domingo, 5 de julho de 2015

A ponte de Miróbriga


Ponte de Miróbriga. Fotografia de Luis d'el Rey
Ponte de Miróbriga.
Fotografia de Luis d'el Rey
   
TRABALHOS ARQUEOLÓGICOS NA PONTE ROMANA DE MIRÓBRIGA
A ponte romana de Miróbriga, localizada na área limítrofe ao complexo balnear, já havia sido objecto de alguns trabalhos de recuperação, promovidos pelo Intituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico, em 1998 .
Tendo em vista a valorização do imóvel e sua envolvente, que passou a integrar a visita pedonal ao Sítio Arqueológico de Miróbriga, após a aquisição dos terrenos da zona adjacente, em 1997, foram planeadas várias acções cujo objectivo era, por um lado, ter um melhor conhecimento da estrutura da ponte e, por outro, contribuir para a sua preservação, pois em algumas zonas encontrava-se fragilizada e mesmo danificada.
Esta intervenção apenas parcialmente foi concluída, uma vez que implicava não só o alargamento da área escavada, como a conservação das estruturas da ponte que venham a aparecer, deverá ser concluída caso seja aprovada a presente pretensão de reprogramação do POC.
Após terem sido feitas três sondagens no piso térreo que cobria o tabuleiro primitivo, detectou-se que este último se encontrava praticamente intacto, tendo-se, por isso, decidido fazer uma escavação em extensão de toda a área, de molde a pôr a descoberto o antigo lajeado e parte da calçada que, dos dois lados das termas, se dirigia à ponte.
Algumas das lajes do pontão, que ainda se encontravam a descoberto nos anos 60, segundo informação de D. Fernando de Almeida, investigador que durante duas décadas coordenou as escavações em Miróbriga, haviam sido tapadas. Aliás, segundo texto firmado por este arqueólogo, em 1972, refere-se: «Na pequena ponte romana, em pedra, vizinha do balneário, já restaurei o que se tornava urgente fazer e não precisa de outros trabalhos além dos de voltar a limpá-la da cobertura que com mais de um palmo de terra reveste o taboleiro, para tornar a por a descoberto o piso romano, aliás bastante bem conservado. É que as vacas que por ali passavam, diàriamente, escorregavam no lageado e fui como que intimado a tornar a cobrir a calçada» (ALMEIDA, 1972: 3).
Nessa altura devem ter sido também alteado as guardas, de aspecto regularizado no exterior, mimetizando o resto do aparelho construtivo da ponte, e totalmente irregular no interior, como se veio a comprovar na recente escavação.
O pontão de Miróbriga, construído com paredes de um aparelho irregular, opus incertum, quasi reticulatum, foi edificado usando fundamentalmente calcários da região. Nesses paramentos de 60 cm, que constituíam como que uma cofragem da estrutura da ponte, os silhares de média dimensão (30/40cm) foram colocados em fiadas irregulares na horizontal e unidos por uma argamassa de cal e areia barrenta, sem qualquer alisamento ou tratamento de superfície notório. Do pouco que conseguimos averiguar, pois não foi feita senão uma sondagem por debaixo das lajes do tabuleiro, no interior das estruturas foi apenas feito um enchimento térreo, parecendo-nos não ter sido usada qualquer caementa.
O pontão apresenta um só arco abodadado, ligeiramente abatido, como parece acontecer na maioria das pontes de origem romana conhecidas em Portugal, integrando-se, portanto, num tipo denominado itálico.
O arco, ou mais propriamente o arcus lapideus, assim designado pelo material utilizado na sua construção, foi executado com duas fiadas de pedras colocadas obliquamente. De quando em quando, um silhar de maiores dimensões, também colocado nessa posição mas cujo comprimento ocupa o correspondente à duas fiadas, contribuiu para as travar, penetrando um pouco mais no aparelho da edificação. Os silhares da segunda fiada são igualmete travados pelos que foram colocados na horizontal nos paramentos construção, junto ao arco, contribuindo para distribuir a descarga de peso. O aspecto do extradorso é, portanto, ligeiramente irregular, não existindo qualquer arquivolta que o corrija.
Não é notória a existência de um fecho bem marcado neste pontão de Miróbriga, pois o último silhar, se bem que ligeiramente em forma de cunha, apresenta dimensões similares aos restantes, como aliás parece ser vulgar nas pontes conhecidas em território actualmente português .
«Los "ojos" o arcos de los puentes romanos suelen ser invariablemente de medio punto, a veces algo rebajados en su centro, a veces algo peraltados, y a veces incluso escarzanos, pero casi siempre simétricos y sin grandes contrastes en cada puente; en la calzada o piso predomina la horizontalidad, con pocas concesiones a la línea oblicua, aun a costa de tener que ampliar y prolongar el puente "en seco" por ambas orillas (no son, pues, propiamente romanos los puentes antiguos que presentan una calzada angulosa, con vertientes "a dos aguas", y ni siquiera suelen ser muy "romanos" tampoco los de calzada demasiado alomada en su elevación). En todos los puentes romanos conservados predomina además la masa pétrea sobre los vanos o arcos»
http://www.estudiogeneraldehumanidades.es/antiqua/ingenieria-romana.html


Em relação ao tabuleiro primitivo do pontão pudemos constatar que era mais alto na zona central, quer nos situemos em relação ao seu perfil longitudinal viário, quer ao seu perfil transversal. É provável que o alteamento central e as inclinações laterais, quase simétricas, que caracterizam o seu perfil longitudinal colaborassem na disdribuição de forças, descarregando assim sobre o arco. Do lado norte parece mesmo ter havido um ligeiro abatimento, uma vez que forma uma depressão maior.
Por seu lado, o perfil transversal do eixo viário é também mais elevado no ponto central da via, para permitir a drenagem das águas pluviais para os lados, como descreveremos.
O tabuleiro tem 3m de largura (aproximadamente 10 pés), como acontece com a maioria das calçadas de Miróbriga, a que se acresce aqui a largura das paredes laterais, com 60 cm cada, totalizando, deste modo, 4,20 m. Era revestido com grandes lajes (com 60/70 cm em média) assentes directamente no solo, sem preparação especial, não sendo visível, assim, quaisquer vestígios de statumenrudus ou nucleus.
Alguns orifícios nas zonas laterais do eixo viário, nos paramentos e no intradorso do arco, para drenagem das águas, encontravam-se obstruídos, pelo houve necessidade, atendendo à conservação do pontão, de os desentupir.
No seu interior foram colocados drenos de PVC de forma a evitar que os orifícios originais, onde ainda eram visíveis alguns restos da argamassa primitiva e as pedras xistosas colocadas de molde a permitir filtrar as impureza, não se deteriorem. O imóvel tinha guardas, existindo confirmação arqueológica desse facto, uma vez que, quer do lado nascente, quer poente do pontão, eram visíveis uns muretes mais estreitos do que as paredes laterais de pedra argamassada, com 50 cm em média. Desconhecemos, contudo, se essas guardas tinham um perfil longitudinal horizontal ou se acompanhavam o perfil longitudinal viário, mais alto na zona central. Porque se desconhecia este factor, e uma vez que havia necessidade de manter as guardas elevadas ao longo de toda a via, de molde a proteger as lajes que se localizam no ponto mais alto do perfil longitudinal, pois de outro modo poderiam ameaçar cair para os lados, optou-se por as voltar a altear, usando-se como referência a altura conhecida através dos testemunhos arqueológicos da edificação primitiva.
Fez-se ainda um rearanjo de algumas das guardas entretanto sujeitas a pequenas destruições uma vez que ao imóvel à acesso pedonal. Durante os trabalhos arqueológicos de 1998, e tendo também em vista a sua conservação e restauro, foram feitas várias intervenções, tais como a limpeza e remoção de argamassas antigas empobrecidas e de cimentos modernos, tendo sido posteriormente colmatadas todas as juntas do aparelho construtivo com argamassas usando como base cal (cal D. Fradique) e areia barrenta. O intradorso do arco foi pontualmente consolidado com gatos de aço, uma vez que o mesmo apresentava fissuras em alguns pontos. Para colocar parcialmente os paramentos da ponte mais à mostra, tendo em vista verificar se a mesma se encontrava em bom ou mau estado de conservação, foram efectuadas também duas sondagens, do lado poente da mesma, quer no topo Norte, quer no Sul. No caso do pontão de Miróbriga, se bem que não se possa falar propriamente de um caso monumental ou imponente, é um facto que a sua localização e os aspectos construtivos contribuem para fazer realçar o carácter sólido e estruturante do imóvel.
A INTERVENÇÃO EFECTUADA AO ABRIGO DO PROGRAMA DE
VALORIZAÇÃO DAS PONTES ANTIGAS DO ALENTEJO
Calçada da Ponte de Miróbriga
Com a intervenção efectuada, pretendeu-se, não só rever algumas das consolidações já anteriormente descritas e que necessitavam de manutenção, a exemplo das guardas, bem como terminar a intervenção que apenas havia ficado parcialmente efectuada em 1998. Para esse efeito, o tabuleiro da ponte que havia sido totalmente colocado à mostra em 1998, recorrendo a limpeza e escavação, foi novamente consolidado, assim como os paramentos da mesma, que antes dos anos 90 eram só parcialmente conhecidos, e fez-se a respectiva conservação dos elementos que puseram, entretanto, a descoberto, uma vez que se prosseguiu a escavação até encontrar o limite das guardas. Procedeu-se, de novo, à consolidação do arco que apresentava graves fissurações nos anos 90, e foram completamente desobstruídos os orifícios dos paramentos, de forma a que a mesma pudesses drenar. As lajes que cobriam o pavimento foram consolidadas embora só muito pontualmente se tenha procedido a efectivos restauros, visando que o tabuleiro tivesse maior visibilidade e não se deterioresse.
Bibliografia:
ADAM, Jean-Pierre, 1989, La Construction Romaine, Picard, Paris.
ALMEIDA, D. Fernando, inédito 1972, Miróbriga dos Célticos, Delimitação da Área Arqueológica e Incremento das Escavações, «Arquivo Morto» do Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa. BARATA, Filomena, 1993, «A Cidade Romana de Miróbriga», Al-Madan, Julho1993, Almada, pp. 13-20.
IDEM, 1998, Miróbriga: Arquitectura e Urbanismo, tese de Mestrado entregue e defendida na Faculdade de Letras do Porto. BIERS, William et alii, 1988, Mirobriga, BAR International Series 451, Oxford.
CHEVALIER, Raymond, 1997, Les Vois Romaines, Picard, Paris, pp. 127-154.
DALL'AGLIO, Manuela e DALL'AGLIO, Pier Luigi., 1997, «I Ponti Romani dell'Emilia Occidentale», Stade Romane - Percorsi e Infrastrutture, L'Erma di Bretschneider, Roma, pp.209-221. GALLIAZZO, Vittorio, 1995, I Ponti Romani, I, Treviso, Canova. GROS, Pierre, 1994, «L’Amphithéâtre dans la Ville Politique “Culturelle”et Urbanisme aux Deux Premiers Siècles de l’Empire», El Anfiteatro en la Hispania Romana, Junta de Extremadura, Mérida, pp. 13-29.
MURGA GENER, José Luis, 1976, Proteccion a la Estetica en la Legislacion urbanistica del Alto Imperio, Publicaciones de la Universidade de Sevilla. PINTO e QUARESMA, 1998, Pontes Romanas de Portugal.
Ver ainda:
Ver: Dissertação de Mestrado de João Carriço, "A Ponte Romana de Vila Formosa: História e Estética". 2002.
http://dited.bn.pt/30499/1488/1914.pdf
http://www.estudiogeneraldehumanidades.es/antiqua/ingenieria-romana.html
Imagens: Ponte de Miróbriga antes, durante e depois das consolidações efectuadas em 1998 e em 2002/2003.
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