sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O VOO DOS PÁSSAROS E O VALOR DAS AVES, Filomena Barata

Publicado em:
 http://www.incomunidade.com/v43/art.php?art=30

Filomena Barata


O VOO DOS PÁSSAROS E O VALOR DAS AVES


Voar sempre foi o sonho dos humanos. Recordo bem quando em criança, quando ainda não tivera a sensação de estar dentro de um avião, como via cidades de cima, planando por entre ruas casas e paisagens.

Certamente por esta vontade, pela Liberdade que para todos nós representa, ou quiçá porque estão mais perto do Céu, foi, desde a Antiguidade, atribuída essa capacidade a inúmeras divindades.

Mas existem também na Mitologia personagens a quem a possibilidade de voar demasiado alto foi castigada, como Ícaro, filho de Dédalo e de uma escrava de Perséfone, ou de Minos, de acordo com as lendas, quando tentava abandonar Creta voando, acabou por sucumbir.

Dédalo tido por grande inventor, um dos homens mais criativos de Atenas, trabalhava com o seu sobrinho Talo, de cuja educação cuidava.

Ao que dizem as lendas, Talo, um dia passeando-se pela praia, avistou as espinhas de um peixe e, inspirado pela sua forma, criou a primeira serra. Talvez possuído pela inveja, Dédalo teve a tentação de matar o seu sobrinho Talo, atirando-o de um penhasco. Contudo, antes que ele se estatelasse no solo, os deuses vieram em sua protecção, e o jovem foi transformado numa perdiz, que assim voou.

Mosaico romano com representação de perdizes. Museu Arqueológico Nacional de Madrid.

Tendo sido culpado de homicídio, Dédalo foi obrigado a deixar a sua cidade natal e refugiou-se em Creta, a célebre ilha do rei Minos. Aí, foi incumbido de construir um labirinto, onde o famoso Minotauro vivia aprisionado.

O labirinto foi elaborado de forma tão perfeita que até Dédalo teve dificuldade em sair dele, quando a ira de Minos contra ele se abateu, por ter ajudado Ariadne, filha do rei, a fugir com Teseu, o herói ateniense, que matou o Minotauro.

Foi assim que ambos decidiram construir asas artificiais com penas de aves de vários tamanhos, fixadas com cera de abelha para que não se descolassem, para dessa forma conseguir fugir. 
Pese o alerta do pai para não voasse muito perto do Sol, de forma a que não se derretesse a cera das asas, nem muito perto do mar, porque assim as mesmas poderiam molhar-se e ficar mais pesadas, Ícaro não acolheu os seus conselhos e acabou por se despenhar no mar Egeu.

Mesmo tendo sucumbido, desse modo, nas águas do mar, nem assim a mitologia deixou de conceder asas a outros deuses, para que pudessem voar.

Entre eles não podemos deixar de referir Hermes, o Mercúrio dos romanos, mensageiro de Zeus e dos deuses, protector dos viajantes, mercadores e ladrões. Mercúrio tem como atributo o capacete, o bastão e as sandálias aladas, servindo-se delas para que pudesse cumprir rapidamente a sua função.

Sabe-se que as estátuas com a representação de Hermes tinham carácter apotropaico, pois a divindade, antes de ser o protector dos comerciantes e viajantes, era um deus associado à fertilidade, sorte, estradas e fronteiras. Serviam de marcos de encruzilhadas ou caminhos. Ao que parece o seu nome deriva da palavra herma, uma coluna quadrada ou retangular de pedra, terracota ou bronze, um marco.

Só ao longo do tempo o mito associado a Hermes foi sendo ampliado, tornando-se também patrono da ginástica, dos diplomatas, da astronomia, da eloquência, para além de ser o guia dos mortos para do reino de Hades.

Mas também é sabido que as aves e pássaros são associados a um conjunto enorme de rituais no Mundo Antigo e que a observação do seu voo e das suas vísceras permitia interpretar as vontades dos deuses, estando essa interpretação a cargo dos Áugures.

Eles são, tal como Hermes/Mercúrio considerados mensageiros dos deuses ou símbolo de verdades ocultas só ao alcance dos inciados,

Certamente não será por acaso que alada é a deusa Vitória, a os generais romanos agradeciam pela nas guerras bem sucedidas.

O galo, o animal do Tempo e da Luz, é atributo de Mercúrio, e o deus mensageiro é, por vezes, representado cavalgando um galo. É o símbolo do Tempo, sendo-lhe, em algumas associações mistéricas ou iniciáticas, atribuído o papel de vigilante, mas também o do início do caminho da Luz, pois é ele que anuncia o nascer do dia e do Sol. É o Renascer. Sendo o símbolo solar por excelência, representando a “luz nascente”, era consagrado aos deuses solares como Apolo, divindade que também simboliza o dia que se levanta, mas aparece outrossim associado a divindades lunares.

Já nos «Versos de Ouro» de Pitágoras se recomenda «alimentai o galo e não o imoleis, pois ele é consagrado ao Sol e à Lua».
Não obstante, em Roma, a ave é sacrificada a Esculápio, deus da saúde e da medicina e filho de Apolo.



Detalhe de uma taça de cerámica Terra Sigillata Hispánica. Figura de Mercúrio e galo sobre uma ara.
Villa romana de Torre Águila (Barbaño, Badajoz). Fotografia de José Jérez Linde.

Símbolo da sabedoria ou da inteligência desde a antiguidade grega, a coruja é assim, tal como o galo e a serpente, um dos atributos da deusa Atena, e foi associada ao oculto e ao sobrenatural, possivelmente devido a seus hábitos noturnos e aos pios que emite.
Na Pátera da Lameira larga, pertencente ao acervo do Museu Nacional de Arqueologia, três personagens dominam a composição: Perseu que ocupa o lugar central, de espada empunhada e na direcção das Górgonas; Atena (Minerva), do lado esquerdo, e Hermes (Mercúrio), do lado direito.


Os atributos dos deuses Atena e Mercúrio estão disseminados pela peça, situando-se, contudo, no lado correspondente de cada uma delas.
Uma oliveira, simbolizando a paz, estende-se no lado esquerdo, por trás de Atena, coroado por uma coruja, ave consagrada à deusa e símbolo da sabedoria e da razão. Esta ave assume também, deste ponto de vista simbólico, o papel antagónico das forças do mal, materializado nas serpentes que nascem da cabeça das Górgonas.

Diz a Mitologia que, por se terem recusado a participar nos mistérios de Dionísio, a ninfa Leucipe foi transformada por Hermes em Mocho e Arcipe em Coruja.

Por sua vez, quer o falcão representa o símbolo solar, na tradição egípcia e também greco-romana, e era entre os primeiros considerado o «princípe celeste» e atributo do deus Rá, ou Sol Nascente, encarnando, de algum modo o Masculino. Contudo, uma vez que a fêmea é maior e mais forte que o macho torna-a um símbolo do poder feminino.

Quer em materiais cerâmicos, quer em painéis de mosaicos do período romano, encontramos representações de aves de caça, a exemplo de um mosaico tardio de Mértola, onde um falcão incompleto está bem identificado.

Mas lembremos particularmente essa ave de rapina tão presente no Mundo Romano, a águia. A águia aparece conotada com a ressurreição e a imortalidade. Por ter a capacidade de voar muito alto é símbolo do Sol e do céu (morada dos deuses), e é conotada com a nobreza, a elevação espiritual e o poder divino.

A águia simbolizava, em Roma, o poder e por isso era usada nos estandartes das legiões a partir de 104 a. C., após a reforma de Mário.

À época de Gaio Júlio César era executada com prata e ouro e, a partir de Augusto, passou a ser só de ouro. A águia era custódia da primeira coorte e só saía do acampamento romano em ocasiões especiais, quando se mobilizava toda a legião.
Em Londres, em Outubro de 2015, foi encontrada uma águia de grandes dimensões, com 65 cm de altura e 55 de largura. Neste contexto, porque possui uma serpente na boca, simboliza a luta entre o bem (a águia) e o mal (a serpente), um tema recorrente em contextos funerários romanos. Os arqueólogos inclinam-se a admitir que a mesma serviria para adornar um fastuoso mausoléu, sendo considerada um dos mais importantes achados da Britania romana», como nos dá conta o artigo «Excepcionales hallazgos de época romana en Inglaterra».