sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Aprender Latim no Museu Nacional de Arqueologia

Há iniciativas que nos orgulhamos de partilhar.


Notícia a partir de: 
http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/agenda/courses/aprender-latim-no-museu-nacional-de-arqueologia/

Aprender latim no Museu Nacional de Arqueologia | Inscrições abertas

O Museu Nacional de Arqueologia e a  Associação Clenardus: Promoção e Ensino das Línguas e Cultura Clássicas , promovem entre 22 de abril e 3 de junho, pelas 10h00,   o curso Aprender latim no Museu, na Sala Bustorff Silva, do Museu Nacional de Arqueologia.

Sessões:
22 e 29 de abril;
6 de maio;
13 de maio;
20 de Maio;
3 de junho

Temas:

1 – A Casa e a Família
2 – A Mulher em Roma
3 – O Homem em Roma
4 – A Religião
5 – Saúde e Higiene
6 – A Vida e a Morte. O Culto dos Mortos.


Total do Curso: 20 euros

O Curso será certificado.

Inscrições: mbarata@mnarqueologia.dgpc.pt

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Arqueologia no Vale do Tejo, António Carlos Silva

Hoje, após ter dado conta de mais um extraordinário testemunho para a História da Arqueologia em Portugal, venho chamar a atenção para um importante texto de António Carlos Silva, sobre a exposição «Arqueologia no Vale do Tejo», em 1987, no seu excelente blogue «Memórias das Pedras Talhas».


Um dos artigos deste catálogo poderá ser lida em:

https://repositorioaberto.uab.pt/bitstream/10400.2/6190/1/1987%20No%20estu%C3%A1rio%20do%20Tejo,%20do%20Paleol%C3%ADtico%20%C3%A0%20Idade%20do%20Ferro.pdf



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A Medicina no Tempo dos Romanos, Filomena Barata (em construção)
























«O que mais perturbação traz ao homem é o ventre, para o qual vive a maioria dos mortais. Umas vezes não deixa passar os alimentos, outras vezes não os retém, outras não os aceita, outras vezes não os digere. Os costumes chegaram a tal ponto que é pela comida que se dá a maioria das mortes. A prior das entranhas do corpo é exigente como um credor e insiste várias vezes ao dia. É sobretudo por causa dele que a ganância se agita, qua a luxúria se espevita, por ele se navega até ao Fásis, por ele são devassados os abismos do mar. E ninguém avalia a sua baixeza pela imundice do resultado. Por isso, é também ele que dá mais trabalho à medicina».

Plínio (N.H. 26.43).
Este texto, ainda em construção, baseou-se na comunicação apresentada em Powerpoint no encontro realizado em Vilar de Perdizes, sobre a Medicina Popular, no dia 5 de Setembro de 2014, retomado em 2016, em Castelo Branco nas XXVIII Jornadas de Estudo - História da Medicina.


Fresco do triclinium da Villa di Livia Drusilla
Não se pretende com ele um texto demasiado especializado sobre o tem, mas que funcione como que uma introdução ao trabalho que a signatária tem vindo a desenvolver sobre as «Espécies vegetais e animais de Miróbriga e suas referências mitológicas e bibliográficas», publicada neste mesmo site e que tentaremos dar a conhecer.Não se pretende com ele um texto demasiado especializado sobre o tema, mas que funcione somente como que uma introdução ao trabalho que a signatária tem vindo a desenvolver sobre as «Espécies vegetais e animais de Miróbriga e suas referências mitológicas e bibliográficas», publicada neste mesmo site e que tentaremos dar a conhecer.
http://www.portugalromano.com/2014/04/as-especies-vegetais-de-mirobriga-e-as-suas-referencias-bibliograficas-e-mitologicas/




Diríamos, com as devidas cautelas, pois são pelo menos dois milénios de História a separar-nos, com o que se perdeu dos conhecimentos tradicionais e empíricos em função de avanços tecnológicos e científicos, podemos, contudo, encontrar ainda similitudes entre a Medicina da Época Romana e a dos nossos dias.
Ou seja, continuamos a ter, ontem, como hoje uma Medicina oficial a que designaremos, por facilidade, profissional, e uma “medicina” feita de conhecimentos passados de gerações em gerações.
Ambas funcionam quer ao nível profilático, quer terapêutico e curativo.


Os médicos, como profissionais, têm em Roma, grande herdeira da tradição grega da “Medicina Racional”, formação adequada.
A utilização de plantas, grande base de toda a ciência de curar, para o tratamento de doenças é tão antiga quanto a História da Medicina.
Por exemplo, os efeitos da papoila são conhecidos na Suméria há pelo menos 5000 anos atrás.


Os antigos romanos tiveram o seu próprio conhecimento empírico sobre o emprego medicinal das plantas, tendo os tratamentos das doenças com base nas ervas medicinais que chegaram até nós graças às obras de diversos autores da época, principalmente de médicos e enciclopedistas, Túsculo 234 a.C. — Roma, 149 a.C.), também conhecido como Catão, o Velho (Túsculo 234 a.C.. — Roma 149 a.C. ; Plínio, O Velho, Celso, Dioscórides  ( c. 40 – 90 a.C.) e Galeno (Pérgamo, 130-Roma 200/216).



Durante muito tempo os cuidados com os doentes em Roma eram prestados dentro do próprio ambiente familiar, pelo paterfamilias, que era responsável pelo tratamento de familiares, de criados, escravos e animais.
Esse tipo de medicina era sustentado na tradição, com base no conhecimento transmitido do efeito terapêutico de ervas, cultivadas no ambiente natural e ministradas muitas vezes conjuntamente com rituais cantados e falados, de natureza religiosa e mística, em associação, portanto, com o divino.
Não é pois de admirar que existam balsamáticos com referências à Fauna e à Flora ou nesmo outras divindades como Fauno, como o exemplar que se apresenta.



                                                                                                                                         
                Balsamário representando Fauno. Museu Nacional de Arte Romano, Mérida


Flora. Divindade itálica. Flora ou a Primavera.Fresco, Século I d.C. 
Museo Archeologico Nazionale, Napoles


«Grosso modo, podem ser identificadas três etapas na evolução da medicina romana: a primeira, exclusivamente tradicional e empírica, que vigorou desde os primórdios da civilização romana até por volta do século III a.C. quando se verificou o processo de penetração da medicina grega, com a chegada dos primeiros médicos da Grécia, atraídos pela possibilidade de adquirirem fortuna e fama em Roma. Por fim, podemos identificar o processo de “romanização” da medicina grega, hipocrática e alexandrina, que se inicia por volta do primeiro século de nossa era e se consolida com Galeno, em meados do século II d.C. Assim, podemos dizer que convivem a medicina tradicional com muitos dos tratamentos baseados na observação do efeito de plantas, e a medicina terapêutica que se vai desenvolvendo gradualmente».
Ao que se sabe, os primeiros médicos de Roma foram escravos, que, pelo seu conhecimento, adquiriram privilégios em relação aos restantes escravos e estabeleciam-se entre eles e seus donos laços afetivos muito fortes, como ocorreu com Cícero e seu escravo Aléxis (Cic., Ad Att. XV, I, 1).
Sabe-se ainda que os honorários dos médicos eram modestos e gradualmente foram aumentando.
«A ilusão de proventos tão altos atraiu para Roma multidões de charlatões e homens de negócios, que com sua imperícia e os escassos escrúpulos acabaram por abaixar o nível da classe médica. Tão desacreditada, a medicina oficial teve a concorrência da medicina popular, que se ligava àquela doméstica, e que se associava à magia e à superstição. Todos estes fatores contribuíram para a decadência da medicina douta, oficial, e levaram a uma revisão crítica de seus sistemas.
Na antiga Roma faltava um controle estatal relacionado à verificação da preparação científica dos médicos e à vigilância do uso correto da medicina; não existia um órgão comparável ao Conselho de Medicina».
Citações: O médico e a medicina em Roma, Ana Thereza Basilio Vieira 

Segundo a mesma autora, a necessidade da criação dos hospitais militares (valetudinaria), favoreceu o desenvolvimento de uma medicina de características mais profissionais para dar apoio a uma quantidade enorme de feridos. A sua estrutura seria a de um corredor central e fileiras em ambos os lados com pequenas salas, com capacidade para 4 ou 5 pessoas. O responsável geral pela equipa médica era o «Praefectus castrortum» que coordenava o «optio valetudinarii», ou director do hospital militar, responsável administrativo.


Intervenção cirurgica de um soldado. Pintura proveniente de Pompeia.
Fotografia a partir de: http://it.wikipedia.org/wiki/Valetudinarium
Os hospitais civis, como os conhecemos, surgiram mais tardiamente, por volta do século IV d. C., produto da piedade cristã.
Lembra-nos ainda Ana Thereza Basilio Vieira que Júlio César concedeu a cidadania a todos os que exerciam a medicina em Roma, pois, como já referimos anteriormente a origem da maioria era de escravos. Segundo a mesma autora, as origens da cirurgia romana «são vistas na prática, inicialmente rudimentar, de curar as lesões dos soldados e dos atletas».
Os romanos, portanto, conheciam muitos remédios baseados em substâncias naturais, sobretudo ervas (scientia herbarum), um saber que passava oralmente de pai para filho e os conhecimentos etruscos podem ter estado na origem de muitos.
Pode concluir-se, portanto, que o interesse romano pela botânica médica tem uma longa e rica história

Celso nos dá-nos a imagem do cirurgião perfeito. (Cels., De medicina, VII):
«O cirurgião, contudo, deve ser jovem, ou ao menos mais próximo da juventude; de mão firme, segura, que não trema nunca, e que esteja preparado tanto da destra quanto da sinistra; de visão acurada e clara;
espírito de um corajoso, piedoso, mas que não pense em nada além de curar o seu doente, sem que se espante com a altura de seus gritos, nem que o trabalho termine mais rápido, ou corte menos que o necessário, mas que faça tudo igualmente e como se nenhuma afeição nasça dos lamentos alheios.
Contudo, pode-se ver o que propriamente deva-se atribuir a esta parte; porque os cirurgiões reivindicam para si também as curas das feridas e de muitas chagas, que mostrei alhures».
cit in: O médico e a medicina em Roma, Ana Thereza Basilio Vieira

A origem do trabalho que agora apresentamos surge, embora de forma indirecta, em Miróbriga, tendo sido iniciado já há praticamente dez anos.


Estudo da bioversidade de Miróbriga, efectuado pela empresa Mãe d’Água


Estávamos conscientes de que umas ruínas devem assumir no Presente, para além do seu intrínseco valor científico e patrimonial, como testemunhos do Passado, uma estreita relação com o meio e o ambiente onde se inserem, decidiu-se promover um conjunto de estudos que pretendiam realçar a importância paisagística e paleo-ambiental de um Sítio Arqueológico com as características de Miróbriga, contribuindo para apoiar a elaboração de propostas de promoção da biodiversidade no local, com o recurso à reconversão da área hortícola actualmente abandonada, para a qual se prevê a recuperação das estruturas de rega tradicionais, bem como o plantio de árvores de fruto típicas das áreas adjacentes aos Montes e Casais da Serra e Charneca de Grândola, as quais constituem um recurso alimentar importante para as comunidades de aves frugíferas e micromamíferos.
Paralelamente, foi efectuado um levantamento bibliográfico dos autores latinos que se referiam a espécies animais e vegetais com características das que actualmente sobrevivem no território de Miróbriga, bem como das divindades greco-latinas que tinham como atributo algumas dessas entidades naturais e/ou na história mitológica relações íntimas com elas.



A Natureza era associada a Artémis / Diana, padroeira também dos animais selvagens, e aos Sátiros.
Curiosamente, era a deusa da caça e das mulheres e dos partos, ou seja, tinha características protectoras.
Só em Santa Bárbara dos Padrões, Castro Verde, recolheram-se seis exemplares de lucernas com a representação de Artémis (MAIA, 1997:46).
Para os Romanos, pese a evolução da “Ciência do Curar”, é, pois, praticamente indissociável a dimensão física e natural da dimensão espiritual, ou mesmo religiosa.
No «Asno de Apuleio», a determinada altura da sua viagem iniciática, o burro suplica à Lua, apelando a atributos que lhe foram conferidos ao longo dos tempos, numa espécie de oração que não me canso de citar:
” Rainha dos céus, ou tu sejas Ceres criadora, primeira mão dos frutos (…); ou tu sejas a celeste Vénus, que na primeira origem das cousas ajuntaste os diferentes sexos gerando amor, e propagaste a espécie humana de eterna descendência (…) que, favorecendo o parto das mulheres com brandos remédios, tens dado à luz tantos povos (…); ou tu sejas Prosérpina, horrível pelos uivos nocturnos, que reprimes com a triforme face os ímpetos dos espectros, e encerras os arcanos da terra e, vagueando por diversos bosques, és aplacada com diferentes modos de culto: tu que alumias os muros de todas as cidades com a tua feminina luz, que crias as alegres sementes com teu húmido fogo e esparges uma luz incerta segundo as revoluções do Sol: por qualquer nome, quaisquer ritos e debaixo de qualquer forma que é lícito invocar-te, tu me socorre agora em minha extrema calamidade (…), tu dá-me paz e repouso depois de tão cruéis desgraças sofridas”.
Virgílio na sua obra didáctica sobre a agricultura, «As Geórgicas», que é um elogio da vida campestre, em harmonia com a natureza, símbolo da paz e da serenidade que se instala com a «Pax Romana» com o imperador Augusto que reconciliou Roma a vida agrícola e a história dos seus antepassados, inicia o seu Livro I do seguinte modo:
«CANTEI!, até aqui, o amanho dos campos e os astros do céu; cantar-te-ei a ti, Baco, e contigo as árvores silvestres e a prole da oliveira, lenta no crescer. Vem, ó pae Leneu! Tudo aqui está cheio dos teus dons; em tua honra floresce o campo, carregado de pâmpanos outonais, e a vindima espuma nos lagares atestados. Vem ó pae Leneu! Descalça os conturnos e tinge comigo as pernas nuas no mosto novo! Antes de mais nada, direi que a natureza varia quanto modo por que cria as árvores. Na verdade, umas, sem intervenção humana, nascem expontaneamente, e cobrem ao longe os campos e as margens sinuosas dos rios, como o fime flexível, a branda giesta, o choupo, e os salgueiros brancos, coroados de verde folhagem; outros brotam da semente colocada pela mão do homem, como os altos castanheiros, o roble, que, sobraceiro às mais árvores, se veste de folhas em honra de Júpiter, e as carvalheiras que serviam de oráculos aos Gregos; a outras rebenta da raiz densa mata de pôlas, como sucede às gingeiras e aos ulmeiros, e também ao loureiro do Parnaso, que, pequeno ainda, se desapega da vasta sombra da mãe. Tais são os meios por que a natureza forma primitivamente as árvores: destarte verdeja toda a raça que povoa as florestas, os matagais de arbustos e os sagrados bosques» (Virgílio, Livro II, 1948: «As Geórgicas»).
Assim em Virgílio a Natureza no seu sentido mais lato surge-nos como a base de todos os ensinamentos que, claro está, indissociável do Divino.



                                                  Remédios e Instrumentos


                          Caixa de médico. Museo Nacional de Arte Romano. Mérida.
Eram usadas em Roma caixas para medicamentos, sendo que os médicos as transportassem consigo.
Conhecem-se uma série de caixas de bronze, marfim ou madeira divididas em compartimentos pequenos, cada um com a sua própria tampa, que serviam para conter distintos remédios médicos, como unguentos. Algumas destas caixas estavam decoradas com representações do deus Esculápio, deus da medicina e da cura.
Em Augusta Emerita foram encontradas duas dessas caixas, uma delas contendo os compostos medicinais, que foram objecto de estudo por parte de Ana Mª Bejarano Osorio.
O termo medicamento é derivado do latim medicamentum, vocábulo que tem a mesma raiz de médico, medicina, medicar, etc., e que deriva verbo medeor, que significa cuidar de, proteger, tratar.
Mas Medicamentum, em latim, tinha também o sentido de beberagem mágica, bruxaria, feitiço.
Por sua vez, remédio é derivado de remedium, aquilo que cura.
A beladona, o meimendro ou belenho e a mandrágora que, em fase posterior, ficaram associadas à bruxaria, eram ervas medicinais, provocando efeitos alucinogéneos ou afrodisíacos.
A “Madragora Officinarum“, oriunda da região mediterrânica, tinha efeitos narcóticos. O Belenho ou Meimendro que lá era usado entre os Egípcios para aliviar a dor e induzir o estado de inconsciência. Também na Grécia Antiga era utilizado em envenenamentos e para processos divinatórios de que falaremos um pouco de seguida. Ao que se sabe, esta planta era utilizada no Oráculo de Delfos, onde as Sacerdotizas ingeriam o sumo das suas sementes.
Após a descoberta de seis comprimidos num antigo navio romano, afundado na costa italiana há mais de dois mil anos, investigadores da Universidade de Pisa  (Itália) analisaram os remédios usados na Antiguidade e consideram que podem ter sido usados para tratar infecções oculares.
São conhecidas algumas tabernae com funções de farmácia, como se verifica em Pompeia, ou o caso da estela procedente da Gália com representação uma farmaceuta e aprendizes.



Fotografia a partir de: La Medicina en la Colonia Augusta Emerita, 2015, Instituto de Arqueología, Mérida.


Material cirúrgico procedente de Pompeia no Museu de Nápoles. Fotografia obtida a partir de: https://www.facebook.com/pages/Traianvs-Ingenier%C3%ADa-Romana/151487124895824

As pílulas encontradas estavam em bom estado e os seus ingredientes bem preservados, apesar de submersos ao longo destes anos todos. As amostras estavam numa caixa de metal e revelaram que continham gordura animal e vegetal, entre elas possivelmente azeite, conhecido no uso de perfumes e preparados médicos; resina de pinheiro, que tem propriedades anti-bacterianas; amido, um ingrediente usado em cosméticos pelos romanos e compostos de zinco, os prováveis ingredientes activos. A composição indica que os comprimidos possam ter tido um uso oftalmológico, segundo a equipa de investigação.
O navio naufragado data do período entre 140 e 130 a.C. e teria sido usado como embarcação de comércio da Grécia para o Mediterrâneo e, apesar de ter sido descoberta em 1974, apenas agora é que os comprimidos foram totalmente analisados.



As ervas, raízes, unguentos, emplastos eram, como acima dizíamos, muito usados em Roma.
O Laserpicium era uma planta medicinal que Plínio chamou de um dos maiores dons da natureza. O sumo da raiz do laserpício era sobremaneira apreciado e tinha múltipla aplicação nas convalescenças, nos estados de prostração, nas digestões difíceis, nos distúrbios circulatórios e nas doenças das mulheres. Era empregado para curar feridas e chagas. Curava a dor de garganta, asma e mil e uma outras enfermidades. Servia também como antídoto contra mordeduras de cobras e picadas de escorpiões.
O laserpício apenas se revelava inoperante contra dores de dentes. Nesses casos dolorosos aconselhava-se a polpa da abóbora com absinto e sal.
Para a boa conservação dos dentes, recomendava-se lavar a boca com sangue de tartaruga três vezes ao ano ou dissolver sal sob a língua pela manhã em jejum.
Contra as devastações da calvície: Infusão de vinho, açafrão, pimenta, laserpício e excremento de rato.
As enfermidades dos olhos eram tratadas com colírios preparados.
O azeite, durante o Período Romano, foi muito utilizado para tratamentos capilares, para além do seu uso corrente para a iluminação ou como lubrificante de ferramentas e alfaias agrícolas, impermeabilizante e ainda em rituais religiosos, tendo mantido, contudo, o seu tradicional uso na alimentação e para efeitos medicinaiss com outras substâncias vegetais como resina de mirra, açafrão e pós minerais.
A Mirra que ficou conhecida como um dos presentes que o Rei ou Mago Baltazar oferece ao menino era a resina de uma erva com o mesmo nome e usada pelos Romanos como perfume, para além das suas qualidades terapêuticas e medicinais. Foi utilizada em incensos, perfumes e pomadas, sabendo-se que já era conhecida pelos Egípcios que a usavam para embalsamamento de múmias.
Conhece-se a também sua utilização com fins medicinais, através de Dioscórides que foi médico das legiões romanas na Palestina, no século I, para situações febris e para dores de costas, desinterias e outros problemas intestinais.
Também os Gregos conheceram o uso das fragâncias, quer para honrar os deuses, quer para uso corporal, sabendo-se que tinham perfumes para as várias partes do corpo e ao que se sabe também foram usados para fins medicinais, pois Hipócrates, o “pai da Medicina”, utilizava pequenos concentrados de perfume para combater algumas enfermidades.
O império Romano com a expansão do seu Império contribuiu também para a expansão da perfumaria e, ao tomar contacto com novos territórios, designadamente da Arábia, da Índia e China foram conhecendo novas fragrâncias, como a glicínia, baunilha, lilás e cravo, importanto enormes quantidades de fragâncias.
O consumo dos perfumes foi-se tornando extensivo a todas as classes sociais, tendo como principais objectivos a higiene pessoal, a preparação de rituais de fertilidade e religiosos, e ainda o afugentar epidemias, sendo comum o seu uso nos balneários públicos e termas privadas.

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Imagens: Unguentários de cerâmica e vidro do século I. Museu Nacional de Mérida.


A Evolução da Medicina

Podem ser identificadas várias etapas na evolução da medicina romana:
A primeira, exclusivamente tradicional e empírica, que vigorou desde os primórdios da civilização romana até por volta do século III a.C. quando se verificou o processo de penetração da medicina grega.
Com a chegada dos primeiros médicos da Grécia, atraídos pela possibilidade de adquirirem fortuna e fama em Roma, a Medicina adquire um estatuto mais profissional.
Por fim, podemos identificar o processo de “romanização” da medicina grega, hipocrática e alexandrina, que se inicia por volta do primeiro século de nossa era e se consolida com Galeno, em meados do século II d. C.

No entanto, podemos dizer que continuam a conviver a medicina tradicional com muitos dos tratamentos baseados na observação do efeito de plantas, e a medicina terapêutica que se vai desenvolvendo gradualmente. 
Pese a herança grega, os antigos romanos tiveram o seu próprio conhecimento sobre o emprego medicinal dos vegetais, tendo os tratamentos das doenças com base nas ervas e outras plantas medicinais que chegaram até nós graças às obras de diversos autores da época, principalmente de médicos e enciclopedistas, como Catão, O Censor, Túsculo 234 a.C. — Roma, 149 a.C.), também conhecido como Catão, o Velho (Túsculo 234 a.C.. — Roma 149 a.C. ; Plínio, O Velho, Celso, Dioscórides ( c.40 – 90 a.C.) e Galeno (Pérgamo, 130-Roma 200/216).

Durante muito tempo os cuidados com os doentes em Roma eram prestados dentro do próprio ambiente familiar, pelo paterfamilias, que era responsável pelo tratamento de familiares, de criados, escravos e animais.



Esse tipo de medicina era sustentado na tradição, com base no conhecimento empírico do efeito terapêutico de ervas, cultivadas no próprio ambiente e ministradas muitas vezes conjuntamente com rituais cantados e falados, de natureza religiosa e mística.
- Ara funerária de um médico romano, no reverso pode ver-se um recém nascido.
Museu Nacional de Arte Romano. Mérida. Fotografia José Manuel Jérez Linde


Gradualmente a Medicina foi-se especializando, existindo em Roma diversos tipos de médicos.
Os Clinici (clínicos) tratavam doenças internas. Os clínicos ilustres chegavam junto ao enfermo levando consigo um séquito de médicos principiantes que auscultavam, tocavam e observavam sob a orientação dos mestres. Marcial descreve uma dessas cenas: “Estava indisposto; eis que logo Símaco vem visitar-me acompanhado de cem discípulos: tocaram-me cem mãos, cem mãos geladas. Não estava com febre, agora estou”.

Fannius - laringólogo.
Eros - cirurgião estético.
Alcon - operador de hérnias e de fraturas.
Medici oculari - Oculistas que tratavam das doenças dos olhos.

No caso da imagem abaixo e servindo-nos aqui da descrição do Museo Nacional de Arte Romano, está retratada uma oftalmologista operando os olhos do paciente. Ao que se sabe, a operação às cataratas era já efectuada em período romano.  Em gratidão, alguns pacientes escreveram textos nas paredes das ruas para os oftalmologistas ou medici oculari como “meus olhos foram curados pelos deuses: Agradeço a Baite”, ou “Higinio disse, curou o meu olho rapidamente”. 

No caso da imagem abaixo e servindo-nos aqui da descrição do Museo Nacional de Arte Romano, Mérida, está retratada uma oftalmologista operando os olhos do paciente




Na fotografia: LÍgula constituída por um cabo em espigão de secção circular, com um estrangulamento perto da concha, que é circular. Pode ter servido para uso oftalmológico, para aplicação de colírios. (M.S.P.)
Colecção António Júdice Bustorff Silva, Museu Nacional de Arqueologia
http://www.matriznet.dgpc.pt/…/Obje…/ObjectosConsultar.aspx…

A profissão de médico em Roma não era muito conceituada, principalmente os que a exerciam de foma itinerante, e raramente provinham  dos níveis da sociedade.
Galeno, mais conhecido como Galeno de Pérgamo, foi um conceituado médico e filósofo de origem grega, considerado o mais talentoso médico dedicado à investigação do período romano. Contudo, do ponto de vista da sua posição social não se pode considerar dos médicos mais típicos, uma vez que era filho de um pai rico e muito influente, tendo podido aprofundar um vasto estudo em filosofia. Os seus  pacientes eram também abastados.
Mas esta situação não era a mais comum em Roma, «pois nem todos tinham tido possibilidade de estudar filosofia, antes de irem estudar para os centros médicos do Mediterrâneo Este, inluindo Alexandria. Mas Galeno não era o único. Outro exemplo era Statilius Attalus, colega de Galeno em Roma, que veio de uma longa e estabelecida família de Caria, e foi um bem-feitor proeminente da sua terra natal. Quando Galeno estudou em Alexandria, também encontrou outros colegas de padrões sociais semelhantes. Para muitos, a jornada para uma grande cidade próxima, em busca de um professor devia ser sido intimidante. Muitos outros adquiriam a sua medicina dentro das famílias, entre pais, maridos e outros».
cit. in: http://pt.ars-curandi.wikia.com/wiki/Profiss%C3%B5es_de_sa%C3%BAde_na_Antiguidade
Refere-nos ainda o autor do trabalho acima mencionado que, nos anos 30 d.C., «foi decretada imunidade e isenção da recruta militar a todos os doutores do Império Romano, bem como outros privilégios dos impostos. Na mesma altura, Julius Caesar tinha concedido cidadania a todos os doutores que trabalhavam na cidade de Roma. Assim usufruiam de liberdade de obrigações públicas da sua terra natal. Tudo isto revela que de certa forma haveria algum tipo de regulamento desta actividade».
Só em Mérida, existem seis epígrafes com referências à actividade de médicos, um deles medicus ocularis, bem como uma Mulher, Iuliae Saturnin(ae), a quem o marido dedica este altar por seus méridos de «esposa incomparável» , «médica excelente» e mulher santíssima.


Também Lucius Cordius Symphorus é nomeado num altar com dedicatória a Venus Victrix.



Catão foi um dos primeiros enciclopedistas que escreveu um tratado, uma espécie de manual chamado De Agri Cultura no qual se podem encontrar orientações para os cuidados médicos que deviam ser adotados para os escravos e para o gado. Entre os medicamentos preconizados por Catão, destacam-se aqueles que eram preparados com abóbora; crua ou cozida, ingerida ou aplicada nas feridas e lesões. Quando os tratamentos com a abóbora não curavam os escravos, Catão recomendava que eles deveriam ser colocados em liberdade. No De Agri Cultura, ele recomendava remédios para vários tipos de afecções e apresentava a receita detalhada para a preparação e uso do medicamentum.

Para dores abdominais e problemas intestinais causados por ténias e lombrigas ele recomendava: Pegue 30 romãs ácidas, esmague, coloque em uma jarra com três congii [Congii =plural de congius= medida de volume romano que corresponde a cerca de 3,25 litros actuais.] de vinho preto forte e feche o recipiente. Trinta dias depois abra e use. Tome uma hemina [Hemina= medida de volume romana que correspondia a cerca de 270 ml] antes de comer. Com uma receita com folha de romã, vinho envelhecido, raiz de funcho, incenso, mel cozido e vinho de manjericão, era possível eliminar os vermes. Era necessário, entretanto que o paciente subisse a uma pilastra e pulasse para baixo dez vezes». Catão. DeAgriCultura.


Catão, também conhecido por  Marco Pórcio Catão, nascido em Túsculo a 234 a.C. e morrido em Roma em 149 a.C., também conhecido como Catão, o Velho ou Catão, o Censor, foi um político romano, cônsul em Roma em 195 a. C e censor em 184 a. C. .
                                                


A Natalidade

Sabe-se que a Natalidade era elogiada em Roma. As leis inclusivamente protegiam-na, embora se reconhecesse que a maternidade excessiva fosse pudesse ser prejudicial, quer porque poderia sobrecarregar a família e mesmo para a saúde da mãe.
Num estudo realizado por  Patricia González, aceita-se que os meios de contracepção e controlo da natalidade mais usuais fossem os meios “mecánicos”, ainda utilizados nos nossos dias, a exemplo de duches vaginais ou banhos quentes, e ainda através de esforços físicos.

O aleitamento prolongado era também usado como forma de evitar uma nova cocepção, embora não fosse um método totalmente eficaz. Ainda por cima tendo em atenção que as mulheres de condição elevada em Roma, recoriam às nutrices para amamentar os filhos.


Os Romanos usavam também a arruda com fins abortivos, para além de outras finalidades de que falaremos.
Usada em excesso era tóxica, pelo que as Romanas a usavam como planta abortiva, sabendo-se que também os homens a usavam como anticonceptivo masculino, pois parece que tem, efectivamente, a capacidade de reduzir a motilidade dos espermatozóides . 


O aborto através de meios mecânicos era realizado ou pela própria mulher, por uma matrona ou mesmo por um médico, dependendo da condição social da mulher.


Segundo o mesmo trabalho de Patricia González, no seu estudo «El control de la natalidad en el Mundo Clásico» conhecem-se vários tipos de formas abortivas, mecânicas e outras, e sabe-se que muitas vezes as mulheres escravas evitavam a natalidade para não perpetuar a condição servil.





Imagem a partir de: http://blogtabula.blogspot.pt/2017/01/el-control-de-la-natalidad-en-el-mundo.html




A higiene como fonte de saúde


Obviamente a higiene era para os romanos fonte de bem-estar e saúde, algo que é notório na instalação de complexos termais medicinais, quer nos balneários comuns.
Para além da existência dos compartimentos com zonas quentes, tépidas e húmidas, os Romanos previam espaços para exercícios, massagens e a limpeza da pele era fundamental.
De notar que assumiam tal importância que, nos próprios mosaicos, eram representados os instrumentos de higiene utilizados, designadamente os estrigilos para limpar a pele.


Fotografia e comentário (abaixo). Museu Monográfico de Conímbriga

«Mens sana in corpore sano é uma máxima de Juvenal que resume toda a sabedoria da educação dos Romanos e explica os cuidados que consagram ao corpo. Através do banho e das massagens, dos exercícios físicos e dos remédios caseiros procuravam manter o vigor e a saúde, só recorrendo aos médicos quando algum mal persistia. Os instrumentos próprios para cuidar da higiene do corpo são o strigilum, uma peça de osso ou metal com que se retiravam do corpo as gorduras e a sujidade, e as navalhas para barbear e cortar o cabelo e o pente».

Strigilo. Colecção Estatal de Antiguidades. Munique.


Mosaico da Villa romana de Río Verde, Marbella. São visíveis vários objectos usados nos banhos e limpeza corporal, como chinelas, espelhos e estrigilos. 




Esculápio, o deus da saúde



Esculápio. Imagem obtida a partir de Wikipédia

Existem várias versões do mito, mas as mais correntes apontam-no como filho de Apolo, um deus, e Corónis, uma mortal. Teria nascido de cesariana após a morte da mãe, e sido levado para ser criado pelo centauro Quíron, que o educou na caça e nas artes da cura. Aprendeu o poder curativo das ervas e a cirurgia, e, ao que dizem as lendas, a sua capacidade era tão grande que conseguia trazer os mortos de volta à vida, pelo que Zeus o puniu, matando-o com um raio. 
Escupálio, na designação latinizada, foi uma divindade solar, da medicina e da cura, herdado directamente da mitologia grega, onde tinha os mesmos atributos.
Filho de um casamento entre o deus Apolo e uma mortal, Coronis, como acima dizíamos, segundo nos descreve o poeta Píndaro (522-443 a.C.) parece ter sido retirado do ventre de sua mãe à hora da sua morte, representando assim a vitória da vida sobre a morte.
Tendo nascido como um mortal, aprendeu a medicina, tratando-se de conhecimentos mágicos, com o centauro Chirón e uma serpente ensinou-lhe como usar espécies vegetais para dar vida aos mortos.

Passemos a citar:
«Graves (7, págs. 173-7), Meier (19, págs. 24-8) e Kerényi (17) descrevem as origens de Esculápio como médico ferido. Na lenda de Epidauro, Apolo unia-se a Corônis, vindo esta dar a luz a um filho que logo em seguida ela abandona no Monte Títion, famoso pelas virtudes medicinais de suas plantas. Ali, cabras o amamentam e um cão o protege. Quando o pastor das cabras o encontra, ouve-se uma voz proclamar sobre a terra e sobre o mar que aquele recém-nascido viria a encontrar cura para todas as doenças e ressuscitaria os mortos. Num certo sentido, Esculápio seria o aspecto procriativo de Apolo desabrochando das entranhas da mãe, ao mesmo tempo luminoso e sombrio. Representaria então o lado da luz e do conhecimento, isto é, o lado racional da medicina e do processo de cura. Noutra versão, Corônis engravidada por Apoio tem, no entanto, um caso amoroso com Isquis; quando Apoio toma conhecimento disto, mata-a. Um pouco antes porém da morte de Corônis, já na pira funerária, Apolo se enche de remorsos e resgata, através de uma incisão cesariana, seu filho ainda não nascido. Este mitologema reflete mais uma vez o princípio: “Aquele que envia morte, dá também a vida”. Depois disso, Esculápio é entregue a Chíron, o centauro, para ser educado. Chíron já é conhecido e versado na arte de curar, e habita uma caverna no cimo do Monte Pelion. Kerényi afirma: “Tudo em Chíron, o médico divino e ferido o faz parecer a mais contraditória figura de toda a mitologia grega. Apesar de ser um deus grego, sofre de uma ferida incurável. Além disso, a sua figura combina o aspecto animal com o apolíneo, pois apesar do seu corpo de cavalo – configuração pela qual são conhecidos os centauros, criaturas da natureza, fecundos e destrutivos – é ele quem instrui os heróis nas artes da medicina e da música”. (KERÉNYI, 17, págs. 96-7). De modo que, num certo sentido, as características que entram na composição da figura de Esculápio são as do seu pai Apolo, o lado racional luminoso da medicina, e as do seu mestre e pai adotivo Chiron, o lado escuro e irracional.
Kerényi continua: “Naquela metade do mundo pertencente à Chíron situa-se o lago Boibeis, ao pé do Monte Pélio, e, abaixo de sua caverna, o vale de Peletronion famoso pela profusão de ervas medicinais. Nesse vale, Esculápio familiarizou-se, sob a tutela de Chíron, como as plantas e seus poderes mágicos — e com a serpente. Aí também, crescia a planta chamada “kentaureion” ou “chironion”, sobre a qual se afirmava ser capaz de curar qualquermordida de cobra e até mesmo o ferimento causado por uma flecha envenenada, do qual o próprio Chíron sofria. O detalhe trágico, no entanto, é que á ferida de Chíron era incurável. De modo que o mundo de Chíron, com suas inesgotáveis possibilidades de cura, era também um mundo de doença eterna. Além de que, à parte todo esse sofrimento, a sua caverna, local em que se realizava um culto ctônico subterrâneo, era uma das entradas do inferno».
A partir de: A IMAGEM ARQUETÍPICA DO MÉDICO FERIDOJess Groesbeck, (Sacramento)
 http://psianalitica.blogspot.pt/2007/07/imagem-arquetpica-do-mdico-ferido.html

Assim Esculápio, adquire do centauro todo o ensinamento sobre o corpo e de seu pai Apolo as leis do Espírito.


Os templos/santuários de Esculápio tinham no seu interior uma espécie de labirinto, onde era guardada a serpente, símbolo telúrico e da vida que renasce e se renova, ou seja da Transformação, motivo porque ela se enrosca no bastão de Esculápio, pois é o bastão que dá à divindade a capacidade de curar. As serpentes, consideradas pelos antigos como um símbolo da vida, associam-se assim  à água da vida, motivo pelo que este elemento e a fonte estavam as­sociadas às curas de Esculápio, praticadas nos templos que lhe eram dedicados.
Diz ainda a mitologia que o facto de Esculápio não ser um deus, mas detentor de profundos conhecimentos em medicina que lhe permitiam dar vida aos mortos causou algumas perturbações no Olimpo, ao ponto de enfurecer Zeus, o pai dos deuses, que não via com bons olhos o facto de Plutão perder os seus mortos. A sua atitude era encarada por Zeus como sobranceria, pois tomava-a como uma vontade de se tornar um deus, motivo porque o fulminou com um raio.
Apolo, seu pai, inconformado, atacou os Cíclopes, ferreiros que segundo a mitologia só tinham um olho, pois haviam sido eles a executar o raio usado por Zeus.
Perante este facto, Zeus decidiu admiti-lo entre os deuses, mas como punição transformou-o na constelação Ofiúco.
Ao que consta, o seu culto terá começado em Epidauro, mas espalhou-se em muitos outros santuários, a exemplo de Kos, Knidos e Pérgamo, onde os sacerdotes que se dedicavam à cura diziam-se ser seus descendentes.
Deve ter-se introduzido em Roma por volta do final do século III a.C., tendo acabado por tornar-se uma divindade de grande veneração em muitas das províncias do Império.
Os seus santuários passaram a ser locais de cura e tratamento, obtido através da interpretação dos sonhos e da incubatio, ou seja, da indução do sono com a ingestão de ervas, onde os sacerdotes que se dedicavam à cura diziam-se ser seus descendentes que actuavam como numa espécie de hospitais.
Ao que parece em todos os santuários haveria um templo, uma fonte purificadora, uma zona de termas, jardins, um teatro, ginásio, uma biblioteca, pois parece que a cura implicava aspectos físicos, mas também espirituais.
O processo de cura, processava-se assim através da purificação na fonte do santuário e através de sacrifícios, sendo feitas oferendas à divindade, como bolos de mel, bolos de queijo e figos. Mas também eram feitas preces, praticando-se o canto de hinos sacros, banhos medicinais, exposição à luz do sol, caminhadas de pés descalços e outros exercícios, bem como uma dieta especial, abstinência de sexo e exercícios físicos. À noite o paciente era dirigido para o seu compartimento “abaton”, onde dormia e se produzia a “enkoimesis”, ou “incubatio”, ou seja, a revelação do deus em sonhos. O sonho era então revelado aos sacerdotes, que o interpretavam.
Caso a cura fosse efectiva, deveria agradecer-se com um novo sacrifício, então geralmente era oferecido um galo ou mesmo dinheiro. Também podia ser um ex-voto, uma obra de arte, a exemplo de uma estátua, ou mesmo uma obra literária, como um poema que homenageasse a divindade.
Pelos efeitos curativos de que era dotado, Esculápio tornou-se o patrono dos médicos, fazendo-se representar como um homem barbudo, apoiado por um cajado envolto numa serpente, o caduceu, como acima se referiu e que se tornou também o símbolo da medicina.
Segundo outras lendas do mesmo mito, terá sido Esculápio a relatar a Hades o facto de Proserpina ter ingerido sementes de romã, quando Zeus lhe havia permitido regressar a terra, mas na condição de nada ter comido, motivo pelo que teria que voltar parte do ano, para junto de Hades.
Curiosamente, na Mitologia Grega, a romã foi usada para simbolizar a alegoria das estações do ano e do ciclo anual das colheitas, motivo desta associação a Perséfone que se assume como Koré, a eterna adolescente, regressando na Primavera depois de ter passado metade do ano e o com Hades.
O culto de Esculápio tem o seu auge em época helenística em Epidauro e em Cos, como referimos, grandes centros culturais e terapêuticos, de tal foma que Roma o importa no século III a.C., aquando de uma grande epidemia, atendendo também a interesses políticos e federativos das cidades gregas meridionais.
No mesmo ano que Roma acolhia o culto de Esculápio, os cidadãos de Roma assistiam pela primeira vez aos ludi Romani com coroas na cabeça e foram entregues palmas aos vencedores, costumes também importados da Grécia. Apolo parece ter perdido, a partir dessa data, a relevância que tinha pelas suas virtudes médicas, pese ter continuado a haver consagrações a Apollo Aug. que, aliás, tem preponderância sobre Aesculapius Aug, podendo até referir-se casos de consagrações simultâneas.
O culto a Esculápio está apenas comprovado epigraficamente na  Hispânia, na Tarraconense  – em Valência existe um pedestal dedicado a Asclepio por um sevir augustal – e na Lusitânia, não sendo conhecidos quaisquer cultos colectivos de cidades ou uici , nem dedicatórias oficiais. Os seus dedicantes são varões, libertos na sua maior parte. Somente numa inscrição (León) o seu nome aparece associado à saúde. No caso de Miróbriga essa associação é indirecta pois o dedicante dá a conhecer a sua profissão de médico. Também é apenas conhecido um templo dedicado a esta divindade, em Ampúrias.
Na Bética, em Nova Cartago, existe uma edícula consagrada ao culto de Esculápio. Em Olisipo, uma das três inscrições consagradas a Esculápio, datável do século I d. C., foi, provavelmente, encontrada nas ruínas do criptopórtico a que foi, durante muito tempo, atribuída uma função termal.
Na Lusitânia conhece-se ainda uma estátua representando essa divindade, proveniente do Monte da Salsa, Brinches, Beja, publicada no catálogo «Religiões da Lusitânia - Loqquuntor Saxa». MNA p. 437.




Estátua de Esculápio. SéculoI d.C. Monte da Salsa Brinches Beja.


Os atributos de Esculápio



Para além dos aspectos já acima mencionados, a serpente surge associada ao Génio, simbolizando a força espiritual e vivificante dos homens, pois todos se fazem acompanhar dessa divindade individual que o acompanha e protege até à morte, dos imperadores e dos deuses, a exemplo do Génio de Júpiter.
A serpente é também um dos animais associados com o culto de Mitra, de Mercúrio, sendo o que Esculápio tem enrorada no seu bastão, motivo pelo que ainda hoje as farmácias tenham como símbolo este animal.


Anel serpentiforme. Século I a.C.
A  serpente é símbolo da nossa energia vital, quando é bem direccionada, ou de Morte, se mal orientada.
Mas a serpente é também o símbolo da Sabedoria, se entendermos a Vida como um processo ou caminho de provações onde aprendemos, mas que também se pode perder se não a aceitarmos, desse modo transformando-se num veneno mortal.
Ou seja, a serpente contém a ideia da Vida e Morte!
A sua imagem permaneceu viva e os e os seus atributos são símbolos presentes ainda na cultura ocidental.
Por sua vez, o bordão ou bastão está associado em muitas culturas a uma arma mágica, como acontece entre algumas divindades hindus ou mesmo chinesas, onde um bastão de pessegueiro era considerado um instrumento mágico para afastar influências nefastas.
Aparece ainda associado ao respeito, notoriedade e sabedoria, sendo, por isso também representado entre Profetas. É afinal o eixo do mundo!
É símbolo de divindades como acontece com o bastão de Esculápio, que envolto com uma serpente, a da Sabedoria, dela se usa para curar .




Mas também o usava o deus Hermes, que significa interprete ou mensageiro, de seu nome romano Mercúrio, com duas serpentes enroscadas e um elmo alado na extremidade. Segundo a mitologia, Mercúrio lançara-o entre duas serpentes que lutavam e estas acabaram por entrelaçar-se na haste, numa atitude amistosa.
Por ser Mercúrio, também, deus dos negociantes, o caduceu ficou associado ao comércio e ainda hoje é símbolo dos Contabilistas, enquanto a serpente de Esculápio ainda hoje representa a Medicina, como já referimos.
Ao que se sabe o caduceu deve a sua importância à intervenção de Mercúrio perante duas serpentes que lutavam, enroscando-se no seu bastão.
Segundo o historiador Alemão Erich Zimmer a origem do símbolo remonta à Mesopotâmia, onde surge representado no desenho da taça sacrificial do rei “Gudea de Lagash” (2600 a. C.), admitindo, contudo, que é anterior, e as serpentes entrelaçadas parecem ter já na Mesopotâmia associação à cura de enfermidades, correspondendo os dois “S” formados pelas serpentes à doença e à convalescença.
Também a Grécia Antiga atribuía poderes mágicos ao Caduceu, havendo na mitologia referências à transformação em ouro de tudo o que era tocado pelo caduceu de Mercúrio, como a Alquimia o concebe também.
Mas um bastão usa um peregrino de Santiago e os báculos ainda se relacionam com a ideia de caminhante, mas associado a uma vieira, mantém de algum modo a mesma simbologia.
Esculápio tinha como auxiliares de cura o cão, o cavalo, e a górgona com poderes apotropaicos.
Do que se sabe, a cura do paciente processava-se recorrendo ao  processo de incubatio, até a parte mais interior do templo, o ábaton, e ficava aguardando um sonho terapêutico.
No sonho, o próprio deus deveria tocar a parte doente e efetuar, deste modo, a cura. Contudo, o deus aparecia, muitas vezes, sob a forma de um animal, ou seja, a serpente.



Uma inscrição dedicada a Esculápio, Rua da Prata

No interior das galerias romanas da Rua da Prata foi encontrada «uma inscrição dedicada a Esculápio, achada em 1770, na rua dos Retrozeiros, n’umas grandes thermas provavelmente de aguas mineraes, e ainda ali existe. […]” HÜBNER, E.,1871.
As referidas galerias são designadas como “termas” embora não o fossem, visto não possuírem piscina, tepidário ou hipocausto, devendo possivelmente esta associação não apenas à abundância de água no seu interior, mas também ao achado da inscrição, que parecia reforçar a possibilidade de no local se tratarem enfermidades.
«Consagrado a Esculápio. Marcus Afranius Euporio e Lucius Fabius daphnus, augustais, ao Município como oferenda deram.»
«SACRVM / AESCVLAPIO / M(arcus) . AFRANIVS . EVPORIO / ET / L(ucius) . FABIVS DAPHNVS / AVG(ustales) / MVNICIPIO . D(ono) . D(ederunt) //.»
“Consagrado a Aesculapio. Marco Afranio Euporio e Lúcio Fábio Daphno, augustais do município, deram e dedicaram”.
Museu Nacional de Arqueologia
Proveniência: Rua da Prata. Lisboa
Cronologia: Época romana – Ano 14-37 d.C.
(Segundo ficha do Catálogo da exposição “Religiões da Lusitânia” da autoria de Carla Alves Fernandes).



A inscrição de Miróbriga


Inscrição de Esculápio e tentativa de reconstituição do templo centralizado de Miróbriga. Desenho de Dario de Sousa sob coordenação de D. Fernando de Almeida que associava a Esculápio o referido templo in antis. Desenho MNA.


Em Miróbriga é conhecida uma inscrição que refere a existência de um medicus pacensis: verosimilmente, Gaio Átio Januário, que deixou dinheiro para que se pudessem efectuar os quinquatrus ou jogos no circo que foi amplamente estudada por José d’Encarnação, consultável em:
http://www.patrimoniocultural.pt/media/uploads/revistaportuguesadearqueologia/11.2/9_10_11_12/12_p.215-230.pdf
Contudo, no que diz respeito a Miróbriga, se analisados caso a caso os argumentos que justificaram a designação de «santuário Campestre Romano», todos parecem controversos, pois não há indícios de prática de incubatio que ali permitissem a interpretação dos sonhos e tratamento posterior, nem de compartimentos para o efeito, nem tão pouco da existência de oferendas ou ex-votos que comprovem essas práticas, ou mesmo de águas termais ou medicinais.
Embora os processos divinatórios não sejam o tema desta reflexão, lembraremos outras divindades que através da profecia e da adivinhação, a exemplo de Carmenta, faziam vaticínios inspirados, neste caso chamados carmina, pois a divindade fazia os seus vaticínios através da palavra, em poema ou canto e que tinham também efeitos terapêuticos.
Vemos ainda, para além de centenas de outras divindades, como é o caso de Fauno – protector dos rebanhos e pastores – ser consultado nos seus oráculos, de forma a, através das suas palavras proféticas, se predizer o futuro.
Ao que se sabe, a sua esposa, Fauna tinha também poderes premonitórios.
Mas Fortuna foi das divindades mais reconhecidas pelas suas capacidades divinatórias de tal forma que Cícero, filósofo e escritor dos séculos II- I a.C. , lhes dedica uma obra «De divinatione».
A interpretação dos sonhos era também para os cabalistas fundamental, pois consideravam-nos como premonições dadas pelo Céu, pelo que tentar desvelar o seu sentido era atributo de um oniromante, ou interprete dos sonhos.
Em Miróbriga, Santiago do Cacém, há uma base de estátua onde há uma inscrição dedicada a Esculápio por um «Medicus Pacensis», não havendo, contudo prova de que ali tenha existido um Santuário, propriamente dito, pois as estruturas arqueológicas conhecidas fazem crer a existência de uma cidade com as características comuns às provinciais romanas.
Assim, não havendo em Miróbriga vestígios que nos comprovem a existência desse Santuário, admitimos que possivelmente esta grande ara, colocada na Misericórdia de Santiago do Cacém no Século XVI, poderia estar localizada noutro local que não o templo centralizado do Forum, designadamente no hipódromo onde se realizariam os jogos.
Podemos também admitir que, em Miróbriga, Esculápio, pelas suas características médico-terapêuticas,  e se bem que não sendo nomeado com  o atributo de Augusto, possa ter funcionado como um dos guardiães da Salus Augusta e associar o seu culto e dos ludi dedicados em sua honra à pessoa do imperador.
A associação entre esta divindade e a referida virtude  - Salus Augusta - já havia sido proposta por José Cardim Ribeiro. Essa relação torna-se inequívoca na estátua descoberta no interior de umas termas romanas no Monte da Salsa, Brinches, Serpa, onde sobre o corpo representando Aesculapius foi colocada a cabeça-retrato de uma personagem identificada com o imperador Adriano.
O hipódromo e o anfiteatro eram fundamentais ao desenrolar das sacra Augustalia que contemplavam obrigatoriamente a existência de ludi. Os locais de espectáculo – hipódromos, anfiteatros e teatros – tornaram-se, pois, fundamentais ao desenvolvimento dos cultos oficiais e dos circuitos litúrgicos  de exaltação imperial, motivo que não nos deva estranhar que em Miróbriga o medicus faça a oferta dos quinquatrus.

Outras divindades associadas à Saúde

Salus era a divindade da Saúde na religião romana.
Era a personificaão do bem-estar (saúde e prosperidade), não apenas individual, mas como Res publica.
Na mitologia grega Hígia (equivalente na à Salus romana) era a filha de Esculápio. Era a deusa da saúde, limpeza e sanidade (e posteriormente: a Lua), exercia uma importante parte no culto do pai. Enquanto seu pai era mais associado diretamente com a cura, ela era associada com a prevenção da doença e a continuação da boa saúde.
A partir da época imperial Salus adquire muitas vezes o epíteto de Salus Augusta.
Ao culto imperial relaciona-se ainda Venus Aug. e as virtudes Pietas Aug. e Concordia Aug.
Nas primeiras fases do culto imperial, relacionar-se-á ainda com a Aeternitas Aug. e, possivelmente, com a Victoria Aug.
Em Évora, o templo centralizado e possivelmente dedicado ao imperador, teria um espelho de água, claramente dedicado à ideia de Salus.







 Em 
TorreparedonesBaena, Córdova, apareceu em 2017, uma inscrição onde se pode ler  ‘Fons dominae salutis salutaris’ (Fonte da Senhora da Saúde Salvadora), que vem reafirmar a importância que teve a água e as suas qualidades curativas na cidade.

https://latunicadeneso.wordpress.com/2017/04/04/torreparedones-engrosa-su-lista-de-hallazgos-con-la-aparicion-de-una-pieza-dedicada-a-la-diosa-de-la-salud/

Também associada à saúde é Bona Dea, uma divindade relacionada com fertilidade feminina.
Sabe-se que muitos pacientes eram tratados no seu templo com ervas medicinais .
Era venerada com grande fervor quer por plebeus, escravos, libertos e mulheres que a invocavam para pedir saúde e libertação da escravatura. As mulheres pediam fertilidade.
O seu culto era muito antigo e incluía ritos reservados exclusivamente às mulheres.
A divindade era adorada num templo no Monte Aventino, mas os ritos secretos em sua honra praticam-se num local indicado por um magistrado, na sua própria casa, a 4 de Dezembro.
Eram dirigidos pela mulher do magistrado, ajudada pelas virgens vestais.
Era proíbida a participação dos homens, nem se permitiam pinturas com figuras masculinas, fossem humanas ou animais.
A habitação deveria ser ornamentada com flores e plantas, excluindo-se a o mirto já que segundo a mitologia Bona Dea havia sido golpeada até à morte por Fauno com um ramo de mirto, por teu ousado beber vinho.
A cerimónia é mal conhecida, mas sabe-se que está relacionada com a Agricultura.
«Otra es la historia que cuenta la tradición, pues se considera a Bona Dea esposa de Fauno, siendo ésta un ama de casa admirable y fiel esposa. Un día probó una jarra de vino (nunca lo había hecho) y se embriagó. Su marido se enfureció y la mató a golpes con una vara de mirlo. Luego se arrepintió y le rindió culto, honores y memoria divinos»
A citação, a partir de: http://grupobonadea.blogspot.pt/2011/06/culto-bona-dea.html?spref=fb
Os Romanos socorriam-se ainda de amuletos e talismãs,  objectos com valor apotropaico que afastassem as más influências, a exemplo das bulas.
A “bulla” era uma espécie de medalhão, uma caxinha redonda ou ovalada, constituída por duas partes unidas.
No seu interior era colocado um amuleto contra o mau-olhado.
Também era vulgar dar valor apotropaico ou carácter religioso a determinados elementos, normalmente esculturas fantásticas ou animalísticas, que colocadas junto às sepulturas protegiam o defundo e seus bens.


Na Imagem: Amuleto contra o mau olhado.



Estátua de togado com bulla achada na Escusa do Museu da cidade romana de Ammaia e que tem sido atribuída a Britânico

Considerada protectora, a Medusa surge-nos representada amiúde, sendo comum encontrá-la em mosaicos, mesmo estatuária, como é o caso das estátuas couraçadas ou mesmo em camafeus, a exemplo do que se apresenta do imperador Augusto do British Museum 
Sobre o valor simbólico da mesma não nos prenderemos agora, pois é amplamente estudado e conhecido, podendo, contudo, referir um trabalho a que dedicámos atenção, quando tratámos o Tesouro da lameira Larga.
A segunda trata-se de um amuleto contra o mau-olhado.


Alguns exemplos de espécies vegetais de Miróbriga com características terapêuticas


Através de vário escritores da Antiguidade como Plínio, Horácio, nas «Sátiras», Juvenal são conhecidas inúmeras receitas medicinais, com base quer em espécies vegetais, quer animais, algumas das quais recolhidas no interessante artigo: Usos culinarios y médicos, disponível em http://derecoquinaria-sagunt.blogspot.com.es/2013/02/anser-iii-usos-culinarios-y-medicos.html

Os Coentros


As sementes de coentro eram, ao que parece, usadas no Maná, segundo o Êxodo. O Maná, (ןמman, em Hebraico), é descrito no Êxodo como «um alimento produzido milagrosamente, sendo fornecido por Deus ao povo hebreu, liderado por Moisés, durante sua estada no deserto rumo à terra prometida. Segundo o Êxodo, após a evaporação do orvalho formado durante a madrugada, aparecia uma coisa miúda, flocosa, como a geada, branco, descrito como uma semente de coentro, e como o bdélio, que lembrava pequenas pérolas. Geralmente era moído, cozido, e assado, sendo transformado em bolos.
Os coentros mencionados na Bíblia, como referimos, eram originários da Europa e do Médio Oriente. Utilizados pelos Sumérios e pelos Egípcios, não como tempero, mas sim como planta medicinal, eram-lhes atribuídas propriedades digestivas, calmantes e, quando usados externamente, serviam para o alívio de dores das articulações e reumatismos, além de possuírem, ao que dizem, efeitos anafrodisíacos, como refere o médico de origem grega Dióscorides, no século I d.C. Já Hipócrates (460 a.C. – 377 a.C) lhe dedicara um tratado completo, conhecido por “Korion”. Sabe-se que, em Época Romana, as folhas de coentros eram usadas quando se coziam legumes e cevada, e o poeta Virgílio (70-19 a.C.) refere um molho feito com sementes de coentros, arruda, segurelha, hortelã, aipo selvagem, cebola, tomilho, alhos e poejos. Em Inglaterra foram introduzidos pelos romanos, que o utilizavam moído com cominhos e vinagre para conservar a carne. Diz-se que na Idade Média as “bruxas” o utilizavam nas poções chamadas de” filtros de amor”. Ver ainda: Virgílio, Geórgicas.

A Salsa

A Salsa era muito considerada pelos Gregos, que a utilizavam para coroar as vitórias nos Jogos Ístmicos e ainda para a decoração dos túmulos, em ligação com Arquémoro ou Ofeltes, o arauto da morte que fora vítima de uma terrível serpente. Embora os Gregos a usassem em Medicina e Homero diga que os guerreiros a davam a comer aos seus cavalos, parece que os Romanos foram os primeiros a usá-la na alimentação.
N’As mulheres que celebram as Tesmofórias” (melhor ainda: As Tesmoforiantes), apresentada por Aristófanes nas Grandes Dionísias se ensinava às mulheres presentes no Festival de que a mesma poderia ser usada com efeitos abortivos, quando consumida em grandes quantidades, “mezinha” que, aliás, foi usada praticamente até aos nossos dias.
Refiro que nesse grande festival as mulheres reunidas no templo de Deméter interditavam a presença masculina, sendo aliás a vingança que planeavam fazer a Eurípides por nele se ter introduzido o tema central desta comédia.


Os Alhos

Os Romanos já usavam o alho, quer para fins medicinais, quer para temperar os alimentos. Na obra do gastrónomo Apicius há várias receitas de alho (alium; allium sativum), bem como de um molho de alho, ALLIATVM, consistindo num puré dos mesmos amassados e misturados em óleo.Com o mesmo nome eram designados os alimentos temperados com alho ou alho-porro.


Na obra do gastrónomo Apicius há várias receitas de alho (alium; allium sativum), bem como de um molho de alho, ALLIATVM, consistindo num puré dos mesmos amassados e misturados em óleo.
Com o mesmo nome eram designados os alimentos temperados com alho ou alho-porro.
A urtiga, cuja raiz latina é uro, que significa “Eu queimo”, designação apropriada para os pequenos pêlos que as folhas têm, que picam e dão uma sensação de ardor na pele.
Se durante a Idade Média os monges a usavam para se fustigarem, ao que se sabe, os soldados romanos utilizavam-nas para criar uma sensação de calor em períodos mais frios pela reacção que provoca.Para Plínio-o-Velho, a urtiga, Urtica dioica, «era a mais odiada das plantas». Em contrapartida para os Celtas «aparece frequentemente representada em amuletos que protegem do mau-olhado. A urtiga fazia era componente habitual dos diversos filtros de amor, possivelmente nos casos em que já havia essa propensão. Dioscórides, no século I, que viajou como médico militar pela Europa celta, registou a planta na sua obra De matéria medica. Indica-a para mordeduras de cão, feridas, doenças pulmonares, alterações da menstruação e tratamento do cancro. Também a indicava como afrodisíaco e diurético. Estas indicações estão correctas, à luz do conhecimento farmacológico actual da planta. Extractos da planta são actualmente utilizados nas afecções prostáticas»


A Arruda





Sabe-se que a arruda na Grécia antiga era usada para fins medicinais, mas era já reconhecida a sua importância contra as forças maléficas. Era costume as mulheres romanas usarem um ramo de arruda na mão para se defenderem de doenças contagiosas mas, claro está, tinha também um carácter apotropaico, para afastar todos os males, como feitiçarias ou mau-olhado.

Conhecida desde sempre como uma planta medicinal, a que, muito provavelmente pelo seu cheiro, se atribui a característica de afugentar bruxas e usada na magia, a arruda foi também utilizada na alimentação.
Conhecem-se as suas características para reforçar os vasos capilares e os problemas circulatórios, mas tem também propriedades digestivas, podendo usar-se em chá.


Usada em excesso era tóxica, motivo pelo que as Romanas a usavam como planta abortiva, sabendo-se que também os homens a usavam como anticonceptivo masculino que parece que tem, efectivamente, a capacidade de reduzir a motilidade dos espermatozóides.

 
Tal como os coentros, a arruda, a segurelha, a hortelã, o aipo selvagem, a cebola, o tomilho, os alhos, os poejos também são referidos pelo gastrónomo romano Apicius.
Numa das ruas receitas, SALA CATTABIA, assim é referido por Apicius:
“pimenta, hortelã, aipo, poejo seco, queijo, pinhões, mel, vinagre, liquamen, gemas de ovo, água fresca. Escorra o pão demolhado em água avinagrada, ponha numa panela com queijo de vaca e pepinos, alternando com pinhões. Deite alcaparras bem cortadinhas com fígados de galinha. Regue com o molho, coloque sobre um recipiente com água fria e sirva assim”.

É referida pelo gastrónomo latino Apício em usos culinários, designadamente em molhos onde se mistura com pimenta, liquamen, mel, coentros, pimenta e um pouco de óleo. Livro I - XXXV.
Também a menciona no uso de Moretária - tudo o que é misturado no almofariz (lat. mortarium), conjuntamente com menta, coentro, funcho, todos frescos, com pimenta, mel e liquamen. Poderia ainda acrescentar-se vinagre. (Livro I - XLI).

http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/29146/000775928.pdf?sequence=1


Os poejos

O Poejo já era utilizado na Antiguidade no fabrico de coroas religiosas, sendo utilizado em todo o Mundo Mediterrânico.
Simbolicamente é uma planta que representa saúde e alegria, sendo um excelente amuleto e era conhecido desde épocas remotas pelas suas qualidades medicinais, designadamente as relaxantes.
Tal como os coentros, a arruda, a segurelha, a hortelã, o aipo selvagem, a cebola, o tomilho, os alhos, os poejos também são referidos pelo gastrónomo romano Apicius.
Numa das ruas receitas, SALA CATTABIA, assim é referido por Apicius:
“pimenta, hortelã, aipo, poejo seco, queijo, pinhões, mel, vinagre, liquamen, gemas de ovo, água fresca. Escorra o pão demolhado em água avinagrada, ponha numa panela com queijo de vaca e pepinos, alternando com pinhões. Deite alcaparras bem cortadinhas com fígados de galinha. Regue com o molho, coloque sobre um recipiente com água fria e sirva assim”
Simbolicamente é uma planta que representa saúde e alegria, sendo um excelente amuleto e era conhecido desde épocas remotas pelas suas qualidades medicinais, designadamente as relaxantes.
Tal como os coentros, a arruda, a segurelha, a hortelã, o aipo selvagem, a cebola, o tomilho, os alhos, os poejos também são referidos pelo gastrónomo romano Apicius.


A Couve

Na Antiguidade Clássica a couve era usada com fins digestivos.
Quer na Grécia Antiga, quer em Roma era usual comer couve antes de uma refeição farta, para prevenir doenças do estômago ou alguma indisposição.   Mas sabe-se que as couves são consumidas desde tempos pré-históricos, já há 4000 a.C.
Na Roma antiga, consumia-se também muita couve a seguir ao estado de embriaguês, tendo-se confirmado mais tarde que a couve tem, de facto, um efeito desintoxicante sobre o fígado.
Também no Egipto havia o hábito de ingerir algumas folhas de Couve em vinagre antes de um grande banquete ou festa, obviando a eventuais ressacas.   Durante a Idade Média, quando este vegetal se torna muito popular na Europa, surge o termo “médico do povo” associado à couve, sendo usada para a cura das mais diversas enfermidades, e ainda como profilaxia de doenças.   As suas qualidades foram confirmadas pela medicina recente, sabendo-se que é realmente eficaz, devido à sua composição nutricional e por ser um anti-inflamatório, antibiótico e anti-irritante natural.
Também a couve era considerada por Catão (De agric., 156, 1) como um remédio válido para todos os males e “superior a todas as hortaliças”.

A Abóbora

A abóbora, pelas suas inúmeras sementes, é, como a cidra, a laranja, a melancia, um símbolo de abundância e fecundidade, mas também aparece associada à Sabedoria. A origem da abóbora não é totalmente clara, havendo quem defenda que a sua origem é asiática. Contudo, o seu nome aparece entre os vegetais nomeados por egípcios e existem provas de que também eram utilizadas pelos romanos, que as misturavam com mel, funcionando como digestivo para as grandes quantidades de carne que ingeriam nas sua grandes festas.
A origem do Halloween parece ser de tradição céltica e a utilização da abóbora é já recôndita. A festa de Samhain, que cultuava os mortos era celebrada muito possivelmente entre os dias 5 e 7 de Novembro (a meio caminho entre o equinócio de verão e o solstício de inverno), havendo várias lendas a propósito da utilização das abóboras com uma vela dentro. Samhain parece significar noite de todos os santos e à noite os espíritos dos mortos tinham que ser apaziguados, motivo pelo que parece que se faziam grandes fogueiras para afugentar os espíritos maus e aplacar os poderes sobrenaturais que controlavam os processos da natureza. Contudo há que veja nessa prática uma origem bem mais pragmática, pois seriam usadas com as velas dentro para afugentar possíveis estranhos aos territórios.
Em Roma a abóbora era muito consumida e só em Apício encontramos nove receitas.


Alecrim, rosmaninho e alfazema  

Por causa do seu aroma característico, os romanos designavam-no como rosmarinus, que significa em latim “orvalho do mar”.
Para os Romanos o alecrim simbolizava o amor e a morte, e por isso era plantada na soleira das portas, hábito que durou até à Idade Média. A alfazema é associada à franqueza e à seneridade. Pelo seu perfume e qualidades tranquilizantes, era usada por Gregos e Romanos nos banhos.
São referidas estas ervas de cheiro pelo poeta Virgílio, nas Geórgicas.


A Papoila 

Era também usada para alívio das dores desde a Antiguidade remota, sendo conhecido o seu uso entre egípcios, persas, mesopotâmicos. Os médicos gregos, como Galeno e Hipócrates recomendavam o seu uso em múltiplas funções.
http://www.i-flora.iq.ufrj.br/hist_interessantes/opio.pdf

O Vinho 

Já citado nas Sagradas Escrituras, conhecido entre Egípcios onde papiros de cerca de 1500 a.C. atestam o uso do vinho como tratamento primário para asma, constipação, epilepsia, indigestão, icterícia e depressão, também foi usado pelos Sumérios, sabendo-se que unguentos eram misturados com vinho para tratar doenças da pele. 

Já Sócrates afirmava  (470-399 a.C.): "O vinho molha e tempera os espíritos e acalma as preocupações da mente...ele reaviva nossas alegrias e é o óleo para a chama da vida que se apaga. Se você bebe moderadamente em pequenos goles de cada vez, o vinho gotejará nos seus pulmões como o mais doce orvalho da manhã...Assim, então, o vinho não viola a razão, mas sim nos convida gentilmente à uma agradável alegria.“
Também Hipócrates (460-370 a.C.), o pai da Medicina, assim se lhe refere: "O vinho é bebida excelente para o homem, tanto sadio como doente, desde que usado adequadamente, de maneira moderada e conforme seu temperamento." Hipócrates incorporou o vinho no tratamento da maioria das doenças agudas e crônicas, recomendando-o como suplemento dietético, como diurético, como purgativo, como antitérmico, como antisséptico em emplastos para prevenir a supuração de ferimentos e ainda na convalescença quando havia depressão. Mas para além dos aspectos comercial, medicinal e hedónico, o vinho assume, entre os Gregos, aspectos simbólicos relevantes. Sabe-se, através que na Suméria, unguentos eram misturados com vinho para tratar doenças da pele. Asclepíades (124 -40 a.C.), médico grego emigrado para Roma, foi médico de Homero e um dos mais notáveis médicos de sua época. Sabiamente, ele baseava sua terapêutica na restrição dietética, exercícios físicos e consumo de vinho!
Celsus (25 a.C.- 37 d.C.), escreveu sobre as diferentes propriedades terapêuticas dos diversos tipos de vinho, como por exemplo: os vinhos secos e leves para doenças do estômago, os encorpados para nervosismo e os salgados para efeito purgativo na icterícia.
Dióscorides (c. de 80 d.C.), cirurgião do exército de Nero, prescrevia vinho,  e parece ter sido o primeiro a usá-lo para anestesia. Ele provocava um estado letárgico nos seus pacientes mediante o uso de "vinho de mandrágora", fazendo uso dessa planta com efeitos narcóticos, e também tratava feridas com ele.
Galeno (131-201 d.C.), de Pérgamo, na Ásia Menor, considerado o maior médico grego depois de Hipócrates, estudou 12 anos em Corinto e Alexandria e depois foi nomeado médico dos gladiadores em Pergamon. Cuidava da dieta e dos ferimentos dos gladiadores e gabava-se que nenhum deles havia morrido nas suas mãos, o que parece improvável, já que o único recurso de que dispunha para tratar ferimentos horríveis era lavá-los com vinho, embora tenha observado que os ferimentos não sofriam putrefação quando tratados com vinho.
Galeno elaborou uma lista de remédios vegetais, conhecidos como "galénicos", a maioria dos quais era composta com vinho. Tornando-se famoso na Roma Antiga, Galeno foi nomeado médico particular e conselheiro de Marco Aurélio, sendo uma das suas atribuições era proteger o imperador de envenenamento. Escreveu um tratado denominado "De antidotos", no qual existem considerações perfeitas sobre os vinhos, tanto italianos como gregos, bebidos em Roma nessa época: como deveriam ser analisados, guardados e envelhecidos.


Fragmento de bordo de prato de Terra Sigillata africana clara "C". Forma do tipo "Hayes 52b, variante 3b", proveniente de Tróia.
Decoração em relevo, aplicada, de um cesto com cacho de uvas. Pasta laranja acastanhada e verniz da mesma cor.


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