terça-feira, 13 de agosto de 2019

José Leite de Vasconcelos e o Santuário do Endovélico

José Leite Vasconcelos, o fundador do que actualmente se designa Museu Nacional de Arqueologia, teve a sua vida consagrada vida integralmente à ciência e mais concretamente ao estudo da etnografia, na história, da arqueologia, da epigrafia, da numismática, da filologia, entre outras temáticas, morreu em 17 de Maio de 1941.
Legou-nos, para além de um inumerável trabalho, uma obra notável realicionada com a «História das Religiões».
Remonta a 1890 a edição do seu primeiro trabalho dedicado a esta temática, publicado no jornal Dia número 846, o artigo “ O Deus lusitano Endovellico”, logo seguido de outro artigo “Novas inscrições de Endovellico”, dado à luz no número de 30 de junho de 1890 do jornal Auróra do Cávado.
Pode considerar-se que o domínio especifico do estudo das religiões da Lusitânia se tenha iniciado nas décadas de setenta oitenta por Francisco Martins Sarmento, Gabriel Pereira, Adolfo Coelho para não referir alguns trabalhos anteriores de carácter generalista.
No que respeita à investigação, o conhecimento havia evoluído muito com a publicação do vasto volume «II do Corpus inscriptionum Latinarum» onde Emílio Hubner havia recolhido e dado a conhecer todas as inscrições conhecidas.
Mas, obviamente, que este tipo de interesse pelo universo das Religiões se pode remontar ao Humanista André de Resende, o primeiro a copiar os textos das epígrafes do Santuário do Sol e da Lua, bem como, a seu modo, a Frei Bernardo de Brito, através do estudo da estatuária e dos textos epigráficos e comentários sobre o assunto, bem como com o recurso com o recurso a aspectos lendários, a exemplo da localização do túmulo de Tubal no Promontório Sagrado.
Também Camões, através da sua epopeia, faz juz às divindades do Olimpo como protectoras da epopeia portuguesa.
Com o iluminismo do século XVIII encontramos entre os interessados por esta temática Jerónimo Contador de Argote e, depois, José Diogo Mascarenhas Neto.
Os trabalhos de Martins Sarmento, Gabriel Pereira e Adolfo Coelho, no século XIX, sem dúvida que contribuiram para um maior interesse pela temática.
Já em 1885, José Leite Vasconcelos assina um opúsculo de 62 páginas onde apresentara uma síntese sobre Portugal Pré-histórico, (Lisboa, David Corazzi editor, vol.106 da Biblioteca do Povo e das Escolas), demonstrando assim o seu interesse pela arqueologia, em cujos trabalhos práticos se iniciou em 1890, no santuário de Envellico em S. Miguel da Mota, Terena.
Entre 1897 e 1913 vários investigadores se sentiram estimulados pelos estudos de José Leite de Vasconcelos e foram dando contributos para o seu trabalho.
Podemos referir alguns dos nomes dos que, de alguma forma, contribuíram para a valorização das Religiões, tais como Francisco Manuel Alves, Albano Bellino, Félix Alves Pereira, António dos Santos Rocha e Francisco Tavares Proença Júnior.
A obra veio a ser concluída em 1913, embora José Leite de Vasconcelos lhe tenha feito adendas em: “ Hierologia lusitânia (novos adiamentos às Religiões da Lusitânia, vol I a III)”, publicados em O Archeologo Português. Ainda relacionado com as Religiões, JLV escreveu um opúsculo de 24 páginas intitulado «Deuses da Lusitânia», Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1913, onde respondia às criticas emitidas por G.L. Santos
Ferreira no opúsculo «Breves Observações Acerca do Método Seguido no volume 2 das «Religiões Lusitanas» para a Leitura de Certas Inscrições Latinas», Lisboa, 1913, tema que retomou ainda mais tarde.
São estas as suas palavras em 1897 «Para mim as religiões não passam de phenomenos sociologicos»
A exposição inaugurada sobre o tema «As Religiões da Lusitânia», no Museu Nacional de Arqueologia, bem como a edição do seu catálogo, sob a coordenação de José Cardim Ribeiro, são a justa homenagem ao fundador do Museu e uma obra indispensável sobre os novos conhecimentos sobre esta temática.
Bibliografia sumária:
José Leite de Vasconcelos, Fotobiografia
Lívia Cristina Coito, João Luís Cardoso e Ana Cristina Martins
Museu Nacional de Arqueologia
Sobre as Religiões da Lusitânia
Por: José Manuel Garcia
disponível em: https://accaopopularlibertaria.files.wordpress.com/…/religi…
A Historiografia das Religiões Antigas do Oidente Peninsular, Helena Gomeno Pascual, in «Religiões da Lusitânia : Loquuntur Saxa», Museu Nacional de Arqueologia, 2002.
Sobre o Santuário de Endovélico, propomos a leitura de:
«A INVESTIGAÇÃO EM TORNO DO SANTUÁRIO
DE S. MIGUEL DA MOTA:
O PONTO DE SITUAÇÃO»
Thomas G. Schattner
Instituto Arqueológico Alemão – Madrid
Carlos Fabião
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Amílcar Guerra
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Texto a partir de recolha de Filomena Barata.
Na imagem: Portadora de oferendas. Santuário de Endovélico. Fotografia: Museu Nacional de Arqueologia. Exposição «Religiões da Lusitânia».

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Os meses de Julho e Agosto Filomena Barata (Reeditado Julho 2014)

[Setúbal na Rede] - Os meses de Julho e Agosto
Julho 2014
Filomena Barata

Atravessando nós já o Verão passado, que foi em Junho o Solstício, estamos num Julho a que, mesmo com a crise que atravessamos, faz apelos às praias ou aos lugares de reencontro em que se reúnem em férias, os que vivem fora do país ou à descoberta de novos sítios ou experiências.
A vida de todos nós é afinal vincada pelo Tempo, essa entidade que hoje nos surge quase que como abstracta, mas que sempre foi marcada por uma relação estreita do Homem com a Natureza, relacionando-se os ciclos da vida e da sociabilidade com festividades em sua honra, muitas das quais perduram nos nossos dias, mesmo que com novos nomes e figurinos.
É dessa relação do Homem com o Tempo que tentaremos hoje falar, baseando-nos em vários trabalhos publicados sobre o tema, de que, desde já se salienta "Calendários romanos" e "Calendário romano División de los años", cuja leitura recomendamos.1
O calendário deve a sua denominação às "calendas" que, no antigo calendário romano, era o primeiro dia de cada mês, quando ocorria a Lua Nova. Daí provém a expressão para "as calendas gregas" que, afinal, nada mais quer dizer do que "nunca mais", pois os gregos não tinham "calendas" nos seus calendários.
Ao que se sabe, os primeiros calendários conhecidos são o hebreu e o egípcio, tendo ambos um ano com 360. Cerca de 5.000 a.C. após muitas reformas, os Egípcios optaram por um ano de 365 dias, havendo já consciência de que existia um desacerto em relação ao Tempo real.
Em Roma conhece-se a existência de calendários desde a fundação da cidade de Roma, em 753 a.c., atribuindo-se a Rómulo, o seu fundador mítico a introdução do primeiro calendário que dividia o ano em 304 dias, distribuídos por dez meses, tendo os quatro primeiros os nomes de divindades mitológicas, ou seja Martivs; Aprilis; Maivs; Ivnivs e os outros eram designados por números decimais.

Martivs, em honra de Marte, pai, segundo a Mitologia, dos fundadores de Roma, Rómulo e Remo.
Aprilis, possivelmente consagrado a Vénus, a quem alguns alegam relação com Apru em etrusco.
Maivs, que se parece relacionar com a deusa Maia, mas que alguns estudiosos atribuem ao culto dos antepassados, os "Maiores".
Ivnivs, consagrado a Juno.
Qvintilis, por ser o quinto mês. Passou a ser designado Ivlivs (Julho) após a morte de Júlio César, por ser o mês do seu nascimento, como veremos de seguida.
Sextilis, o mês sexto que, mais tarde, se passou a chamar Avgvstvs, em honra de Octávio Augusto.
September, o sétimo mês
October, o oitavo mês.
November, o nono mês.
December, o décimo mês.

Fotografia a partir de Aqui


Nuestro calendario y su origen romano, José Antonio Cabezas Vigara



Numa Pompílio, o segundo rei de Roma (715-673 a.C.), por sua vez, adoptou um calendário adaptado ao ciclo lunar, composto por 355 dias, distribuídos por doze meses, tendo-se assim formado dois novos meses, Janvarivs, dedicado ao deus Ianvs, e Febrvarivs, que passou a ser o último mês do ano dedicado em honra de Febrvo, mais conhecido por Plutão, deus da purificação dos mortos a quem se ofereciam sacrifícios. Esses dois meses foram obtidos porque, ao que reza a História, o rei considerava que os meses com dias pares eram azarados, tendo diminuído um dia a cada um dos seis meses de trinta dias a que juntou mais 50.




Tabela 2 - Meses do Calendário de Numa Pompílio

Na fotografia: Meses do Calendário de Numa Pompílio
A partir de aqui:



Inscrição com o calendário romano, antes da reforma juliana. Observe a presença dos meses Quintil e Sextil, e a possibilidade de inserção de um mês intercalar. Fotografia e legenda a partir de: https://pt.wikipedia.org/wiki/Calend%C3%A1rio_romano...

Nenhuma descrição de foto disponível.
No entanto, nem assim se conseguiu obter um acerto definitivo, após várias reformas acabou-se por acrescentar de 4 em 4 anos mais dois meses ao ano, denominados Mercedonios ou Intercalares, mas cuja marcação móvel ao critério dos colégios sacerdotais originava enormes confusões na sociedade.
Assim, para colmatar essas dificuldades e inconvenientes, Júlio César decidiu proceder a um novo ajuste do calendário, pois estava 67 dias adiantado em relação ao ciclo das estações, tendo-se socorrido do astrónomo Sosígenes para que estudasse a situação e o tentasse acertar.
Após uma experiência no ano de 46 a.C. cuja reforma não resultou, em 45 a.C., Júlio César adoptou um novo calendário solar, conhecido por Juliano, e fixou-se a duração do ano em 365 dias, 5 horas e 52 minutos, num sistema que devia desenrolar-se por ciclos de quatro anos, com três comuns de 365 dias e um bissexto de 366 dias, a fim de compensar as quase seis horas que havia de diferença. Como homenagem, após a sua morte, o mês Quintilis passou a se chamar Julius.
É a partir do imperador Augusto que o Senado romano decreta que o oitavao mês, Sextilis, se passasse a chamar Augustus, hoje Agosto, mês em que pôs fim à Guerra Civil (e que também foi o da sua morte, de que este corrente ano se comemora o bilimileário), passando a ter também 31 dias, para que não fosse inferior ao mês dedicado a Júlio César, tendo sido esse dia retirado de Februarius que passou a ter, como ainda agora acontece, 28 dias nos anos comuns e 29 nos bissextos. Para que não houvesse tantos meses seguidos com 31 dias, os meses de Setembro e Novembro passaram a ter 30 dias e Outubro e Dezembro 31.
O calendário, a sua marcação como hoje a conhecemos, é pois herança directa dos Romanos, como tantos outros aspectos da nossa vida contemporânea, sendo que também eles foram herdeiros dos povos que os antecederam, fazendo do Tempo, esse grande Escultor, como fabuloso título do livro de Marguerite Yourcenar.
Saibamos, assim homenagear a herança de Augusto, neste mês e no mês de Agosto em que nasceu, no que respeita a muitas das reformas administratives introduzidas no território e, mais que tudo a Pax Augusta que com ele se assistiu neste espaço que outrora pertencia à Província da Lusitânia.
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1 http://www.infoescola.com/historia/calendarios-romanos/
http://www.imperioromano.com/62/el-calendario-romano.html

sexta-feira, 28 de junho de 2019

As Musas e o Teatro

Poderá consultar o Powerpoint  Aqui




sexta-feira, 21 de junho de 2019

Uma visita a Setúbal e Tróia no Solstício de Verão (reed. de 2013)

[Setúbal na Rede] - Uma visita a Setúbal e Tróia no Solstício de Verão



Uma visita a Setúbal e Tróia no Solstício de Verão


Saudades tinha de ir ver o Alentejo, quando há uma quinzena atrás resolvi fazer uma rota já tantas vezes percorrida, atravessando em Direcção a Miróbriga, Santiago do Cacém, por caminhos iguais, mas sempre diferentes, pois em todos eles algo me surpreende sempre.

Refiz um Itinerário já aqui proposto do Vale do Sado e, em Alcácer, pode rever a belíssima exposição da Cripta do Castelo, bem como o Santuário do Sr. Dos Mártires onde a paz do fim do dia serena qualquer ânimo mais agitado.




Ente Grândola, na direcção da Comporta, tive a oportunidade de repousar num destes novos espaços de turismo rural, onde ainda é possível que o lazer conviva de braço dado com a exploração agrícola e pecuária.

Ali, soberanos sobreiros ainda marcam a paisagem e parecem recortar o entardecer quando se torna negra a silhueta, até que, rumando, no dia seguinte, a Miróbriga me deixei levar pelos murmúrios das «pedras que falam» e ali contam uma história sempre renovada de uma cidade de outrora, romana e, antes dela, de povos da Proto-história.

Mas, não é dessa caminhada que vos quero falar hoje aqui, mas de uma visita que a Associação Portugal Romano vai realizar no próximo fim de semana a Setúbal e às Ruínas Romanas de Tróia, sagrando, deste modo, o Solstício de Verão.

O ponto de encontro será o Museu de Arqueologia e Etnologia do Distrito de Setúbal, pelas 11h, onde a sua amável Direcção nos permitirá conhecer o acervo de materiais romanos aí existente e nos viabilizará uma visita a um mosaico, também de origem romana, localizado no interior der uma casa nas proximidades.

Rumaremos depois a Tróia, ao imponente complexo industrial sobre o qual também aqui já discorremos, onde esperamos conviver almoçando junto à Caldeira do Sado e assim fazer juz a esse momento em que se exalta a Vida, no seu esplendor.


Retomando um tema que muito me apraz, relembro que o Solstício de Verão marca o apogeu do percurso solar, como o Sol no zénite, no ponto mais alto do céu. Trata-se do dia da festa do Sol.

Dá-se a entrada do Sol no signo de Caranguejo.

O nascimento de S. João Baptista, a 24 de Junho, assinala, no mundo cristão, o solstício de Verão, enquanto o de Cristo corresponde ao solstício de Inverno. "Na tradição hindu, o solstício de Inverno abre a
 devayana, a via dos deuses, o solstício estival abre a otriyana, a via dos antepassados, que corresponde (...) às portas dos deuses e dos homens» (Chevalier, et alii, Diccionário dos Símbolos).

As festas de S. João são celebradas entre várias religiões e mesmo entre várias organizações iniciáticas, pois, para além da sua associação à água e ao Baptismo é também simbolicamente conotado com o fogo,  e o Sol, porque é através dele que tudo se vivifica, se reinicia um ciclo, integrando o anterior, mas passado pelas chamas purificadoras e regeneradoras.

São estas as palavras de São João Evangelista:  

“No começo era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava, no começo, com Deus. Tudo era feito por ele e, sem ele, nada se fez de tudo o que foi feito. A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilhava nas trevas, e as trevas não o receberam.”



É demais evidente através das suas palavras a ideia de uma passagem do Mundo das Trevas ao Mundo da Luz, motivo pelo que ainda nas festas populares também se salta à fogueira, queimando ervas de cheiro purificadoras.
O Fogo, esse Elemento que permitiu ao Homem evoluir enquanto espécie, fonte de energia que faz brotar a vida, renascendo diariamente, é considerado Sagrado desde a Antiguidade Remota e, quer na Antiga Grécia, quer em Roma,  guardado e transportado para as novas fundações, motivo pelo que, ainda hoje, os Jogos Olímpicos se iniciam com a entrega da tocha acesa. Os Solstícios que ocorrem quer no Inverno, quer no Verão, marcam mudanças fundamentais: são novos ciclos, tornando-se com cada um deles os dias mais longos e mais curtos, abrindo o Solstício der Inverno uma fase ascendente e o de Verão uma fase descendente.

Para as primeiras sociedades, a época das colheitas era  celebrada no dia mais longo do ano - O Solstício de verão, pois a sobrevivência durante o período invernal delas. Por seu lado, o Solstício de Inverno marcava a viragem para uma época de maior calor. Em Roma, os dois Solstícios são figurados através das duas faces de Janus, divindade das passagens, dos princípios e dos fins: uma face era de um jovem, símbolo do Futuro, e a outra a de um velho, símbolo do Passado e do ano que se prepara para o terminus a partir do Verão. Uma das faces dirige-se para a Luz e outra olha as Trevas, motivo pelo que a divindade era celebrada duas vezes por ano.


Não admira, portanto, que João, embora nascido em Israel, tenha também essa feição do romano Janus, que aqui se espelha em S. João Envangelista e em S. João Baptista.


E porque se aproxima o Solstício de Verão, o maior dia do ano, vamos ver a luz serenamente poisar junto a esse rio que corre de Sul para Norte e ver o sol poisar-se sobre o mar, pois a Lusitânia é, na Europa, o sítio onde ele se deitará mais tarde, não sei se rugindo como diziam os autores clássicos a propósito do Promontório Sagrado!
De acordo com certas variações do calendário grego – que diferiam amplamente por região e época – o solstício de verão era considerado o primeiro dia do ano. 
Vários festivais se realizavam nessa altura, designadamente o Cronia, que celebrava o deus da agricultura Cronos. 
O rigoroso código social era temporariamente suspenso durante o período de duração do Cronia, e até os escravos podiam participar das festividades em total igualdade, ou mesmo sendo servidos por seus senhores. O solstício de verão também marcava o início da contagem regressiva de um mês para o início dos jogos olímpicos.

Os Romanos nos dias que precediam o solstício de verão celebravam o festival de Vestália, que honrava Vesta, a deusa da família (conjuntamente com Juno zelava pelo casamento) e que protegia as mulheres e a virgindade.
Era, portanto,  a Deusa da Pira e do Fogo Sagrado.
Os rituais que lhe eram dedicados incluíam o sacrifício de um bezerro não nascido retirado, portanto, do útero de sua mãe. Esta era a única altura do ano em que era permitido às mulheres casadas entrar no templo das virgens vestais que guardavam a chama sagrada e lá fazer suas oferendas.



"Além disso, (o rei sabino Numa Pompílio) escolheu virgens para o culto de Vesta, sacerdócio oriundo de Alba, que era conhecido pela família do fundador de Roma; para que as sacerdotisas pudessem dispensar cuidados frequentes ao templo, estabeleceu-lhes uma remuneração fornecida pelo estado, e tornou-as, com voto de castidade e com outras cerimônias veneráveis e sagradas"
Tito Lívio. História de Roma, livro I.
“Diz-se ainda que Rómulo instituiu, pela primeira vez, o culto ao fogo, designando virgens sagradas, conhecidas por Vestais. Outros, porém, atribuem a medida a Numa, embora admitam que Rômulo fosse, de outras formas, uma pessoa extremamente religiosa [...] [4] e a Numa é atribuída a consagração das Virgens Vestais, e a atribuição da adoração e do cuidado do fogo perpétuo, que lhes é encarregado"
Plutarco, Vidas paralelas, Vida de Numa
Os Romanos, nos dias que precediam o solstício de verão, celebravam o festival de Vestália, que honrava Vesta, a deusa da família (conjuntamente com Juno, que zelava pelo casamento) e que protegia as mulheres e a virgindade.
Era, portanto, a Deusa da Pira e do Fogo Sagrado.
Os rituais que lhe eram dedicados incluíam o sacrifício de um bezerro não nascido, retirado, portanto, do útero de sua mãe. Esta era a única altura do ano em que era permitido às mulheres casadas entrar no templo das virgens vestais que guardavam a chama sagrada, para lá fazer suas oferendas.
Na imagem: Áureo de Faustina I com representação de Vesta
«Anverso: Busto drapeado de Faustina, à esquerda, com pormenor do penteado. À volta: FAVSTINA.AVG.ANTONINI.AVG.P.P Reverso: Vesta, à esquerda, drapeada e velada, sentada num trono com "Palladium" na mão direita e ceptro na mão esquerda. À volta: VES TA »
Fotografia de Mathias Tissot in: http://www.matriznet.dgpc.pt/…/Obje…/ObjectosConsultar.aspx…

Deixemos junto ao Sado essa nossa homenagem ao Sol criador e a Vesta, essa divindade do Fogo Sagrado!


Junho, 2013.

terça-feira, 28 de maio de 2019

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Os Gémeos na Mitologia

Filomena Barata

OS GÉMEOS

Macaulay, em seus "Cantos da Roma Antiga", assim se refere à lenda de Rómulo e Remo:

Tão semelhantes eram, que os mortais 
Um do outro jamais distinguiriam. 
Tinham armaduras brancas como a neve 
E brancos como a neve os seus corcéis. 
Jamais forjas terrenas fabricaram 
Tão brilhante armadura, ou em terrena 
Fonte a sede matou corcel tão belo. 
Volta em triunfo o chefe, que nas provas 
Incertas do combate sempre vira 
O calor dos irmãos inseparáveis. 
Volta o navio ao porto, em segurança, 
Desafiando o mar e as tempestades 
Que a bordo estavam os poderosos gémeos.

Aproximando-nos a passos vistos dos Santos Populares e do Solstício de Verão, esses períodos em que cidades saiem à rua e as vilas se enchem de cores e de gente, não quis, contudo esquecer o signo que iniciado já no mês das rosas nos acompanhará até o momento em que o dia será o maior do ano.
Pese não se tratar de um tema estritamente relacionado com a mitologia romana, a que mais me faz sentir à vontade, partilho-o convosco, ciente que um dia lhe voltarei, pois trata-se de um assunto infindável e com expressão em todas as religiões e mitologias.

Segundo o «Diccionário dos Símbolos», coordenado por Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, idependentemente da forma como os gémeos são encarados: perfeitamente simétricos, um obscuro e o outro luminoso, um voltado para o céu e o outro para a terra, um negro e o outro branco, vermelho ou azul, um com cabeça de touro e outro com cabeça de escorpião, é um facto que exprimem sempre, ao mesmo tempo, uma intervenção do além e a dualidade de todo o ser ou o dualismo das suas tendências, espirituais e materiais, diurnas e nocturnas.

É o dia e a noite, o Sol e a Lua, os aspectos celeste e terrestre do cosmos e do Homem: o Sol, com a força vivificante dos seus raios, que desempenha genericamente o papel masculino e patriarcal e, por isso foi associado quer a Febos, quer a Hórus; e a Lua, telúrica, é a força feminina e matriarcal que se associa a Cibele, Ísis, Proserpina, que faz desabrochar os frutos e condiciona o crescimento de ervas e plantas.

Também entre os Persas, o Sol ou Ormuzd, enquanto fonte de Luz, representava a Vida, a Saúde e a Fertilidade da terra enquanto criadora de todas as coisas necessárias à sobrevivência do Homem; em contrapartida, à Lua ou Arimânio, atribuíam-lhe forças maléficas; as trevas e a esterilidade da Terra.

Mas como em quase todas as dualidades simbólicas, é através do casamento mistérico do Sol e da Lua; do Céu e da Terra que se pode alcançar a Unicidade Divina.

Podem simbolizar as oposições internas do Homem, da vida e da morte, do divino e do mortal, do bem e do mal, e o combate que ele tem que travar para ultrapassar as oposições, cabendo às forças espirituais da evolução progressiva assegurar a sua supremacia sobre as forças regressivas.

Mas poderão ainda simbolizar a identidade, como se os Gémeos fossem cópias ou duplos um do outro. Aqui exprimem a unidade obtida numa dualidade equilibrada, pois representam o que em todos nós existe de "eu e seu duplo".

Genericamente, os Gémeos aparecem carregados de uma força poderosa, seja perigosa, seja protectora, podendo ser deuses ou heróis, pressupondo-se mesmo que maioritariamente eles fosses fruto da união de um mortal com um deus.

Tal como o número dois que representa o eco, o reflexo, o conflito e a contraposição, os Gémeos assumem, portanto, o dualismo fundamental do ser, até porque o dois é o primeiro número que destrói a unidade, o Um, ou Deus, a Divindade. É o número da alteridade. No fundo, é esse momento brutal em que a criança deixa de ver na mãe como uma extensão de si próprio a ela passa a ser um "outro".

Por isso, intimamente ligado com o arquétipo de Gémeos são as divindades hermafroditas ou andróginas.

O mito do Andrógino, ou signo de totalidade inicial, muitas vezes concebido como ovo cósmico, representa a plenitude da unidade fundamental e primordial onde se confundem os opostos, círculo que contém o princípio e o fim.

É comum a muitas Civilizações e Culturas, como a egípcia, a fenícia, a grega, a indiana, a chinesa, a indonésia ou mexicana.
É através da partição, que cosmicamente se cria ou se diferencia a noite e o dia, o céu e a terra, o macho e a fêmea.

Platão na sua obra «Banquete» relembra o mito do Andrógino, afirmando que o Homem original tinha a forma esférica, integrando os dois corpos e os dois sexos. São estas as suas palavras: « naquele tempo, o andrógino era um género distinto e que, tanto pela forma como pelo nome, continha os outros dois, ao mesmo tempo macho e fêmea».

A própria Bíblia, segundo o Génesis, ao assumir que Eva foi tirada de uma costela de Adão aceita que, na origem, todo o humano era indiferenciado e que o nascimento de Eva mais não teria sido do que a cisão do Andrógino primordial em dois seres: macho e fêmea. O retorno ao estado primordial, à unicidade primeira, em que se inclui a ideia de fusão do divino e humano, é para a maioria das religiões o grande objectivo da vida.

É pois nesta relação unicidade/dualidade que o mito do Andrógino se aproxima do arquétipo de Gémeos, que se encontra também reflectido em muitos mitos e religiões.

Zervan, o deus iraniano que os historiadores gregos traduziram por Cronos, é andrógino e deu origem a dois gémeos: Ormuzd e Ahriman, o deus do bem e do mal, da luz e das trevas.

Nas representações dos sacrifícios dedicados ao deus Mitra, que sendo de origem indo-europeia, obteve grande devoção entre as legiões romanas, aparecem comummente dois irmãos gémeos, um com uma tocha virada para cima e acesa e outro com a tocha virada para baixo e apagada. Isto porque Mitra é irmão gémeo de Varuna, que ocupa o cume do panteão e domina os céus, e Mitra é o deus da luz, representando dois aspectos dessa mesma luz eterna, a síntese da luz solar e lunar. Mitra surge, aliás, como uma espécie de "terceiro elemento", uma divindade mediadora entre duas forças antagónicas, viabilizando o nascer de um novo dia, ou seja, não permitindo que a Lua oculte o Sol.

Entre os Gregos, da Noite, esfera imensa e oca, separam-se, como o desabrochar de um ovo, duas metades: O Céu e a Terra (Urano e Geia,23), de cuja união nascem os Titãs.

Também na Mitologia Grega, as divindades gémeas Apolo-Artemisa situam-se entre os doze grandes deuses do Olimpo. Ambos eram filhos de Zeus, o chefe supremo dos deuses gregos, e de Leto, uma mortal que foi abandonada pelo Senhor do Olimpo quando estava para dar à luz, devido aos ciúmes da sua possessiva mulher, Hera.

Enquanto Apolo é o deus da Luz, do Sol e da Verdade, da vitória sobre a violência, a suprema espiritualidade, Artemisa, é a deusa virgem da vida selvagem, senhora dos bosques e dos montes, caçadora-chefe dos deuses, e era associada à Lua e a tudo o que acontecia na escuridão, sendo mesmo considerada por alguns autores uma divindade cruel e vingativa.

Ainda na mitologia grega e romana encontramos outros gémeos: , filhos de Leda, que eram divindades protectoras dos marinheiros.

As referências que sobre eles chegaram aos nossos dias são um pouco contraditórias. Por vezes, apenas Pólux é considerado como divino, enquanto Castor não passa de um simples mortal, devendo uma espécie de meia imortalidade ao facto de o seu inseparável irmão Pólux não ter suportado a sua morte e ter resolvido partilhar com ele a imortalidade. Nessa versão, Leda, a mãe, e o seu esposo Tíndaro, rei de Esparta, terão tido dois filhos, como quaisquer outros mortais, um deles Castor. Só que o deus Zeus, disfarçado sob a forma de um belo cisne, terá cortejado Leda e desta relação teriam nascido outros dois filhos, estes sim imortais: Pólux e Helena, a bela heroína de Tróia. No entanto, e apesar de filhos de pais diferentes, é comum referi-los como nados de um ovo de Leda e filhos de Zeus ou Dióscuros.

Não obstante, muitas vezes eles foram designados ambos como «filhos de Zeus», tendo os dois atingido a imortalidade, se bem que, em muitas versões, ela seja dividida, pelo que alternadamente vivem entre o Céu e a Terra.
Enquanto Castor era considerado um exímio domador de cavalos, Polux celebrizou-se como bom lutador. Na maior parte das histórias consta que estas duas divindades viviam metade do tempo na Terra e outra metade no Céu, denotando bem a ambivalência com que foi tratada a essência destes dois irmãos que são considerados gémeos.

Esta situação pendular ou ambivalente de viagens simbólicas entre a Terra e suas entranhas é, aliás, comum a outras divindades, a exemplo Proserpina, divindade "lunar" do mundo subterrâneo,"horrível pelos seus uivos nocturnos", de que aqui já faláos, pois esta divindade, filha de Zeus com Demetra foi raptada por Hades o deus dos mortos que fez dela a sua esposa. No entanto, ela vive parte do ano nesse mundo das "entranhas da Terra" e outra parte à luz do Sol.
Regressando aos Gémeos Castor e Pólux , relembro que a morte de Castor se deveu a um confronto com uma outra dupla de gémeos, Idas e Linceu, seus primos, a quem tentaram roubar as noivas.

Por seu lado, a dupla gemelar Rómulo e Remo simboliza, de algum modo, os gémeos em oposição. Rómulo e Remo são filhos de uma união ilícita entre Reia Sílvia e o deus Marte, que a seduziu. Por ter tido esta relação foi castigada por seu tio, o rei Amúlio, que se tinha apoderado do poder, aprisinonando o seu próprio irmão. Isto porque, tendo em vista afastar a eventualidade de ela ter algum descendente ao trono, o seu tio Amúlio havia obrigado Reia Sílvia, que era filha do legítimo rei e herdeiro do trono, o seu irmão Numitor, a consagrar-se ao culto de Vesta que exigia a castidade e, por isso mesmo, inibia a maternidade. Por ter faltado ao voto de castidade foi condenada à morte e os dois gémeos foram expostos num cesto de vime junto ao rio Tibre. As águas revoltas do rio contribuiram para que o berço tivesse sido levado para o sopé de uma das colinas da futura Roma, onde uma loba os descobriu e alimentou com o leite dos seus seios.


«Estátua da loba capitolina que, segundo a lenda, teria amamentado os gêmeos Rômulo e Remo. - Museus Capitolinos em Roma»
Mais tarde, um pastor, Fáustulo, e a esposa Aca Larência, criaram-as e instruíram-os.

Chegados à idade adulta, Rómulo e Remo, dedicaram-se à pilhagem e roubaram algumas cabeças de gado do próprio rei Amúlio. Remo foi preso e Rómulo, em sua defesa, acabou por matar o rei usurpador, e repôs no trono o seu avô Numitor.

A dificuldade fundacional e simbólica da cidade de Roma deve-se também ao facto de os dois irmãos serem gémeos que decidem dar à interpretação dos auspícios diferentes significados, tendo entrado em disputa a propósito da localização e das condições da fundação da futura Roma. Deste modo, Rómulo escolheu o Palatino e Remo escolheu o Aventino e ambos foram proclamados reis ao mesmo tempo, tendo originado o conflito que acabou por conduzir à morte de Remo e à subida ao poder de Rómulo.

Segundo uma das lendas da fundação de Roma, Rómulo influenciado pelos oráculos acabou por traçar com a charrua um sulco que delimitava o recinto da futura Roma, proibindo Remo de o transpor. Porque Remo não escutou a advertência de Rómulo, acabou por sucumbir às mãos do próprio irmão, que ficou senhor único de todo o território.

Pese o assassínio do seu irmão Remo, Rómulo acabou por ser divinizado com o nome de Quirino, tendo sido ficado eternamente ligado à fundação de Roma.

Por vezes são representados um com a cabeça de touro, também ele uma força genésica e primordial, e outro com a cabeça de escorpião.

Simbolicamente o significado desses dois gémeos é o mesmo: o branco e o negro; a luz e a escuridão, o dia e a noite.
Mas existem muitas outras referências a gémeos em diversas religões antigas.

Na Bíblia, logo no Génesis, encontramos dois Gémeos: Tamar, nora de Judá, engravida do sogro, tendo-se disfarçado de meretriz. Quando estava a dar à luz, uma das crianças estendeu a mão para fora e a parteira coloca-lhe um fio escarlate, dizendo: é o primeiro. Mas a criança recolhe a mão e o irmão acaba por nascer primeiro; este foi chamado Farés, tendo o segundo o nome de Zara (Génisis, 38, 28).

Segundo uma interpretação simbólica desta referência bíblica, as crianças simbolizam o Sol e a Lua, que sai e volta a entrar para deixar passar o Sol em primeiro lugar.


No signo do Zodíaco, representado genericamente por duas crianças de mãos dadas (se bem que haja zoodíacos que figurem um homem e uma mulher ou dois amantes,23), os Gémeos são símbolo geral da dualidade na semelhança e até na identidade e a imagem de todas as oposições interiores e exteriores, contrárias ou complementares, que se resolvem numa tensão criadora.

E não é por acaso que a fase dos Gémeos se completa desembocando na eclosão do Verão. E também por isso mesmo que Gémeos seja o signo da diversidade, da comunicação e do movimento constante, caracterizando-se por uma grande compreensão da vida, enorme capacidade para a integração, necessidade de relativização e de uma constante conceptualização da vida e das coisas.

Mercúrio, o planeta regente de Gémeos, é o vizinho mais próximo do Sol, e o planeta mais rápido. Por isso a sua associação à divindade mitológica com o mesmo nome, deus dotado de asas nos pés, mensageiro do Olimpo que «voava tão célere como o pensamento», deus astuto e arguto e protector dos comerciantes e dos ladrões.

Mas Mercúrio é também o metal líquido que representa na tradição hermética ou alquímica o princípio e o fim da Obra, o Mercúrio que tudo contém antes da separação dos seus compostos.

A carta do Tarot correspondente aos Gémeos, a carta 6, é «o Amoroso» ou «Enamorado». Nessa carta é representado um homem entre duas mulheres encimado pelo deus Eros ou Cupido com uma flecha. O significado geral dessa carta é a ideia de encruzilhada, que inclui tensão, hesitações e ambivalência. As duas figuras femininas apontam para a necessidade de uma escolha entre a virtude e o vício, o bem e o mal, o passado e o futuro.

Saibamos, pois, ver nos Gémeos a síntese da Vida, com tudo o que ela nos testa de bom e de mau!


Filomena Barata tem Licenciada em História e é Mestrada em Arqueologia. É colaboradora do Projecto Portugal Romano.

Imagem 1 - Lápide dos «Gémeos Siameses», Capela de S. Brás, Castelo Branco, publicada no artigo «UM PARTO PRODIGIOSO EM CASTELO BRANCO NO SÉCULO XVIII» da autoria de Pedro Miguel Salvado (a quem agradeço,23), editado na Revista «Medicina na Beira Interior», nº8,1995, e dado também a conhecer por Joaquim Baptista no Blogue "Epigrafia Portuguesa do Distrito de Castelo Branco".


quinta-feira, 18 de abril de 2019

A Paisagem Rural na Época Romana, Dia Internacional dos Monumentos e Sítios


                                     


 JEP


A Paisagem Rural na Época Romana, Filomena Barata

Sabia que uma Villa …

É uma estrutura agrária, uma unidade de exploração de cariz senhorial, que se caracteriza por centralizar a propriedade fundiária, o fundus, numa residência que, em alguns casos, atingia uma grandeza superior às domus urbanas, com enormes dimensões e muita riqueza ornamental nas paredes estucadas, com pinturas murais ou “frescos”, estatuária e pavimentos revestidos com mosaicos.
Podiam possuir ainda essas residências agrárias, designadas em Período Romano por pars urbana, tal como as habitações urbanas de maior escala e riqueza, pátios, jardins interiores e exteriores, zonas dedicadas aos cultos e mesmo termas privadas ou balneários.
No entanto, a realidade agrícola não era apenas a de maior escala, pois existiam os “casais” dos pequenos agricultores de menor escala no que respeita ao fundus ou “propriedade” e menos grandeza arquitectónica das residências.
As estruturas agrícolas de maior grandeza são as melhor conhecidas, designadamente a sua área residencial, sabendo-se, não obstante, que possuíam as infraestruturas de apoio à produção agrária, como celeiros, armazéns, adegas, lagares, estábulos, podendo ainda ter os fornos ou forjas para apoio das diversificadas actividades da uilla, denominando-se esta área de serviços parts rustica ou fructuaria.
Nessa zona incluíam-se ainda as áreas destinadas aos trabalhadores da uilla que, em época mais tardia, tinham também um lugar especial para o encarregado da exploração, o uillicus, uma vez que o verdadeiro proprietário estava muitas vezes ausente.
A posse da terra era, sem dúvida, a maior manifestação de riqueza na Época romana, e a estrutura agrária obedecia a uma organização, não só no que respeita à distribuição das terras propriamente dita, havendo lugar ao emparcelamento dos espaços rurais distribuídos pelos “colonos”, como na sua expressão mais “física”, pois os cadastros apresentam uma regularidade que corresponde à distribuição das propriedades recorrendo a instrumentos de agrimensor que permitiam recticular os terrenos.
Em Portugal, embora não seja bem conhecido o mundo agrícola em Período romano, são inúmeros os exemplos de estruturas agrárias por todos o território, quer de pequenas dimensões, ou casais, como os que foram estudados na zona da Vidigueira, quer de maior escala, de que podemos citar múltiplos casos, incidindo, contudo, este trabalho na zona Sul, pois é a que melhor conhecemos.
Também na Vidigueira, uma estrutura agrícola de grandes dimensões se sobressai. Trata-se da Villa romana de S. Cucufate, classificada como Imóvel de Imóvel de Interesse Público, pelo Decreto nº 36383 de 28-6-47, e que parece ter sido utilizada no Período Romano entre os séculos I a.C. – IV, com uma continuidade de ocupação na Época Medieval.
Esta Villa romana do século I a.C. teve alterações na primeira metade do século II e no século IV dando lugar ao edifício que hoje subsiste.
Na Idade Média esta estrutura foi utilizada como mosteiro, consagrado a S. Cucufate; abandonado no período das guerras entre Muçulmanos e Cristãos pela posse de Beja, e viria a ser restaurado em 1255 e entregue aos cónegos regrantes de Santo Agostinho.
uilla romana é enquadrada por dois corpos com robustos contrafortes que se ligam, na zona cimeira, por meio de arcadas. Em frente dispunha-se um jardim que descia através de um suave declive até ao grande tanque. Subsiste parte significativa de um templo que viria a ser cristianizado no século V.
Já localizada nas imediações de Beja, a Pax Iulia romana, a Villa romana de Pisões, classificada como Imóvel de Interesse Público, pelo Decreto nº 251/70 de 3-6, trata-se de um testemunho notável de exploração agrária, cuja ocupação se estende dos século I a. C. ao século V, muito possivelmente pertencente “às elites urbanas”, como bem o defende Carlos Fabião, na sua obra «A herança romana em Portugal».
Nesta uilla romana, apenas parcialmente escavada, destaca-se uma parte significativa da casa do proprietário, apresentando mais de quarenta divisões decoradas, centradas num peristilo.
Salientam-se os mosaicos, quer pela sua enorme variedade, apresentando composições geométricas e naturalistas, quer pelo seu elevado nível estético dos mesmos, utilizando tesselas calcárias e vítreas.
Os equipamentos rurais, se bem que menos conhecidos, denotam a importância desta uilla, onde uma barragem, localizada nas proximidades, articulada com o conjunto agrário, permite garantir o fornecimento de água aos terrenos agrícolas, mas ainda aos tanques, piscina e termas, de apreciáveis dimensões, existentes nesta propriedade.
Outros exemplos de barragens de apoio às estruturas agrárias são conhecidas no território actualmente português, quer na Beira Baixa, como no Alentejo e Algarve que foram objecto de uma publicação denominada «Aproveitamentos Hidráulicos a Sul do Tejo».
No caso da sobejamente conhecida Villa romana de Torre de Palma, em Monforte, Portalegre, imóvel classificado como Monumento Nacional pelo Decreto nº 251/70, de 03.06, cuja ocupação em Época Romana e tardo-romana se estende entre os séculos I e VII, a casa senhorial é um espaço organizado e pensado para a vivência rural; bem estruturada para a exploração agrícola, e funcionava também como local de recolhimento e de lazer do proprietário, pois toda a decoração indicia que aí se pudesse gozar um ameno e bucólico refúgio dos ambientes urbanos.
. Em torno de um grande pátio ao qual se acedia por um portão principal, organizavam-se as construções ligadas à exploração agrícola – o grande celeiro, o lagar de azeite, os armazéns de alfaias agrícolas e os estábulos.
Sucedia-lhe um pátio porticado mais pequeno e reservado, ladeado pelos alojamentos de serviçais e por uma residência que pode ter pertencido ao villicus. O lado Norte foi ocupado por uma requintada residência habitada pelos proprietários.
De torre de Palma destacamos os seus mosaicos, designadamente a célebre representação das nove musas com os respectivos atributos, na base da qual existe uma legenda: SCO [pa a]SPRA TESSELAM LEDERE NOLI VTERI F[elix] que pode traduzir-se como “não estragues o mosaico com uma vassoura áspera. Felicidades”.
Também proveniente dessa uilla é o célebre mosaico dos cavalos, que se apresentam devidamente identificados pelos seus nomes próprios, atestando a exploração equina neste território em período romano, havendo mesmo quem defenda que estes exemplares têm similitudes com o que se designa «Cavalo Lusitano». Não esqueçamos que os cavalos da Lusitânia tinham fama de ser muito velozes afirmando Plínio-o-Velho na sua História Natural que pareciam ser gerados pelo Vento Zéfiro (Nat. 8, 166)
Em época tardia é construída uma  basílica paleocristã, edificada sobre um templo romano, objecto de várias reestruturações e acrescentos entre finais do século IV e o século VII, que documenta o esforço e a consolidação do cristianismo nesta região. A sua importância cultual perdurará até à Idade Média, com o reaproveitamento de parte das paredes da antiga basílica para a edificação da capela de S. Domingos, cuja edificação se deverá ter efectuado no séculos XIII e que se terá mantido em uso até ao século XVIII.
Já no Algarve, o Cerro da Vila trata-se também de uma casa senhorial romana, cuja ocupação remonta à primeira metade do século I, centro de uma exploração agrícola que aqui é completada com o aproveitamento dos recursos marítimos, existindo um porto que permitia o escoamento dos produtos. Relativamente próximo (2Km) localiza-se uma barragem que colaborava no abastecimento de água às terras férteis que rodeavam a uilla.
No século II e, particularmente no século III, a área residencial tornou-se mais expressiva, tendo sido decorada com luxuosos mosaicos e mármores.
Aproveitando parte das infraestruturas da antiga casa agrícola, o Cerro da Vila foi ocupado em período islâmico, tendo sido aqui descoberto, em escavações promovidas por José Luís de Matos, um notável conjunto de cerâmicas datáveis dos séculos VIII, IX e X.
Por sua vez, na uilla romana de Milreu, cuja ocupação se efectuou em período romano, no século I d.C., foi construído no século IV d. C., um santuário de planta absidial dedicado a divindades aquáticas, cujo podium era ricamente decorado com mosaicos e que era separado da uilla por uma rua pavimentada com grandes lajes de pedra.
No caso de Milreu, Estói, a zona residencial hoje visitável, que se desenvolve em torno de um peristilo com colunas, foi uma reestruturação do século III, quando a casa é embelezada com mosaicos polícromos, muitos deles com alusões à fauna marítima, tornando-se num complexo edificado de grandes dimensões, instalações agrícolas, balneário.
As termas estão ainda com um elevado grau de conservação e nelas se podem encontrar os compartimentos usuais: frigidarium, tepidarium e caldarium.
Os proprietários desta uilla eram certamente muito influentes, porque na casa apareceu estatuária de imperadores e familiares, a exemplo da estátua de Agripina.
Milreu pela sua importância, manteve uma ocupação em Época Tardo-romana, Islâmica, dos séculos VI ao X, e moderna.


 Texto Filomena Barata






Villa romana de Torre de PalmaParte superior do formulário




Torre de Palma é o nome de uma herdade existente na freguesia de Vaiamonte, concelho de Monforte. Torre de Palma foi a designação por que conhecidas as ruínas de uma riquíssima uilla romana, classificada como Monumento Nacional.

A uilla de Torre de Palma teve ocupação do século II ao século IV e os seus proprietários terão pertencido a uma poderosa família romana ou romanizada, a família dos Basilii.
Contudo, teve uma ocupação mais tardia.
Dotada de todas as características de uma rica uilla romana rural, tem ainda, nas suas imediações, um templo pagão, que no século IV foi convertido em basílica cristã.

“Estas Ruínas ocupam uma vasta área e são constituídas por diferentes núcleos, com funções específicas e com cronologias distintas (séc. I a XIII) e que, na maioria das vezes, se sobrepõem.
Ali, o visitante poderá conhecer a vivência de uma unidade agrícola romana, através dos diferentes espaços de:
  • trabalho - lagar de azeite, lagar de vinho, forjas, horta...
  • armazenamento de produtos e de alfaias agrícolas - armazéns, granjas ou celeiros...
  • áreas residenciais - casa do proprietário, casa do administrador, casas dos serviçais, hospedaria
  • higiene e lazer - balneários Este e Oeste
  • locais de culto - templo romano, pequeno templo familiar, basílica paleocristã, necrópoles romanas e cristãs.

Alguns destes espaços, embora estando na proximidade da uilla e coexistindo com algumas das suas fases de ocupação, deverão ser entendidos num âmbito mais alargado do que uma unidade agrícola. Como a basílica paleocristã e, talvez o balneário Oeste, se este for entendido como espaço semipúblico ou, público, possivelmente associado a uma hospedaria que servia viajantes em negócios ou, crentes que veneravam algum mártir sepultado na basílica”.


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de Agosto a 10 de Dezembro de 1955. Manuscrito: Arquivo de Manuel Heleno: Museu Nacional de Arqueologia.
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VASCONCELOS, J. L. (1927-29) - Antiguidades do Alentejo. O Arqueólogo Português. Lisboa. 1a
Série, 28, p. 158-200
WOLFRAM, Mélanie, 2011, The necropolis of Torre de Palma (Monforte, Portugal). Tese de Doutoramento. em História, na especialidade de Arqueologia
https://www.academia.edu/14513176/The_necropolis_of_Torre_de_Palma_Monforte_Portugal_

Dafne e Apolo. Painel VI (Mosaico das Musas). Museu Nacional de Arqueologia. Museu Nacional de Arqueologia, Inv. 999.149.1. Fotografia: DDF/DGPC

“Para o tempo não poder apagar a memória deste feito, institui jogos sagrados com uma grandiosa competição, chamados píticos, do nome da serpente que ele subjugara. Neles, todo o jovem que vencesse por mão, por pé, ou carro, ganhava a título honorífico um ramo de folhas de carvalho.
"O PRIMEIRO amor de Febo foi Dafne, filha de Peneu. Não foi o acaso ignaro a induzir-lho, mas a cólera cruel de Cupido. (...) Logo este se enamora, a outra foge à ideia de um amante; rejubila ela com esconderijos nas florestas, com os troféus dos animais que caça, rivalizando assim com a inupta Febe. (...) Febo está apaixonado. Ao ver Dafne, deseja desposá-la, e tem esperança no que deseja: os seus oráculos iludem-no. (...)"
Ninfa do Peneu, suplico pára! Não te persegue o inimigo! Pára, ninfa! Assim, foge o cordeiro ao lobo, assim a cerva ao leão, assim fogem à águia as pombas de trémulas asas, cada qual ao inimigo! O amor é a razão de te perseguir. Ai de mim! Temo que caias de cara ao chão, que as sebes arranhem as inocentes pernas, te magoes por minha culpa! Os locais por onde vais são acidentados. Corre mais devagar, suplico, abranda a tua corrida. Eu seguir-te-ei mais devagar. Mas pergunta a quem seduziste; eu não vivo nos montes, eu não sou um pastor, eu não vigio, abrutalhado, manadas e rebanhos. Não sabes, temerária, tu não sabes, não, de quem tu foges, por isso, foges. Eu sou o senhor da terra de Delfos e de Claro, de Ténedos e do palácio de Pátaros. Júpiter é meu pai. Eu sou quem revela o que será, o que foi e o que é; eu sou quem harmoniza o canto com a cítara. A minha flecha é, de facto, certeira, mas há uma flecha mais certeira, aquela flecha que feriu o meu coração vazio. A medicina é uma invenção minha, e pelo mundo fora chamam-me Auxiliador, e tenho sou dono do poder das ervas. Ai de mim! Não há erva alguma para curar o meu amor, nem minhas artes úteis aos outros são úteis ao seu senhor!”
(...) Ia a dizer mais coisas quando a filha de Peneu se afasta, assustada, em corrida, deixando-o com as palavras a meio. (...) vencida pelo cansaço, fitando as ondas do Peneu,
“Ajuda pai”, gritou,
“se vós, os rios, tendes poder divino! Extingue e transforma esta figura, demasiado atraente”
Mal termina a prece (Dafne), um pesadelo torpor invade o corpo. O macio peito da jovem é envolto por uma fina casca, os cabelos alongam-se em folhas, os braços em ramos, os pés, há pouco tão lestos, fixam-se em indolentes raízes; o rosto faz-se copa: só o seu esplendor permanece nela. Ainda assim Febo a ama. E apoiando a mão no tronco, sente o peito ainda a palpitar debaixo da casca recente. Abraça nos braços os ramos, como se membros fossem, cobre de beijos o lenho; mas o lenho aos beijos se esquiva.
Então o deus disse: “já que minha esposa não podes ser, serás ao menos a minha árvore. Os meus cabelos sempre te terão, e a minha cítara, ó loureiro, e a minha aljava. Tu estarás com os chefes do Lácio, quando a voz cantar alegre o Triunfo, e o Capitólio assistir aos longos cortejos. Tu, fidelíssima guardiã, estarás no umbral de Augusto, diante da porta, de guarda às folhas de carvalho ao meio”
Ovídio, Metamorfoses, Livro I, Livros Cotovia, 2004


Mosaico das Musas, Torre de Palma, Monforte



Museu Nacional de Arqueologia
N.º de Inventário: 999.149.1
IV d.C. - Época Romana
Descrição:

«Mosaico rectangular composto por 11 painéis figurativos. Bordadura exterior com meandros de suásticas de volta dupla, negras sobre fundo branco, com dois filetes negros exteriores. Faixa branca, de guilhoché largo com a alma quadrada, sobre fundo negro, de cor amarela e beije esverdeado, faixa branca seguida de filete negro. Nos lados maiores, um meandro de suásticas de quatro voltas (trança de dois cabos). Os 11 painéis são os seguintes: Painel XI (Teseu e Minotauro); Painel X (Triunfo de Baco); Painel IX (Mégara e Hércules); Painel VIII (Medeia Infanticida); Painel VII (Hércules e Mercúrio); Painel VI (Apolo e Dafne); Painel V (Dois Membros do Tiaso); Painel IV (Duas Ménades); Painel III (Sileno e Sátiro); Painel II (Cena Báquica); Painel I (Musas). PAINEL I (As nove Musas) - Trança policroma de três cabos (ocre vermelho, rosa e beije), sobre fundo escuro; As nove musas apresentam-se com solenidade, atitude clássica e levam carrapito no alto da cabeça, sinal de inspiração ou sabedoria, começado a usar no século II e que simbolizava a sua vitória sobre as trevas, sobre as Sirenas, a superioridade da vida de espírito sobre a grosseria sensual. Vestuário de duas peças: túnica comprida, cintada ou solta, rosa, verde, amarela ou cinzenta e o manto ou "palla", solto, traçado ou preso por fíbulas. Com a excepção de Melpomene, todas calçam sapatos (calceus) e a sua posição é de pé, de frente ou a três quartos. Nem todas possuem os seus respectivos atributos. Calíope - Aspecto grave, túnica castanha, manto dourado, caído sobre a cintura e com a ponta dobrada sobre o braço esquerdo. Na mão direita aperta talvez umas tabuínhas. Euterpe - Túnica verde com barra amarela. "Palla" sobre os ombros, caída. Mão esquerda com flauta simples, na outra, segunda flauta. Érato - Túnica cinzenta com barra castanha. Manto enrolado à cintura. O braço esquerdo por detrás da lira, apoiada sobre um pedestal. Na mão direita fechada, o pleto ou varinha de marfim para tocar o instrumento. Tália - Túnica verde e manto amarelo sobre ombro esquerdo, com uma das pontas rodeando a cintura e segura com a mão esquerda, a qual também agarra a máscara cómica. Falta-lhe os atributos rústicos, o cajado ou o "pedum" e as folhas de hera ou de videira na cabeça. Melpómene - Em atitude de declamação. Túnica amarela, apertada com cinto. "Palla" azul, solta e curta sobre o ombro esquerdo. Na mão do mesmo lado, a máscara da tragédia. Clio - Túnica com barra, manto cinzento traçado, mão esquerda oculta nas roupagens. O braço direito curvado, esboçando um movimento de atenção e exposição. Em baixo, do lado esquerdo, possível rolo. Em atitude de evocação. Urânia - Túnica castanha, o manto dobrado e traçado sobre o braço esquerdo, cuja mão segura um grande ponteiro. O antebraço direito aparece nu e curvado em direcção à orelha. Polímia - Túnica castanha, com barra verde e a "palla" (verde), traçada sobre ombro, deixando livre o antebraço direito nu, que se ergue em atitude de comunicação. Mão esquerda segura o manto. Terpsicora - Túnica larga, manto enrolado elegantemente sobre o busto, de maneira a facilitar os passos de dança que ensaia. Braço direito sobre a cintura. Não tem lira. PAINEL II (Cena Báquica) - Dentro de um círculo, inscrito numa trança de forma rectangular e policroma, a branco, amarelo, cinzento, verde e cor-de-rosa, duas figuras coroadas com folhagem verde, azul claro e castanho escuro. Um homem enverga manto sobre ombro esquerdo, matizado de várias cores, com braço direito nu. Parece acariciar no queixo uma mulher, da qual só é visível a cabeça. Nos quatro cantos, folhas com gavinhas, duas parecendo videira. PAINEL III (Sileno e Sátiro) - Dentro de círculo, um Sileno de tipo Pompeia, nu, obeso, barba e cabelos com folhagem verde (hera ou espinhos), pele de cabra ou pantera à cintura, com tirso florido na mão direita e o braço esquerdo enlaçando um Sátiro que, também coroado de verdura, empunha um "pedum". O Sileno encontra-se calçado enquanto que o Sátiro não. Existe ainda uma desproporção intencional em relação a estas duas personagens. Encontram-se dentro de cercadura quadrada, ornada de espigas, dispostas em forma de ramo. PAINEL IV (Duas Ménades ou Bacantes) - Dentro de cercadura rectangular, policroma (rosa, branco, verde, creme), no interior, duas Ménades dançando: a da esquerda mostra movimento dos pés descalços e um ritmo gracioso. A da direita, apresenta cabeça coroada de pâmpanos, na mão esquerda o tirso e na outra, erguida, um instrumento musical. Enfrenta o seu par, com seu tronco nu, bem moldado, flectido para a frente e a túnica descaída sobre as pernas, agitada pelos passos de dança. PAINEL V (Dois membros do tiaso- Io e Argos)- Cercadura quadrada, enxadrezada, a branco, amarelo e cor-de-rosa. Dentro de um círculo cinzento-azulado, duas figuras ambas com cabeça ornada de folhas, uma à direita, masculina, nua com um manto ou pele sobre o ombro e as pernas curvas, assente em algo e um dos braços estendidos com o indicador apontado, como quem faz uma recomendação; a outra, de pé, manto traçado, braços envoltos e de ar atento. PAINEL VI (Apolo e Dafne) - À esquerda Dafne, vista de três quartos à direita, olha para Apolo com terror, um véu pousado no ombro direito, enfunado sobre as costas; é de cor verde-amarelo pálido e esverdeado, branco com tesselas pretas desenhando as pregas. À direita, Apolo, visto de três quartos está sentado num rochedo colorido de castanho claro, vermelho escuro, rosa, amarelo e beije. Descansa a cabeça, inclinada para a direita, no braço esquerdo, flectido e apoiado na lira de seis cordas, pousada sobre o rochedo, em segundo plano. O instrumento está desenhado com tesselas ocre-vermelho, ocre-amarelo e negro (vidro muito destruído). O deus tem uma coroa de flores azul turquesa com corola amarela e folhas verde esmeralda. Enverga um manto que partindo do ombro, vem de ambos os lados reunir-se sobre as pernas, mas deixa nua a esquerda, a partir da coxa. O joelho direito toca o torso de Dafne e o pé direito toca o torso de Dafne e o pé direito está curiosamente torcido para a direita, por falta de espaço. O braço direito segue a linha do corpo, com a mão vista de perfil, pousada sobre a coxa. PAINEL VII (Mercúrio e Hércules) - Moldura geométrica policroma, de tipo "decoração múltipla", mas com motivos irregulares (à excepção do nó de salomão) que não formam uma verdadeira quadrícula. Ao centro de medalhão, à esquerda está Hércules, em desequilíbrio e com a mão direita faz um gesto para evitar a queda e senta-se sobre um rochedo visto de frente, onde são utilizadas as cores rosa, amarelo esverdeado, castanho claro. Uma linha de contorno branca, separa a silhueta do herói, do rochedo. O rosto quadrado, com barba, as feições estão desenhadas por uma linha de ocre-vermelho, sublinhada a branco no nariz. A pupila dos olhos é negra. Na cabeça uma coroa semelhante à de Apolo. A sua perna direita está escondida pelo vestuário, enquanto que a esquerda está esticada. A pele do leão de Nemeia cinge-lhe os rins, esconde a perna e o pé e enrola-se à volta do braço esquerdo. Em segundo plano, parcialmente oculto por Hércules, está um jovem, de pé, a cabeça coberta por um pétaso. É Mercúrio de quem só se vê o torso. Segura um "pedum" na mão esquerda e olha para o herói que tenta impedir de cair. PAINEL VIII (Medeia concebendo o infanticídio) - Esta cena trágica que envolve três pessoas, ocupa a totalidade do quadrado. No lado direito vemos Medeia de braços cruzados, com a mão esquerda segurando o punho da mão direita e esta segura o que parece ser uma adaga e não um punhal, pois a lâmina parece afalcatada. O seu rosto encontra-se virado para a esquerda. A túnica, em tons amarelos, apresenta uma barra cinza no fundo. Perna direita ligeiramente dobrada para a direita. Visível ainda um manto em tons de vermelho e rosa que caem dos seus ombros, e que parece cruzar na zona do peito. A segunda personagem é um homem que aparece em plano recuado, em relação a Medeia. O braço direito encontra-se levantado, segurando o que parece ser uma tocha em tons ocre e amarelo. A mão direita segura um chicote em movimento. Enverga túnica curta, sem mangas, apertada na cintura, com um efeito de "balão", em tons rosa, ocre e amarelo. Traz uma clâmide flutuando nas costas, da qual se vê à direita uma ponta. Entre as duas personagens, em plano intermédio, é visível uma criança (talvez um de seus filhos), de cara virada para a direita. Está nu, mas uma clâmide ocre, cruzada no pescoço, desce-lhe pelo ombro esquerdo e costas até aos joelhos. PAINEL IX (Hércules furioso) - Moldura de meandro de suástica de volta dupla, policroma (rosa, ocre, amarelo beije esverdeado, beije e branco. Ao centro, três personagens: Mégara, Hércules e duas crianças ajoelhadas. A figura de Hércules é sem dúvida imponente. Rosto voltado para a esquerda, encarando Mégara. Braço direito estendido para a direita, segura o que parece ser uma tocha inflamada, cuja chama quase que toca na cabeça das crianças. A tocha utiliza tesselas de tom ocre, rosa, amarelo, sendo a chama em tesselas de vidro, laranja, vermelho e verde. Apresenta uma clâmide presa por uma fíbula no ombro direito, que cobre o ombro esquerdo, em tons de azul e vermelho. A musculatura aqui é muito bem representada, com um excelente jogo de cores, tornando claro o mais pequeno pormenor. Hércules está calçado com sandálias de meio-cano, com atacadores vermelhos. As duas crianças nuas, encontram-se com o joelho esquerdo assente no chão. O seu braço esquerdo encontra-se dobrado tomando a direcção do rosto. À esquerda de Hércules, encontra-se Mégara, de rosto levemente inclinado para a esquerda, olhar triste, braço esquerdo dobrado sobre o ventre e braço direito dobrado, com a mão encostada à cara. Cabelo longo, preso dos lados à parte de trás, braços robustos e nus, ostentando duas pulseiras duplas. Ostenta uma longa túnica, com uma barra amarela no fundo e outra mais curta, abaixo da anca, também com uma barra amarela. PAINEL X (Triunfo de Baco) - O triunfo compreende dezasseis personagens que avançam para a direita, sem indicação da linha de solo. Grupo 1: Um carro visto a três quartos puxado por dois tigres que se encontram de lado. Foram utilizadas tesselas em vários tons de castanho e beije para os contornos e desenhos da pele dos tigres. Visível arreio e coleira. As rédeas e os freios são seguras por um jovem sátiro situado à direita de Baco (dentro do carro) e também por Pã que conduz os tigres. O jovem sátiro, coroado de folhas de hera representadas em verde, com uma chibata na mão direita, enverga, deixando à vista o ombro direito, um manto em tons de castanho e apresenta-se inclinado para a frente. Em pé sobre o carro, o jovem Baco nu, enverga um manto em tons de azul, com a musculatura desenhada em tons de beije, rosa, castanho e branco, segura na mão esquerda, levantada, um tirso enfeitado na ponta com fitas. A mão direita, estendida, segura uma cratera castanha. Atrás dele, um bacante, do qual só é visível a sua cabeça coroada de folhas de hera. No chão, junto ao carro, são visíveis duas Ménades, uma delas apresenta a cabeça muito destruída e veste uma túnica em tons de castanho (encontra-se à retaguarda). A segunda, de rosto virado para a esquerda, enverga túnica em tons castanhos e cinzentos. Na mão esquerda, segura o tirso. A Ménade seguinte encontra-se a três quartos, numa túnica cinzenta, contornada a preto ou cinza escuro e apertada sob o peito. Esta Ménade segura com as duas mãos e sobre a cabeça, o que parece ser uma cesta, desenhada a cinzento e contorno castanho. Grupo 2: Em primeiro plano, Ménade com duas túnicas em tons de castanho escuro e contorno a preto. Noção de sombra dada pelo jogo de cores entre o castanho e o cor de rosa. Visível uma pele de animal a tiracolo. Rosto em perfil, voltado para a direita. Braço direito estendido. Coroa de parras na cabeça. A Ménade seguinte apresenta-se em perfil, com cabeça destruída, em atitude de dança, com crótalo na mão direita e duas pulseiras duplas no mesmo braço. Encontra-se descalça e nas suas costas flutua um manto castanho escuro com barras verdes. Presa à perna direita é visível uma espécie de manto azul, com barra verde, esvoaçando. A última figura deste primeiro plano é um Bacante visto de frente, ligeiramente inclinado para a esquerda. Encontra-se nu apenas com uma pardália em tons de amarelo e castanho, tapando o ombro e braço esquerdo. Na mão esquerda segura o que parece ser uma flauta branca. Atrás deste Bacante, parece estar outra personagem, não muito visível e que levanta algumas dúvidas de interpretação. Em segundo plano, entre Pã e a Ménade, visível figura de um jovem Bacante, parcialmente coberto por pardália castanha com barra verde. O seu rosto encontra-se em perfil virado para o lado direito. Devido a uma grande falha de tesselas, não é possível identificar correctamente os objectos que se encontram no canto superior direito ao lado do último Bacante descrito. Num terceiro plano, uma Ménade vista de perfil, com túnica verde de mangas curtas. Visível no braço direito, que se encontra estendido, duas pulseiras no antebraço. Parece segurar algo, impossível de indentificar por lacuna do painel. À direita desta Ménade, vê-se um jovem a três quartos, coroado com folhas de hera, vestindo uma túnica de mangas cinzentas e "pallium" amarelo. Braço direito levemente levantado. Logo a seguir, para a direita, um jovem Bacante vestindo uma túnica de tesselas de vidro brancas, com ombro direito a descoberto, toca flauta dupla (?). PAINEL XI (Teseu e Minotauro) - Dentro de uma moldura quadrada, com fundo em escamas, visível duas personagens. À esquerda, de pé, a figura de Teseu. A silhueta do herói é descrita por um conjunto de tesselas rosas, brancas, castanhas claras e escuras, num jogo de projecção de sombras em "dégradé". Apresenta uma clâmide flutuante nas costas, em tons de azul claro e escuro, vermelhos e preto. Com o braço direito levantado segura uma clava nodosa, com extremidade curva. O braço esquerdo segura o corno direito do Minotauro. À direita de Teseu encontra-se o Minotauro, (corpo de Homem e cabeça de Touro), representado com corpo bastante atlético, onde é utilizado o jogo de tesselas de cores claras, neste caso em cor-de-rosa, dando a noção do volume muscular do corpo desta figura. Encontra-se com o joelho direito no chão e braço esquerdo no ar em atitude de piedade. O braço direito segura a perna esquerda de Teseu. Em segundo plano, por trás do Minotauro, visível o que parece ser uma torre de castelo em tons rosa e castanho claro.
Forma de Protecção/Classificação: Interesse Nacional; Motivo: Necessidade de acautelamento de especiais medidas sobre o património cultural móvel de particular relevância para a Nação, designadamente os bens ou conjuntos de bens sobre os quais devam recair severas restrições de circulação no território nacional e internacional, nos termos da lei nº 107/2001, de 8 de Setembro e da respectiva legislação de desenvolvimento, devido ao facto da sua exemplaridade única, raridade, valor testemunhal de cultura ou civilização, relevância patrimonial e qualidade artística no contexto de uma época e estado de conservação que torne imprescindível a sua permanência em condições ambientais e de segurança específicas e adequadas; Legislação aplicável: Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro; Acto Legislativo: Decreto; nº 19/2006; 18/07/2006* Este mosaico foi descoberto no mês de Março de 1947, pelo Sr. Joaquim Inocêncio quando lavrava os terrenos da Herdade de Torre de Palma».