segunda-feira, 18 de abril de 2011

Vamos conhecer o Forum de Miróbriga mais em pormenor?






CARACTERIZAÇÃO GERAL DE MIRÓBRIGA

1. O aglomerado urbano e a sua fundação

Topónimo muito frequente no Sul de Portugal, a zona onde se implanta o forum de Miróbriga, é conhecida vulgarmente por «Castelo Velho», e deve ter sido ocupada desde a Idade do Bronze.
A existência de uma ocupação sidérica no local que estudamos é confirmada arqueologicamente a partir do século V a. C. (SILVA e SOARES, 1979: 163; PONTE, 1979: 195) e, apesar das dúvidas levantadas quanto à sua designação e à identificação com a «Miróbriga Céltica», quer as suas características topográficas, quer a existência de uma muralha construída com aparelho pequeno e médio de pedra seca, característico da II Idade do Ferro, poderiam justificar o sufixo «briga» deste oppidum.
O radical deste topónimo tem contribuído, como acabámos de verificar, para que alguns autores associem a «Miróbriga Céltica» ao rio Mira, como já o admitira José Leite de Vasconcelos inclinando-se assim para que a sua localização se situasse em Odemira .
Marcada, possivelmente, por uma componente continental/«celticizante», Miróbriga tornar-se-á permeável às influências das regiões meridionais e costeiras (GOMES, 1994: 173), como o demonstram os materiais anfóricos de origem púnica aí encontrados (SILVA, 1979: 160).
Tratando-se de um oppidum fortificado que foi romanizado, a implantação latina de Miróbriga foi condicionada pela pré-existente ocupação e pela teia de relações estabelecida entre as comunidades da II Idade do Ferro (BERROCAL: 1992: 243-267).
A forma como se estruturou a própria ciuitas foi seguramente marcada pela organização territorial precedente, uma vez que a óptima localização do ponto de vista geo-estratégico, que lhe deve ter conferido, desde bastante cedo, importância como «local central» desfrutando, contudo, os membros destas comunidades de todos os direitos de cidadania romana e ficando submetidos a todo o tipo de imposições e cargas fiscais .
Sujeita à influência romana desde, pelo menos, inícios do século II a. C., como o demonstram os materiais arqueológicos aí exumados, como alguns espécimes numismáticos, que comprovam a existência de uma circulação monetária republicana (PEREIRA, 1997: 23); as terra sigillata itálica (FERRER DIAS, 1976-77: 362); algumas «paredes finas - grupo A» , datáveis de fins da República e inícios do Império (NOLEN, 1976-77: 425), ou mesmo as campanienses tipo B (ALMEIDA, 1964: 28; ARTHUR, 1983; BERROCAL, 1992: 116), Miróbriga terá tido uma ocupação plena a partir do século I d. C. , sendo construídas as infra-estruturas comuns às cidades provinciais , como o forum, na segunda metade da centúria.
A epigrafia confirma essa ocupação plena nos séculos I e II d. C.
Verifica-se em Miróbriga a incidência no uso dos tria nomina, reflexo seguro de uma profunda romanização e indicativos da cidadania (MANTAS, 1987: 39 e 19962: 357) mais comum na epigrafia urbana e rural, mas que em Miróbriga denuncia a origem de uma população de indígenas romanizados (ENCARNAÇÃO; 1984: 217-247). Apesar de não haver praticamente cognomina gregos nem indivíduos que se identificam com um único nome, como acontece nas zonas portuárias e industriais de Tróia e de Salacia (MANTAS, 1987: 39 e 19962: 364) há contudo algumas referências a libertos, como é o caso do testamentário da ara de Esculápio, Gaio Átio Januário (ENCARNAÇÃO, 1984: 218-220).



É provável que Miróbriga tenha também obtido a sua municipalização na época flaviana, e que tenha beneficiado do «Edito de Latinidade» decretado por Vespasiano em 73 ou 74 d. C. que concede o ius latii, sendo os seus habitantes inscritos numa das tribos romanas, neste caso a Quirina .
A existência de um magister em Miróbriga, Caius Iulius Rufinus, dedicante de uma ara a Vénus, e as funções que Marco Júlio Marcelo deve ter exercido, nomeadamente de edil e duúnviro (IRCP 150), confirmam a complexificação administrativa a que Miróbriga assistiu, correspondendo ao seu estatuto municipal (ALARCÃO, 1989: 244; ENCARNAÇÃO, 1996: 136).
A ara dedicada a Esculápio, para além da importância religiosa que assume, contém também informações de índole administrativa que importa reter. A referência a splendidissimus ordo que, apesar de não esclarecer o «estatuto administrativo do aglomerado populacional a que diz respeito, não especificando sequer, através dum desejável adjectivo, o nome desse aglomerado implica a existência duma organização de tipo municipal, splendidissimus, como é habitual» (ENCARNAÇÃO, 1984: 220; GONZÁLEZ BLANCO, 1996: 104).
Miróbriga trata-se, portanto, de um aglomerado dotado de ordo decurionum , logo de assembleia ou Senado local , que, como em tantos municípios, deveria sancionar quase todos os actos da vida local e, nomeadamente, a organização dos actos religiosos e do calendário festivo e lúdico e até, com toda a probabilidade, a existência de quinquatrus em Miróbriga.
Até ao século III confirma-se uma enorme vitalidade e uma ocupação intensa em Miróbriga, atestada pela concentração de materiais cerâmicos desse período, que tendencialmente vai diminuindo na segunda metade do século IV d. C., sendo muito escassas as importações de Terra Sigillata Africana (QUARESMA).
As razões que motivaram o abandono de Miróbriga não foram determinadas, mas os vestígios arqueológicos indicam uma gradual desactivação a partir do século IV d. C. (BIERS et alii, 1988: 10). No entanto, não se pode falar propriamente de um colapso, pois apesar do decréscimo que se verifica a partir do século IV, continuam a verificar-se importações de cerâmicas de origem africana a que se juntam trocas com o Mediterrâneo oriental (QUARESMA).

2. Características gerais do aglomerado urbano

Assentando num aglomerado anterior fortificado, de que desconhece a verdadeira dimensão, a urbanização romana de Miróbriga deverá ter-se adaptado à ocupação anterior e à topografia do local.
Os Romanos utilizaram, para além de outras zonas, o alto da «acrópole» ou fortificação pré-romana, dotada de uma muralha construída com pedra-seca , numa situação de domínio em relação ao território envolvente. Deverão ter utilizado a zona fortificada, na fase inicial de Romanização, se bem que rompendo com o amuralhamento em algumas zonas, como se pode verificar junto do templo centralizado.
Embora não sejam bem conhecidos o perímetro e a malha urbana da cidade, que só se poder clarificar com futuras escavações, é manifesto que Miróbriga não apresenta as características ortogonais do modelo ideal de urbanismo romano a exemplo de algumas fundações do território actualmente português, como Ebora, Pax Iulia, Bracara Augusta, Seilium (MANTAS, 1987: 40-55 PONTE, 1989: 11 ALARCÃO et alii, 1994: 71-81).
A dispersão dos vestígios e dos materiais arqueológicos romanos abrange uma área de cerca de 8/9 ha sendo, contudo, desconhecido se toda ela foi intensa e uniformemente ocupada . Os recentes trabalhos de prospecção coordenados por Félix Teichner da Universidade de Frankfurt apontam, contudo, para uma grande densificação da área.

Atendendo ainda às calçadas existentes, quer no local por onde actualmente se faz a entrada em Miróbriga, quer a Norte do Forum, é óbvio que todo o aglomerado se estendia pelas áreas limítrofes à actualmente vedada.
As prospecções efectuadas na zona limítrofe e os achados materiais fazem-nos concluir, não obstante, de uma área de dispersão do núcleo urbano semelhante a algumas pequenas cidades da Hispânia, inserindo-se, portanto, no contexto conhecido das províncias ocidentais .
Ainda mal conhecido em toda a sua extensão, este aglomerado urbano distingue-se pelo seu Forum, pela zona residencial e comercial, pelo seu complexo termal (um dos melhor conservados em território peninsular), pelas suas calçadas, pelos seus sistemas hidráulicos, pela sua ponte e ainda pelo seu hipódromo, o único exemplar de planta conhecida em território português.
Sobre essa linha de água existe uma ponte que deveria funcionar, fundamentalmente, para criar um vão debaixo do qual corriam as águas provenientes dos esgotos que drenavam para a cloaca, localizada junto às «Terma Este».

O CONJUNTO FORENSE DE MIÓBRIGA




1. O forum - características gerais


Mais do que em qualquer outro lugar do Império, no Ocidente, onde a arquitectura urbana se afirma tardiamente, o forum «representa o local no qual se concentram todos os símbolos da dignidade municipal, os edifícios administrativos e religiosos que definem a paisagem urbana e no qual as gerações que se sucedem, qualquer que seja o estatuto da cidade, adquirem a consciência de pertencer a uma comunidade». Os seus monumentos são a «verdadeira memória da cidade (...) da sua autonomia, e das suas relações com o poder central» (GROS, 1992: 339).
A par de Munigua, Tarragona (GRÜNHAGEN, 1970: 101; GROS e TORELLI, 1992: 280-81; HAUSCHILD, 1992: 133), Bilbilis , localizada num ponto alto onde o forum e templo dedicado ao imperador se destacava de todo o aglomerado urbano (MARTÍN BUENO, 1987: 101; PINA POLO, 1993: 91) e Saguntum , construídas em locais acidentados, onde é necessário vencer desníveis (JIMÉNEZ, 19872: 174; ARANEGUI et alii, 1987: 73, 1994: 73), ou ainda Iuliobriga, onde as edificações se adaptam à topografia através de terraços (IGLESIAS-GIL, 1994: 209; FERNÁNDEZ VEGA, 1993: 23), Miróbriga é um dos bons exemplares de implantação em patamares da Península Ibérica.
O aspecto cenográfico é acentuado, porque construindo-se o forum em terraços, na zona mais elevada, onde existira o povoado da Idade do Ferro, a zona central da cidade é visível de quase toda a povoação. Um podium e um templo centralizado coroam, por seu lado, a praça pública .
O enquadramento com pórticos e a sua elevação em relação ao nível da praça, dominando todo o forum, foram, aliás, características comuns aos edifícios religiosos em período imperial (JIMÉNEZ, 19872: 175).
Presidindo a todo o conjunto forense, com a fachada principal do templo orientada para a praça pública, o forum de Miróbriga parece, assim, corresponder ao esquema básico de um forum romano ocidental, do início do período imperial (JIMÉNEZ, s/d: 49).
O traçado da praça segue uma orientação Noroeste/Sudeste .
Se bem que os resultados publicados das sondagens efectuadas na praça pública pela equipa luso-americana no forum não sejam suficientes para podermos aferir cronologias, um facto é que, do ponto de vista arquitectónico, o programa do forum aparenta ser o mesmo. Inclinamo-nos a admitir que todo o conjunto monumental deverá ter sido construído na segunda metade do século I d. C., na época flávia, correspondendo muito possivelmente às obras que andam associadas à municipalização .
Os materiais arqueológicos provenientes de algumas sondagens efectuadas no canto sudeste do forum pela equipa luso-americana, onde foram exumados, sob o pavimento, fragmentos de Terra Sigillata itálica e sudgálica, datáveis entre o período tiberiano e flaviano (BIERS et alii, 19811), e os da época de Cláudio ou Nero, encontrados abaixo do nível do pavimento da calçada que se desenvolve a Sul , numa cota bastante mais baixa, junto às tabernae, parecem apoiar a hipótese da intervenção monumental no forum se ter realizado, efectivamente, no período flávio.
A praça pública era porticada e ladeada de inúmeras construções cuja função deveria corresponder às comuns a um forum provincial alto-imperial de pequenas dimensões e uma Basílica asseguraria a administração da justiça e permitiria o comércio e na Cúria decorreriam os actos administrativos e eleitorais.
A zona ao ar livre era rodeada de pórticos de todos os lados, porque admitimos que a mesma fosse completamente fechada. Kathleen Slane defendeu que o forum tinha pórticos dos três lados (BIERS et alii, 1988: 15). No entanto, se se aceitar que junto às alae do templo centralizado havia uma zona porticada, que fechava a praça do lado norte, e que o mesmo se passaria no topo sul, temos então um forum ocluso, característico do período imperial, que se assume como um espaço sob o «controlo dos deuses e do imperador» (BALTY, 1994: 96).
A partir de finais da época republicana ou melhor da construção do Forum Caesaris ou Forum Iulium em Roma, iniciada em 51 a. C. e que se tornará rapidamente num modelo, pelo seu rigor planimétrico e poder simbólico, centrado no templo dedicado a Venus Genetrix (GROS, 1996: 212), a arquitectura forense foi-se alterando. Passa a vigorar a ideia de uma praça porticada dos três lados, rodeada de tabernae ou de outras construções, templo ao fundo e basílica no extremo oposto (MORA e ORIA, 1991-92: 121), ou seja o forum bloco. A praça passa a ser fechada à circulação viária e a unicidade de acesso à mesma rompe definitivamente com o sistema aberto do forum tradicional (GROS, 1996: 212-13).
Esse modelo fechado foi o mais difundido em todo o Império em função do próprio desenvolvimento do culto imperial: «tímida ainda nos inícios do Império, a divinização do imperador triunfou sob os imperadores flávios» (ALARCÃO, 19922: 91) contribuindo para que se erguessem recintos exclusivamente consagrados ao culto imperial.
Assiste-se, portanto, a uma perda de protagonismo na manifestação do culto da tríade capitolina em função dos cultos dinásticos, mais ou menos directamente ligados à pessoa do imperador (JIMÉNEZ SALVADOR, 19872: 173; BALTY, 1994: 94). A noção de axialidade ganhou, assim, um grande impulso, vindo o culto dedicado ao imperador a reforçar esta centralidade.
Por outro lado, o desenvolvimento das actividades administrativas e judiciais que se prende com o desenvolvimento das próprias instituições romanas determinou a separação funcional e física das funções administrativas e religiosas, permitindo o protagonismo crescente da Basílica. A Basílica torna-se fundamental ao conceito alto-imperial, e sobretudo augustano, de forum, enquanto que a Cúria foi perdendo representatividade entre os esquemas monumentais.
O mesmo se verifica em relação aos edifícios comerciais que passam a agrupar-se em mercados independentes (JIMÉNEZ, 19871: 173).
Em território actualmente português também se fazem sentir essas alterações ideológicas. Se, por um lado, a construção do forum augustano de Conímbriga inclui templo, basílica, cúria e tabernae porticadas que ocupavam os lados menores do complexo arquitectónico, concentrando portanto as funções religiosas, administrativas e comerciais, já no forum flaviano «foram expulsos administração e comércio» (ALARCÃO, 1988: 67 e 72; 19922: 91) .
Em Miróbriga também parece, de algum modo, confirmar-se esta alteração ideológica, uma vez que no forum se instalam somente os edifícios administrativos e religiosos (BALTY, 1991: 403). No entanto, e se bem que não exista propriamente um edifício destinado a ser mercado - macellum - as tabernae são afastadas do centro do conjunto forense, desenvolvendo-se nas áreas limítrofes, como veremos noutro ponto deste trabalho.
Todas estas alterações contribuíram para a concepção de um modelo construtivo, presidido pela oposição topográfica entre templo e basílica, protótipo que ganhou grande divulgação no período imperial e que colaborou no aspecto fechado que se verifica nos fora do período alto-imperial (JIMÉNEZ, 19872: 176). Por seu lado, a existência de uma zona porticada em alguns fora contribui para solenizar o espaço sagrado definido pela construção religiosa, segundo os modelos de forum da dinastia júlio-claudiana (JIMÉNEZ, 19871: 52).
A posição tradicional da basílica, frontal ao templo, ou seja, com os eixos do templo e da basílica perpendiculares, que Ward-Perkins denominou basilica-forum type, não se parece verificar, contudo, em Miróbriga.
Embora se tenha levantado a hipótese de poder ter existido uma grande construção frontal ao templo, com funções de Basílica, ocupando todo o lado sul do mesmo, sustentada pelas tabernae que aí se desenvolviam, a uma cota inferior, e que poderiam ter exercido uma função similar a um criptopórtico, é um facto que os vestígios arqueológicos existentes, nomeadamente os restos de um grande talude de contenção que se eleva até a uma altura assinalável, não nos permitem demonstrar essa ideia, pois a construção teria que ser estreitíssima. Admitimos, portanto, que a praça seria fechada também desse lado sul, mas utilizando como oclusão os pisos superiores das tabernae que se desenvolviam até essa cota.
A opção de localizar uma Basílica do lado oeste da praça, paralela ao seu eixo longitudinal, como julgamos acontecer em Miróbriga, é comum a outros fora, nomeadamente às edificações augustanas de Conímbriga e de Emporiae, a Bilbilis , cuja construção é datável de Augusto-Tibério (MARTIN-BUENO, 1987: fig. 2; JIMÉNEZ, 19871: 116; GROS, 1994: 96) e ainda a Saguntum (ARANEGUI et alii, 1987: 90-92; ARANEGUI, 1994: 74).
Em termos gerais, o modelo básico de fora construídos na Hispânia, em período imperial, é caracterizado pela combinação de três elementos fundamentais: templo, praça e basílica (JIMÉNEZ, 19871: 116).
Em todo o mundo romano, a basilica forensis é, normalmente, um espaço relativamente grande (segundo os cânones vitruvianos é um espaço rectangular mais ou menos alongado, spatium medium, rodeado por uma colunata que define um deambulatório, porticus), onde um dos lados mais compridos dá para a praça pública (GROS, 1996: 235).
Na Península Ibérica a maioria destas construções são efectivamente rectangulares, de proporções variáveis, tendo o seu comprimento pelo menos duas vezes mais do que a sua largura. Têm normalmente uma colunata no seu interior que define um espaço central à volta do qual se desenvolve um deambulatório que, muitas vezes, toma o aspecto de um pórtico do lado virado para o forum (GROS, 1996: 248).
Na maioria dos casos em que a basílica se desenvolve lateralmente, o seu comprimento corresponde à largura da praça (JIMÉNEZ, 19871: 46), o que aliás parece acontecer em Miróbriga, onde a largura da praça é de 22,08 m e o comprimento da basílica e construção anexa (Cúria?) é quase o mesmo (19,50 m).
Em Miróbriga a construção que interpretámos como basílica tem uma só nave, à frente da qual, na fachada que dá para a praça pública, se desenvolveria uma colunata. Esta zona porticada delimitava uma espécie de deambulatório que corria ao longo da Basílica e da Cúria (?).
Edificada numa posição frontal em relação à basílica, existe uma construção, identificada por D. Fernando como «casa de peristilo», cuja funcionalidade continua indefinida. A sua planta, centrada num pequeno podium ladeado por escadas, sugeriu-nos a existência de um altar. No entanto, o átrio possivelmente porticado e revestido a opus signinum coloca-nos algumas questões quanto à sua interpretação.
Chegámos a admitir, numa primeira fase, a hipótese de se tratar da cúria, uma vez que, ao longo dos muros que se desenvolvem no compartimento centrado pelo átrio, se adossam umas banquetas, que poderiam ter servido como assentos. Apesar da sua presença identificar, muitas vezes, as cúrias (BALTY, 1991: 33), não encontrámos, contudo, quaisquer paralelos seguros para uma construção com as características da de Miróbriga , embora a cúria de Sabathra tenha alguns aspectos que se assemelham ao nosso edifício. Naquela edificação o acesso fazia-se através de uma espécie de átrio colonado, que tinha no eixo da entrada uma exedra absidiada. Era através desta zona porticada que se passava à aula propriamente dita, que se desenvolvia em degraus, e onde existiam, aí sim, banquetas ao longo de uma das paredes (BALTY, 1991: 34).
Em Miróbriga só com muita imaginação se poderia conjecturar que a aula seria um dos compartimentos anexos, do lado sul, a essa zona porticada. No entanto, a existência de um podium axializado com a entrada, onde possivelmente se colocaria uma estátua, tem algumas semelhanças com outras cúrias africanas,como a de Palmira (BALTY, 1991: 52), e os desníveis ou degraus existentes no pavimento lembram muito outras construções com essa função, existentes nas Províncias Ocidentais.
A sua localização, do lado direito da praça pública, formando um segundo eixo na mesma, perpendicular ao marcado pelo templo centralizado, situação que é bastante comum nas cúrias (BALTY, 1991: 82 e 402), contribuiu também para levantar a hipótese de se tratar de um edifício com essa função.
Contudo, não será de excluir a possibilidade de a mesma se tratar de uma biblioteca ou de um tabularium, embora na Hispânia apenas se conheça um exemplo atribuído a Munigua (JIMÉNEZ, 19871: 72; HAUSCHILD, 1992: 140).
As referências de D. Fernando de Almeida ao aparecimento num dos compartimentos contíguos de duas pequenas mós (ALMEIDA, 1964: 30) contribui para acentuar as dúvidas quanto à sua funcionalidade. As intervenções efectuadas por esse investigador nas duas colunas de quadrante, quase integralmente reconstruídas, colaboram também na dificuldade de interpretar a planta desta estrutura. Infelizmente, não existem evidências seguras quanto ao local da sua implantação nos sítios onde agora se encontram, pois apenas uma delas apresenta uma base pétrea, estando a outra assente numa base cerâmica que nos parece ser «restaurada», num nível mais baixo. No entanto, numa fotografia publicada em Miróbriga dos Célticos são visíveis, de facto, duas colunas, se bem que uma delas, mais a Poente, aparente ter outra localização.
Mesmo tendo em atenção que a existência da cúria, como edifício destinado a sede oficial do Senado do Município ou da cidade, fazia parte obrigatória da administração local e era imprescindível nos municípios recém-fundados (BALTY, 1991: 82; GROS, 1996: 263), como é o caso de Miróbriga, é um facto que foi gradualmente perdendo a força entre as construções do forum, tal como aconteceu com os templos dedicados à tríade capitolina .
Deste modo, a cúria de Miróbriga parece coadunar-se melhor com a construção que se desenvolve do lado oeste do forum, anexa à basílica , que mede interiormente 7,20 m (24 pés) x 5,40 m (18 pés), com um compartimento de pequenas dimensões na parte de trás, situação que se assemelha à de Khamissa (BALTY, 1991: 93 e 216).
A maioria dos muros deste edifício medem 60 cm, à excepção do que o fecha do lado sul, mais largo.
Em Conímbriga, na época flávia, é construído um novo forum de características meramente religiosas e edificou-se um novo templo (próstilo, tetrástilo e pseudoperíptero) rodeado de um pátio e de um pórtico com criptopórtico, consagrado ao imperador (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 111). Essa intervenção arquitectónica obedece, de algum modo, à política de fomento municipal de cariz marcadamente imperial que é feita sobre o antigo forum .
Em Conímbriga, a única entrada do forum flaviano é axializada em relação à cella do templo (e, portanto, para a estátua de culto), contribuindo para acentuar o triunfo da majestade do soberano e o aspecto fechado do forum (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 111 e lâm. XII). Ainda com essa finalidade, o podium torna-se mais destacado.
Em contrapartida, as entradas no forum de Miróbriga seriam duas, fazendo-se respectivamente pelo lado oeste do forum, a Norte e pelo lado sul da Basílica. Uma escadaria escavada na rocha permitia aceder, numa primeira fase, das tabernae ao forum, ligando-se directamente à calçada que existia a sudoeste do conjunto monumental. Esta entrada permitia uma leitura mais grandiosa do forum e do templo centralizado. Como já anteriormente referimos, esta escada é, em data que se desconhece, fechada.
Ainda do lado sul do forum, e oposto à entrada a que nos referimos, existia uma construção semicircular que se poderia tratar de um aedicula, para albergar a imagem de uma divindade , e que D. Fernando de Almeida interpretou como rostrum (ALMEIDA, 1964: 55), até porque, encostado, se encontrava o pedestal onde estava inscrita uma dedicatória a Gaio Ágrio Rufo, adoptado como cidadão de Itálica (ENCARNAÇÃO, 1984, IRCP 151).

Este pedestal de «mármore de S. Brissos» foi colocado por D. Fernando em cima de uma base localizada entre o acesso ao templo absidial e a calçada por onde se entrava, a Noroeste, no forum (ALMEIDA, 1964: 55).
Para esta construção absidial encontrámos um bom paralelo em território português, pertencente a Tongobriga. Nessa cidade, junto à entrada do forum, foi identificada uma edificação onde se albergava uma ara com inscrição nas quatro faces.
A utilização de plantas absidiais, muito comuns na arquitectura civil e religiosa desde início do Império com a finalidade de glorificar, parece, no caso de Tongobriga, dedicar-se aos deuses protectores do aglomerado (DIAS, 1997: 66).
Em Miróbriga, muito próximo da construção que interpretamos como aedicula foi implantado um grande silhar de 90x 60 cm ao qual foi chumbada uma argola de ferro, já referido por D. Fernando de Almeida , que provavelmente estava associado a essa obra, porque nela poderia ter assentado qualquer escultura. Ainda bastante perto da aedicula, encontra-se uma base que mede 78 x 87 cm, que poderia, por seu lado, ter pertencido ao pedestal deslocado.
Não aceitamos, deste modo, a ideia de a edificação semicircular se tratar de um rostrum, que, a ter existido, se poderia situar em frente ao templo, ulilizando a cenografia do podium ou pulpitum.

2. A modulação do conjunto forense: os sistemas construtivos








O forum de Miróbriga pode considerar-se de pequenas dimensões se comparado com outros fora da Lusitânia, nomeadamente alguns situados no actual território português. Segundo Jorge Alarcão, o forum pacense deveria medir 80x160 m, ocupando a basílica o lado sul do mesmo e destacando-se perpendicularmente a ela a cúria, de planta quadrangular (ALARCÃO, 1992:78); o de Conímbriga mediria 23,60x36,80 m, respeitando do ponto de vista da sua modulação os cânones vitruvianos (ALARCÃO e ETIENNE, 1977, I*: 99) e a praça pública de Tongobriga rondaria os 90 m de comprimento por 60 m de largura (DIAS, 1997: 65).
Segundo Vitrúvio (De Architectura, V.1.2), o forum deveria ter uma largura igual a dois terços do comprimento , o que não acontece em Miróbriga se tivermos em atenção apenas a praça a céu aberto.
A largura da praça a céu aberto é de 22,08 m (73 pés). O comprimento até ao podium varia entre 25,50 m (85 pés) e 26,40 m (88 pés), tendo em conta as zonas salientes e reentrantes do mesmo.
A praça pública ao ar livre tem, portanto, o aspecto mais quadrangular a que nos referimos, a exemplo de outros fora que, embora mais monumentais, se inscrevem no grupo constituído por recintos dotados de praças quadrangulares, como são exemplo Bilbilis , Baelo Claudia e Emporiae (JIMÉNEZ, 19871: 89; LÈON, 1993: 46), e que alguns autores quiseram filiar nos principia (GROS e TORELLI, 1992: 348; EUZENNAT, 1994: 197-203) .
No entanto, se considerarmos o total da praça de Miróbriga, contando o sítio onde fecha, junto às alae do templo centralizado, ela assume um aspecto mais rectangular medindo o comprimento total da praça quase duas vezes a largura da mesma, podendo definir-se seis módulos. Por seu lado, o seu comprimento pode subdividir-se em três partes, ou módulos: do podium até às alae mede um terço; o resto da praça dois terços, aproximadamente.
Por seu lado, o templo centralizado tem de largura um terço da largura da praça pública. Ladeado por duas alae, em forma de L, que fechavam a praça e que ocupavam, por sua vez, aproximadamente dois terços da largura da mesma (um terço cada uma) , pode dizer-se que o forum era dominado na íntegra por este edifício religioso.

O Forum de Miróbriga. Fotografia de Filomena Barata. 1995


O podium de Miróbriga , construído em opus caementicium revestido com placas calcárias, deveria medir 1,50 m de altura (apesar de muito reconstruído em alguns locais, é clara a construção original) por 15 m de comprimento, na zona mais próxima da praça pública (50 pés). Esta construção tem também um aspecto bastante cenográfico, formando como que nichos rectangulares e curvilíneos, possivelmente influenciada num pulpitum de um teatro (BIERS et alii, 19811: s/p; ALARCÃO, 1990: 465). O acesso ao templo fazia-se através das escadas laterais do podium .

A maioria dos muros das construções que rodeiam a praça medem 60 cm (2 pés). Apenas diferem os muros do topo sul do forum, que medem 70 cm, e os do templo centralizado, que têm 90 cm em média.
A Basílica, por seu lado, não corresponde aos cânones vitruvianos, porque o seu comprimento não mede duas vezes ou três vezes a largura, nem tão pouco se assemelha a uma nave rodeada de pórticos. Esta construção mede internamente 13,80 m (46 pés) x 9 m (30 pés) e tem apenas uma nave. No entanto, se adicionarmos o compartimento que se lhe anexava, correspondendo à Cúria, temos um comprimento total das duas construções de 21, 9 m (73 pés) que perfaz mais que o dobro da largura exterior das mesmas (10, 20 m  34 pés) conferindo um cariz mais canónico ao conjunto.
O opus incertum é o aparelho de construção mais utilizado em Miróbriga, de acordo com o que se passa no resto da Hispânia. De tamanho médio, a maioria dos blocos pétreos utilizados varia entre os 20 a 30 cm. Em algumas construções de Miróbriga, a exemplo das termas e das tabernae, é usado o opus quadratum em «zonas principais» e muito excepcionalmente as opera mixta .
O aglutinante mais usado em todo o aglomerado urbano é uma argamassa com base de cal e areia, possivelmente de origem fluvial, aliás já considerada por Vitrúvio como a mais aconselhável, caso não existissem pedreiras (De Architectura, II, 4, 2) a que se adiciona, por vezes, uma terra argilosa .
No forum, tendo em vista dar regularidade ao paramento externo da maioria dos muros construídos em opus caementicium, que deixavam a sua face externa com um aparelho de pedras irregulares, opus incertum, foi utilizado quer o revestimento com estuques, como se pode ver na entrada norte do mesmo, quer com placas calcárias.
Algumas dessas placas calcárias (calcário fétido de S. Brissos) estão ainda in situ como acontece no podium e nos muros que fechavam o forum do lado este e sul. No podium reconhecem-se também os encaixes onde essas placas se agarravam ao aparelho construtivo, que deveriam funcionar como lambris (ALMEIDA, 1968: 93). Este tipo de intervenção é muito comum em período alto-imperial, pois, a partir de Augusto, acentuara-se a «moda» de dar uma aparência marmórea e sumptuária aos monumentos (RODÀ, 1994: 324), copiando, aliás o que se passava em Roma.
Não é pois de admirar que mesmo nas mais longínquas fundações se quisesse imitar, à medida local e sem nunca atingir os níveis verificados na capital ou nas cidades italianas, a grandiosidade romana. Apesar de alguns investigadores considerarem que os reflexos dessa «nouvelle mode» foram muito rapidamente assimilados em todo o império (KEAY, 1995: 305), parece, contudo, que esta nova atitude monumental foi introduzida um pouco mais tarde nas cidades das Províncias Ocidentais, algumas das quais só assistiram ao fenómeno de monumentalização na dinastia flávia (HAUSCHILD, 1994: 200).
Em Miróbriga, a praça pública era pavimentada com blocos calcários (calcário fétido de S. Brissos) assentes em opus signinum, técnica que é comum às termas. Embora só algumas das placas que a revestiriam estejam ainda colocadas in situ, no entanto, são visíveis os negativos das mesmas em quase toda a praça.
A maioria dessas placas são rectangulares e, tendo em atenção o seu negativo, mediriam 1,50x0,60 m. Atendendo à largura da praça que mede 22,08 m seriam, pois, necessárias na largura trinta e cinco placas, uma vez que elas têm o seu lado maior paralelo ao comprimento da praça. Nos cantos ou reentrâncias foram utilizadas algumas placas praticamente quadrangulares, medindo 0,75x0,72 m, que contribuíam como que para rematar o pavimento, como se pode verificar junto ao podium e nas zonas anexas à basílica.
Tendo em atenção o comprimento da praça que é de 25,15 m, seriam necessárias dezasseis placas rectangulares e uma praticamente quadrangular (com 0,72 m comprimento). Utilizando essa associação, teríamos uma soma de 24,72 m que, se contarmos com as juntas, perfaz praticamente a totalidade da praça.
O aspecto monumental é reforçado pela sua construção em patamares, como já referimos anteriormente, cortando e aplanando a xistosa rocha para criar várias plataformas. Esta situação é bem visível no lado norte do forum, onde um grande muro de contenção foi construído para vencer a diferença de alturas existente entre as duas plataformas: a mais alta onde se localiza o templo centralizado e o templo de Vénus e a praça pública propriamente dita , a uma cota mais baixa. Esta situação repete-se também no declive sul do forum onde foi feito um terceiro talude em opus caementicium, a que se adossam as tabernae.
Os taludes construídos verticalmente entre as duas primeiras plataformas usaram também opus caementicium revestido aqui com estuques, alguns dos quais pintados. Para o comprovar há o negativo feito a compasso com elementos decorativos, localizado junto à escadaria de acesso pelo lado oeste do templo centralizado. Este revestimento contribuía para dar um aspecto mais uniforme e grandioso à praça.
Paralelamente a esse talude existe uma calçada por onde se entrava, pelo lado Noroeste, na praça pública.
Esta mesma entrada dava acesso, através de uma escadaria, a um outro edifício de planta absidial, à qual tem sido atribuído o culto a Vénus. A orientação desta construção obedece à mesma do forum, sendo praticamente paralela ao templo centralizado.

Embora a epigrafia ateste o culto a Vénus em Miróbriga, não podemos contudo confirmar se este era efectivamente um templo dedicado a essa divindade.

Não deixo, não obstante, de referir que durante as campanhas dos anos noventa, após fortes chuvadas, apareceu um par de brincos entrelaçados, denotando que haviam sido depositados propositadamente junto a esse templo. Executados num finíssimo fio de outro, o mesmo do início ao fim da peça de enorme singeleza, os brincos tinham pérolas pequenas, separadas entre si por nós desse mesmo fio de ouro.





De ambos os lados da escadaria que dava acesso ao templo possivelmente dedicado a Vénus, desenvolve-se o talude a que anteriormente fizemos referência e que se adossa ao afloramento xistoso cortado.
A poente deste templo e praticamente anexas a ele, se bem que com uma orientação diferente, existem várias construções, edificadas em opus incertum, cuja função se desconhece, porque ainda não foram escavadas na íntegra. Deveriam articular-se com as tabernae que se desenvolvem paralelamente, mas a cota mais baixa, correspondendo à plataforma por onde se fazia a entrada, pelo lado norte, na praça pública.


3. O templo centralizado

Vários são os exemplos de arquitectura religiosa no território actualmente português .
Segundo Vitrúvio (De Architectura, III. 2, 2), os templos, ou melhor dizendo, aedes in antis - por templum é entendida a plataforma ou terraço onde se elevava o altar ao ar livre - têm muros laterais que se prolongam para a frente da cella, a parte essencial da aedes, onde se conserva uma estátua da divindade ou um símbolo sagrado  e que constituem as faces laterais do pórtico ou pronaos. Entre elas deverão existir duas colunas. Por cima existirá um frontão que ajuda a suster a cobertura.
Segundo este autor dos primórdios da época imperial, o templo, aqui utilizado como sinónimo de aedes, e a estátua devem estar virados preferencialmente para o Ocidente para permitir que, quando os devotos para aí dirijam o olhar, enfrentem também o Oriente. Caso não seja possível, deverá ter debaixo dos seus olhos o maior número de devotos possível (De Architectura, IV. V. 2 , 3 e 5).
Adverte ainda para a localização indicada para erigir os templos, sugerindo que os templos de Júpiter, Juno e Minerva deverão estar situados em pontos altos, dominando a cidade (I, XII, 4), portanto, num ponto proeminente do aglomerado (De Architectura, IV.V.4).
Em território português os edifícios religiosos conhecidos têm em comum exactamente a localização num ponto elevado (HAUSCHILD, 1989-90: 72) em relação à platea, obedecendo, deste modo, aos cânones vitruvianos.
Em Miróbriga, no mais alto dos patamares do forum de Miróbriga foi edificado, como já referido, um templo, que T. Hauschild admite poder interpretar-se como próstilo (HAUSCHILD, op. cit.: 72), muito provavelmente dedicado ao culto imperial, cujo podium coroa a praça pública.
Esse templo foi, como já fizemos referência, objecto de escavações e de reconstruções efectuadas nas campanhas de D. Fernando de Almeida e apresenta, nos nossos dias, um aspecto cenográfico que domina toda a praça pública.
Alguns desses restauros dificultam, em algumas zonas, a verificação da planta inicial, fazendo-nos mesmo duvidar da forma como o edifício poderia funcionar, nomeadamente uma abertura central que foi entaipada e onde se construiu uma parede cimentada para ajudar a suportar o peso das colunas que D. Fernando aí colocou. D. Fernando refere mesmo que «o rectângulo é a base e aquela parede, em tempos continuada para cima, servia de separação entre a cela e o pórtico, ligados pela porta bem clara, nos seus alicerces, entre os dois troços deste muro» (ALMEIDA, 1964: 28).
Este investigador acrescenta ainda que no seu interior encontrou moedas, terra sigillatta do século I, dois fragmentos de cerâmica «tipo campaniense» e, na zona mais baixa da escavação, junto ao solo virgem, uma zona de carvões e muitos objectos metálicos (ALMEIDA, 1964: 28).
Na campanha de 1996, foi feita uma sondagem no interior da cella, tendo-se concluído que o acesso ao templo se deveria fazer por uma escada que descia, uma vez que a cota da cella era muito mais baixa do que a plataforma do pronaos. Detectou-se ainda que as fundações do edifício se faziam a uma cota aproximada de 2 m abaixo do nível onde foram implantadas as colunas, como já o havia verificado a equipa luso-americana (BIERS et alii, 19812) . Não se conseguiu encontrar qualquer nível correspondente ao pavimento, que poderá ter sido rebentado em escavações anteriores, pois no meio dos entulhos com que posteriormente foi cheia a cella há grandes blocos revolvidos de opus signinum. Nesses níveis mais baixos encontraram-se cimentos recentes, que devem datar da altura da reconstrução do edifício.
Através de uma fotografia publicada por T. Hauschild, verifica-se que algumas partes da construção foram mesmo desmontadas para, em seu lugar, serem reedificados novos muros (HAUSCHILD, 1989-90: lâmina 3, 2.). Conclui-se que a cella era construída em opus incertum e que nos cantos havia silhares de maiores dimensões, situação que actualmente não se verifica. Através da análise dessa fotografia, ficamos também na dúvida se os muros se estenderiam para o pronaos, uma vez que esses silhares de maiores dimensões parecem travar um dos cantos da cella. Nada indicia nesse registo fotográfico que a construção tivesse as colunas com a disposição que D. Fernando de Almeida lhe deu.
No entanto, em 1996, foi por nós encontrada numa acção de limpeza do Forum uma coluna adossada, junto às escadas que acedem, do lado oeste, ao templo centralizado. Os tambores desta coluna haviam sido colocados, em época que se desconhece, a servir de degraus das escadas. Um deles, de maiores dimensões, mede 43 cm de largura e 25 cm de espessura. Não conseguimos, no entanto, obter a altura total da mesma, porque verificámos pelo seu sistema de encaixe e pela articulação de todos os elementos - a coluna ia estreitando gradualmente - que falta pelo menos um dos tambores. Também desconhecemos que destino possa ter tido o capitel que a encimava.
Admitimos, portanto, que se possa tratar de um templo in antis, e que o mesmo pudesse ter colunas na fachada.
O templo in antis é o tipo mais rudimentar de edificação religiosa, da qual derivam construções mais complexas. Este tipo de construção, de que existem inúmeros exemplares na Hispânia romana , contrariamente ao que se verifica noutras províncias do Império, parece ter sido, tal como os templos perípteros (ou pseudoperípteros), um dos meios eficazes de difundir a romanização nas províncias hispânicas (BURGHOLZER, 1994, II: 78-79).
No território actualmente português, para além de Miróbriga, conhece-se uma construção de Almofala, que foi estudado e publicado por Helena Frade que o classifica como templo próstilo tetrástilo (FRADE, 1994: 1026), e que alguns autores haviam interpretado como edifício funerário (HAUSCHILD, 1989-90: 64). Escavações promovidas em Ammaia, coordenadas por Jorge Oliveira, vieram trazer à luz os restos de uma estrutura, que aparenta ter as características de um podium de um templo (OLIVEIRA et alii, 1996: 17 e 18), provavelmente in antis.
Segundo Vitrúvio (De Architectura, III. II. 4, 5) os templos in antis deverão ter entre as paredes duas colunas e os muros deverão ter a espessura das colunas (De Architectura, IV. IV. 5). Se o edifício tiver mais do que 20 pés em largura deverá ter, no frontispício, para além das pilastras, duas colunas na fachada entre os muros (De Architectura III. II. 4 e 5), que sustinham o frontão. Esta situação pode ter-se verificado em Miróbriga, pese a dúvida que existe sobre a proveniência das duas colunas centrais.
O edifício de Miróbriga, portanto, parece obedecer a algumas das características típicas dos templos etrusco-itálicos: dotado de pronaos e cella, com colunas na fachada e alae laterais (MARTA, 1990: 121) e frontalidade, fazendo-se a entrada só pela frente, através de degraus de número ímpar que, por sua vez, assentava num podium , a exemplo de muitos outros templos da Península (BLÁZQUÉZ, 1993: 471).
Do ponto de vista da orientação o templo centralizado de Miróbriga cumpre parcialmente as normas vitruvianas, porque a sua entrada está virada a Sudeste.
O acesso à parte superior do podium era feito, por seu lado, por duas escadas laterais , cujos degraus eram implantados na rocha escavada e que estão, do lado nascente, praticamente intactas.  Fot. 133. No cimo desse podium existiam centralizados os degraus por onde se fazia a entrada no templo in antis.  Ilust. 2.
A coluna adossada que se encontra presentemente no forum e aí colocada por D. Fernando de Almeida mede 3,62 m de altura, tendo a sua base 26 cm de altura e 51 cm de largura. O capitel mede 42 cm de altura.
Se tivermos em atenção os cânones vitruvianos, que defendem que a altura do capitel coríntio devia ter a espessura da coluna, e se compararmos com as medidas da que foi encontrada nos anos 90, poderemos dizer que em Miróbriga as colunas adossadas do templo poderiam ter tido, efectivamente, esse tipo de capitéis, pese embora o exemplar aí colocado tenha pertencido às termas.
Não obstante, mesmo admitindo-se que o templo de Miróbriga se pudesse tratar de um templo próstilo com quatro colunas na fachada, ou pseudotetrástilo, esta nunca poderia ter funcionado como na reconstituição apresentada por D. Fernando de Almeida. A existirem colunas, elas estariam colocadas à frente do pronaos e não à entrada da cella como se verifica na reconstrução efectuada.
O pronaos poderia ser fechado com muros laterais, isto se admitirmos que a coluna recentemente encontrada estaria adossada às paredes do templo. Por seu lado, a entrada para a cella far-se-ia pela porta que foi entaipada nesses trabalhos.
O templo centralizado de Miróbriga mede: no espaço interior do pronaos 5,4 m de largura (18 pés) por 2,10 m de comprimento (7 pés) e a cella tem interiormente 5,4m de largura (18 pés) por 7,20m de comprimento (24 pés). A largura do exterior do edifício é de 7,20 m (24 pés) e o comprimento total exterior é de 12 m (40 pés).
As alae, apresentando nos nossos dias uma aparência irregular que se deve, muito possivelmente, às fissuras, desmoronamentos, ou mesmo reconstruções efectuadas no conjunto do templo centralizado, deveriam ser regulares. Aliás, nos primeiros levantamentos efectuados por Dario de Sousa, ao tempo das escavações promovidas por D. Fernando de Almeida, essa regularidade parece mais óbvia.
Segundo os cânones, a espessura dos muros deveria corresponder à oitava parte da altura (o que em Miróbriga corresponderia a 7,20 m e, portanto, igual à largura do edifício). Aceitando-se que as colunas mediam efectivamente 3,62 m, como a que aí foi colocada por D. Fernando de Almeida, e que sobre elas ainda se desenvolvia um entablamento encimado por um frontão no frontispício, pode admitir-se que a sua altura se aproximasse desse valor, a partir da base do templo.
Um elemento arquitectónico em calcário, que se encontra do lado nascente do forum e que apresenta nos topos um prolongamento que funcionaria como sistema de encaixe, poderia ter pertencido à arquitrave do templo. No entanto, as suas dimensões 1,47x0,75x0,28 m , e mais especificamente, a sua largura, não se adaptam às do templo centralizado, cujos muros têm 0,90 m de largura, a menos que se admitisse que apenas pudesse encimar o frostispício.
Ainda segundo os cânones vitruvianos, a cella deverá ser um quarto mais comprida do que a sua largura, sendo a largura metade do comprimento no total (De Architectura, IV. IV. 1 e 2). Em Miróbriga, a cella do templo in antis obedece a esses princípios, se bem que o comprimento total da construção seja ligeiramente inferior ao dobro da sua largura. De notar, no entanto, que o edifício de Miróbriga tem a largura exterior igual ao comprimento interior da cella.
Pelas características dessa construção e das estruturas existentes no forum, anteriormente descritas, dificilmente se aceitará que este templo pudesse ser dedicado a Esculápio , parecendo-nos, deste modo, que esta construção de meados do século I, seria, de facto, consagrada ao culto imperial que, nas províncias ocidentais, teve o seu auge com a municipalização.



4. O Templo de planta absidial

Uma outra construção, de planta absidial, tem sido atribuída ao culto de Vénus (ALMEIDA, 1964: 26 e 71), baseando-se na arquitectura do edifício, comum, segundo D. Fernando de Almeida, a outros templos dedicados à mesma divindade e nos dados arqueológicos conhecidos.
Se, por um lado, a sua planta tem levantado algumas dúvidas, porque os templos basilicais são pouco usuais em edifícios religiosos, na Lusitânia , que aqui apresentam maioritariamente um aspecto rectangular (JIMÉNEZ, 19871: 53), sendo mais comum o seu uso em edifícios civis , é um facto que em Itália este tipo foi muito utilizado a partir dos começos da época imperial (GROS, 1996: 140).
O primeiro exemplar conhecido de «templo de abside» é exactamente dedicado a Venus Genetrix e foi construído em posição dominante do Forum Iulium para homenagear a origem mítica dos Iulii (GROS, 1996: 140).
Data de 2 a. C. a inauguração do templo de Mars Ultor que também apresenta uma planta da mesma tipologia, ocupando a abside um lugar na cella análogo ao templo de Venus Genetrix (GROS, 1996: 142).
No entanto, o aspecto cenográfico do templo dedicado a Venus Genetrix, construído sobre um podium de 5 m, poderá, a uma escala diferente, lembrar a localização sobranceira que no forum assume o templo absidial de Miróbriga. A escadaria pela qual se lhe acederia, contribuía para dar ao edifício um aspecto ainda mais imponente.
O facto de o culto a Vénus estar atestado em Miróbriga, quer arqueologicamente, através de fragmentos de uma estátua onde a deusa Vénus Capitolina é representada com a ânfora, quer através de epígrafes , contribuiu para que a associação se fizesse.
De facto, em Miróbriga existem duas inscrições dedicadas a Vénus a que já nos referimos: uma, cujo dedicante é Caius Iulius Rufinus, magister, indígena romanizado que adoptando o gentilício e um praenomen comum da gens Iulia, adoptou também o culto privilegiado da mesma gens (IRCP 146; ALARCÃO, 19852: 110) e que poderá ter desempenhado funções religiosas ; e outra, consagrada a Vénus Vencedora Augusta em honra de Lucília Lepidina (ENCARNAÇÃO, 1984: 224) .
A equipa americana, atendendo à planta do edifício, caracterizou-o como assemelhando-se a uma «basílica cristã» (BIERS et alii, 1988: 15).
O acesso a este templo fazia-se através de uma escadaria escavada na rocha que o une à praça pública, como anteriormente referimos. Esta construção, edificada relativamente perto do templo centralizado, é também construída em opus caementicium. O seu pavimento é revestido com opus signinum que assentava, por sua vez, numa obra com características semelhantes ao statumen. Não há vestígios de terem sido aplicadas sobre o mesmo quaisquer placas calcárias ou marmóreas. No centro da abside é visível uma base de altar.
O templo era dividido em três naves, medindo as laterais cerca de 4 m. A largura total do edifício é de 15 m e o comprimento é de cerca de 10m.

Relativamente às referências aqui citadas, poder-se-á a verificar na Bibliografia Geral de Miróbriga publicada neste blogue.

sábado, 2 de abril de 2011

No Feminino Negócios | Entrevistas | De Miróbriga aos “Itinerários”


No Feminino Negócios | Entrevistas | De Miróbriga aos “Itinerários”

[Setúbal na Rede] - Património

[Setúbal na Rede] - Património

O Alentejo, esse lugar (reed.)

Devagar, devagarinho me fui despedindo deste lugar.
Não do Alentejo a que sempre voltarei, ou a Miróbriga a que espero continuar poder continuar a estar ligada.

Mas há balanços que foram feitos, há lugares que foram tantas vezes revisitados que hoje necessito de me distanciar um pouco.

Novas tarefas me esperam e sei que tudo o que aqui foi escrito nelas se acabará por inscrever também.

Porque, como tantas vezes repeti, reencontamos sempre o que soubemos amar!



http://www.portugalromano.com/wp-admin/post.php?post=1135&action=edit

Porque, como tantas vezes repeti, reencontamos sempre o que soubemos amar!









À Mariana, sempre!
Ao Paulo, alentejano de Évora.
A todos os Alentejanos.










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Este blogue foi concebido como uma espécie de «diário de bordo» ou "caderno de campo" de algumas viagens no Alentejo, com destino previamente (ou não) marcado, e de percurso nem sempre livre, pois escolhido ao sabor do tempo disponível e das tarefas que havia que cumprir e a que não podia falhar.
Pretendia, quando o imaginei, fazer como que apontamentos de situações, de momentos, de sensações, fixando «paisagens humanizadas» ou de geografias físicas e afectivas vivenciadas.




Guardar imagens de sítios, de lugares, onde me parecia restar um equílibrio entre o território, os seus habitantes, a sua história, o seu Tempo.
À medida que algumas dessas imagens foram sendo editadas, visualizadas e a sua selecção efectuada, muitas questões se foram levantando.

Que faria agora com elas?
Porque se teria fixado neste lugar ou noutro lugar a minha "eleição"?
Onde residiria nas imagens retidas o "equílibrio" que causara ao meu olhar?



Porque julguei vislumbrar aqui uma harmonia e não noutro lugar qualquer?

Considerei então ser importante anexar a este trabalho de captação fotográfica um conjunto de perguntas, algumas das quais sem resposta, e de reflexões, de memórias, de testemunhos, onde tentasse espelhar o que, inconsciente ou conscientemente, me deveria ter motivado a fixar determinados momentos e situações.
Talvez porque, subjacentes, estejam preocupações que desde há longa data me acompanham, aspectos para os quais gostaria de ter certezas, quando o que me continua a perseguir genericamente são dúvidas e a angústia de não saber afinal como se tece o equíbrio da vida, das suas memórias e geografias afectivas.
De desconhecer o segredo dessa fina rede ou malha que torna os Humanos mais felizes num tempo e num lugar.
Exactamente porque, quem sabe se por motivos profissionais ou outros, incorremos tantas vezes numa leitura quase pragmática dos lugares que visitamos, pois já urge o tempo para problematizar e resolver, pouco restando para o «estar» ou «sentir», gostaria de tentar fazer com este espaço uma espécie de caderno de campo das impressões que me causaram alguns percursos, sítios e paisagens do Alentejo onde as «margias» e as «calmas» ainda se conseguem espraiar.
Tentar partilhar um pouco do equílibrio inexplicável que ainda reside em cada um desses sítios que parecem, afinal, querer fugir a todas as dúvidas ou a todas as certezas que sobre eles se semeiam, tão alheios que se mostram estar de todas as nossas reflexões. Simplesmente estão lá, como que ETERNOS!


E contar, a meu modo as histórias que com eles conheci.

Aprender também com eles a aceitar que a História tem a sua própria História. E os Sítios, as pessoas, os sentimentos têm tempo, desgastam-se, consomem-se, findam-se levando com eles estórias desvendadas ou eternamente encobertas.

E que não podemos fugir sempre a esse tempo, mascarando-o de uma possível Eternidade, plastificando-o até ao seu limite físico, como se tratasse do retrato de Dorien Grey. ..

Mas, também, paralelamente, é verdade, sobrevivem como que por milagre na memória de todos nós se soubermos contar histórias partilhadas, manter os rituais, dar sentido à Palavra.

Foi, assim, minha intenção partilhar uma busca, um olhar, como que uma reportagem fotográfica, mostrando os múltiplos caminhos, que tantas vezes atravessei, no encalço de um lugar pré-determinado ou de um lugar qualquer. Assinalando presenças físicas actuais ou passadas e as marcas que deixaram/deixam no território e na paisagem: das pessoas que se fixaram; das que apenas os atravessaram.

Quem sabe, talvez assim possamos beber um pouco delas, das suas vozes, dos seus silêncios, ou dos seus mistérios e segredos.
Permitindo assim aos múltiplos «utilizadores» dessas paisagens que, para cada uma deles, os lugares desempenhem um papel que é afinal também só seu e atingir, desse modo, a Eternidade que mais não é mais do que uma busca, uma projecção sempre solitária e pessoal.






Hoje, três anos passados do meu regresso a Lisboa, tenho a sorte no Grupo «Alentejanos no Facebook» com o qual tive a sorte de ter podido, praticamente desde o seu início, através do convite formulhado por Luís Milhano, propor uma abordagem temática que corresponde a um trabalho de fundo que gostaria de poder desenvolver sobre o Alentejo através dos seus recursos, tendo como pano de fundo os QUATRO ELEMENTOS: TERRA, ÁGUA, FOGO E AR.
Partia do princípio que a todos eles correspondia um conjunto de recursos e de actividades em seu redor.
A TERRA será a primeira a ser tratada, pois à volta dos recursos agrícolas, agro-pecuários e da pastorícia se fixaram as gentes, desde a Pré-História, no Alentejo.
As construções em terra e a olaria não são senão os devirados dessa TERRA MÃE.
A ÁGUA faz do Alentejo uma Mesopotâmia e foram os rios, as represas e barragens que permitiram alagar terras e fertilizá-las e ainda trocar produtos, pois muitos deles eram navegáveis e escoavam os produtos agrícolas e os minérios.
O FOGO permitiu manipular os minérios e produzir carvão. É o FOGO que permite que nos fornos do Alentejo se coza o pão e se faça o Borrego assado e tantos outros pitéus.
O AR, como essência etérea, é aqui o elemento que servirá de base para o tratamento do SAGRADO, pois também desde tempos imemoriais o Homem não só se fixou como se relacionou com o Divino de várias formas e de acordo com todas as culturas e povos que ocuparam este território.
Será também o elemento escolhido para representar a música, o conto oral.

Ao Luís Milhano continuo a agradecer ter-me convidado um dia para esta viagem nos «Alentejanos no Facebook» e a confiança que em mim depositou, podendo, deste modo, aprender cada vez mais a conhecer tão extraordinário território!

E voltarei sempre ao Alentejo!