segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A propósito de uma Lenda da Europa (reed.)

A PROPÓSITO DE UMA LENDA DA EUROPA 


 Filomena Barata A PROPÓSITO DE UMA LENDA DA EUROPA


http://www.incomunidade.com/v18/art_bl.php?art=21
http://www.incomunidade.com/v18/art_bl.php?art=409


Rapto da Europa, Ny Carlsberg Glyptotek, Copenhagen.
Fotografia a partir de: Ancien Rome:
https://www.facebook.com/Divine.Rome/photos/a.155713357822314.33123.124453160948334/801449593248684/?type=1&theater



Segundo a mitologia grega, Europa foi raptada por Zeus, que se transformou em touro para seduzir a princesa, quando esta se banhava na praia. A princesa Europa terá nascido no mediterrâneo e era filha de Agenor, o rei fenício de Sídon. Um dia, a princesa passeava na praia com as suas companheiras, quando Zeus se disfarçou de touro branco, com chifres e cascos de prata, pois sabia que Europa gostava de grandes animais e mansamente se veio deitar a seus pés. Europa terá acariciado o animal, e depois deixou-se subir para o seu dorso. O touro, aproveitando-se deste momento, levantou-se impetuosamente e cavalgando as ondas do mediterrâneo, levou-a até à Ilha de Creta e foi depositá-la debaixo de um plátano. Ao que rezam também as lendas, terá sido nessa ilha que Zeus passou a sua infância. Segundo o poeta Mosco de Alexandria, Europa, rainha de Creta, foi “mãe de filhos gloriosos, cujos ceptros hão-de acabar por dominar todos os homens da terra”. Quando Zeus revelou a sua verdadeira identidade e a tornou a primeira rainha de Creta, deu-lhe três presentes: Talos, um autómata de bronze; Laelaps, um cão que nunca soltava a sua presa; e uma jabalina que nunca errava. 
 Os três filhos de Europa foram: Minos, Radamantis e Sarpedón. É por causa disso que o seu mito é indissociável do Minotauro. 


Mosaico do Minotauro, Museu Monográfico de Conímbriga.


Posteriormente ter-se-á casado com Asterión, rei de Creta, que adoptou os seus filhos. Algumas fontes literárias identificam-na como irmã de Io, também ela uma jovem princesa e sacerdotisa de Hera a quem Zeus havia seduzido, cobrindo o mundo com um manto de nuvens escuras para esconder da esposa Hera a sua paixão. Neste caso, diz-nos a Mitologia que Zeus havia transformado a amante uma belíssima novilha branca, havendo, contudo versões, que dizem ter sido Hera a obreira desse castigo, sem que, contudo, lhe conseguisse apaziguar os ciúmes, tendo acabado por a colocar à guarda do gigante de cem olhos, Argos Panoptes fiel servo da divindade. Embora Zeus tenha encarregado Hermes, o mensageiro dos deuses, de libertar a amada matando o monstro Argos, nem assim ela se livrou da vingança de Hera, transformando-a num cisne e originado um périplo entre Micenas e a Trácia, tendo percorrido as planícies da Ilíria; galgou o Monte Hemo e atravessado o estreito da Trácia, que a partir daí ficou chamado de Bósforo (rio da vaca); vagou pela Cítia e pelo país dos cimerianos e chegou, afinal, às margens do Nilo. Também a ela se deve a denominação de Mar Jónio (Ionio), o braço do mar Mediterrâneo, a sul do Mar Adriático, ao que dizem as lendas, Hermes teria usado a flauta de Pã para adormecer Argos, tendo-lhe cortado a cabeça. Hera desolada, recolheu os olhos de Argos e colocou-os como ornamentos na cauda do pavão, animal que lhe era consagrado, onde até hoje permanecem. Durante as suas deambulações, Io terá encontrado, no Monte Cáucaso, Prometeu acorrentado numa rocha e o mesmo profetizou que ela seria libertada e regressaria à sua forma humana, quando chegasse ao Egipto, onde acabou por nascer Éfano. Io acabou por reinar com o nome de Ísis, após o casamento com Telégono. Segundo algumas narrativas mitológicas, Europa era filha de Agenor, rei da Fenícia. Agenor teria ordenado ao seu filho Cadmo que saísse à procura da irmã e não regressasse sem ela. Cadmo partiu e procurou a irmã muito tempo e por terras distantes, mas em vão, motivo porque decidiu consultar o oráculo de Apolo, para saber em que país deveria fixar-se. O oráculo respondeu que ele encontraria uma vaca no campo e deveria segui-la, acompanhando-a aonde ela fosse e quando a vaca parasse, ele deveria construir uma cidade e chamá-la de Tebas, fundação essa que acabou por acontecer após múltiplas deambulações, tendo Cadmo acabado por casar-se com Harmonia, filha de Vénus. Na Ilíada, narra-se, portanto, que a Europa era filha do filho de Agenor, Fénix, e referem –se os seus dois irmãos: Cadmo e Cilix, que fundou a Cilicia, actual Arménia. A narrativa que a descreve como filha do rei fenício raptada por um touro, divindade cretense, mas igualmente de fenícios e arameus, não ficaria perceptível se não se fizesse uma referência aos sonhos da bela princesa. Europa teria tido um pesadelo perturbante no dia anterior ao rapto, no qual duas mulheres exigiam a autoridade sobre ela. Uma delas representava a Ásia e dizia ser sua mãe; a outra que simbolizava um continente desconhecido (América) afirmava que Europa lhe tinha sido dada por Zeus. Assim, nos mitos gerados no mar Egeu, Europa é o nome que se deu a um novo continente que tem a Ásia por mãe. Sabe-se hoje, através do que a própria arqueologia confirmou, que a civilização europeia viajou no mediterrâneo na proa dos barcos fenícios entre outros, sendo Creta um dos grandes pólos. Mas, é um facto, que esta civilização se desenvolveu igualmente como resultado das ligações terrestres que uniram milenarmente a Europa à Ásia, através da actual Turquia. Se o que se reconhece como a «civilização europeia» tem origem no Médio Oriente, é através da mitologia e com Ulisses que atravessa o Mediterrâneo até ao Ocidente, e gradualmente até ao território que hoje se designa Portugal, trazida pelas diásporas fenícias, cartaginenses e, mais tarde, a ocupação romana. Do romance que a Europa teve com Zeus, nasceu, como vimos, o filho Minos e deu-lhe a ilha como presente, tendo-se tornado fértil e repleta de touros. Ao tornar-se adulto Minos desposou Pasifae. Querendo tornar-se ainda mais rico, Minos fez um pacto com Poseidon, o deuso deus do Mar, de forma a triplicar a sua fortuna, prometendo-lhe o seu melhor touro como pagamento.

Contudo, não querendo desfazer-se de nada, resolveu enganá-lo e dar-lhe em troca um touro vulgar.

Quando Poseidon percebeu que tinha sido enganado, chamou Vénus para o ajudar na vingança.

À noite, Vénus conseguiu introduzir no coração de Pasifae, mulher de Minos, um amor alucinante por um touro.

Incapaz de conter a sua paixão ardente, ela pediu a Dédalo que construísse uma armadura de madeira na forma de vaca, para que assim disfarçada, se pudesse aproximar do touro.

Desta união nasceu o monstro Minotauro, um humano com cabeça de touro.

Sentindo-se atraiçoado, Minos mandou construir um labirinto, de onde não se encontrasse a saída e ali encarcerou esse ser monstruoso.

Quando invadiu Atenas, Minos subjugou o seu povo, tornando-o escravo. Semanalmente eram-lhe levados 7 rapazes e 7 raparigas virgens, para contentar a fome do Minotauro.

Inconformado com essa prática de Minos, Teseu, o filho do Rei de Atenas, juntou-se a um grupo de jovens, com a intenção de matar o Minotauro e assim salvar os jovens de serem sacrificados.

Em Creta, Teseu encontrou Ariadne, filha do rei Minos, que se apaixonou por ele e lhe deu um novelo de lã que o ajudaria a sair do labirinto.

Teseu matou o Minotauro e, ao que diz a Mitologia, a parte humana do Minotauro foi deixada na terra e a parte animal foi elevada aos céus, onde se tornou a constelação de Touro.

O touro é uma constante em todo o Mundo Mediterrânico, sendo conhecida desde a Idade do Ferro, no território actualmente português, estatuária com a sua representação.

Em Santa Bárbara de padrões (Castro Verde) foi mesmo identificado um exemplar com tema da Europa representado.

No Museu Nacional de Arqueologia há uma estatueta de bronze, proveniente de Vila do Bispo com a forma de touro, datável dos séculos IV-II a. C. e outra de proveniência desconhecida, com chifres e pernas partidas, publicado, em 1996, no catálogo «De Ulisses a Viriato».

Existe ainda um queimador ritual de bronze, que é rematado por uma figura de touro deitado e uma estátua de touro levantado, de cabeça para a frente, da colecção Bustorff Silva, do Museu Nacional de Arqueologia, também publicado num interessante catálogo «Um gosto privado - um olhar público».

Um touro de bronze tartéssico, provavelmente proveniente de Mourão, datável do século VII a.C. pertence também à colecção desse mesmo Museu Nacional de Arqueologia.

Ainda no Museu e Arqueologia de Montemor-o-Novo, existe um outro exemplar de bronze, proveniente da Herdade de Corte Pereiro, que aponta, segundo os investigadores, para o século V a.C..

No ritual de iniciação nos mistérios de Mitra, essa divindade trazida por Romanos da Pérsia, de que já aqui falámos, era o Taurobólio, porque exigia o sacrifício do touro que foi também uma constante no mundo mediterrânico oriental e greco-latino, assumindo como anteriormente vimos nesta Revista um carácter fundacional, pois o culto deste animal assenta a sua sacralidade no seu vigor e violência cósmica, e num poder fecundante.

Em conclusão e não correndo o risco de nos repetir, pois vários cultos relacionados com o touro já aqui foram tratados em anteriores revistas, podemos dizer que o Mito da Europa tem como constante essa força genésica associada ao touro, mas também ao mar e à errância ou libertação que o mesmo permite, caminhando como a Io, sem se deter, na busca de um ideal transformador.

Assim seja a Europa hoje, caminhante de novos rumos a encontrar.

Sobre as representações de touros em moedas, recomendo a leitura de:
http://www.romancoins.info/Gods-On-Coins.html

Sobre a simbologia do touro:

«Touro Esculpido de Miróbriga»
http://www.portugalromano.com/2011/01/611/

Sobre o mito da Europa e de Zeus:
http://eventosmitologiagrega.blogspot.pt/2011/01/io-e-zeus.html

Ver ainda: http://eventosmitologiagrega.blogspot.pt/2011/03/europa-e-zeus-arte-da-conquista.html
e «O Livro de Ouro da Mitologia»
http://filosofianreapucarana.pbworks.com/f/O+LIVRO+DE+OURO+DA+MITOLOGIA.pdf

Figura 1 - Touro esculpido de Miróbriga. Desenho de Marcos de Oliveira.

Figura 1 - Rapto da Europa, Museu de Beirute

Figura 3 - Rapto da Europa, foto de Pompei, arte, storia ed archeologia.


Europa montada num Touro, fresco de Pompéia, Museu Arqueológico Nacional de Nápoles


Filomena Barata, Licenciatura em História, pela Faculdade de Letras de Lisboa. Mestrado em Arqueologia pela Universidade de Letras do Porto. Técnica Superior da DGPC, Museu Nacional de Arqueologia. Corpos Gerentes da Liga de Amigos da Miróbriga.

O Património é um Recurso: Alvalade do Sado, o meu testemunho


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O Património é um recurso: Alvalade do Sado, o meu testemunho

Cantem moças, cantem moças Nesta linda sociedade Qu’é para quem passar dizer Viva as moças d’Alvalade.
Quando iniciei a minha colaboração na “Setúbal na Rede“, propus que partilhássemos de um percurso ao longo do Sado. Por isso, deixei para último lugar Alvalade do Sado, porque é, de facto uma das localidades próximas da nascente desse rio que corre de Sul para Norte, e porque pessoalmente muito me toca, motivo porque esta crónica é um testemunho vivencial e uma aproximação patrimonial, recorrendo-me mesmo de anotações e textos que já havia escrito. Conheci-a melhor, quando após uma viagem sem atribulações, em 1990, depois de ter tido conhecimento que aí tinha sido colocada na condição de estagiária, na Escola C+S, curiosamente no dia da inauguração de uma pequena exposição interpretativa que nos havíamos proposto fazer na Capela de S. Brás, em Miróbriga, ali cheguei.
Já havia estado em Alvalade, durante as campanhas de trabalhos arqueológicos, e, confesso, pouco me haver entusiasmado a vila, pelo que jamais me ocorreria que pudesse algum dia aí vir a viver, pois tinha concorrido a um estágio para o concelho de Santiago do Cacém, apenas pela proximidade das ruínas de Miróbriga.
Lembro-me de ter chegado a Alvalade de comboio apanhado no Barreiro, após travessia do Tejo, tendo por companhia, para o mergulhar solitário da noite, já em pleno Alentejo, o meu leitor de cassetes com headphones.
Para trás ficavam os amigos e familiares que, em fins de tarde domingueiros, a casa iam recolher. Mas, não ficavam só os amigos, os hábitos, as minhas “geografias afectivas”, mas também o trabalho que gostava de fazer, porque a outra tarefa havia que me dedicar, pois não podia correr o risco de perder o vínculo à Educação de onde me encontrava afastada por destacamento.
Recordo as primeiras chuvas do Outono, sair num apeadeiro muito mal iluminado; parar e recomeçar de novo a caminhar com os sacos de viagem na mão, num percurso onde apenas pontuava a luz da fábrica de descasque de arroz e, alguns dias, confesso-o, quase nem sabia se o que me corria no rosto eram lágrimas ou as bátegas da chuva que mo fustigavam.
Julgo ter sentido na pele, nos primeiros tempos, a sensação que deve ter tido o Padre Jorge Oliveira, quando para Alvalade foi morar, pois para mim representou, nessa fase inicial, como que um sítio de “degredo”, onde apesar de já não grassar o paludismo, ainda se podiam refugiar mal amados (ou mal “comportados”) da antiga corte ou da urbe actual.
E assim assentou arraiais em Alvalade uma urbana convicta, pese as inúmeras e cíclicas incursões de trabalho no Alentejo, mas que apenas duravam temporadas.
Lembro-me depois que poisava sacos e malas em casa, já noite feita nas ruas do aglomerado. E, por chegar a horas tardias, quantas vezes imaginava poder comer num sítio qualquer. Mas em vão procurava um restaurante. Apenas uma pequena tasca, nas imediações de minha casa, vendia umas bifanas para quem chegava a desoras, onde, noite fora, em dias especiais se cantava o fado vadio.
Lembro-me ainda da sensação de lá entrar… era a única mulher!
Homens, apenas vultos de homens apinhando o espaço, olhares intrigados por ver entrar aquele ser estranho, ainda por cima feminino.
Recordo esse frio, a somar ao frio de ter conseguido ali finalmente chegar. Mas nunca desisti de lá ir. Sempre que me apeteceu, ou que a necessidade de comprar o meu grande companheiro de exílio, o tabaco, assim o exigia.
Como não desisti de conhecer o sítio onde estava e que, devagar, devagar, me foi dando a conhecer os segredos que o Sado construiu ao longo dos séculos, nem de olhar com atenção os telhados cobertos de geada com que acordava nas manhãs de Inverno.
Anos passados, bastantes, reencontrei o mesmo sítio, a propósito de uma exposição em que tive a sorte de colaborar na Igreja da Misericórdia de Alvalade, e reencontrei também os amigos que me ajudaram a conhecer um outro local, tão diferente do que se demonstrou do das primeiras impressões.
Mas, para que assim fosse, houve que desbravar o tempo e o espaço naquele sítio, em seu redor. Houve que marcar as horas, cerrando as portas a tudo o que fosse desperdício de tempo, pois havia um estágio a fazer; um trabalho a desenvolver e um Clube Europeu de Arqueologia para implementar na escola C+S, para que não se esbatesse da memória dos alunos a memória do seu próprio lugar.
Aí colectámos peças arqueológicas de vários lugares: da Casa do Povo que, de boa fé, os cedeu; de particulares e outros, avulsos, encontrados em visitas efectuadas a sítios deixados ao abandono.
Aí catalogámos e marcámos pequeninos objectos, tentando ensinar e aprender que cada uma delas tem uma história para contar.
Aí organizámos conferências, falando de Egípcios, de Romanos e da Conquista Cristã.
Em Alvalade descobri que a ponte não era senão a passagem para outros lugares. E reforcei a ideia que resistir, continuar é o sítio de quem não quer parar de aprender.
E, porque a vida se encarrega de tudo nos fazer reencontrar: as coisas e as pessoas que aprendemos a amar, abrindo e fechando círculos, melhor, abrindo-se em espiral com os anos carregados do que nos faz viver e aprender, só posso manifestar aqui e agora a minha alegria por ter partilhado da exposição sobre a história do Sado e do território que ele banhou de uma forma mais aprofundada, na Misericórdia de Alvalade, inaugurada em 2009, da qual ficou também um vídeo que vale a pena conhecer.
Alvalade é abraçada por um rio, conhecido ao tempo dos Romanos como Callipus, e a partir, provavelmente da ocupação islâmica, como Sadão, esse Sado que foi, desde sempre, o gerador de vida animal e vegetal que evoluiu ali, como noutros lugares, ao sabor das contingências ambientais e da antropização da paisagem.
O rio, essa “estrada fluvial”, foi veículo fundamental de trocas, até data recente, e, alagando a terra, a fertiliza e permitiu que a água e a terra fossem, efectivamente, os grandes motivos de fixação das gentes.
Conhecem-se vestígios da ocupação humana desde o Mesolítico no território do Sado, que nos remetem a essa relação mais estreita com o rio, onde as populações vão buscar os seus recursos alimentares, e, a partir das sociedades nómadas e agrícolas do Neolítico, mós, enxós, vasos cerâmicos falam-nos de uma terra cedo domesticada, até aos nossos dias, com a presença dos grandes montes, das cearas, e mais recentemente dos arrozais até ao consequente desenvolvimento das grandes obras hidráulicas para o regadio, efectuadas já no século XX, e que apenas reforçam a razão de ser da fixação das pessoas.
O extraordinário sítio arqueológico da Gaspeia, cuja presença humana mais antiga era atribuída ao Neolítico (fase evolucionada), surpreendeu os arqueólogos responsáveis pelas escavações aí efectuadas pelo Museu de Arqueologia e Etnografia de Setúbal, quando em 2005, foi identificado um nível do Mesolítico (há 8 mil anos atrás), numa área muito próxima do povoado Neolítico já anteriormente escavado e estudado.
Segundo esses investigadores, trata-se de uma área especializada na actividade de combustão, “constituída por cerca de 40 grandes lareiras, dispostas em fiada rectilínea, formadas por calhaus que se comportariam como termo acumuladores, e que eram usadas para cozinhar a carne dos animais caçados na região, onde abundavam espécies como o boi selvagem, javalis, veados, lebres e coelhos. A carne, depois de cozinhada, era posteriormente transportada para outras zonas onde houvesse menos caça, garantindo assim a subsistência do grupo ou comunidade que sazonalmente se estabelecia na Gaspeia essencialmente para caçar, mas sem descurar as outras potencialidades do local”.
Em escavações realizadas 2005 foram também encontrados artefactos em pedra lascada, recipientes cerâmicos e outros materiais que permitiram melhor reconstituir a vida social e económica da Gaspeia.
Por outro lado, a faixa piritosa ibérica onde se insere justifica a existência de comunidades mineiras, sendo conhecidos também conhecidos vestígios da Idade do Cobre e da Idade do Bronze.
Mas o rio, o Sado, testemunhou a passagem do tempo, continuando a banhar a terra e a ser escoadouro dos seus produtos.
A presença romana marcou fortemente esta região e os vestígios de inúmeras uillae comprovam a sua vitalidade agrícola, que ainda hoje se denuncia nos montes implantados ao longo do vale do Sado, como apenas para exemplificar podemos referir essa soberba herdade de Torre Vã.
Dos testemunhos conhecidos da ocupação romana do território, cuja capital de ciuitas deveria ser Miróbriga, sejam na freguesia de Alvalade ou na zona norte da freguesia de Panóias, concelho de Ourique, foi identificado um uicus ou povoado romano, equivalente às vilas actuais, que é S. Romão; oito uillae (de norte para sul: Monte do Roxo, Ameira I, Conqueiros, Gaspeia III, Defesa V, Defesa III, Torre Vã III e Labogadas I), seis pequenos sítios (de norte para sul: Ameira II, Gaspeia II, Retorta I, Defesa IV, Montenegro e Labogadas II) e uma barragem (Torre Vã I), segundo as prospecções efectuadas por Jorge Feio.
O cruzamento de vias em Alvalade já em período romano, a quantidade de uillae situadas em seu redor, associada à fertilidade dos solos, sobretudo os da várzea do Sado, e à abundância de água, permitem-nos que alguns arqueólogos suspeitem que ali tenha existido um uicus.
Da ponte medieval se suspeita uma origem mais antiga, mas nenhum dos elementos construtivos existentes na mesma o permite confirmar.
Contudo, ela marcava as saídas do aglomerado urbano, apontando caminhos para os lados de Aljustrel, onde as minas eram o grande recurso, ou então bifurcando para o litoral, escoador de produtos agrícolas e fornecedor de pescado, abrindo as portas para exportações.
Do Período Visigótico ou da cristianização Inicial é conhecida ocupação no Monte do Roxo, mas muito provavelmente ela fez-se sentir também no restante território.
Da presença árabe lhe ficou provavelmente o nome.
Pertenceu à Ordem de Santiago da Espada que, na matriz, ainda conserva as insígnias.
Ao tempo de D. Manuel, em 1510, recebeu foral, tendo-se erguido o pelourinho que lhe conferia a autonomia concelhia.
O concelho, que chegou a ter duas freguesias, a do Roxo, a Norte, e a da Vila, a Sul, manteve a sua autonomia até ao século XIX.
A Praça D. Manuel, assim denominada em honra desse monarca, tornou-se o centro da vila, e foi onde se implantaram, ao longo do tempo, o Hospital e Capela do Espírito Santo, as casas da Câmara e a Misericórdia.
Das Visitações da Ordem de Santiago há vários registos de que se destaca a efectuada pelo próprio Grão Mestre, D. Jorge de Lencastre, filho do rei D. João II.
No século XVIII a Comenda de Alvalade, na Ordem Espatária, pertencia aos duques de Lafões, parentes da Casa Real. Foi no tempo destes Comendadores que se deu o Terramoto de 1755, que muito abalou a vila, derrubando o pelourinho e danificando gravemente vários edifícios importantes.
O longo braço da sombria Inquisição, também chegou a Alvalade, tendo sido instruídos vários processos contra habitantes da vila, destacando-se entre eles o da Cristã-nova Isabel Raposa, no século XVII, acusada de judaísmo, heresia e apostasia.
A Guerra Civil de 1832-34 obrigou Alvalade a balancear-se entre Absolutistas e Liberais, como se ainda hoje se pode verificar na toponímia da artéria que lateraliza a Misericórdia.
Sabe-se que D. Miguel terá passado a sua última noite, antes de partir para o exílio, em Alvalade do Sado.
O concelho extinguiu-se em 1836, tendo sido incorporado em Messejana. Em 1855 o concelho de Messejana foi também extinto, transitando para o Concelho de Aljustrel.
Finalmente em 1871, passou para o concelho de Santiago do Cacém, onde se mantém até à actualidade.
Para as memórias de Alvalade e seu estudo, designadamente no que se refere aos vestígios arqueológicos, foi fundamental o trabalho do erudito Padre Jorge de Oliveira, antigo Capelão Real e personagem marcante de Alvalade no início do século XX, os estudos dos vários arqueólogos que aí trabalharam e, em data recente, as recolhas documentais efectuadas por Gentil Cesário, Fernanda Vale, José Matias, Rui Fragoso, cuja tarefa tive a sorte de poder partilhar.
A chegada do comboio, em 1914, trouxe uma nova forma de comunicação que, mais veloz e importante, vai substituir e minimizar o rio.
O Posto de Cultura Regadas, criado em 1937, trouxe uma nova valorização dos cursos de água, implantando o regadio e, com ele, novas e mais intensivas culturas, processo esse que acabou por alterar o curso das ribeiras afluentes do Sado.
A vila de Alvalade, que transporta consigo séculos e mesmo milénios de História, há muito tempo tem reclamado a existência de um Museu que explique, valorize, interprete e divulgue essa riqueza cultural herdada. Nesse sentido, o projecto encetado com a exposição de Alvalade já anteriormente referido, mais não é do que fruto das vontades dos seus habitantes e das suas instituições, da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia; aproveitando para utilizar este edifício secular, que abandonou a sua função inicial em 1861, quando foi extinta a Misericórdia de Alvalade e que, desde há longo tempo, tem vindo a ser desejado, pela sua nobreza, centralidade e valor simbólico, para acolher um núcleo museológico.
Parafraseando Jorge Feio, arqueólogo que tem vindo a trabalhar sobre o território de Alvalade do Sado a que já nos referimos, pois sinto-me em total consonância com as suas palavras «urge por isso, cada vez mais, criar e desenvolver um programa orientado para a salvaguarda, valorização e divulgação do património cultural de Alvalade, devidamente calendarizado, que contemple a escavação, estudo e musealização de algumas jazidas arqueológicas (por exemplo alguns testemunhos da ocupação romana na freguesia e a sua relação com Miróbriga, como a uilla da Ameira, o sítio Defesa III, ou outros considerados pelos técnicos/historiadores como mais interessantes), a requalificação do centro histórico, a musealização das alfaias do Posto de Culturas Regadas e a criação de um museu mais abrangente, que conte a evolução histórica e social da freguesia. O caminho é longo, mas só assim Alvalade terá argumentos de peso para integrar e tirar partido de um percurso desta valia e dimensão».
Naveguemos, pois, por este Sado, pois há a toda a vida para conhecer, partilhando a sua história através do rico património, ou ainda em momentos de festa como a já conhecida feira medieval!
                                                                     Maria Filomena Barata
                                                       (Liga dos Amigos de Miróbriga)

5 Respostas a O Património é um recurso: Alvalade do Sado, o meu testemunho

  1. JORGE SEVERINOResponder
    6 de Janeiro de 2011 em 18:13
    Um belo texto da prof. Maria Filomena Barata para Alvalade Sado que merece uma reflexão em consonância. Alvalade Sado, já o disse aqui, é uma terra com grande potencial, não só por ser muito antiga mas também pelas suas riquezas naturais e ambientais. Podem agradecer a Deus tudo o que têm e não viverem perto das refinarias de Sines. J.Severino
  2. Ana Maria SantosResponder
    5 de Fevereiro de 2011 em 9:40
    Além da lucidez deste apontamento sobre Alvalade Sado de Filomena Barata, as dicas em conclusão podem ajudar a definir alguns pontos estratégicos para orientar o desenvolvimento da freguesia, que tem todas as condições para ser uma terra de progresso, bem-estar, e de cultura e o facto de já ter sido concelho ainda lhe confere um brilho maior na região. É importante ter em atenção estas reflexões vindas de fora, porque o que acontece por vezes é que as populações por razões diversas nem sempre têm uma percepção correcta das suas mais-valias.
  3. Rui NunesResponder
    6 de Fevereiro de 2011 em 1:04
    Bonito trabalho, que sirva de inspiracão para os mais jovens…
  4. 28 de Outubro de 2014 em 16:00
    Muito obrigada, não tinha visto que tinham editado. Grata também pelos comentários.
  5. Matilde OliveiraResponder
    31 de Outubro de 2014 em 9:31
    Mais uma vez parabéns por mostrarem a riqueza da História de Alvalade.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Peça do mês de dezembro no MNA: O Relevo de Tróia: o culto mitraico e o Solstício de Inverno




Os Homens, desde remotas alturas, tiveram vários cultos dedicados ao Astro Rei, a maior luz do céu visível aos Humanos que rege a Vida e o Tempo, motivo pelo que é, para muitos povos, um dos símbolos mais importantes, sendo até venerado como um Deus ou encarado como manifestação da divindade, entre muitos. 
Dezembro é o mês em que se marca o Solstício de Inverno, que, de algum modo, se comemorava em Roma com as Saturnália, um festival em honra de Saturno, divindade de origem grega. Celebrava-se no dia 17 de Dezembro, mas, ao longo dos tempos, foi estendida a uma semana completa, terminando a 23 de Dezembro.
Também o deus Mitra cujo nascimento era evocado a 25 de Dezembro, tal como veio a acontecer com o Menino Jesus, tinha uma forte relação com o Sol.
Este deus de origem oriental teve grande adesão junto dos soldados romanos, ou seja os legionários, e também entre os funcionários administrativos e comerciantes.
Mitra, ou Mithras, cujo nome significa "Amigo” em Sânscrito e “Contrato” em Persa, era concebido como um deus luminoso que incitava os homens a seguirem o Seu caminho, no combate pela Luz contra as Trevas. A sua Luz representa a síntese da Luz do Sol e da Lua, e o Domingo é o dia dedicado ao seu culto, ou seja, o «Dies Solis».
No Ocidente, o seu culto acabou por confundir-se com o do «Sol Invictus», ou Sol Invencível, pois verifica-se, em finais do século III, o sincretismo entre a religião de Mitra e outros cultos solares de procedência oriental.
É em finais dessa centúria, em 274, no reinado de Aureliano, que atribuiu a «Sol Invictus» as suas vitórias no Oriente, que o seu culto se torna religião oficial. O imperador manda edificar, em Roma, um templo dedicado ao deus e foram incumbidos sacerdotes de lhes prestar culto.
O máximo dirigente deste era o «pontifex solis invicti».
O mitraísmo manteve-se, contudo, como culto não oficial, havendo quem professasse, ao mesmo tempo, o mitraísmo e a religião do «Sol Invictus».
Quer na cidade romana de Tróia, Grândola, onde muitos autores querem ver a sua representação num baixo-relevo, quer em Beja, quer naturalmente na capital da Província da Lusitânia, a cidade de Augusta Emerita (Mérida) está comprovado o Culto Mitraico, que se expandiu na Hispânia a partir de finais do século II – inícios do século III d. C., a par de outros cultos orientais, tais como de Serápis, Ísis, Cibele-Magna Mater.

Cátia Mourão e Filomena Barata acompanhar-nos-ão neste dia no Museu de Arqueologia e falando-nos do Culto Mitraico.





Relevo Mitraico proveniente das Ruínas de Tróia.

(cópia). MNA.



Fotografia:



José Luis de Jesus