham ao nosso edifício. Naquela edificação o acesso fazia-se através de uma espécie de átrio colonado, que tinha no eixo da entrada uma exedra absidiada. Era através desta zona porticada que se passava à aula propriamente dita, que se desenvolvia em degraus, e onde existiam, aí sim, banquetas ao longo de uma das paredes (BALTY, 1991: 34). Em Miróbriga só com muita imaginação se poderia conjecturar que a aula seria um dos compartimentos anexos, do lado sul, a essa zona porticada. No entanto, a existência de um podium axializado com a entrada, onde possivelmente se colocaria uma estátua, tem algumas semelhanças com outras cúrias africanas,como a de Palmira (BALTY, 1991: 52), e os desníveis ou degraus existentes no pavimento lembram muito outras construções com essa função, existentes nas Províncias Ocidentais. A sua localização, do lado direito da praça pública, formando um segundo eixo na mesma, perpendicular ao marcado pelo templo centralizado, situação que é bastante comum nas cúrias (BALTY, 1991: 82 e 402), contribuiu também para levantar a hipótese de se tratar de um edifício com essa função. Contudo, não será de excluir a possibilidade de a mesma se tratar de uma biblioteca ou de um tabularium, embora na Hispânia apenas se conheça um exemplo atribuído a Munigua (JIMÉNEZ, 19871: 72; HAUSCHILD, 1992: 140). As referências de D. Fernando de Almeida ao aparecimento num dos compartimentos contíguos de duas pequenas mós (ALMEIDA, 1964: 30) contribui para acentuar as dúvidas quanto à sua funcionalidade. As intervenções efectuadas por esse investigador nas duas colunas de quadrante, quase integralmente reconstruídas, colaboram também na dificuldade de interpretar a planta desta estrutura. Infelizmente, não existem evidências seguras quanto ao local da sua implantação nos sítios onde agora se encontram, pois apenas uma delas apresenta uma base pétrea, estando a outra assente numa base cerâmica que nos parece ser «restaurada», num nível mais baixo. No entanto, numa fotografia publicada em Miróbriga dos Célticos são visíveis, de facto, duas colunas, se bem que uma delas, mais a Poente, aparente ter outra localização. Mesmo tendo em atenção que a existência da cúria, como edifício destinado a sede oficial do Senado do Município ou da cidade, fazia parte obrigatória da administração local e era imprescindível nos municípios recém-fundados (BALTY, 1991: 82; GROS, 1996: 263), como é o caso de Miróbriga, é um facto que foi gradualmente perdendo a força entre as construções do forum, tal como aconteceu com os templos dedicados à tríade capitolina .

Deste modo, a cúria de Miróbriga parece coadunar-se melhor com a construção que se desenvolve do lado oeste do forum, anexa à basílica , que mede interiormente 7,20 m (24 pés) x 5,40 m (18 pés), com um compartimento de pequenas dimensões na parte de trás, situação que se assemelha à de Khamissa (BALTY, 1991: 93 e 216). A maioria dos muros deste edifício medem 60 cm, à excepção do que o fecha do lado sul, mais largo. Em Conímbriga, na época flávia, é construído um novo forum de características meramente religiosas e edificou-se um novo templo (próstilo, tetrástilo e pseudoperíptero) rodeado de um pátio e de um pórtico com criptopórtico, consagrado ao imperador (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 111). Essa intervenção arquitectónica obedece, de algum modo, à política de fomento municipal de cariz marcadamente imperial que é feita sobre o antigo forum . Em Conímbriga, a única entrada do forum flaviano é axializada em relação à cella do templo (e, portanto, para a estátua de culto), contribuindo para acentuar o triunfo da majestade do soberano e o aspecto fechado do forum (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 111 e lâm. XII). Ainda com essa finalidade, o podium torna-se mais destacado. Em contrapartida, as entradas no forum de Miróbriga seriam duas, fazendo-se respectivamente pelo lado oeste do forum, a Norte e pelo lado sul da Basílica. Uma escadaria escavada na rocha permitia aceder, numa primeira fase, das tabernae ao forum, ligando-se directamente à calçada que existia a sudoeste do conjunto monumental. Esta entrada permitia uma leitura mais grandiosa do forum e do templo centralizado. Como já anteriormente referimos, esta escada é, em data que se desconhece, fechada. Ainda do lado sul do forum, e oposto à entrada a que nos referimos, existia uma construção semicircular que se poderia tratar de um aedicula, para albergar a imagem de uma divindade , e que D. Fernando de Almeida interpretou como rostrum (ALMEIDA, 1964: 55), até porque, encostado, se encontrava o pedestal onde estava inscrita uma dedicatória a Gaio Ágrio Rufo, adoptado como cidadão de Itálica (ENCARNAÇÃO, 1984, IRCP 151).

Este pedestal de «mármore de S. Brissos» foi colocado por D. Fernando em cima de uma base localizada entre o acesso ao templo absidial e a calçada por onde se entrava, a Noroeste, no forum (ALMEIDA, 1964: 55). Para esta construção absidial encontrámos um bom paralelo em território português, pertencente a Tongobriga. Nessa cidade, junto à entrada do forum, foi identificada uma edificação onde se albergava uma ara com inscrição nas quatro faces. A utilização de plantas absidiais, muito comuns na arquitectura civil e religiosa desde início do Império com a finalidade de glorificar, parece, no caso de Tongobriga, dedicar-se aos deuses protectores do aglomerado (DIAS, 1997: 66).

Em Miróbriga, muito próximo da construção que interpretamos como aedicula foi implantado um grande silhar de 90x 60 cm ao qual foi chumbada uma argola de ferro, já referido por D. Fernando de Almeida , que provavelmente estava associado a essa obra, porque nela poderia ter assentado qualquer escultura. Ainda bastante perto da aedicula, encontra-se uma base que mede 78 x 87 cm, que poderia, por seu lado, ter pertencido ao pedestal deslocado. Não aceitamos, deste modo, a ideia de a edificação semicircular se tratar de um rostrum, que, a ter existido, se poderia situar em frente ao templo, ulilizando a cenografia do podium ou pulpitum.

2. A modulação do conjunto forense: os sistemas construtivos

 O forum de Miróbriga pode considerar-se de pequenas dimensões se comparado com outros fora da Lusitânia, nomeadamente alguns situados no actual território português. Segundo Jorge Alarcão, o forum pacense deveria medir 80x160 m, ocupando a basílica o lado sul do mesmo e destacando-se perpendicularmente a ela a cúria, de planta quadrangular (ALARCÃO, 1992:78); o de Conímbriga mediria 23,60x36,80 m, respeitando do ponto de vista da sua modulação os cânones vitruvianos (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 99) e a praça pública de Tongobriga rondaria os 90 m de comprimento por 60 m de largura (DIAS, 1997: 65). Segundo Vitrúvio (De Architectura, V.1.2), o forum deveria ter uma largura igual a dois terços do comprimento , o que não acontece em Miróbriga se tivermos em atenção apenas a praça a céu aberto. A largura da praça a céu aberto é de 22,08 m (73 pés). O comprimento até ao podium varia entre 25,50 m (85 pés) e 26,40 m (88 pés), tendo em conta as zonas salientes e reentrantes do mesmo.

Módulos do Forum de Miróbriga, seg. interpretação de Filomena Barata e Levantamento de Armando Guerreiro








Tentativas de reconstituição volumétrica do Forum de Miróbriga e levantamento transversal, 
segundo Antonio Giannoccard.


A praça pública ao ar livre tem, portanto, o aspecto mais quadrangular a que nos referimos, a exemplo de outros fora que, embora mais monumentais, se inscrevem no grupo constituído por recintos dotados de praças quadrangulares, como são exemplo Bilbilis , Baelo Claudia e Emporiae (JIMÉNEZ, 19871: 89; LÈON, 1993: 46), e que alguns autores quiseram filiar nos principia (GROS e TORELLI, 1992: 348; EUZENNAT, 1994: 197-203) .

No entanto, se considerarmos o total da praça de Miróbriga, contando o sítio onde fecha, junto às alae do templo centralizado, ela assume um aspecto mais rectangular medindo o comprimento total da praça quase duas vezes a largura da mesma, podendo definir-se seis módulos. Por seu lado, o seu comprimento pode subdividir-se em três partes, ou módulos: do podium até às alae mede um terço; o resto da praça dois terços, aproximadamente. Por seu lado, o templo centralizado tem de largura um terço da largura da praça pública. Ladeado por duas alae, em forma de L, que fechavam a praça e que ocupavam, por sua vez, aproximadamente dois terços da largura da mesma (um terço cada uma) , pode dizer-se que o forum era dominado na íntegra por este edifício religioso. O podium de Miróbriga , construído em opus caementicium revestido com placas calcárias, deveria medir 1,50 m de altura (apesar de muito reconstruído em alguns locais, é clara a construção original) por 15 m de comprimento, na zona mais próxima da praça pública (50 pés). Esta construção tem também um aspecto bastante cenográfico, formando como que nichos rectangulares e curvilíneos, possivelmente influenciada num pulpitum de um teatro (BIERS et alii, 19811: s/p; ALARCÃO, 1990: 465). O acesso ao templo fazia-se através das escadas laterais do podium . A maioria dos muros das construções que rodeiam a praça medem 60 cm (2 pés). Apenas diferem os muros do topo sul do forum, que medem 70 cm, e os do templo centralizado, que têm 90 cm em média.

A Basílica, por seu lado, não corresponde aos cânones vitruvianos, porque o seu comprimento não mede duas vezes ou três vezes a largura, nem tão pouco se assemelha a uma nave rodeada de pórticos. Esta construção mede internamente 13,80 m (46 pés) x 9 m (30 pés) e tem apenas uma nave.

No entanto, se adicionarmos o compartimento que se lhe anexava, correspondendo à Cúria, temos um comprimento total das duas construções de 21, 9 m (73 pés) que perfaz mais que o dobro da largura exterior das mesmas (10, 20 m  34 pés) conferindo um cariz mais canónico ao conjunto.

O opus incertum é o aparelho de construção mais utilizado em Miróbriga, de acordo com o que se passa no resto da Hispânia. De tamanho médio, a maioria dos blocos pétreos utilizados varia entre os 20 a 30 cm. Em algumas construções de Miróbriga, a exemplo das termas e das tabernae, é usado o opus quadratum em «zonas principais» e muito excepcionalmente as opera mixta . O aglutinante mais usado em todo o aglomerado urbano é uma argamassa com base de cal e areia, possivelmente de origem fluvial, aliás já considerada por Vitrúvio como a mais aconselhável, caso não existissem pedreiras (De Architectura, II, 4, 2) a que se adiciona, por vezes, uma terra argilosa .

No forum, tendo em vista dar regularidade ao paramento externo da maioria dos muros construídos em opus caementicium, que deixavam a sua face externa com um aparelho de pedras irregulares, opus incertum, foi utilizado quer o revestimento com estuques, como se pode ver na entrada norte do mesmo, quer com placas calcárias.

Algumas dessas placas calcárias (calcário fétido de S. Brissos) estão ainda in situ como acontece no podium e nos muros que fechavam o forum do lado este e sul. No podium reconhecem-se também os encaixes onde essas placas se agarravam ao aparelho construtivo, que deveriam funcionar como lambris (ALMEIDA, 1968: 93).

Este tipo de intervenção é muito comum em período alto-imperial, pois, a partir de Augusto, acentuara-se a «moda» de dar uma aparência marmórea e sumptuária aos monumentos (RODÀ, 1994: 324), copiando, aliás o que se passava em Roma.

Não é pois de admirar que mesmo nas mais longínquas fundações se quisesse imitar, à medida local e sem nunca atingir os níveis verificados na capital ou nas cidades italianas, a grandiosidade romana.

Apesar de alguns investigadores considerarem que os reflexos dessa «nouvelle mode» foram muito rapidamente assimilados em todo o império (KEAY, 1995: 305), parece, contudo, que esta nova atitude monumental foi introduzida um pouco mais tarde nas cidades das Províncias Ocidentais, algumas das quais só assistiram ao fenómeno de monumentalização na dinastia flávia (HAUSCHILD, 1994: 200).

Em Miróbriga, a praça pública era pavimentada com blocos calcários (calcário fétido de S. Brissos) assentes em opus signinum, técnica que é comum às termas. Embora só algumas das placas que a revestiriam estejam ainda colocadas in situ, no entanto, são visíveis os negativos das mesmas em quase toda a praça. A maioria dessas placas são rectangulares e, tendo em atenção o seu negativo, mediriam 1,50x0,60 m. Atendendo à largura da praça que mede 22,08 m seriam, pois, necessárias na largura trinta e cinco placas, uma vez que elas têm o seu lado maior paralelo ao comprimento da praça. Nos cantos ou reentrâncias foram utilizadas algumas placas praticamente quadrangulares, medindo 0,75x0,72 m, que contribuíam como que para rematar o pavimento, como se pode verificar junto ao podium e nas zonas anexas à basílica. Tendo em atenção o comprimento da praça que é de 25,15 m, seriam necessárias dezasseis placas rectangulares e uma praticamente quadrangular (com 0,72 m comprimento). Utilizando essa associação, teríamos uma soma de 24,72 m que, se contarmos com as juntas, perfaz praticamente a totalidade da praça. O aspecto monumental é reforçado pela sua construção em patamares, como já referimos anteriormente, cortando e aplanando a xistosa rocha para criar várias plataformas. Esta situação é bem visível no lado norte do forum, onde um grande muro de contenção foi construído para vencer a diferença de alturas existente entre as duas plataformas: a mais alta onde se localiza o templo centralizado e o templo de Vénus e a praça pública propriamente dita , a uma cota mais baixa. Esta situação repete-se também no declive sul do forum onde foi feito um terceiro talude em opus caementicium, a que se adossam as tabernae.

Os taludes construídos verticalmente entre as duas primeiras plataformas usaram também opus caementicium revestido aqui com estuques, alguns dos quais pintados. Para o comprovar há o negativo feito a compasso com elementos decorativos, localizado junto à escadaria de acesso pelo lado oeste do templo centralizado. Este revestimento contribuía para dar um aspecto mais uniforme e grandioso à praça. Paralelamente a esse talude existe uma calçada por onde se entrava, pelo lado Noroeste, na praça pública. Esta mesma entrada dava acesso, através de uma escadaria, a um outro edifício de planta absidial, à qual tem sido atribuído o culto a Vénus. A orientação desta construção obedece à mesma do forum, sendo praticamente paralela ao templo centralizado.

Embora a epigrafia ateste o culto a Vénus em Miróbriga, não podemos contudo confirmar se este era efectivamente um templo dedicado a essa divindade.

Não deixo, não obstante, de referir que durante as campanhas dos anos noventa, após fortes chuvadas, apareceu um par de brincos entrelaçados, denotando que haviam sido depositados propositadamente junto a esse templo. Executados num finíssimo fio de outro, o mesmo do início ao fim da peça de enorme singeleza, os brincos tinham pérolas pequenas, separadas entre si por nós desse mesmo fio de ouro.




De ambos os lados da escadaria que dava acesso ao templo possivelmente dedicado a Vénus, desenvolve-se o talude a que anteriormente fizemos referência e que se adossa ao afloramento xistoso cortado. A poente deste templo e praticamente anexas a ele, se bem que com uma orientação diferente, existem várias construções, edificadas em opus incertum, cuja função se desconhece, porque ainda não foram escavadas na íntegra. Deveriam articular-se com as tabernae que se desenvolvem paralelamente, mas a cota mais baixa, correspondendo à plataforma por onde se fazia a entrada, pelo lado norte, na praça pública.




Fotografia aérea do Forum de Miróbriga. Filomena Barata. 1995

3. O templo centralizado



Vários são os exemplos de arquitectura religiosa no território actualmente português . Segundo Vitrúvio (De Architectura, III. 2, 2), os templos, ou melhor dizendo, aedes in antis - por templum é entendida a plataforma ou terraço onde se elevava o altar ao ar livre - têm muros laterais que se prolongam para a frente da cella, a parte essencial da aedes, onde se conserva uma estátua da divindade ou um símbolo sagrado -  e que constituem as faces laterais do pórtico ou pronaos.

Entre elas deverão existir duas colunas. Por cima existirá um frontão que ajuda a suster a cobertura. Segundo este autor dos primórdios da época imperial, o templo, aqui utilizado como sinónimo de aedes, e a estátua devem estar virados preferencialmente para o Ocidente para permitir que, quando os devotos para aí dirijam o olhar, enfrentem também o Oriente.

Caso não seja possível, deverá ter debaixo dos seus olhos o maior número de devotos possível (De Architectura, IV. V. 2 , 3 e 5). Adverte ainda para a localização indicada para erigir os templos, sugerindo que os templos de Júpiter, Juno e Minerva deverão estar situados em pontos altos, dominando a cidade (I, XII, 4), portanto, num ponto proeminente do aglomerado (De Architectura, IV.V.4).

Em território português os edifícios religiosos conhecidos têm em comum exactamente a localização num ponto elevado (HAUSCHILD, 1989-90: 72) em relação à platea, obedecendo, deste modo, aos cânones vitruvianos.

Em Miróbriga, no mais alto dos patamares do forum de Miróbriga foi edificado, como já referido, um templo, que T. Hauschild admite poder interpretar-se como próstilo (HAUSCHILD, op. cit.: 72), muito provavelmente dedicado ao culto imperial, cujo podium coroa a praça pública. Esse templo foi, como já fizemos referência, objecto de escavações e de reconstruções efectuadas nas campanhas de D. Fernando de Almeida e apresenta, nos nossos dias, um aspecto cenográfico que domina toda a praça pública. Alguns desses restauros dificultam, em algumas zonas, a verificação da planta inicial, fazendo-nos mesmo duvidar da forma como o edifício poderia funcionar, nomeadamente uma abertura central que foi entaipada e onde se construiu uma parede cimentada para ajudar a suportar o peso das colunas que D. Fernando aí colocou.

Pese os desenhos de tentativa de reconstituição assumindo-se claramente que o mesmo seria dedicado a Esculápio, elaborados quando das escavações coordenadas por D. Fernando de Almeida, apenas parcialmente foram reconstruídas paredes e elevadas colunas, colocadas à entrada do templo.

Foto de Filomena Barata.


Tentativa de reconstituição do Templo Centralizado de Miróbriga.
Desenho de Dario de Sousa, nas campanhas de D. Fernando de Almeida.

D. Fernando refere mesmo nos seus cadernos de campo que «o rectângulo é a base e aquela parede, em tempos continuada para cima, servia de separação entre a cela e o pórtico, ligados pela porta bem clara, nos seus alicerces, entre os dois troços deste muro» (ALMEIDA, 1964: 28). Este investigador acrescenta ainda que no seu interior encontrou moedas, terra sigillatta do século I, dois fragmentos de cerâmica «tipo campaniense» e, na zona mais baixa da escavação,  junto ao solo virgem, uma zona de carvões e muitos objectos metálicos (ALMEIDA, 1964: 28). Dos restos de estruturas encontradas foi elaborada planta pormenorizada.

Tentativa de reconstituição do Fórum por Dario de Sousa, 
segundo interpretação de D. Fernando de Almeida

Na campanha de 1996, foi feita uma sondagem no interior da cella, tendo-se concluído que o acesso ao templo se deveria fazer por uma escada que descia, uma vez que a cota da cella era muito mais baixa do que a plataforma do pronaos. Detectou-se ainda que as fundações do edifício se faziam a uma cota aproximada de 2 m abaixo do nível onde foram implantadas as colunas, como já o havia verificado a equipa luso-americana (BIERS et alii, 19812) . Não se conseguiu encontrar qualquer nível correspondente ao pavimento, que poderá ter sido rebentado em escavações anteriores, pois no meio dos entulhos com que posteriormente foi cheia a cella há grandes blocos revolvidos de opus signinum. Nesses níveis mais baixos encontraram-se cimentos recentes, que devem datar da altura da reconstrução do edifício. Através de uma fotografia publicada por T. Hauschild, verifica-se que algumas partes da construção foram mesmo desmontadas para, em seu lugar, serem reedificados novos muros (HAUSCHILD, 1989-90: lâmina 3, 2.). Conclui-se que a cella era construída em opus incertum e que nos cantos havia silhares de maiores dimensões, situação que actualmente não se verifica. Através da análise dessa fotografia, ficamos também na dúvida se os muros se estenderiam para o pronaos, uma vez que esses silhares de maiores dimensões parecem travar um dos cantos da cella.

Nada indicia nesse registo fotográfico que a construção tivesse as colunas com a disposição que D. Fernando de Almeida lhe deu.

No entanto, em 1996, foi por nós encontrada numa acção de limpeza do Forum uma coluna adossada, junto às escadas que acedem, do lado oeste, ao templo centralizado. Os tambores desta coluna haviam sido colocados, em época que se desconhece, a servir de degraus das escadas. Um deles, de maiores dimensões, mede 43 cm de largura e 25 cm de espessura.

Não conseguimos, no entanto, obter a altura total da mesma, porque verificámos pelo seu sistema de encaixe e pela articulação de todos os elementos - a coluna ia estreitando gradualmente - que falta pelo menos um dos tambores. Também desconhecemos que destino possa ter tido o capitel que a encimava. Admitimos, portanto, que se possa tratar de um templo in antis, e que o mesmo pudesse ter colunas na fachada.

O templo in antis é o tipo mais rudimentar de edificação religiosa, da qual derivam construções mais complexas. Este tipo de construção, de que existem inúmeros exemplares na Hispânia romana , contrariamente ao que se verifica noutras províncias do Império, parece ter sido, tal como os templos perípteros (ou pseudoperípteros), um dos meios eficazes de difundir a romanização nas províncias hispânicas (BURGHOLZER, 1994, II: 78-79).

No território actualmente português, para além de Miróbriga, conhece-se uma construção de Almofala, que foi estudado e publicado por Helena Frade que o classifica como templo próstilo tetrástilo (FRADE, 1994: 1026), e que alguns autores haviam interpretado como edifício funerário (HAUSCHILD, 1989-90: 64).

Escavações promovidas em Ammaia vieram trazer à luz os restos de uma estrutura, que aparenta ter as características de um podium de um templo (OLIVEIRA et alii, 1996: 17 e 18 e), provavelmente in antis.

Recentes trabalhos arqueológicos coordenados por Amílcar Guerra e Carlos Fabião vêm conferir ao Forum a grandeza que já antes se equacionara.

Segundo Vitrúvio (De Architectura, III. II. 4, 5) os templos in antis deverão ter entre as paredes duas colunas e os muros deverão ter a espessura das colunas (De Architectura, IV. IV. 5). Se o edifício tiver mais do que 20 pés em largura deverá ter, no frontispício, para além das pilastras, duas colunas na fachada entre os muros (De Architectura III. II. 4 e 5), que sustinham o frontão. Esta situação pode ter-se verificado em Miróbriga, pese a dúvida que existe sobre a proveniência das duas colunas centrais.

O edifício de Miróbriga, portanto, parece obedecer a algumas das características típicas dos templos etrusco-itálicos: dotado de pronaos e cella, com colunas na fachada e alae laterais (MARTA, 1990: 121) e frontalidade, fazendo-se a entrada só pela frente, através de degraus de número ímpar que, por sua vez, assentava num podium , a exemplo de muitos outros templos da Península (BLÁZQUÉZ, 1993: 471).

Do ponto de vista da orientação o templo centralizado de Miróbriga cumpre parcialmente as normas vitruvianas, porque a sua entrada está virada a Sudeste. O acesso à parte superior do podium era feito, por seu lado, por duas escadas laterais , cujos degraus eram implantados na rocha escavada e que estão, do lado nascente, praticamente intactas. No cimo desse podium existiam centralizados os degraus por onde se fazia a entrada no templo in antis.

A coluna adossada que se encontra presentemente no forum e aí colocada por D. Fernando de Almeida, trazida dos balneários, tendo sido esta decisão justificada e profusamente registada.

Foto de Filomena Barata.

Foto de Filomena Barata.

Balneários de Miróbriga ainda com as colunas "in situ" e seu levantamento. 
Campanhas de D. Fernando de Almeida.

Foto de Filomena Barata.
Colunas ainda "in situ" nos balneários e seu levantamento (do lado direito). 
Colunas já colocadas no templo centralizado. 


Mede 3,62 m de altura, tendo a sua base 26 cm de altura e 51 cm de largura. O capitel mede 42 cm de altura. Se tivermos em atenção os cânones vitruvianos, que defendem que a altura do capitel coríntio devia ter a espessura da coluna, e se compararmos com as medidas da que foi encontrada nos anos 90, poderemos dizer que em Miróbriga as colunas adossadas do templo poderiam ter tido, efectivamente, esse tipo de capitéis, pese embora o exemplar aí colocado tenha pertencido às termas.

Não obstante, mesmo admitindo-se que o templo de Miróbriga se pudesse tratar de um templo próstilo com quatro colunas na fachada, ou pseudotetrástilo, esta nunca poderia ter funcionado como na reconstituição apresentada por D. Fernando de Almeida. A existirem colunas, elas estariam colocadas à frente do pronaos e não à entrada da cella como se verifica na reconstrução efectuada. O pronaos poderia ser fechado com muros laterais, isto se admitirmos que a coluna recentemente encontrada estaria adossada às paredes do templo. Por seu lado, a entrada para a cella far-se-ia pela porta que foi entaipada nesses trabalhos.

O templo centralizado de Miróbriga mede: no espaço interior do pronaos 5,4 m de largura (18 pés) por 2,10 m de comprimento (7 pés) e a cella tem interiormente 5,4m de largura (18 pés) por 7,20m de comprimento (24 pés). A largura do exterior do edifício é de 7,20 m (24 pés) e o comprimento total exterior é de 12 m (40 pés).

As alae, apresentando nos nossos dias uma aparência irregular que se deve, muito possivelmente, às fissuras, desmoronamentos, ou mesmo reconstruções efectuadas no conjunto do templo centralizado, deveriam ser regulares.

Aliás, nos primeiros levantamentos efectuados por Dario de Sousa, ao tempo das escavações promovidas por D. Fernando de Almeida, essa regularidade parece mais óbvia.

Segundo os cânones, a espessura dos muros deveria corresponder à oitava parte da altura (o que em Miróbriga corresponderia a 7,20 m e, portanto, igual à largura do edifício). Aceitando-se que as colunas mediam efectivamente 3,62 m, como a que aí foi colocada por D. Fernando de Almeida, e que sobre elas ainda se desenvolvia um entablamento encimado por um frontão no frontispício, pode admitir-se que a sua altura se aproximasse desse valor, a partir da base do templo.

Um elemento arquitectónico em calcário, que se encontra do lado nascente do forum e que apresenta nos topos um prolongamento que funcionaria como sistema de encaixe, poderia ter pertencido à arquitrave do templo. No entanto, as suas dimensões -1,47x0,75x0,28 m -, e mais especificamente, a sua largura, não se adaptam às do templo centralizado, cujos muros têm 0,90 m de largura, a menos que se admitisse que apenas pudesse encimar o frostispício.

Ainda segundo os cânones vitruvianos, a cella deverá ser um quarto mais comprida do que a sua largura, sendo a largura metade do comprimento no total (De Architectura, IV. IV. 1 e 2). Em Miróbriga, a cella do templo in antis obedece a esses princípios, se bem que o comprimento total da construção seja ligeiramente inferior ao dobro da sua largura. De notar, no entanto, que o edifício de Miróbriga tem a largura exterior igual ao comprimento interior da cella.

Pelas características dessa construção e das estruturas existentes no forum, anteriormente descritas, dificilmente se aceitará que este templo pudesse ser dedicado a Esculápio , parecendo-nos, deste modo, que esta construção de meados do século I, seria, de facto, consagrada ao culto imperial que, nas províncias ocidentais, teve o seu auge com a municipalização.

4. O Templo de planta absidial

Uma outra construção, de planta absidial, tem sido atribuída ao culto de Vénus (ALMEIDA, 1964: 26 e 71), baseando-se na arquitectura do edifício, comum, segundo D. Fernando de Almeida, a outros templos dedicados à mesma divindade e nos dados arqueológicos conhecidos. Se, por um lado, a sua planta tem levantado algumas dúvidas, porque os templos basilicais são pouco usuais em edifícios religiosos, na Lusitânia , que aqui apresentam maioritariamente um aspecto rectangular (JIMÉNEZ, 19871: 53), sendo mais comum o seu uso em edifícios civis , é um facto que em Itália este tipo foi muito utilizado a partir dos começos da época imperial (GROS, 1996: 140).

O primeiro exemplar conhecido de «templo de abside» é exactamente dedicado a Venus Genetrix e foi construído em posição dominante do Forum Iulium para homenagear a origem mítica dos Iulii (GROS, 1996: 140).

Data de 2 a. C. a inauguração do templo de Mars Ultor que também apresenta uma planta da mesma tipologia, ocupando a abside um lugar na cella análogo ao templo de Venus Genetrix (GROS, 1996: 142). No entanto, o aspecto cenográfico do templo dedicado a Venus Genetrix, construído sobre um podium de 5 m, poderá, a uma escala diferente, lembrar a localização sobranceira que no forum assume o templo absidial de Miróbriga.

A escadaria pela qual se lhe acederia, contribuía para dar ao edifício um aspecto ainda mais imponente.

O facto de o culto a Vénus estar atestado em Miróbriga, quer arqueologicamente, através de fragmentos de uma estátua onde a deusa Vénus Capitolina é representada com a ânfora, quer através de epígrafes , contribuiu para que a associação se fizesse.

Foto de Filomena Barata.


Fragmentos de estátua de Vénus proveniente de Miróbriga. Museu Municipal de Santiago do Cacém.

Do lado direito: ânfora da divindade

De facto, em Miróbriga existem duas inscrições dedicadas a Vénus a que já nos referimos: uma, cujo dedicante é Caius Iulius Rufinus, magister, indígena romanizado que adoptando o gentilício e um praenomen comum da gens Iulia, adoptou também o culto privilegiado da mesma gens (IRCP 146; ALARCÃO, 19852: 110) e que poderá ter desempenhado funções religiosas ; e outra, consagrada a Vénus Vencedora Augusta em honra de Lucília Lepidina (ENCARNAÇÃO, 1984: 224) .

A equipa americana, atendendo à planta do edifício, caracterizou-o como assemelhando-se a uma «basílica cristã» (BIERS et alii, 1988: 15). O acesso a este templo fazia-se através de uma escadaria escavada na rocha que o une à praça pública, como anteriormente referimos.

Esta construção, edificada relativamente perto do templo centralizado, é também construída em opus caementicium. O seu pavimento é revestido com opus signinum que assentava, por sua vez, numa obra com características semelhantes ao statumen. Não há vestígios de terem sido aplicadas sobre o mesmo quaisquer placas calcárias ou marmóreas. No centro da abside é visível uma base de altar. O templo era dividido em três naves, medindo as laterais cerca de 4 m. A largura total do edifício é de 15 m e o comprimento é de cerca de 10m.

Relativamente às referências aqui citadas, poder-se-á a verificar na Bibliografia Geral de Miróbriga e das cidades romanas também aqui publicada neste blogue.