segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Filomena Barata, Porquê e o quê conservam os Homens desde períodos remotos?


Uma reflexão. Porque sempre conservaram os Homens? (*)

Chocada, revoltada, sim, não o escondo, e até atónita, após uma semana em que, consecutivamente, vemos acontecer na Síria ataques violentos a pessoas e a bens considerados da Humanidade, trancrevo: «When Isis destroys ancient sites it is not just attacking buildings, it is attacking the values their preservation represents, such as a recognition of the plurality of cultures that precede and surround us, as well as a respect for the achievements of past generations and a sense that we are custodians for the generations to follow».
Julian Baggini, «Why it's all right to be more horrified by the razing of Palmyra than mass murder». in : http://www.theguardian.com/culture/2015/aug/24/razing-palmyra-mass-murder-isis?CMP=Share_AndroidApp_Facebook


Sanctuary de Baal Shamin,  Palmira

E ocorre-me um velho texto sobre a Memória e a preservação dos bens culturais e suas motivações, citando:


"Ao contrário do animal, que de si só deixa

passos, o homem deixa coisas, por detrás das

quais ele se supeita ou se perfila. O mundo

dos objectos é, assim, um mundo de cultura,

um mundo de coisas que o homem pensou, fez e de

que se serviu."

Jorge de Alarcão, "A Dimensão Antropológica da Arqueologia"

in Biblos, Vol. LIX, Coimbra, 1983





Villa romana de Pisões


É hoje consensual que a defesa do património cultural‚ indispensável, pois constitui parte integrante da identidade de qualquer povo e que a sua protecção não cabe apenas aos organismos responsáveis pela gestão desse património, mas à comunidade em geral: Autarquias, Entidades Públicas e Privadas, Educadores. Fenómeno de importância reconhecida, pelo menos desde o tempo dos romanos, e a que faremos referência adiante, é a participação de particulares na construção ou restauro de monumentos públicos.

Em documento apresentado, em Junho de 1991, no Simpósio Europeu das Empresas de Restauro do Património Monumental no Hemiciclo do Conselho da Europa, o à época Presidente do Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico afirmava: "A globalização dos fenómenos da defesa e salvaguarda do património cultural é positiva porque estimula o interesse generalizado pela fenomenologia da protecção, conservação e recuperação; porque fomenta a permuta de experiências nos diversificados âmbitos e níveis de intervenção (...)" (1).

Sobre a importância da educação na preservação dos bens culturais tivemos já oportunidade de reflectir (2), mas não será demais sublinhar que ela é um veículo fundamental na tomada de consciência da necessidade de preservar a memória colectiva, porque só crescendo na "cidadania cultural" se poderá, de facto, interiorizar o conceito de património.

O património cultural de um país não se reduz aos feitos gloriosos do seu passado, nem aos edifícios ou obras ou aos símbolos de uma época ou epopeia.





Moinhos do Guadiana

Entre as muitas componentes do universo cultural, podemos referir a língua, quer enquanto manifestação oral, à fala, conto tradicional, canção - quer através das suas expressões escritas; o património artístico - pintura, escultura, fotografia; a música; o património arquitectónico, com as suas expressões rurais e urbanas, eruditas e vernáculas; o património paisagístico e ambiental e ainda o património arqueológico, testemunho fundamental do passado.

Podemos mesmo afirmar que, no dealbar do século XXI, se entende o patrimnio cultural de uma forma integrada ou mesmo globalizante: património natural e património cultural não deverão mais dissociar-se. A noção de sítio arqueológico, que compreende os vestígios arqueológicos e a sua envolvente ambiental e humana, instalou-se desde a segunda metade do século XX nos conceitos actuais de preservação.

Mas se ao nível das reflexões parece consensual a necessidade de protecção desses bens que sofrem ameaças de múltipla ordem, devido à explosão demográfica e industrial verificada a partir do século XIX e a todas as alterações socio-económico e culturais daí provenientes, jamais as destruições pareceram tão iminentemente presentes como ao Homem do século XX. O ritmo da protecção deixou-se inubitavelmente ultrapassar pelo ritmo acelerado da destruição.

As realizações humanas manifestas tanto em obras materiais como intelectuais perduram no tempo, rompendo o vínculo da sobrevivência humana. Nascidas num momento determinado, com um contexto definido, elas sobrevivem, ou não, prolongando a sua existência para lá desse contexto. Conservando o sentido original ou mudando segundo a evolução dos critérios de pensamento e dos valores das comunidades, os vestígios materiais são, na maioria dos casos, os únicos veículos que temos para a inteligibilidade ou "reconstituição" do passado, dos códigos sócio-económicos, políticos e ideológicos de um povo ou povos. Parafraseando Vitor Oliveira Jorge no seu Projectar o Passado, diremos: " Entre as marcas caóticas desse passado, que herdámos e nos rodeiam, tentamos ver a clareza de uma trajectória, e assim indicar o que já amanhã se insinua naquilo que temos sido até hoje" (4).




Via Romana de Murça, sobre a ponte do rio Tinhela : Fotografia António Mendes


Desde sempre, ao longo da História, se assistiu à alteração de valores morais e culturais, à sua manutenção, degradação ou substituição, originando essa dinâmica a própria evolução histórica. E, com tal evolução, evoluem também os conceitos e objectivos de conservação dos vestígios do passado.

Como afirma Jean-Jacques Goblot: "Tudo se passa como se a humanidade, para progredir, tivesse ao mesmo tempo que conservar as aquisições da sua história passada e libertar-se do seu peso: conservar, sob pena de "tornar a partir do zero", as aquisições do seu desenvolvimento histórico anterior, romper com tudo o que, nesse desenvolvimento, era "natureza" e expressão dos seus limites" (5).

Poderíamos citar uma infinitude de exemplos dessa dinâmica histórica, em que o percurso das comunidades humanas vacila entre a capacidade de preservação, mesmo que inconsciente ou adulterada, das suas manifestações ancestrais e a destruição ou alteração dos valores tradicionais:

- A evolução política dos territórios e das suas tradições linguísticas, que coexistem, tantas vezes, com reminiscências regionais do passado - vejam-se os fenómenos regionalistas ou independentistas em países com história e identidade aparentemente consolidados em valores unificadores;

- A substituição de valores religiosos num mesmo local que assim mantém a sua sacralização. Em muitos casos, essa substituição exige a modificação do edifício-símbolo num outro com características diversas exigindo, ou não, a destruição do precedente. Apenas como um exemplo, podemos citar o caso de Valência, onde as mesquitas islâmicas dão origem às primeiras paróquias, sem, no entanto reutilizarem os edifícios que, na maior parte dos casos, são destruídos para posteriormente se edificarem novos templos cristãos (6). Mas, podemos também citar o vulgar aparecimento de capelas cristianizadas perto de, ou sobrepondo-se mesmo, a vestígios de época anterior, quer sejam antas, santuários pagãos ou templos do período romano. Em Miróbriga, Santiago do Cacém, verifica-se uma sequente ocupação de cariz marcadamente religioso, manifesta através da sucessiva construção de templos da Idade do Ferro, Romanos e de uma capela cristã seicentista.



Capela de S. Brás, Miróbriga

Em Garvão, uma capela dedicada a Santa Luzia poderá ser uma reminiscência do culto de uma divindade com poderes curativos, como o indiciam as oferendas com representações oculadas do depósito votivo da Idade do Ferro (7). No Alentejo, onde o Cristianismo teve uma penetração muito sui-generis por motivos que se prendem com os modelos de povoamento, ainda hoje é clara a influência de cultos ancestrais, confirmada na seguinte oração consagrada à Lua e à Virgem Maria e utilizada comumente pelas mulheres em estado de gravidez:



"Lua, Luar

Toma l  este Bébé

Ajuda-mo a criar

Tu és Mãe e eu sou ama

Cria-o tu que eu lhe dou mama

Em louvor da Virgem Maria

Padre Nosso, Avé Maria"



Curiosamente, Apuleio, no Asno de Ouro, já fazia eco dessa devoção lunar atribuindo ao burro uma oração dedicada à Lua cheia resplandecente de admirável brilho" a quem confere uma "transcendente majestade, e que todas as coisas humanas se regiam por sua providência; que não somente o gado e as bestas feras, mas também as inanimadas, vegetavam pelo divino influxo de sua luz e divindade (...)". Suplica-lhe, então, apelando a atributos que lhe foram conferidos ao longo dos tempos:

" Rainha dos céus, ou tu sejas Ceres criadora, primeira mão dos frutos, que alegre com o achado da filha removeste o alimento da antiga bolota própria das feras, e ensinaste uma comida mais suave, e agora habitas o terreno de Elêusis; ou tu sejas a celeste Vénus, que na primeira origem das cousas ajuntaste os diferentes sexos gerando amor, e propagaste a espécie humana de eterna descedência, e agora és adorada no templo de Pafos que‚ rodeado de mar; ou sejas a irmã de Febo que, favorecendo o parto das mulheres com brandos remédios, tens dado à luz tantos povos, e agora és venerada nos sumptuosos templos de Éfeso; ou tu sejas Prosérpina, horrível pelos uivos nocturnos, que reprimes com a triforme face os ímpetos dos espectros, e encerras os arcanos da terra e, vagueando por diversos bosques, és aplacada com diferentes modos de culto: tu que alumias os muros de todas as cidades com a tua feminina luz, que crias as alegres sementes com teu húmido fogo e esparges uma luz incerta segundo as revoluções do Sol: por qualquer nome, quaisquer ritos e debaixo de qualquer forma que é lícito invocar-te, tu me socorre agora em minha extrema calamidade, tu consolida minha forma desbaratada, tu dá-me paz e repouso depois de tão cruéis desgraças sofridas"(8).



Não querendo prolongar-nos na análise simbólico/religiosa desta prece, gostaríamos, no entanto, de mencionar o facto de Apuleio conferir a esta dividade atributos que serão comuns à iconografia cristã das Virgens e Santas: "Uma coroa multiforme de diversas flores lhe cingia o alto da cabeça e, no meio dela sobre a fronte, um disco plano, à maneira de espelho (...); dos lados direito e esquerdo, víboras entonadas a cingem com suas roscas, e por cima se estendem também espigas de cereais. Seu vestido era de muitas cores e tecido do mais fino linho (...). Pela orla bordada do manto e por toda a sua superfície cintilavam estrelas dispersas, e no meio delas a Lua dardejava seus chamantes fogos. Também por toda a borda deste insigne manto corria, aplicada com inseparável união, uma grinalda construída de todas as flores e de todos os frutos" (9).

Mas poderíamos continuar uma imensa lista de situações de confronto entre a preservação/destruição dos bens patrimoniais, tais como:

- A sobreposição, até à actualidade, de construções no tecido urbano, sacrificando as mais antigas que, quantas vezes, ficaram reduzidas a meros fornecedores de matéria-prima das mais novas. A título de exemplo podemos referir que, quando da decadência do Império Romano, com a ameaça da invasão dos povos germânicos, se sacrificaram muitas edificações, fundamentalmente as monumentais, à protecção das cidades: as muralhas que passam a envolver os aglomerados urbanos apoiam-se, quantas vezes, nas antigas que, desmanteladas, servem para a sua construção. Em Tróia, ainda no século XVI, se encontravam documentos notariais de emprazamento que permitiam a utilização da pedra das ruínas em edificações novas, salientando o facto de na península do mesmo nome a única pedra acessível serem os calcários da Arrábida, os conglomerados do Alto do Viso, os mármores de Estremoz e os "mármores" fétidos de S. Brissos que os romanos haviam transportado para a edificação da cidade industrial (10). Em Roma foram constantes as expropriações e destruições de casas de habitação tendo em vista dotar a capital latina de grandes foros e edifícios oficiais. García y Bellido aponta um número equivalente a 100.000m2 para os terrenos expropriados ou aquiridos a particulares para a construção de foros imperiais e 140.000m2 para a construção das termas de Caracalla (11). Em Conímbriga, a construção do foro augustano destruiu grande parte do habitat que tem sido considerado como indígena, devendo ter acontecido o mesmo em Miróbriga. No entanto, um templo da Idade do Ferro é, nesta última cidade, integrado no coração da cidade, que obedece ao planeamento urbano vitruviano.

No período flaviano, e obedecendo à política de fomento municipal que de cariz imperial, um novo foro é construído em Conímbriga sobre o antigo, sendo necessário demolir algumas construções anteriores. " Um grande programa de obras públicas foi levado a cabo, como aconteceu em muitas outras cidades hispânicas, quando lhes foi concedido pelos imperadores Flávios o estatuto municipal (...) Neste foro a função religiosa obscurece a religiosa e administrativa em consonância com o grande desenvolvimento que o culto imperial alcançou neste período" (12) "(...) tímida ainda nos inícios do Império, a divinização do imperador triunfou sob os imperadores flávios o que permitiu se erguesse um majestoso recinto exclusivamente consagrado ao culto imperial" (13) e (14).

Estes fenómenos fazem lembrar, na actualidade, as destruições de bairros ou edifícios bem implantados na malha urbana para sobre eles se construirem as verdadeiras catedrais contemporâneas; vejam-se os exemplos das Amoreiras e da Caixa Geral de Depósitos em Lisboa. , no entanto, quase paradoxalmente, admitiu-se destruir algumas casas pombalinas para valorizar o teatro romano de Olisipo. E casos há, ainda, em que uma surpreendente "eleição" de monumentos fazem com que, anacronicamente, sobrevivam certos deles como que "protegidos ou alheados" ao tempo, imunes a qualquer danificação.








Anta cristianizada de Alcobertas, Rio Maior




Para o fenómeno da sobrevivência e conservação dos valores patrimoniais e culturais podem apontar-se motivações de variadíssima ordem:

- Necessidade de preservação da memória individual ou colectiva;

- Vontade política de perpetuar os mesmos valores espirituais e ideológicos;

- Necessidade prática de conservar a obra que desperta afectos, que é útil ou "bela";




Capela de S. Brás, Miróbriga, sobreposta a ruínas romanas. Desenho de Armando Guerreiro





Nos nossos dias, poderíamos também colocar a questão da rentabilidade económica que o turismo introduziu e que favorece e viabiliza, em alguns casos, a preservação de bens patrimoniais.

O acto de conservar registos do passado é quase tão velho como o próprio Homem. É reconhecido na antiga Suméria o interesse pela conservação e ampliação dos templos de dinastias anteriores, com a intenção de manter vivo o espírito religioso que assegurava um determinado equilíbrio social.

Na Grécia Antiga, recomendava-se a limpeza periódica das esculturas dos templos, bem como outros cuidados com as "obras de arte". Plínio refere nos seus Textos de Historia de Arte que "os antigos aplicavam uma capa de betume" às estátuas de bronze (15) e que, em alguns casos, retocavam as estátuas de mármore antigas que recebiam uma decoração pictórica. Os Gregos tinham, ainda, cuidados especiais com o ambiente de alguns locais onde colocavam as estátuas. No Partenon, para obviar à secura do ambiente, eram distribuídos alguns depósitos com azeite que tinham em vista a preservação de obras como a Ateneia de Fídias.

Plínio cita, ainda, uma pintura grega, que deve ter sido levada para Roma no tempo de Vespasiano, na qual o pintor utilizou quatro capas de cor "para prevenir a degradação e o envelhecimento, de maneira que se a capa superior caísse ficava a de baixo" (16).

As tentativas de recordar os feitos históricos e épicos, glorificando o seu passado mítico, como os poemas homéricos, provavelmente do século VIII a.C., e Heródoto, no século V 484-420a.C.), reunindo uma enorme quantidade de dados àcerca do mundo greco-oriental, são exemplos dessa necessidade de conservar uma memória colectiva.

Platão, através de um diálogo que atribui a Sócrates e Hípias, no Hípias Maior - Diálogo sobre o Belo, assume claramente o interesse que o passado motivava em Atenas:

"Sócrates: - Então, diz-me tu mesmo quais são os temas sobre os quais te ouvem com prazer e aplauso - porque não o adivinho.

Hípias: As genealogias, por exemplo; biografias de heróis e outros homens; as narrativas relativas à antiga fundação das cidades; e de uma maneira geral, tudo o que se refere à Antiguidade; tanto assim, que em vista das suas predilecções, tive de estudar todos esses assuntos" (17).

«Podemos dizer que do "thesauros" grego passar-se-ia para um novo modelo de colecção praticado pelos Romanos. Embora esta Civilização tenha herdado dos Gregos o gosto pelo coleccionismo, a função era bem diferente.  O "tesouro" era, entre os Romanos, sinónimo de riqueza e de poder numa sociedade muito estratificada e baseada na imponência  e no prestígio conferido pelos símbolos de riqueza, e a esta nova utilidade dos bens de fortuna intrepõe-se a cobiça desde sempre o factor de maior impulso para desencadear o desejo de domínio de uma Civilização sobre outra, não só pelo produto do saque de bens como também pelo resultado dos danos morais que a guerra infligia aos vencidos incluindo a perda de valiosos tesouros triunfalmente exibidos como troféus pelos vencedores». (Casteleiro de Góis, 2007).

O vocábulo "Museion" já utilizado por Estrabão no século I a.C., esse espaço ou "Casa das Musas" era o local onde se depositavam os diferentes testemunhos da Humanidade. Era, no fundo, como que o sítio dedicado às Musas e ao estudo. Contudo, os Romanos darão um novo valor acrescido aos objectos de arte,  fando cópias e comercializando-as.

Não obstante, há exemplos que mostram como os Romanos ultrapassaram a ideia de uma coleccção privada, como é o caso de Agripa que pornou pública a sua colecção.

Apropriando-se das obras de arte dos povos conquistados, os romanos inauguraram o fenómeno do coleccionismo, que tem o seu expoente em galerias de arte e em bibliotecas públicas e privadas. Muitas delas, por não ser visível existirem em todas obras "primitivas" são recheadas de cópias romanas de "obras primas" gregas, hebraicas ou egípcias.

Francisco de Holanda, fazendo eco da visão renascentista do mundo clássico, afirma em Da Pintura Antiga:

"Tenho eu que os Romanos, ainda que grandemente favoreceram a pintura, comprando-a por mui grandes preços, que aos Gregos não chegaram. E todavia, quanto a nós, Roma mais asinha teria por pátria da pintura que Sicione, tanto por que a ela de todas as províncias do mundo que tinha debaixo de seu império se traziam as famosas tábuas e quadros que se sabiam, como por as grandes relíquias que em seus edifícios e termas ainda hoje vemos, onde neste caso sinto que pelo grande pecado que Roma já  fez em roubar as boas coisas de todo o outro mundo, assim o mundo a tem roubado a ela de sua fermosura e ornamento e cada dia a mais roubamos"(18).

Através de Plínio temos conhecimento da apreensão que a alguns romanos causavam os desabridos coleccionismos, como o problemático caso de Verres, proquestor e propretor da província senatorial da Sicília, que ficou conhecido pela mania de recolher obras de arte, na sua maioria furtadas, de santuários e edifícios públicos e privados. Plínio afirma mesmo que "há  gente que aprecia tanto as suas estátuas (...) que as leva consigo quando viaja, como fez Hortensio, o orador, com uma esfíngie que lhe tinha oferecido o seu cliente Verres" (19). Note-se que foi este facto que permitiu a Cícero provar a culpabilidade de Verres, acusado pelos saques e especulações a que se dedicava no comércio de obras de arte.

Plínio refere, ainda, a existência de vários ateliers de "copistas" na Grécia e particularmente em Atenas, que parece ter sido o centro deste tipo de produções.

García y Bellido aponta como possível terem sido feitas dezenas de milhar de cópias entre os finais da República e os séculos III/IV d.C, numa produção quase em série (20). "A dominação romana parece ter contribuído para acentuar uma disposição que já se notava na arte helenística, nomeadamente a produção industrial de obras de arte"(21)."Em Roma desenvolve-se um conjunto de actividades relacionadas com o comércio e restauro de obras de arte.

A preservação de formas arquitecturais helenísticas e a tentativa de racionalizar a arquitectura da Roma republicana são  em Vitrúvio fundamentais preocupações. Na sua obra Da Arquitectura (século I a.C.), para além da reflexão sobre os tipos e formas de construir, Vitrúvio aconselha ao arquitecto saber escrever, desenhar, ter conhecimentos de Geometria, Aritmética, Medicina, Jurisprudência, Filosofia Moral e Natural, Astronomia, Música e História. No caso da História, Vitrúvio atribui-lhe uma função fundamental: compreender através dela a maioria dos ornamentos usados na arquitectura grega. No seu Livro I, reflectindo àcerca da distribuição dos compartimentos de uma casa, a fim de os tornar mais sãos e cómodos, recomenda que os quartos de dormir e as bibliotecas se situem a Oriente e que os "Gabinetes de Pinturas e outras curiosidades, que pedem sempre uma luz igual, a setentrião" e que "as bibliotecas devem ficar a Levante, porque o seu uso pede a luz da manhã : e porque os livros neste lado não sofrem tanto como nas bibliotecas que ficam ao Meiodia e Poente, onde estão mais sujeitos à humidade que os humedece" (22).

A propósito da manutenção memória da gens e da evolução do retrato em Roma que, pode afirmar-se que o mesmo também servia como uma forma de preservar as fisionomias características da gens, funcionando as "imagines maiorum" em cera para representar pessoas vivas de uma forma mais realista, dando origem a que o retrato romano se distinguisse pela atenção que gradualmente se vai atribuindo às características exteriores do indivíduo.

A ascenção de novas classes sociais, durante a República, sem uma origem familiar nobre, faz com que os retratos ganhem maior realismo, de molde a poder expressar uma fisionomia comum a uma determinada gens.

Plínio (23 d.C. - 79 d.C.) referia-se aos retratos de família nos seguintes termos:
«Nos átrios dos nossos ancestrais era diferente; os retratos eram os objectos apresentados para serem observados, não eram estátuas de artistas estrangeiros, nem bronzes ou mármores, mas modelos em cera dos rostos que eram colocados cada um numa prateleira diferente para fornecer as máscaras que eram usadas na procissão feita durante um funeral de um membro da família, e sempre que um familiar falecia todos os membros que existiram da gens estavam presentes. As linhagens eram também traçadas com fios de corda que ligavam os vários retratos pintados. Nas salas de arquivo guardavam-se livros com registos e com os memoriais escritos das suas carreiras oficiais (...)»

Plínio, HN, IX, XXXIII-XXXV

Ainda segundo Plínio, na Grécia Na Grécia «Não era costume fazer efígies de seres humanos a não ser que eles merecessem uma comemoração duradoura por alguma razão distinta, estando em primeiro lugar a vitória nos jogos sagrados e particularmente os de Olímpia, onde havia o costume de dedicar estátuas a todos aqueles que haviam ganho uma competição; essas estátuas no caso daqueles que aí haviam ganho três vezes, eram modeladas à exacta semelhança dos vencedores - recebendo o nome de iconicae [εικωυ,εικωυικος], estátuas retrato. Antes acredito que as primeiras estátuas retrato oficialmente erigidas em Atenas foram as dos tiranicidas Harmodius e Aristogeiton».

PLÍNIO, HN, Livro XXXIV (IX, 16-17)

De recordar ainda as palavras de Virgílio (70 a.C. - 19 a.C.) na Eneida, obra épica que dedica em 30 a.C. à prosperidade da Gens Iulia, no seu canto VI (752-853), quando Eneias visita o seu pai Anquises no Hades, este mostra-lhe as almas e os destinos daqueles que se preparam para nascer,afirmando:

«Aqui, volta os teus olhos, olha esta nação, os Romanos. Aqui César e toda adescendência de Iulius, tal como ela surgirá sob a grande abóbada do céu. Este homem, é aquele que tu ouves frequentemente dizer que te é prometido, Augusto César, filho de um deus: ele reabrirá este século de ouro que no Latium outrora Saturno conduzia pelos campos; mais longe que os Gramantes e os Indianos ele dilatará o nosso império; (...)».

O próprio Júlio César sentiu a necessidade de fazer a sua genealogia e, em elogio à sua tia, afirma que
«(...) Com efeito, de Anco Márcio provém a dinastia real dos Márcios, nome de minha mãe; de Vénus, descendem os Júlios, e nós somos ramo dessa família.
Há, pois, na nossa raça quer a santidade dos reis, que tão grande poder têm entre os homens, quer a majestade dos deuses, de quem depende o próprio poder dos reis (...)»
SUETÓNIO, Os Doze Césares, Tradução de João Gaspar Simões, Editorial Presença, 1973

A propósito das ideias acima referidas no que respeita à evolução do retrato, consideramos fundamental a leitura do trabalho de Margarida Maria Almeida de Campos Rodrigues, «Retrato Oficial Romano no Tempo da Dinastia Júlio-Cláudia», onde onde nos baseámos no que respeita ao mesmo (22a)
Cícero, no tratado As Leis, no século I a.C., ao reflectir sobre as diferenças entre a Poesia e a História, afirma através da sua personagem Marco:
"Na primeira o único critério é a verdade, enquanto a segunda atende fundamentalmente ao deleite. No entanto, reconheço que tanto em Heródoto - o pai da História - como em Teopompo, podemos encontrar um número incalculável de fábulas", ao que Ático acrescenta:

"Desde há algum tempo que te pedem, ou melhor te exigem, a composição de uma obra histórica; pensa pois que, se a tal te dedicasses, também neste género poderiamos suplantar os Gregos.

E falando em meu próprio nome te direi que deves encarregar-te desta tarefa não só em obséquio dos que apreciam os teus livros, mas pela própria Pátria; para que o seu salvador seja, ao mesmo tempo, o relator das suas glórias"(23).

Mas a reflexão sobre a História não se reduz, em Cícero, às gloriosas façanhas do passado nem à exaltação das vantagens do já  decadente regime republicano. O objectivo fundamental é a sua utilidade enquanto ensinamento individual ou colectivo. O património de um povo é para este autor uma herança cultural que há  que conservar e tem "o valor positivo atribuído à posse de um passado de que se pode desfrutar soberanamente e sem perturbação"(24). Vejamos a justificação que Marco apresenta para a escolha do seu local de recolhimento - a ilha de Fibreno:

" Aqui nascemos de uma antiga família, aqui se cumprem os nossos ritos familiares, aqui viveu a nossa raça, aqui subsistem muitas lembranças dos nossos antepassados(...) Por isso experimento um sentimento inexplicável que, sem dúvida, é a causa da minha preferência por este sítio".

Ao que Ático acrescenta:

" Há algo de misterioso na emoção que nos provocam os lugares onde vive a recordação dos que queremos e admiramos. Até na minha querida Atenas, não são tanto as soberbas construções, as obras primas da arte antiga que me deleitam, mas a recordação dos grandes homens e o poder ver os locais onde habitaram, se sentaram e discutiram; e também tenho muito interesse em visitar os seus sepulcros" (25).

Na sua obra Em Defesa do Poeta Árquias Cícero apela ao valor da poesia e das artes na exaltação do "povo romano" e, alegando em favor do poeta, afirma:

" Décimo Bruto, eminente varão e general, ornamentou a entrada dos seus templos e monumentos com poemas de Ácio, grande amigo seu. Também o famoso Fúlvio, que combateu contra os Etólios, com Énio na sua companhia, não teve dúvidas em consagrar às Musas os despojos de Marte. Assim sendo, numa cidade em que os generais, quase armados ainda, honraram o nome dos poetas e os santuários das Musas, não devem os juízes de toga enjeitar a veneração das Musas e a defesa dos poetas!" (26).

O período imperial cria uma nova concepção filosófica e cultural que se reflecte na arquitectura. A cidade da firmitas, da utilitas e da venustas vitruviana assumirá, com o novo regime, um carácter mais monumental e mais sumptuário, coroando o poder do imperador, "instrumento divino da nova ordem"(27). A arquitectura torna-se, com o Império, a arte por excelência.




Intervenção de D. Fernando no templo do forum de Miróbriga, 1968


Suetónio (69?-160 d.C.) refere na biografia de Julio César que " sobre o embelezamento e enriquecimento de Roma, assim como sobre a defesa e engrandecimento do império, (ele) concebia diariamente os mais variados e vastos projectos; propunha-se, antes de mais, um templo dedicado a Marte, maior que nenhum dos que existiam em algum lugar do mundo (...); (e) pôr à disposição do público as bibliotecas gregas e latinas, tão ricas como fosse possível" (28)




Templo dedicado ao culto imperial, Évora.


Suetónio diz-nos na Vida dos Doze Césares que Augusto "Embelezou a cidade de Roma, (que) não (era) ornamentada segundo a magestade do Império e exposta a inundações e incêndios, de tal forma que com razão se vangloriou de " deixar de mármore a que tinha herdado de ladrilho". O Forum de Augusto "uma das obras mais belas jamais vista", segundo Plínio, ‚ o primeiro exemplo de um grande conjunto arquitectónico totalmente construído em mármore. Augusto também deixou Roma segura para a posteridade, "quanto pode prever-se com a razão humana" (29), tendo criando um corpo de guardas nocturnos que vigiavam os incêndios e mandando limpar o leito do Tibre, responsável por muitas inundações.

A obra do imperador Augusto (31d.C-14d.C.) foi notável e «contruiu muitissímos monumentos públicos, referindo os principais: um forum com um templo de Marte Vingador; um templo de Apolo no Palatino; Outro de Júpiter no Capitólio (...). Erigiu o templo de Apolo numa parte de sua casa no Palatino, que havia sido danificada por um raio e que os arúspices declararam que era esejada pelo deus; acrescentou uns pórticos com uma biblioteca latina e grega, e nesse local (quando) já (era) velho, reuniu inclusivamente muitas vezes o Senado ... Construiu também outros monumentos em nome de outros, designadamente dos seus netos, da sua esposa e de sua irmã, como o pórtico e a basílica de Caio e de Lúcio, assim como os pórticos de Lívia e de Octávia e o teatro de Marcelo. Para além disso exortou os demais notáveis da cidade, segundo as possibilidades de cada um, com monumentos novos ou reconstruindo e enriquecendo (os existentes)" (30), segundo narra Suetónio (XXIX). Mas a sua obra foi dedicada, em grande parte, consagrada a reparar as ruínas deixadas pelas guerras fraticídas dos últimos tempos da República. Os restauros em antigos templos e a construção de novos, com a finalidade de reacender o espírito religioso canalizando-o para o culto imperial, são sintomas da clara consciência que os romanos têm da vantajosa associação de construções monumentais às manifestações de ¡ndole religiosa e política. Só no ano 28 d.C. se restauraram 80 templos em Roma e terminaram-se muitas obras que tinham ficado incompletas.

Ao reconstruir os templos em ruínas ou destruídos, "enriqueceu-os a uns e a outros com presentes esplêndidos", diz-nos ainda Suetónio que assim se lhe refere também:
«Certo dia em que bordejava a baía de Puteoli, os passageiros e os tripulantes de um navio de Alexandria, acabado de acostar, todos de branco, coroados de flores e queimando incenso, cumularam-no de votos de felicidade e de extraordinários louvores, dizendo ser graças a ele que viviam, graças a ele que navegavam, graças a ele que gozavam de liberdade e de prosperidade». (Suetónio, Aug., 98).

Por outro lado, a reorganização municipal de Roma permite uma reforma de índole religiosa. Aos Lares de cada vicus Augusto associa o Génio do princípe que, deste modo, consuma a religião imperial. Muitas das iniciativas religiosas passaram a ser subordinadas às do princeps que se tornou, a partir de Augusto, sumo pontífice. (31)

E Virgílio, "celebrando a terra italiana e a pátria romana, tornar-se-á  o auxiliar da obra restauradora de Augusto" (32), ao reanimar a velha epopeia romana e ao exaltar as qualidades inerendes à latinidade. Tito Lívio (64 a.C.-17d.C) faz repor  na sua História de Roma os valores e a "disciplina social" do "primeiro povo do mundo": " O mais saudável e frutuoso no estudo da história ‚ que se contemplam lições de todo o tipo expostas à luz de uma brilhante obra literária. Dela podem-se extrair para um ou para o próprio Estado modelos a imitar e também experiências a evitar pelos seus desastrosos princípios ou desastrosas consequências" (33). A História assume aqui um papel simultaneamente  moralizador e exaltador.

Por outro lado, "a nobreza e a recém criada burguesia promovida por Augusto e seus sucessores com o desejo de igualdade de oportunidades, assumirão rapidamente os ideais de magnificiência e de luxo sumptuário que os edifícios públicos tinham conseguido impor" (34). Torna-se também comum a contribuição dos cidadãos ricos para a edificação ou reconstrução de edifícios públicos. Jorge Alarcão cita exemplos de financiamento particular de obras públicas reconhecidos epigraficamente em território actualmente português, nomeadamente em Olisipo, Balsa, Bobadela, Egitania, Colippo, S. Pedro do Sul e Quinta de Santo António (35).

Da característica atitude de uma burguesia enriquecida nos primórdios do Império e da necessidade que a mesma sente de reflectir o gosto pela monumentalidade e pelo luxo, se bem que afectando uma cultura e um coleccionismo arcaisantes, dá-nos Petrónio conta, através excessivo banquete de Trimalquião. A dado passo, esta personagem afirma:

"Embora eu não sustente causas, no entanto estudei a literatura, para meu uso pessoal. E não julgues que não aprecio os estudos. Tenho três bibliotecas, uma grega, outra latina".

E o autor descreve, mais adiante:

"Cheguei à galeria de quadros, onde diversas espécies de pinturas forçavam a admiração. Vi obras de Zêusis, que as injúrias do tempo não haviam estragado, e os esboços de Protógenes, em luta autêntica com a natureza e que eu não podia apalpar sem arrepio. E depois a deusa de Apeles a que os Gregos chamam "a Perneta" e diante da qual fiquei em adoração".

Petrónio relata, então, a conversa havida entre o atento apreciador de arte e um poeta que também visita a galeria:

" ... comecei a interrogar o meu companheiro, mais bem informado do que eu, acerca da época dos quadros e de alguns temas obscuros para mim, assim como acerca da causa de decadência presente, responsável pela desaparição das mais belas entre as artes, como a pintura, desvanecida sem deixar vestígios. Ao que ele respondeu:

- Foi o gosto do dinheiro que provocou esta revolução. Outrora, quando o mérito agradava por si só, as artes liberais floresciam e os homens esforçavam-se por revelar tudo o que pudesse ser útil aos séculos futuros. Foi assim que Demócrito conseguiu extrair o suco de todas as plantas e, para não deixar ignoradas as virtudes das pedras e dos vegetais, passou toda a sua vida em experiências. Eudóxio envelheceu no cume de uma montanha elevadíssima para aprender os movimentos dos astros e do céu... Lisipo, à força de tentar acabar uma estátua, morreu de inanição, e Míron, que quase tinha conseguido encerrar no bronze a vida dos homens e dos animais, não teve sucessor. E nós, mergulhados no vinho e no deboche, já nem sequer temos força para estudar as artes existentes, mas, sem qualquer respeito pela antiguidade, já  não somos capazes de dar e receber lições de vício.

...............................

Não te admires por a pintura estar em decadência, visto que todos os deuses e todos os homens acham que uma barra de ouro‚ mais bela que todas as obras de Apeles e Fídias, esses pobres gregos insensatos" (36).



O fascínio exercido pela cultura e pelas obras de arte gregas patentes no texto de Petrónio‚ uma constante na cultura romana, que a adoptou e transformou à dimensão de um império. O discurso intelectual é, no entanto, um discurso crítico em relação à forma como essa cultura se vinha perdendo, dando lugar … ascensão de objectivos de vida muito mais materialistas. Trimalquião ‚ no Satíricon um símbolo desta atitude potencialmente "nova-rica", mesmo quando, por prestígio, refere as suas actividades como "coleccionador cultural". As obras produzidas em centros de arte estrangeiros, e principalmente tudo o que era conotado com uma tradição artística já conceituada como de "bom gosto", permitiam a esses novos ricos uma atitude altiva que não corresponde necessariamente a um refinamento do gosto. A obra de arte torna-se um objecto com valor de mercado, que poderíamos comparar, correndo o risco de cometer anacronismos, a alguns fenómenos do "mercado de arte" que se verificam nos nossos dias.

As Bibliotecas muito em voga desde os primórdios do Império, foram-se multiplicando em Roma,  sendo, ao que se sabe o primeiro projecto de Bibliotecas Públicas  de Júlio César, provavelmente quando este entrou em contato com a biblioteca de Alexandria, no Egipto.

Foram-se «espalhando-se pelas inúmeras províncias, transformando-se em importante fator para a difusão de obras e de cultura em geral na sociedade imperial. Portanto, ao ocupar este cargo, Suetónio teve contato com uma amplitude de obras, tanto gregas como romanas, as quais foram utilizadas como alicerces em suas composições futuras. Além disso, Suetónio também é comumente citado como um studiis do Imperador, ou seja, uma espécie de pesquisador sobre o comando do governante. Esta ocupação é de extrema importância, uma vez que teria preparado o autor para a pesquisa documental.  Percebe-se, desta maneira, que Suetônio iniciou suas funções em meio à Dinastia Flaviana (...) Nesta época, pode-se notar o florescimento das atividades artísticas e literárias, as quais eram incentivadas por determinados Imperadores». in:  FRAZÃO JOSÉ, Natália,  A CONSTRUÇÃO DA IMAGEM DO IMPERADOR AUGUSTO NAS OBRAS DE VELÉIO PATÉRCULO, PLUTARCO E SUETÔNIO. http://www.franca.unesp.br/Home/Pos-graduacao/Historia/Natalia_Frazao_Jose.pdf



Da Época Romana são também conhecidos inúmeros arquivos domésticos de  Tabulae Ceratae, designadamente os de Pompeia e Herculano, que poderão ser melhor conhecidos através do trabalho «Gli archivi privati di tabulae ceratae e di papiri documentali a Pompei ed Ercolano: case, ambienti e modalità di conservazione» de Giuseppe Camodeca, consultável em:

https://www.academia.edu/2614815/Gli_archivi_privati_di_tabulae_ceratae_e_di_papiri_documentari_a_Pompei_ed_Ercolano_case_ambienti_e_modalità_di_conservazione
Por seu lado, Plínio o Velho (24/25-79 d.C.) cuja vida esteve ligada ao imperador Vespasiano (69-79 d.C.)‚ era autor de uma obra de carácter enciclopédico, verdadeira compilação do saber da época:  História Natural. Os três últimos livros dessa obras são textos de história de arte, onde o autor manifesta a suas opiniões sobre a temática. Pressente-se neste autor uma crítica ao luxo excessivo, um apelo à austeridade e uma nostalgia pela vivênvia artística que considera "descaracterizada" no seu tempo:

" O certo é que a pintura dos retratos, através da qual se transmitem à posteridade representações extraordinariamente fiéis ao original, caíu totalmente em desuso. Dedicam-se escudos de bronze, efígies de prata, sem rasgos que diferenciem as figuras. Mudam-se as cabeças de umas estátuas por outras, o que vem provocando a proliferação de "piadas" em versos satíricos. (...) E entretanto enchem-se as pinacotecas de pinturas antigas e admiram-se as efígies estrangeiras, considerando-as dignas de honra somente pelo seu preço; isto explica que o herdeiro as destrua e que o laço do ladrão as roube. Assim, ao conservar-se a efígie de um indivíduo, não perduram as suas características, mas as do seu próprio dinheiro" (37).

Plínio afirma que de todas as esculturas conhecidas as mais célebres se tratavam das "dedicadas pelo imperador Vespasiano  no Templo da Paz e noutros edifícios que mandou construir. Foi Nero que as mandou transladar para a Urbe e colocá-las nos salões da Domus Aurea" (38), mandada construir por este imperador depois do incêndio de Roma. Para a sua decoração utilizaram-se numerosas obras de arte gregas.

A quantidade de obras de arte que em Roma se acumulara era tal que, em época tardia, ao tempo de Constantino (306-337), se regulamentou no sentido da inventariação das riquezas artísticas, chegando mesmo a criar-se o cargo de curator statuarum (39).



"De clara tendência helenizante e havendo herdado dos seus antecessores a inclinação para o esplendor urbano próprio do Império desde os primeiros tempos, Adriano (117-138) preocupou-se em fortalecer a vida municipal com jogos e festas e levar a cabo um enorme trabalho de embelezamento urbano. A cidade (de Roma) foi novamente enriquecida por um imenso plano monumental e de novas construções" (40). A Villa Adriana é, com os seus balneários e jardins privados recheados de estátuas o expoente dessa época de "miscegenação cultural" de forte componente helénica.

Élio Esparciano, na biografia deste imperador, dá-nos conta de que este princípe mandou erigir uma infinitude de construções, em toda a parte: templos, pontes, aquedutos e muitas obras de interesse público. Paralelamente, e como forma de protecção das edificações antigas, legislou para que "não se destruísse nenhuma casa com o propósito de transportar para outras cidades os seus materiais de construção, mesmo que fossem de pouco valor" (41). Em Roma reconstruiu inúmeros edifícios, como o Panteão - inicialmente levantado no tempo de Agripa, em 27 a.C., e já  reedificado no tempo de Domiciano (81-96 d.C.) após um grande incêndio -; a basílica de Neptuno e as termas de Agripa - ambas construídas no seu tempo -; um grande número de templos e o foro de Augusto, tendo-os consagrado com os nomes dos seus fundadores (42). A divinização de Augusto e de Roma (do Estado)‚ oficialmente assumida através da construção de templos que lhes são dedicados, nomeadamente do templo de Roma e de Vénus, na Via Sagrada, perto do arco de Tito.

Em Delfos, quando das suas visitas em 125 e 129, ofereceu uma enorme ajuda para a reparação do santuário de Apolo e restaurou pelos seus próprios meios o templo de Augusto em Tarragona.

" Mais do que nunca a religião se encontra ligada ao Estado; ela é, não tanto um meio de governo, mas o próprio símbolo da alma do Império" (43). E esta impregnação foi tão profunda que, ainda hoje, na maioria dos países onde se fez sentir a influência latina, a divinização imperial está presente no calendário que utilizamos.







Maria Filomena Santos Barata



(*) Baseado em artigo anteriormente publicado, na Revista Vipasca, nº 2, sob o título 
«O Património Cultural ao Longo dos Tempos. Uma reflexão», em 1993,  mas a que queremos dar continuidade e, por isso aqui o editamos.





NOTAS:

(1) Carlos Antero Ferreira, Restauro dos Monumentos Históricos, Restaurar porquê? Restaurar o quê? Restaurar quando e como?, Simpósio Europeu das Empresas de Restauro do Património Monumental, Hemiciclo do Conselho da Europa, Strasbourg, Junho 1991.

(2) Maria Filomena Barata, Escola e Património, in "Educação e Ensino", Associação de Municípios do Distrito de Setúbal, Julho 1992, pp.8-9

(3) idem - Conservação, Salvaguarda e Valorização dos Sítios Arqueológicos in "Actas das IV Jornadas Arqueológicas, Associação dos Arqueólogos Portugueses", Lisboa 1991, pp.61-67

(4) Vitor Oliveira Jorge - Projectar o Passado, Editorial Presença, Lisboa 1987, p.7

(5) Jean-Jacques Goblot - Materialismo Histórico e História das Civilizações, Editorial Estampa, Lisboa 1975, p.122

(6) El Processo de "Cristianización urnana" de la ciudade de Valencia durante el siglo XV in "Archivo Espanol de Arte", Departamento de Historia del Arte "Diego Velázquez", nº 254, Madrid, 1991

(7) Mário Varela Gomes (ver texto sobre Garvão)

(8) Apuleio - Asno de Ouro, Publicações Europa-América, pp 219-20

(9) idem, p.221

(10) Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares - Arqueologia da Arrábida, Colecção Parques Naturais, nº 15. p.157

(11) García y Bellido - Arquitectura Urbana en La Roma Imperial, Rascacielos y Arqueologia in "Actas das I Jornadas Arqueológicas", Lisboa 1969, Vol. II

(12) José María Blázquez - Urbanismo y Sociedad en Hispania, Ediciones Istmo, Madrid, 1991, p. 213

(13) Jorge de Alarcão - A Dimensão Antropológica da Arqueologia, "Biblos", Vol. LIX, Coimbra 1983, p.476

(14) idem, A Cidade Romana em Portugal, "Cidades e História", Fundação Calouste Gulbenkian, p.91

(15) Plínio - Textos de Historia del Arte, Edición de Esperanza Torrego, Madrid, 1987, p.36

(16) Idem,Ibidem p.106

(17) Platão - Hípias Maior - Diálogo sobre o Belo, Seara Nova, pp.20-21

(18) Francisco de Holanda - Da Pintura Antiga, Livros Horizonte, p.24

(19) Plínio, op. cit., p. 13

(20) Antonio Garc¡a y Bellido - Arte Romano, Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Madrid, 1990, p.117

(21) Albert Grenier, Le Génie Romain, Éditions Albin Michel, Paris, p.268

(22) Compendio de los Diez Libros de Arquitectura de Vitruvio, Comisión de Cultura del Colegio Oficial de Aparejadores y Arquitectos Técnicos, Murcia, 1981, p.56.

(22a) RODRIGUES, Margarida Maria Almeida de Campos,  1999, «Retrato Oficial Romano no Tempo da Dinastia Júlio-Cláudia». Mestrado de História da Arte. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Universidade Nova de Lisboa. 

https://www.academia.edu/2073514/O_RETRATO_OFICIAL_ROMANO_NO_TEMPO_DA_DINASTIA_J%C3%9ALIO-CL%C3%81UDIA

(23) Cícero - Las Leys, Alianza Editorial, Madrid 1989, p.169

(24) Michel Foucault, O que é um autor?, Vega, 1992, p g.140

(25) Cícero - Op. cit., p.195

(26) Cícero - Em Defesa do Poeta Árquias, Editorial Inquérito, Lisboa, 1986, p.47

(27) José Luis Murga Gener, Proteccion a la Estetica en la Legislacion urbanistica del Alto Imperio, Publicaciones de la Universidade de Sevilla, p.11

(28) Suetónio - Vida de los Doce Césares, Editorial Juventud, Barcelona,1978, p. 41

(29) Suetónio, op. cit., p. 82

(30) Idem,Ibidem, p. 83

(31) John Sheid, “O Sacerdote” in O Homem Romano, Editorial Presença, Lisboa 1992, p.58

(32) Albert Grenier, op. cit., p.365

(33) Tito Livio, Historia de Roma, Colección Hispânica de Autores Gregos e Latinos, Consejo Superior de Investigaciones Cient¡ficas, Madrid, 1987, pp 2 e 3

(34) Murga Gener, op. cit. p. 13

(35) Jorge de Alarcão, “A Cidade Romana em Portugal”, Cidades e História, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa 1992, pp.51/52

(36) Petronio, O Satíricon, Europa América, 1973, pp.91, 96, 97

(37) Plínio, op. cit., p.74

(38)Plínio, ibidem, p.66

(39) Raul Amitrano Bruno, “Evolucion y Desarrollo de los Criterios de Restauracion de la Antiguedad al Panorama Actual”, Revista de Arqueologia

(40) Murga Gener, op. cit., pp.35-36

(41) Élio Esparciano, Adriano, Historia Augusta, Akal/Clasica, Madrid, 1989, pp.69-70

(42) Idem, Ibidem, p.67

(43) Albert Grenier, op. cit., p. 410

Inês Mafalda Martis P. Casteleiro de Góis, 2007, «O Museu para o Ourives Ambulante - Considerações acerca de uma Programação Museológica».  Universidade Lusófona.

http://www.museologia-portugal.net/files/upload/mestrados/ines_gois.pdf






Cidade da Ammaia, Marvão

sábado, 15 de agosto de 2015

A LUSITÂNIA, Filomena Barata

CULTURA//ANO 3
EDIÇÃO 37 - AGOSTO 201 Incomunidade
Filomena Barata

A LUSITÂNIA
http://www.incomunidade.com/v37/art.php?art=60


Na imagem: Arco romano de Beja. Fotografia de Filomena Barata

«Os romanos, chegados à Península em 218 a. C., instalaram-se, de início, sobretudo no Sul (actuais Alentejo e Algarve, no que respeita ao futuro território português), através de acordos, mais do que pela violência bélica. Já nas regiões situadas entre o Tejo e o Douro, as populações autóctones, sobretudo os lusitanos, resistiram aos romanos durante cerca de cem anos, de meados do século II a. C. a meados do séc. I a. C. Vencida esta resistência, por volta de           25 a. C. o domínio romano abrangia todo o futuro território português. Poucos anos depois (...), sob o imperador Augusto, a Península foi divida em três províncias (Terraconense, Bética e Lusitânia), mas no final do século III existiam cinco (além das três anteriores, também a Cartaginense e a Galécia). O que viria a ser Portugal jamais coincidiu, nos seus limites territoriais, com alguma destas províncias. A Lusitânia não abrangia a zona norte do Douro (integrada na Galécia) e abarcava uma vasta área da actual Estremadura espanhola, tendo mesmo a sua capital em Emerita Augusta (Mérida).» 
Em História de Portugal de Rui Ramos (coord.).


Lembro-me do ruído que, diziam os Antigos, o sol fazia ao pôr-se no Ocidente.

Era ainda para os Romanos estranho ver o Astro Rei ser engolido pelo mar ao Ocidente ou como se afirma na descrição de Avieno, na sua Ora Marítima, sobre o Cabo de S. Vicente:

“Então, lá onde declina a luz sideral, emerge altaneiro o Cabo Cinético, ponto extremo da rica Europa, e entra pelas águas salgadas do Oceano povoado de monstros”, sabendo-se que foi dedicado um templo a Saturno no Promontorium Sacrum.

A “Ora Maritima”, de Avieno, escrita no século IV d.C., mas que se baseia fundamentalmente num périplo comercial massaliota do século VI a.C., se bem que com posteriores acrescentos fundamentados em informações gregas e latinas, continua a ser o texto mais antigo que se conhece descrevendo o Ocidente da Ecúmena e, consequentemente, a costa do Sudoeste e Sul peninsular. Apesar de continuar a levantar questões de vária índole, que se prendem com aspectos geográficos, etnológicos, gentílicos, e outros, ela é ainda uma fonte importante de informações sobre esta zona.

Mas recordo ainda o que tantos autores da Antiguidade diziam sobre o território que virá a ser a província romana da Lusitânia e que, ainda no século I a.C., a maioria dos Romanos considerava uma Finis Terrarum.

Várias são, portanto, as referências de autores Gregos e Romanos ao território a que nos dedicaremos, designadamente o Sul, sendo a descrição do geógrafo grego Estrabão no livro III da Geografia, no século I a.C. a que mais exaustivamente se prende à descrição da Hispânia, iniciando-se praticamente uma das mais pormenorizadas no que diz respeito à área compreendida entre o Estreito de Gibraltar e o Cabo de S. Vicente.

O geógrafo refere-o, tal com se verifica no texto acima citado de Avieno, como o ponto mais ocidental da Ibéria: «Este é o ponto mais ocidental não só da Europa, mas também de toda a oikouméne» (Estr. III, 1, 4).

Por sua vez, Estrabão dá-nos também nota que «Nas margens do rio (trata-se do Tagus/Tejo) fortificou Olisipo para ter mais livre o curso da navegação e o transporte dos víveres (...) O rio é muito rico em peixe e abundante de ostras» (Estrabão, Livro 30, I Parte), referindo-se a um dos momentos da conquista da Lusitânia por Décimo Júnio Bruto, em finais do século II a.C., quando encontra junto ao estuário do Tagus a antiga povoação de Olisipo, entreposto de Fenícios e Gregos.

Plínio (23 d.C - 79 d.C, na sua História Natural, tem variadíssimas referências à Lusitânia, remetendo-nos aqui à tradução comentada Amílcar Guerra na sua obra «Plínio-o-velho e a Lusitânia», trabalho fundamental para o reconhecimento desse território.

Assim nos informa Plínio: «O Tejo dista do Douro duzentas milhas, ficando entre eles o Munda. O Tejo é famoso pelas suas areias auríferas. Distando dele cento e sessenta milhas, ergue-se o Promontório Sacro, aproximadamente a meio da parte frontal da Hispânia». (Plínio H.N. 4, 115).

Refere ainda Varrão (116 a.C — 27 a.C.). que (...) entre o Anas e o Promontório Sacro habitam os Lusitanos. Para lá do Tejo, as mais notáveis cidades da costa são Olisipo, célebre pelas éguas que concebem do favónio, Salácia, cognominada urbs Imperatoria, Meróbriga e, entre os promontórios Sacro e Cúneo, os ópidos se Ossónoba, Balsa e Mírtilis», (Plínio H.N. 4, 116).

A constituição oficial em Província, em 27 a.C., fruto da Reforma Administrativa de Augusto, vem alterar o estado das coisas e assiste-se a uma progressiva romanização do território e à criação de centros urbanos polarizadores do crescimento, pois a urbs é o símbolo por excelência da romanidade.

É nessa data que a anterior Provincia Ulterior se divide em Lusitânia e Bética, fazendo parte dela, genericamente, a região compreendida entre o rio Anas e o extremo norte da Península.

Continuam, contudo, ainda confusas as fontes latinas no que se refere à delimitação da Lusitânia, encontrando-se em Estrabão a definição do seu território do seguinte modo «A norte do Tejo estende-se a Lusitânia (…). Delimitam esta região do lado sul, o Tejo, do lado oeste e norte o oceano (Atlântico), a este, as terras dos carpetanos, vetões, vaceus e os galaicos, apenas para citar os mais conhecidos. Os restantes povos não são dignos de menção pela sua reduzida dimensão e importância, embora, contrariamente ao que afirmámos, alguns autores modernos chamem também a estes Lusitanos» (Est. 3,3,3).
Aceita-se que, ainda ao tempo de Augusto, em 14 a.C., o território a norte do Douro terá saído da Lusitânia, passando a entrar na esfera de influência da Citerior ou da Tarraconense.

Mas nem assim podemos encontrar correspondência entre a província romana e o território actualmente português, sendo difícil aceitar, deste modo, a filiação étnica a que nos quiseram confinar ao longo de séculos de História.

Não, não quero dedicar-me a «Viriato: genealogia de um mito», esse caudilho lusitano a que Amílcar Guerra e Carlos Fabião dedicaram um brilhante trabalho com esse nome de que tanto me socorri agora, trabalho onde se analisa a forma como se constituiu em seu torno uma mitologia nacionalista, pois foi o herói da resistência à ocupação romana, apenas vencido pela traição, de cuja nascença nada se poderá fazer coincidir com o que virá a ser o território da Lusitânia e muito menos Portugal.

Mas é a esta Terra da Luz que quis dedicar umas linhas, pese a dificuldade em defini-la como geografia ou etnia.

Terra conquistada que foi por Romanos ao som da guerra, como diz Carlos Fabião, teve Marte como companheiro, «o deus da guerra na complexa religiosidade romana, onde assumia também outras funções. Usualmente aparece representado com os atributos militares e, pode dizer-se, foi sob a égide desta divindade que se construiu o domínio romano na Península Ibérica».

É no fundo sob a égide de Marte que os Romanos chegam à Hispania, no contexto da II Guerra Púnica que opunha Roma aos Cartagineses que viam neste território um bom ponto de apoio para os seus exércitos. E é assim que, em 218, se dá o desembarque dos Romanos em Ampúrias e devagar se conquistam os principais núcleos urbanos do sudoeste da Península Ibérica e, no século II, já está desenhada a primeira divisão administrativa com a criação de duas Províncias: a Hispania Citerior, a oriente, e a Hispania Ulterior, a Ocidente, estando à frente de cada uma delas um Governador com o seu exército.

Durante todo o século II a.C., são conhecidas notícias de numerosos confrontos entre os governadores da Provincia Ulterior e grupos cuja origem étnica parece ser diversa, conhecidos genericamente por Lusitanos.

Desde 154 até 78 a.C.,surgem várias referências à cidade de Conistorgis (de localização desconhecida mas provavelmente no local da futura colónia de Pax Iulia/Beja ou um pouco mais a sul), primeiro como centro aliado dos romanos e alvo de ataques lusitanos e depois como aquartelamento legionário estratégico nas guerras civis do sudoeste peninsular.

Não me prenderei porém aqui com as lutas travadas no território hoje nacional, referindo apenas que o geógrafo Estrabão e o historiador Apiano nos dão nota da primeira grande campanha militar desenvolvida no ocidente em 138 a.C., tendo à frente Júnio Bruto, governador da Ulterior e que tinha o seu quartel-general sediado no Baixo Tejo, usandoOlisipo e Móron, muito possivelmente localizado em Chões de Alpompé, Santarém, confrontos esses que se alastrarão a outros locais do litoral atlântico na Provincia Ulterior.

Na década de oitenta do século I a.C., o Ocidente Peninsular e a Hispânia tornam-se palco de um conflito interno entre Romanos, a rebelião encabeçada por Quinto Sertório.

Data da década de 60 a.C. a passagem de Júlio César pelo governo da Ulterior e as importantes campanhas no entre Tejo e Douro, ficando grande parte desta zona ocidental sob domínio romano.

É com Octaviano, filho adoptivo de Júlio César, que se consuma a pacificação do território, e o desenho de uma nova estrutura político administrativa das províncias, a que não esteve isenta a Hispânia e, mais especificamente, o que hoje é território português.

Surgem as províncias e os conventos de que Pax Iulia, fazendo-lhe juz no nome, assume particular importância a Sul da Lusitânia.

A emergente Lusitânia, essa terra da Luz e do Ocidente, cruzamento multisecular de gentes e culturas, tem, contudo, ainda o seu destino ainda por cumprir e um grande esforço de pesquisa para fazer para que se conheça melhor a sua área de influência.

A ela me dedicarei, portanto, numa próxima crónica, deixando o repto para que nos acompanhem num blogue que lhe será dedicado, ou na página criada no Facebook, tentando apreender melhor, com a participação de investigadores, arqueólogos e cidadãos em geral, a sua fisionomia e as manifestações culturais que tanto rasto deixou a Lusitânia romana e pretendendo criar um banco de dados bibliográfico referente às suas cidades.
http://mirobrigaealusitania.blogspot.pt/
https://www.facebook.com/pages/A-Lusit%C3%A2nia/1601483676800140?ref=hl
Na imagem: Conduta de água dos balneários de Miróbriga. Fotografia Luis d’el Rey.


Filomena Barata, 
Mestrado em Arquologia, Universidade do Porto
Técnica Direcção Geral Património Cultural


Pretende-se que este espaço viabilize:

1 - uma maior permuta de conhecimentos científicos entre os territórios que outrora se relacionavam;
2 – A criação de um banco de dados sobre a Lusitânia;
3 - o conhecimento dos locais que aqui tratamos, através de visitas organizadas aos mesmos.

Temas aglutinadores:
Mundo Urbano
Mundo Rural
O Mundo dos Mortos

Vias de Comunicação

O Atlântico e o Mediterrâneo

A Religião

A Epigrafia

As profissões

A Circulação Monetária

Recursos;
Hídricos
Agrícolas
Mineiros
Minerais
Piscatórios

A construção civil
A produção cerâmica
A produção vítrea
A produção mosaísta
A ourivesaria

O Património Móvel - Museus e Centros Interpretativos.

A Memória dos Sítios

Informações gerais

Foi assim este blogue, como acima se menciona, para apoiar a página (http://mirobrigaealusitania.blogspot.pt/)

e é nossa intenção desenvolver uma plataforma mais estável do que o Facebook que permita salvaguardar todos os dados partilhados e criar um banco de dados sobre o Património Móvel e Imóvel romano, existente na Lusitânia.

É ainda nossa intenção interagir com investigadores, bem como com outros Grupos dedicados à Arqueologia Romana, sejam portugueses ou espanhóis, alguns dos quais com ampla e reconhecida experiência da divulgação científica e patrimonial, designadamente o Portugal Romano e o Terrae Antiqvae, entre outros.
Contamos com o vosso contributo e apoio!

Filomena Barata
https://independent.academia.edu/FilomenaBarata

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