segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Roteiro de Miróbriga, Santiago do Cacém

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Escrito por Maria Filomena Barata   
22-Jan-2007
RUÍNAS DE MIRÓBRIGA


LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA E ADMINISTRATIVA
INFORMAÇÕES GERAIS

O Sítio Arqueológico de Miróbriga, classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1940, é afecto ao Instituto Português do Património Arquitectónico.
Miróbriga fica situada no Baixo Alentejo Litoral, no distrito de Setúbal, nas proximidades da cidade de Santiago do  Cacém, sede do concelho com o mesmo nome. O acesso a Miróbriga faz-se pela Estrada Nacional 120 que, de Santiago do Cacém, sai em direcção a Grândola/Lisboa. A cerca de 500 m de Santiago, existe um ramal que se encontra sinalizado, de onde parte para a esquerda um segundo, igualmente sinalizado, no fim do qual se depara com a actual entrada do Sítio Arqueológico .
Quem, a partir daí, deseje dirigir-se ao hipódromo, deverá virar à esquerda até atingir, a cerca de 300m, a Estrada Nacional 261, que liga Santiago do Cacém a S. Domingos. Voltando novamente à esquerda, e percorrendo cerca de 200 m, encontrá-lo-á do lado esquerdo da estrada.
As ruínas de Miróbriga possuem guardaria e recepção e encontram-se abertas todos os dias à excepção de segundas-feiras e feriados principais.
Alguns dos materiais arqueológicos provenientes de várias escavações efectuadas neste Sítio encontram-se expostos no Museu Municipal de Santiago do Cacém e no Centro Interpretativo de Miróbriga.
À entrada do Sítio Arqueológico pode ver-se a capela de S. Brás, pequeno templo seiscentista, que foi edificado sobre ruínas da antiga cidade de Miróbriga.

BREVE HISTÓRIA
DAS INTERVENÇÕES EFECTUADAS EM MIRÓBRIGA
  As ruínas de Miróbriga são conhecidas desde o século XVI, quando foram referidas pelo Humanista André de Resende que, retomando as referências do autor latino Plínio, cita uma povoação outrora chamada Merobrica, na sua obra De Antiquitatibus Lusitaniae, lib. 4, publicado em 1597. A existência de vestígios que descreveu como tratando-se de muralhas cercadas com torres, de um aqueduto, de uma ponte e de uma fonte correndo de uma pedra quadrada, fizeram-no concluir da existência de uma “antiga cidade”. Resende estudou algumas inscrições deste local, algumas das quais foram posteriormente consideradas falsas ou fruto da imaginação do estudioso Humanista.
O escritor romano Plínio tinha-se efectivamente referido a uma Merobrica entre as povoações costeiras dignas de nota, localizadas entre o Tejo e o Algarve, e aos oppida Stipendiariorum entre os quais nomeou os Mirobrigenses qui Celtici cognominantur (Plínio, N.H. 4,116). No entanto, a correspondência entre essa povoação e o local que agora descrevemos é difícil de comprovar até ao presente, porque, apesar de terem aparecido várias inscrições, algumas delas levantam algumas dúvidas quanto à sua autenticidade, como é o caso da encontrada na região de Santiago do Cacém, de Gaio Pórcio Severo, um Mirobrigensis celticus. No entanto, até que novos dados venham decididamente provar o contrário optamos por continuar a designar este local como Miróbriga.
Miróbriga foi objecto de várias campanhas de escavação desde o século XIX promovidas por D. Frei Manuel do Cenáculo, bispo de Beja e, posteriormente, arcebispo de Évora , tendo sido integrados os materiais arqueológicos na sua colecção. Durante a presente centúria, foram efectuados inúmeros trabalhos arqueológicos, entre os quais os dirigidos por Cruz e Silva, investigador natural de Santiago do Cacém, entre 1922 e 1948, e pelo Professor D. Fernando de Almeida, entre 1959 e 1978.
Na década de oitenta lançou-se um projecto de cooperação internacional, “The Mirobriga Project”, coordenado por arqueólogos das Universidades de Missouri-Columbia e Arizona e de Portugal − David Soren, William Biers, Albert Leonard Jr., Kathleen W. Slane, José Olívio Caeiro e Carlos Tavares da Silva. No decurso desse projecto foram estudadas em pormenor várias zonas − forum, termas, zona habitacional, hipódromo − e fez-se um primeiro levantamento topográfico de toda a área arqueológica. Os trabalhos aí efectuados foram objecto de uma publicação detalhada −Mirobriga, BAR, International Series 451, Oxford.
Desde há alguns anos o IPPAR vem desenvolvendo em Miróbriga um «Programa de Valorização», tendo promovido inúmeras acções que têm em vista a sua investigação, conservação, restauro e divulgação.


QUADRO GEOGRÁFICO
Miróbriga fica situada no Sudoeste alentejano, no limite de uma faixa acidentada que se desenvolve a Este, constituída pelos contrafortes da Serra de Grândola e do Cercal, de que a colina onde se situa o oppidum, ou  povoado fortificado da Idade do Ferro posteriormente romanizado, se pode considerar a retaguarda. A Oeste, desenvolve-se uma faixa costeira, plana. Uma série de lagunas faz o contacto entre a terra e o oceano, fertilizando as zonas mais interiores.
Região de clima temperado oceânico, ou «marítimo de fachada atlântica»,  caracteriza-se por uma humidade relativa elevada e por um alto nível de pluviosidade. Pode, assim, considerar-se como uma região muito fértil do ponto de vista agrícola, permitindo também o desenvolvimento da fruticultura, comprovada arqueologicamente em Miróbriga desde a ocupação romana. Hoje reduzida no Sudoeste alentejano, a produção de azeite bem como a vinícola parece ter sido também abundante no período romano, tendo-se mantido durante a Idade Média e a Época Moderna.
Embora sejam apenas conhecidos alguns vestígios de casas agrícolas na área circundante a Miróbriga, em Alvalade do Sado, a aproximadamente 20 km, conhecem-se várias dessas explorações, as uillae, que deveriam pertencer a um conjunto mais vasto de pólos de exploração agro-pecuária, em íntima relação com a grande bacia hidrográfica do Sado.
A teia de relações entre Miróbriga e Sines, a Oeste; entre Miróbriga e as povoações a Norte (Salacia, Caetobriga?); entre Miróbriga e o Sul (Ilha do Pessegueiro, Porto Covo, Vila Nova de Milfontes e Odemira) e ainda entre Miróbriga e as zonas do interior, deveria ter-se fortalecido com a dominação latina. Ficava assim assegurado, por um lado, o fornecimento dos produtos agrícolas e piscatórios a este centro urbano e, por outro, o escoamento dos minérios de que é rica a região adjacente a Miróbriga, quer seja a Serra de Grândola, quer a do Cercal, onde se exploraram ao longo de séculos minas de cobre e ferro.
Inclinamo-nos, mesmo, a aceitar que a riqueza metalífera da região pode ter sido um dos factores determinantes da ocupação deste local, funcionando Miróbriga como uma espécie de plataforma de acesso à zona mineira e aos povoados do interior da serra.
A óptima situação geo-estratégica, que facilita o domínio em relação à faixa arenosa e plana que se estende deste local até ao Oceano, de que dista aproximadamente   15 km em linha recta, associada aos recursos naturais − agrícolas e mineiros − deve ter conferido a Miróbriga importantes funções comerciais, permitindo-lhe o controlo de um vasto território ou ciuitas.

CARACTERÍSTICAS DO AGLOMERADO URBANO
 Miróbriga foi habitada desde, pelo menos, a Idade do Ferro, quando a zona de cumeada foi ocupada por povos de possível filiação céltica, como se pode deduzir pelo topónimo terminado em “briga”, comum a mais de uma centena de Sítios Arqueológicos peninsulares, que pode significar povoado fortificado ou edificado num ponto alto.
De facto, o topónimo como ficou conhecida vulgarmente a zona onde se implanta o forum de Miróbriga, “Castelo Velho”, denuncia também essa ocupação pré-romana, que é confirmada arqueologicamente em Miróbriga desde, pelo menos, o século V a. C.
Por sua vez, o radical do topónimo − Miro − tem contribuído para que alguns investigadores associem a “Miróbriga Céltica” ao rio Mira, inclinado-se assim para que a sua localização se situasse em Odemira.
Tratando-se de um oppidum ou povoado fortificado que foi romanizado, a implantação latina de Miróbriga foi condicionada pela pré-existente ocupação e pela teia de relações estabelecida entre as comunidades da Idade do Ferro.
Os habitantes do oppidum stipendiarium de Miróbriga (Plínio, Nat. Hist., IV, 116) dever-se-ão ter entregue a Roma, tornando-se livres, tal como aconteceu a numerosas povoações que se tornaram em “ciuitates stipendiariae”, ficando, contudo, submetidas, como era usual, a vários tipos de imposições e cargas fiscais.
Miróbriga entrou na esfera de influência romana a partir do século II a.C. e, no século I d.C., foi implementado um programa de amplas construções, como as do forum. O aglomerado urbano estendeu-se também, nessa altura, para as zonas mais baixas, onde se implantaram umas termas ou balnea.
Interpretado por alguns investigadores como um «Santuário Rural», sendo mesmo algumas das suas infra-estruturas justificadas como local de distracção dos peregrinos, essa interpretação era fundamentada na existência de mais do que um templo em Miróbriga e porque se desconheciam as zonas habitacionais que comprovassem arqueologicamente uma população fixa.
     No estado actual dos conhecimentos, e apesar de não ser ainda conhecida grande parte deste aglomerado urbano e das suas infra-estruturas, podemos afirmar que Miróbriga não deverá ter funcionado apenas como um “Santuário Rural”, pois apresenta as características comuns à maioria dos centros urbanos provinciais.
 Os materiais arqueológicos aí encontrados − como alguns espécimes terra sigillata itálica; algumas “paredes finas - grupo A”, datáveis de fins da República e inícios do Império, ou mesmo as campanienses tipo B − comprovam que foi sujeita à influência romana desde o século II a. C. e que terá tido uma ocupação plena a partir do século I d. C.
É provável que Miróbriga tenha obtido a sua municipalização no século I d.C., e que tenha beneficiado do “Édito de Latinidade” decretado pelo imperador Vespasiano em 73 ou 74 d. C., partilhando, desse modo, da política de fomento económico e de desenvolvimento urbanístico prosseguida na Península. Nessa mesma altura foram promovidas à categoria de município muitas outras cidades, entre elas, em território actualmente português, Bracara Augusta, Aquae Flaviae, Conimbriga ou mesmo Tongobriga.
Desenvolveram-se, deste modo, as estruturas municipais, que tinham como objectivo criar um modelo uniforme de organização interna, devendo ter-se dado, como aconteceu em muitos outros casos, a correspondente remodelação administrativa e urbana.
A existência de funcionários administrativos em Miróbriga, como é o caso de um magister, Caius Iulius Rufinus, dedicante de uma ara a Vénus, e as funções que Marco Júlio Marcelo deve ter exercido, nomeadamente de edil e duúnviro, confirmam a complexificação a que Miróbriga assistiu, correspondendo ao seu estatuto municipal.
Outro exemplo que confirma essa complexificação administrativa é a referência, numa ara dedicada a Esculápio, àsplendidissimus ordo. Miróbriga trata-se, portanto, de um aglomerado dotado de ordo decurionum, logo de assembleia ou Senado local, que, como em tantos municípios, deveria sancionar quase todos os actos da vida local, nomeadamente, a organização dos actos religiosos e do calendário festivo e lúdico e até, com toda a probabilidade, a existência dequinquatrus, os jogos que teriam lugar no hipódromo de Miróbriga.
Para além da importância administrativa que a inscrição reveste, a ara tem ainda uma grande importância do ponto de vista religioso, até porque o facto de ser dedicada a Esculápio  permitiu que durante décadas se atribuísse ao seu culto o templo centralizado no forum.
Até ao século III confirma-se uma enorme vitalidade e uma ocupação intensa em Miróbriga, atestada pela concentração de materiais cerâmicos desse período, que tem tendência a diminuir na segunda metade do século IV d. C. No entanto, não se pode falar propriamente de um colapso, pois apesar da crise de importações que se verifica a partir do século IV, continuam a verificar-se importações de cerâmicas de origem africana a que se juntam trocas com o Mediterrâneo oriental .
Os Romanos utilizaram aqui o alto da “acrópole” ou “fortaleza” pré-romana, dotada de uma muralha construída com pedra-seca numa situação de domínio em relação ao território envolvente. Deverão ter ocupado esta zona fortificada, se bem que rompendo com o amuralhamento em algumas zonas, como se pode verificar junto do templo centralizado, dedicado ao culto imperial.
Apesar de não serem totalmente conhecidos o perímetro e a malha urbana da cidade, que só se poder clarificar com futuras escavações, a dispersão dos vestígios de construções e dos materiais arqueológicos romanos identificados aponta para uma área de ocupação com cerca de 9/10 hectares, que é semelhante a algumas pequenas cidades da Hispânia. A população fixa de Miróbriga não deveria ultrapassar os dois mil e quinhentos habitantes, comum às cidades de pequena dimensão.
Mesmo admitindo que o hipódromo se situaria num local periférico em relação ao centro urbano − este local de espectáculo situa-se aproximadamente a 1km a Sul do núcleo urbano − é lógico que na área que os medeia existissem também as estruturas que habitualmente se desenvolvem junto dos núcleos urbanos, tais como as unidades fabris e as uillae, ou unidades agrícolas.
Até muito recentemente não era conhecida qualquer sepultura ou necrópole associada a Miróbriga, se bem que um achado de vidro encontrado numa sepultura junto da aldeia da Formiga, datável do século I d. C., junto a uma das saídas que possivelmente haveria de Miróbriga com ligação ao Cercal e a Alvalade do Sado, e uma pequena nota referente à descoberta de uma sepultura com vidros e um anel, em 1841, poderão ser indícios da existência das mesmas. Não há, contudo, quaisquer outros dados que nos esclareçam sobre a sua cronologia.
    Nas escavações promovidas em 1996, na encosta limítrofe à capela de S. Brás apareceram duas sepulturas escavadas no xisto, orientadas no sentido W/E.
A sua localização, junto a uma casa que esteve em uso até ao século IV, reforça a ideia de se tratarem de sepulturas pertencentes ao declínio do aglomerado urbano.
Recentemente foi também identificada uma terceira sepultura, ainda não escavada, que aponta para o período tardo-romano. Estas sepulturas deverão pertencer a um cemitério ou necrópole mais vasta.
Ainda mal conhecido em toda a sua extensão, este aglomerado urbano distingue-se pelo seu Forum, pela zona residencial e comercial, pelo seu complexo termal − um dos melhor conservados em território peninsular − pelas suas calçadas, sistemas hidráulicos, ponte e ainda pelo seu hipódromo, o único exemplar de planta conhecida em território nacional.


A ESTRUTURA VIÁRIA E AS HABITAÇÕES

Pelas características particulares da sua topografia e do urbanismo de Miróbriga, assente num povoado fortificado da Idade do Ferro, não é possível encontrar qualquer indício de um crescimento definido a partir de eixos viários principais − cardo edecumanus −, como é comum nas fundações latinas de plano ortogonal ou linear. No entanto, os arruamentos conhecidos permitem-nos delinear o espaço ocupado por algumas das insulae, ou quarteirões, da cidade onde se instalaram os edifícios privados e definir os percursos de acesso a alguns dos seus edifícios públicos, como é o caso do forum e as termas ou balnea.
forum deveria ser envolvido por uma rede viária que constituía como que uma espécie de “circunvalação”, permitindo o crescimento do casario em anéis concêntricos que, a alguns níveis, mais lembram algumas malhas urbanas medievais.
As longo dessas calçadas, e entre elas, desenvolviam-se os quarteirões onde se implantavam  as áreas comerciais e habitacionais. A maioria desses quarteirões estão apenas relativamente clarificados, como acontece na zona por onde se faz actualmente a entrada nas ruínas. Aqui, uma ampla calçada estrutura uma das áreas habitacionais, que se desenvolve quer para Norte quer para Sul da mesma. Do lado sul constata-se que as casas se adaptam à pendente e que os desníveis são vencidos através de grandes escadas que permitem o acesso pedonal à via. Muito possivelmente, numa zona mais baixa, se desenvolveria uma outra que poderia fazer a ligação, mais a Sul, às termas.
Continuando pela via inicialmente referida, na direcção do Forum, chega-se a um ponto onde a calçada se ramifica, permitindo, o acesso ao mesmo, a Este; aos quarteirões que se desenvolviam do seu lado norte e ainda às termas, a Sul.
Junto às termas verifica-se um caso semelhante de bifurcação, porque, por um lado a calçada acede directamente aosbalnea e, por outro, inflecte no sentido de Nordeste, onde poucos vestígios restam, mas que, muito possivelmente, viria a articular uma segunda plataforma que circundava, do lado sul e este, o forum.
Junto às tabernae que se desenvolvem a Sul do forum, vencendo também uma enorme pendente, é visível uma calçada que também deveria fazer uma circunvalação à zona central da cidade.
Todos os troços de calçadas conhecidos são construídas com grandes lajes assentes directamente no afloramento xistoso ou sobre o solo, e carecem de qualquer tratamento para a sua colocação ou seja statumen e rudus. Medem, em média, aproximadamente 10/11 pés (aprox. 3m) de largura. Em alguns pontos, essas calçadas apresentam rebordos laterais isolados com opus signinum, nomeadamente na que desce em direcção às termas. Julgamos que a sua funcionalidade poderá estar relacionada com a impermeabilização na zona da entrada das tabernae e das habitações, que se situam ao longo desta via, que vence uma grande pendente.
Noutros casos, ao longo das calçadas, foram construídas as condutas dos esgotos com um aparelho irregular, opus incertum, pavimentadas com materiais cerâmicos de construção, como acontece junto à “área habitacional”, na entrada actual das ruínas, e do lado sudoeste do forum, onde apenas restam alguns vestígios da via pública. Estes esgotos seriam cobertos, se bem que actualmente não existam quaisquer vestígios dessas coberturas.
Com segurança apenas se conhecem algumas habitações das muitas que devem ter existido no núcleo urbano de Miróbriga. No entanto, são visíveis, de um lado e do outro da calçada que se encontra logo à entrada actual das ruínas, várias insulae, cujos dados arqueológicos permitem apontar para uma ocupação sucessiva  entre o século I d. C. e IV d. C, algumas das quais com compartimentos decorados a fresco.
    Apesar do conhecimento incipiente das zonas habitacionais que se desenvolvem nessa área, pode-se verificar que os quarteirões ou insulae são de métricas diferentes, em função das ruas e dos acessos públicos, variando entre 25 a 30 m. As escadarias que se desenvolvem a Sul da via anteriormente referida delimitam claramente insulae, em torno das quais se pode ainda ver o respectivo sistema de esgotos.
Algumas destas construções tinham água canalizada, como se pôde verificar durante os trabalhos de limpeza e de restauro efectuados na “casa com frescos”, do lado direito da calçada. Junto à entrada havia um pequeno tanque, possivelmente de aprovisionamento de água que era conduzida por uma tubagem de chumbo.
A Este desta construção, ao longo da via, quer do lado norte quer do sul da mesma, são visíveis vários muros dispersos, devendo, possivelmente, tratar-se de habitações. No entanto, como todos eles foram postos a descoberto, em anteriores trabalhos arqueológicos, através de valas abertas junto aos mesmos, nada se pode concluir, porque nenhuma planta está clarificada.
Mais a Oeste, do lado norte da via, localiza-se uma domus, ou casa de grandes dimensões, cujos compartimentos se desenvolvem em torno de um átrio. Este átrio tinha uma zona coberta, como o comprovam a concentração de telhas no local e os entalhes definidos no afloramento xistoso que deveriam servir para apoiar o telhado.
O pavimento da zona circundante do átrio era revestido com um formigão, opus signinum, ainda visível em alguns pontos. Na zona central, subdividida num segundo momento da ocupação da casa,  deveria ter existido, possivelmente,  uma zona ajardinada.
Os pavimentos das salas que se desenvolvem em seu redor deveriam ser feitos com traves de madeira, pois não existe qualquer vestígio de revestimento e o afloramento xistoso é bastante irregular, o que aliás deveria acontecer em muitas das residências localizadas nesta área. Os buracos circulares escavados no xisto distribuídos sem qualquer aparente regularidade, contribuem para colocar a hipótese de se tratar dos encaixes para as traves de madeira. Sob o pavimento existiria uma conduta construída com telhas ou imbrices encaixados uns nos outros, que escoava para a rua. À entrada da casa existia um pavimento em opus signinum, que permitia um acesso mais confortável e higiénico à mesma.
De salientar que a planta desta casa recentemente escavada é paralela à da capela de S. Brás, edificada, a Noroeste, ao lado e sobre estruturas romanas, que possivelmente deveriam ter pertencido ao mesmo conjunto ou programa urbanístico .
FORUM
 Na zona mais elevada do aglomerado urbano e sobrepondo-se à ocupação anterior, foi edificado um forum, a praça pública à volta da qual se implantavam os edifícios que constituíam o centro político-administrativo e religioso.
forum de Miróbriga pode considerar-se de pequenas dimensões se comparado com outros fora da Lusitânia, nomeadamente alguns situados no actual território português. A largura da praça a céu aberto é de 22,08m (73 pés). O comprimento até ao podium varia entre  25,50 m (85 pés) e 26,40m (88 pés), tendo em conta as zonas salientes e reentrantes do mesmo.
Por seu lado, o templo centralizado, dedicado ao culto imperial, cujo podium coroa a praça pública tem de largura aproximadamente 1/3 da largura da praça pública. Ladeado por duas alae, em forma de L, que fechavam a praça e que ocupavam, por sua vez, aproximadamente 2/3 da largura da mesma (1/3 cada uma), pode dizer-se que o forum era  dominado na íntegra por este edifício religioso.
Esse templo in antis, preside a todo o conjunto forense, com a sua fachada principal orientada para a praça pública. Tendo sido objecto de várias escavações e sondagens, o templo centralizado sofreu também reconstruções efectuadas por D. Fernando de Almeida que, a alguns níveis, dificultam nos nossos dias a interpretação da sua planta.
podium do templo centralizado de Miróbriga tem um aspecto bastante cenográfico, formando como que nichos rectangulares e curvilíneos, possivelmente influenciado num pulpitum de um teatro. O acesso ao templo fazia-se através das escadas laterais do podium.
As construções da praça pública deverão corresponder às edificações comuns aos fora provinciais, tais a Basílica e o compartimento que se lhe anexava, que deveria corresponder à Cúria, do lado Oeste.
A Sul e Oeste da praça pública desenvolve-se uma zona comercial, constituída por várias tabernae que fazem como que cinturas ou “anéis” em relação ao centro do aglomerado, sendo conhecidas algumas das calçadas dessas “circunvalações”.
No Forum, tendo em vista dar regularidade ao paramento externo da maioria dos muros construídos interiormente em opus caementicium, com base numa argamassa de cal, areia e pedras misturadas, e que deixavam a sua face externa com um aparelho de pedras irregulares − opus incertum − foi  utilizado quer o revestimento com estuques, alguns dos quais pintados, quer com  placas calcárias.
Também o pavimento da praça pública era revestido de blocos calcários (calcário fétido de S. Brissos), sendo ainda visíveis restos dos mesmos ou dos seus negativos.
O aspecto monumental da praça pública é reforçado pela sua construção em patamares, cortando e aplanando a rocha para criar várias plataformas.
 Esta situação é bem visível no lado norte do forum, onde um grande muro de contenção foi construído para vencer a diferença de alturas existente entre as duas plataformas: a mais alta onde se localiza o templo centralizado e o templo de Vénus e a praça pública propriamente dita, a uma cota mais baixa. Esta situação repete-se também no declive sul do forum onde foi feito um terceiro talude em opus caementicium, a que se adossam as tabernae.
Do lado Norte do Forum desenvolve-se uma calçada que funcionava como entrada na praça pública. Esta mesma entrada dava acesso, através de uma escadaria escavada na rocha, a um outro edifício religioso de planta absidial,  ao qual tem sido atribuído o culto a Vénus.
De salientar que em Miróbriga existem outros testemunhos arqueológicos desse culto, nomeadamente fragmentos de uma estátua da deusa Vénus Capitolina e ainda duas inscrições dedicadas a esta divindade.
O templo era dividido em três naves, medindo as laterais cerca de 4m. A largura total do edifício é de 15m e o comprimento é de cerca de 10m. O seu pavimento era revestido com opus signinum, não havendo vestígios de terem sido aplicadas sobre o mesmo quaisquer placas calcárias ou marmóreas. No centro da abside é visível uma base de altar.
Em Miróbriga, as lojas ou tabernae parecem concentrar-se junto das calçadas concêntricas que se desenvolvem em volta doforum, como anteriormente referimos. São de pequenas dimensões e situam-se no rés-do-chão das  habitações, comunicando directamente para a rua. Em alguns casos a ligação aos aposentos fazia-se através de escadas que acediam a um piso superior. Os depósitos ou armazéns podiam localizar-se em compartimentos mais interiores, na parte de trás das tabernae  .
A existência de uma argola de ferro cravada e soldada numa das construções desta zona comercial, a Sul do forum, contribui para acentuar a ideia de aí se desenrolarem as actividades mercantis.
Também numa dessas tabernae, de planta irregular, encontra-se um silhar aparelhado com uma cabeça de touro naturalista esculpida. Localiza-se junto à escadaria que permitia, numa fase inicial, o acesso ao forum a partir da calçada ao longo da qual se desenvolvem as tabernae. Esta escada deve ter perdido a sua função, numa fase posterior, porque na parte superior, por onde acedia à praça púbica, foi feito um estrangulamento.
Em frente das construções que deverão corresponder à zona mercantil de que temos vindo a falar, existe uma edificação que tem sido identificada como hospedaria ou stabulum, pela existência de vários quartos e salas de refeições decorados com pinturas murais. Os frescos permitem datar essa construção de meados do século I d. C., fazendo parte do massivo desenvolvimento urbano de Miróbriga, datável de Nero ou de inícios do período flaviano.
No entanto, a planta do designado stabulum − que é só parcialmente conhecida, até porque parte desta construção, erigida junto a um grande declive, se tem vindo a desmoronar − articula-se em torno de um átrio que deveria ser porticado, fazendo-nos admitir que a mesma se trate de uma domus ou casa de habitação de grandes dimensões.
OS BALNEÁRIOS
Aproveitando a depressão natural do terreno, que ajuda à captação e à concentração das águas pluviais, os romanos instalaram, numa das zonas mais baixas da cidade e ligeiramente afastadas da zona central, umas termae publicae ou balnea.
Constituídas por dois edifícios, de construção não muito distante no tempo e que se adossam, maximizando, desse modo, algumas das suas infra-estruturas, este complexo de estrutura dupla foi edificado na zona sudoeste do aglomerado urbano, ocupando as estruturas actualmente postas a descoberto uma área aproximada de 1.100m2.
 Os edifícios que as compõem são as “Termas Este”, as primeiras a ser edificadas no século I d. C., e as “Termas Oeste”.
Várias situações de articulação entre os dois edifícios, nomeadamente toda a estrutura dos esgotos, fazem-nos admitir a hipótese de que os mesmos possam ter tido praticamente um projecto contemporâneo.
As “Termas Este”, construídas a uma cota mais baixa, são acessíveis por uma calçada muito íngreme que serve os dois edifícios termais. Estão como que praticamente encravadas na rocha,  tendo sido necessário escavar e/ou aplanar o afloramento xistoso para as edificar.
Este edifício é de menores dimensões do que as “Termas Oeste”, ocupando, no entanto, uma área maior do que a actualmente posta a descoberto (aprox. 400m2), como aliás é fácil deduzir pela sua planta e pelos muros que são parcialmente visíveis junto ao talude do lado sul.
A entrada nas “Termas Este” faz-se descendo inicialmente dois degraus, que se situam junto aos que conduzem às “Termas Oeste”. Continua-se a descer através de uma calçada em declive até à porta de entrada.
Através desta porta acedia-se, através de dois degraus revestidos a opus signinum a uma zona porticada coberta que deveria circundar uma pequena palestra (?). O pavimento era também aí revestido com opus signinum, ainda praticamente intacto em vastas áreas.
À sua volta desenvolve-se um corredor que, inflectindo para o lado sul das termas, dá acesso a um compartimento de função desconhecida e a outros que ainda não foram escavados, sendo também visíveis, em alguns pontos, os muros que deveriam servir de limite ao edifício.
Do seu lado norte, desenvolve-se um longo compartimento que conduzia, quer às zonas aquecidas, quer ao frigidarium e respectiva piscina. A todo o comprimento desse compartimento, com funções de apodyterium, existe um banco revestido a opus signinum, utilizado pelos utentes das termas. Este longo corredor era decorado com frescos, como ainda se pode verificar em alguns pontos.
Do lado esquerdo da entrada havia uma construção circular, localizada a uma cota ligeiramente mais alta do que o pórtico, que deveria tratar-se também de um compartimento com funções de apodyterium. Este compartimento era fechado por uma porta, à qual se acedia através de um degrau.
Do apodyterium alongado poderia passar-se directamente ao frigidarium e à piscina. Ainda integralmente revestida, na sua parte inferior, com opus signinum, apresenta, superiormente, uma decoração com pinturas a fresco.
Do lado sul do frigidarium havia uma porta por onde se entrava no tepidarium e no caldarium. Nestes compartimentos providos de hipocaustum com suspensurae, existem três alvei. Junto à zona do praefurnium detectou-se uma enorme concentração de cinzas provenientes da fornalha, confirmando a identificação do compartimento localizado no limite este do edifício.
 As “Termas Oeste”, genericamente em melhor estado de conservação, têm uma forma rectangular e se bem que  não totalmente escavadas, podem ser consideradas como um dos bons exemplos dos balneários das províncias ocidentais .
    O edifício, construído quase na íntegra em opus incertum, apresentava na fachada, mais cuidada, grandes silhares rusticados, cuja utilização parece apontar para o período neroniano ou pós-Nero. O acesso fazia-se por uma calçada muito íngreme que servia os dois edifícios .
A entrada fazia-se descendo três degraus, que permitiam aceder a uma cota inferior. Nas extremidades do primeiro degrau havia três altas colunas cilíndricas que não se encontram actualmente in situ, tratando-se das que foram levadas por D. Fernando de Almeida para o Forum, aquando da sua reconstrução.
Ao nível inferior, onde se implantava o edifício, podia-se entrar directamente para  a zona da latrina, que era fechada por uma porta, atendendo à soleira que ainda aí se encontra.
À frente dos degraus localizava-se também uma porta de grandes dimensões, como se pode concluir pela soleira ainda in situ. Era através desta porta que se acedia a uma ampla sala de entrada ou uestibulum, que tinha em anexo dois compartimentos mais pequenos, possivelmente com funções de apodyteria.
O pavimento do uestibulum era revestido com placas de calcário dolomítico e possuía lambris a toda a volta, situação que é praticamente comum a todo o edifício.
Nessa sala, edificada genericamente em opus incertum, foram também utilizados grandes silhares aparelhados junto à ombreiras das portas, nomeadamente as que ligam o uestibulum aos apodyteria e ainda ao frigidarium.
Os grandes silhares de opus quadratum que deveriam marcar alguns dos ângulos do edifício, ou cunhais, eram também revestidos, porque são visíveis os orifícios onde eram presas as placas nas ombreiras.
Ainda no vestíbulo há uma zona nichada, onde poderia ter sido colocado algum elemento escultórico.
Depois do uestibulum acedia-se através de duas entradas ao frigidarium. Este compartimento tem uma forma rectangular, existindo nos topos duas piscinae, uma como que formando um nicho, e outra bastante mais funda, de forma praticamente quadrangular, que quase se poderia tratar de uma pequena natatio. Nessa piscina existiam degraus interiores, que deveriam ser parcialmente submersos, e um sistema de escoamento para a latrina.
Dessa sala havia uma passagem para um compartimento com um hipocausto com suportes verticais − pilae, que possivelmente se trataria de um sudatorium com ligação directa ao praefurnium .
Posteriormente passava-se ao tepidarium, dotado de suspensurae e hypocaustum construído com arcos de tijolos argamassados e ainda salas dotadas de paredes duplas, que permitiam manter os compartimentos aquecidos, edificadas em opus testaceum.
caldarium de forma praticamente quadrangular, tinha dois alvei de diferentes dimensões, sendo o de topo  absidiado dada a necessidade de concentrar o vapor e o ar quente necessários. Ambos os alvei apresentam no fundo canos de chumbo que escoavam para o sistema de evacuação das termas. O caldariumestava virado a Sudoeste para aproveitar  o calor da  tarde. A Este situava-se o praefurnium e as áreas de serviço.
As suspensurae das zonas aquecidas assentavam nos arcos do hipocausto. O pavimento de circulação dos utentes era revestido com opus signinum, sobre o qual  foram colocadas lajes calcárias. O chão do hipocausto utilizava também tijolos rectangulares.
Algumas das salas absidiadas do tepidarium e do caldarium tinham janelas viradas a Poente para um pátio ou pequena palestra (?) que circundava desse lado o edifício, permitindo o arejamento das salas aquecidas. Ao pátio, que eventualmente teria uma função semelhante a um solarium, dada a sua localização, podia-se aceder apenas pelo interior da construção, através de uma porta existente a Noroeste do uestibulum.
O pátio, pavimentado a opus signinum, desenvolvia-se até ao muro que delimitava a Oeste as termas, numa situação de algum modo semelhante ao que acontecia nas “Termas Este”. As arestas eram interiores eram revestidas com meias canas salientes. Uma conduta subterrânea, paralela à que existe do lado nascente das “Termas Oeste”, corria ao longo desse pátio, sendo ainda visíveis alguns dos seus respiradores.
A maioria dos compartimentos das “Termas Oeste” era revestida de placas calcárias, quer no pavimento, quer nas paredes, permitindo uma fácil manutenção do edifício. As placas eram fixadas à parede através de “gatos” metálicos como ainda recentemente, em acção de consolidação e restauro na  piscina do frigidarium das “Termas Oeste”, se pode verificar.
Teríamos, pois, os muros construídos em opus incertum, com revestimento a opus signinum, no qual eram presas as placas calcárias com espigões de cobre ou de bronze.
Recentemente foi posto a descoberto, sob os empilhamentos de pedras de anteriores escavações, um reservatório construído em opus incertum e revestido na parte interior com opus signinum, com meias canas revestindo as arestas do fundo, para permitir que o mesmo fosse totalmente estanque. Edificado num ponto alto, por cima do local onde se adossam os dois complexos termais, devia garantir o abastecimento temporário de água às termas. Possivelmente este reservatório seria coberto para garantir a limpeza da água e dificultar a evaporação da mesma.
Uma conduta ou esgoto geral abobadado, construído em pedra calcária, que se dividia em vários ramais, circundava todo o complexo termal e evacuava as águas para uma cloaca, ainda visível junto à ponte. Quer o sistema de evacuação das termas, quer a cloaca estão ainda em bom estado de conservação, tendo sido apenas consolidado em alguns pontos. Para esse sistema eram também despejadas as águas de várias das piscinas ou alvei das termas. Esse escoamento fazia-se através de canos de chumbo que ainda se encontram in situ no interior dos alvei do caldarium e na piscina ou natatio dofrigidarium das “Termas Oeste”.
O fornecimento de água deveria ser, contudo, reforçado por uma fonte existente nas proximidades, como se pode deduzir pelo canal que permitia a adução da água pelo lado sul do reservatório ou natatio (?) cuja escavação se iniciou em 1992.
Esse reservatório era construído em opus incertum revestido de opus signinum, com várias camadas. No fundo da mesma existe também uma meia cana saliente.
Nas proximidades das termas, situa-se uma ponte de um só arco ligeiramente abatido, construída com pedra calcária irregular, opus incertum, pontualmente regularizada por fiadas de xisto. Esta construção deveria permitir a articulação entre esta zona e a área residencial a Noroeste, através de uma calçada de que só se conhecem alguns vestígios, até porque ainda funciona actualmente, em alguns pontos, como caminho. Neste imóvel é ainda visível o pavimento original, construído com grandes lajes calcárias, semelhante ao das vias existentes em Miróbriga, e o sistema de drenagem das águas pluviais

O HIPÓDROMO 
Os lugares de espectáculo, tais como os teatros, os anfiteatros e os circos foram, nas províncias, uma das formas utilizadas para facilitar o processo de Romanização, pois incentivavam as deslocações periódicas dos rurais à cidade, sendo ainda os locais ideais para a expansão da mística imperialista.
A construção de um hipódromo ou circo em Miróbriga deve ter obedecido aos mesmos princípios, contribuindo para consumar a ideologia imperial.
Embora não sejam conhecidos quaisquer mecenas ou evergetas que possam ter contribuído para o financiamento da sua edificação, como aconteceu em muitos edifícios monumentais do Império, existe, contudo, uma inscrição com invocatória a Esculápio, a que já fizémos referência, atestando um legado testamentário feito por um medicus pacensis, Gaio Átio Januário, que deixou dinheiro ao conselho municipal para que organizasse os quinquatrus, jogos que possivelmente se realizariam no hipódromo.
 O hipódromo de Miróbriga dista aproximadamente 1Km em linha recta da zona central do aglomerado urbano, como acontece em muitos locais de espectáculo com estas características, que são afastados por motivos práticos, dada a grande afluência de público.
O acesso ao hipódromo ou circo de Miróbriga deveria fazer-se através de uma fachada que se localizava frontalmente em relação a uma estrada de saída do aglomerado urbano. Justifica-se, desse modo, o facto da entrada se fazer de costas viradas para o centro da cidade.
Reconhecido por Cruz e Silva em 1949 quando da construção de uma estrada que afectou parcelarmente a zona da entrada, este estudioso promoveu trabalhos arqueológicos no local e efectuou a primeira planta conjectural do hipódromo Posteriormente o imóvel foi escavado por D. Fernando de Almeida, tendo sido ainda efectuadas sondagens pela equipa luso-americana, que contribuiram para definir mais exactamente as suas características, e feito novo levantamento das suas estruturas, o mais actualizado até este momento.
Podendo considerar-se um recinto de média proporção, se comparado com o de Mérida e o de Todelo, a arena de Miróbriga é, contudo, de maior dimensão do que a do circo de Tarragona. O hipódromo de Miróbriga mede aproximadamente 359m de comprido por 77,5m de largo.
Este lugar de espectáculo está orientado NE/SW, orientação que é considerada a conveniente para não ofuscar os agitadores ou aurigae a qualquer hora do dia. A sua implantação foi condicionada pela topografia do local, que aqui é incomparavelmente mais plano do que o sítio onde cresceu o aglomerado urbano.
Do hipódromo conhecem-se as fundações da spina, construída em opus caementicium, e os limites da arena. Pese os restauros e reconstituições parcelares, é clara a evidência de  metae − meta prima e meta secunda. Ainda é visível o revestimento que era utilizado em grande parte da spina, tratando-se de opus signinum, a exemplo do que sucede no circo de Mérida e no recentemente posto a descoberto de Olisipo.
Os muros que delimitam a arena são simples, construídos em opus caementicium, variando a sua grossura entre 60 a 90cm. A construção do hipódromo deve datar do século II d. C. e o auge da sua utilização terá correspondido ao século III d. C., seguida do seu declínio a partir de finais dessa centúria.
No lado sul do circo situam-se algumas construções que D. Fernando de Almeida identificou como tratando-se dos carceres, comparando-o ao circo de Mérida.
De bancadas perenes ou pétreas e do derrube das mesmas não existem quaisquer referências ou vestígios arqueológicos. Pode admitir-se, portanto, que as mesmas fossem construídas de madeira, suportadas por postes feitos do mesmo material. Nunca poderiam, portanto, ter tido a monumentalidade das reconhecidas em circos da Hispânia.
Por seu lado, a pista deveria ser térrea, pois é visível ao longo da spina uma camada de terra muito escura e compactada.
Reconstituição do Hipódromo


Glossário
Aedes - É o lugar onde habita a divindade, enquanto o templum é o espaço - plataforma ou terraço onde se elevava o altar ao ar livre  - definido por um ritual. Mas como a aedes também era constituída por esse ritual, considerava-se igualmente templum. Os dois termos são, portanto, usados com frequência como sinónimos.
Alveus (pl. alvei) - Piscinas localizadas na zona aquecida das termas, sendo o topo absidiado, dada a necessidade de concentrar o vapor e o ar quente necessários

Apodyterium (pl. apodyteria) - Instalações que serviam para vestiários nos balenários ou balnea.

Carceres
 - Locais reservados às cavalariças e onde se recolhiam os carros de corrida.
Ciuitates stipendiariae - Povoações que deverão ter-se entregue a Roma, tornando-se os seus habitantes livres, não desfrutando, contudo, os membros destas comunidades de todos os direitos de cidadania romana, pois ficavam submetidos a todo o tipo de imposiÁões e cargas fiscais. Deviam pagar tributo,  o vectigal ou stipendium, ao qual se adicionavam outras contribuições de carácter pessoa (v. Oppidum  stipendiarium).
Duunviro - Magistrado a quem competia a gestão pública. Deviam convocar as reuniões do senado local e pesidiam, sem voto, às suas sessões, fixando a «ordem do dia» e moderando os debates. Propunham o calendário anual para as actuações administrativas do município, convocavam as eleições e controlavam o escrutínio. Os duunviros nomeavam os «juizes da cidade» e formulavam propostas para os gastos da cidade, se bem que sob o controle dos decuriões. Os duunviros assumiam também algumas funções religiosas, propondo também o calendário das festividades e a nomeação, com carácter anual, dos responsáveis pelos templos, os magistri.
Edil -  Magistrado romano, cuja função primordial é garantir o aprovisionamento das cidades, policiar os mercados, tratar da manutenção das ruas e edifícios públicos e dos lugares sagrados. Estavam também encarregues da organização e do policiamento de certos jogos públicos e de vigiar os pesos e medidas. Os edis participavam ainda da proposta de criação de leis referentes ao urbanismo. Na maioria dos casos, o exercício da edilidade era um «trampolim» para a ascensão ao cargo de duúnviro, como parece ter acontecido com o cidadão de Miróbriga. A existência destes magistrados em Miróbriga confirma a sua organização municipal, em termos jurídico-administrativos, e implica a existência de receitas autárquicas próprias.. De salientar que o exercício de uma magistratura outorgava a cidadania a quem a desempenhava, bem como aos seus ascendentes e descendentes. O direito de cidadania compreendia os direitos civis e os direitos políticos como o voto e o privilégio de servir nas legiões.

Forum (pl. fora) - Centro monumental da vida política, comercial, religiosa e mundana de uma cidade.

Frigidarium - compartimento frio do balneário.

Hypocaustum (hipocausto) - Sistema de aquecimento numa câmara subterrânea onde circula ar quente produzido numa fornalha ou praefurnium. Nas salas onde há sistema de aquecimento o chão assenta em pequenos pilares ou arcos(pilae, suspensurae).

Imbrex (Imbrice) - Telha de forma de meia cana que cobria cada união de duas tegulae, ou telhas rectangulares com rebordos laterais.

Insula - Prédio com vários andares, normalmente arrendados, constituindo um quarteirão.

Oppidum  stipendiarium - Povoação ou lugar fortificado, que tendo-se tornado romana por direito de guerra, e tendo-se-lhe rendido sem condições, devia pagar tributo: o vectigal ou stipendium.

        Opus caementicium - betão usado usualmente no interior de uma construção, misturando argamassa de cal e areia com um inerte feito à  base de pedras de pequeno calibre.

Opus incertum - aparelho construtivo de pedra irregular assente com argamassa.

       Opus signinum - argamassa feita de cal hidráulica, areia e tijolo moído, usada para construção de pavimentos e impermeabilização de tanques e paredes. Costuma designar-se por formigão.

Opus testaceum - aparelho construtivo utilizando cerâmica.

Ordo decurionum (ordem dos decuriões).. A ordem decurional categorizava os indivíduos que podiam exercer funções governativas, de tal maneira que à Assembleia ou senado municipal de notáveis: magistrados, sacerdotes e juizes se chamava Ordo decurionum. O Senado era portanto o órgão supremo de governo dos municípios. O facto da inscrição na ara dedicada ao deus Esculápio, aparecida em Miróbriga, fazer referência à splendidissimus ordo implica, portanto, a existência duma organização de tipo municipal neste Sítio.

Palaestra - Pequeno pátio destinado a exercícios.

Podium - Plataforma sobre a qual se eleva o templo romano.

Praefurnium - Fornalha dos balneários romanos.

        Pulpitum 
- Parte da frente da scaena, ou seja, da zona do teatro clássico onde se desenrolava a representação teatral.

Rudus - Espécie de base ou leito para o assentamento de um pavimento ou estrada, constituído por pedras colocadas sem argamassa.

Spina - Muro de baixa altura que divide longitudinalmente o circo em duas metades, sem o atravessar na totalidade. Nos extremos da spina localizam-se as metae: meta prima e meta secunda. Os carros - bigas ou quadrigas - corriam à volta da spina e junto às metae colocavam-se os fiscais, ovaria, que contavam as voltas que os concorrentes tinham percorrido. Sobre a spina podiam existir estátuas, altares, fontes, ou mesmo obeliscos.

Stabulum - Hospedaria
         Statumen - Espécie de uma base de assentamento de um pavimento ou estrada, que forma um betão constituído por pequenas pedras, cal e areia ou saibro.
Sudatorium - Sala onde se praticava o banho de vapor ou sudatio.

Suspensura (pl.suspensurae), Pavimento suportado por pilares ou arcarias.

Taberna - Pequena loja comercial.
Templo in antis - Segundo Vitrúvio (De Architectura, III. 2, 2), os templos, ou melhor dizendo, aedes in antis, têm muros laterais que se prolongam para a frente da cella - a parte essencial da aedes, onde se conserva uma estátua da divindade ou um símbolo sagrado - e que constituem as faces laterais do pórtico ou pronaos. Entre elas deverão existir duas colunas. Por cima existirá um frontão que ajuda a suster a cobertura.
Terra sigillata - Cerâmica fina de mesa romana, que tem no exterior um verniz ou engobe brilhante, podendo ser lisa ou decorada. O nome vem-lhe de sigillum, a marca do fabricante ou atelier que a produziu.
Vestibulum - Sala de entrada.

Ver também: http://mirobriga.drealentejo.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=12&Itemid=1



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