sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O Templo de Vénus (?) em Miróbriga


Uma construção do Forum de Miróbriga, de planta absidial, tem sido atribuída ao culto de Vénus (1) baseando-se na arquitectura do edifício, comum a outros templos dedicados à mesma divindade e nos dados arqueológicos[2] conhecidos.
Se, por um lado, a sua planta tem levantado algumas dúvidas, porque os templos basilicais são pouco usuais em edifícios religiosos, na Lusitânia [3], que aqui apresentam maioritariamente um aspecto rectangular (JIMÉNEZ, 19871: 53), sendo mais comum o seu uso em edifícios civis[4], é um facto que em Itália esta tipologia foi muito utilizada a partir dos começos da época imperial (GROS, 1996: 140).
O primeiro exemplar conhecido de “templo de abside” é exactamente dedicado a Venus Genetrix e foi construído em posição dominante do Forum Iulium para homenagear a origem mítica dos Iulii [5] (GROS, 1996: 140).
Data de 2 a. C. a inauguração do templo de Mars Ultor que também apresenta uma planta da mesma tipologia, ocupando a abside um lugar na cella análogo ao templo de Venus Genetrix (GROS, 1996: 142).
No entanto, o aspecto cenográfico do templo dedicado a Venus Genetrix, construído sobre um podium de 5m, poderá, a uma escala diferente, lembrar a localização sobranceira que no forum assume o templo absidial de Miróbriga. A escadaria pela qual se lhe acederia, contribuía para dar ao edifício um aspecto ainda mais imponente.
O facto de o culto a Vénus estar atestado em Miróbriga, quer arqueologicamente, através de fragmentos de uma estátua onde a deusa Vénus Capitolina é representada com a ânfora, quer epigraficamente[6], contribuiu para que a associação se fizesse.

Fragmento de estátua de Vénus (ânfora) proveniente de Miróbriga .
Museu Municipal de Santiago do Cacém. 

De facto, em Miróbriga existem duas inscrições dedicadas a Vénus: uma, cujo dedicante é Caius Iulius Rufinus, magister, indígena romanizado que adoptando o gentilício e um praenomen comum da gens Iulia , adoptou também o culto privilegiado da mesma gens (IRCP 146; JORGE DE ALARCÃO, 1985: 110) e que poderá ter desempenhado funções religiosas [7]; e outra, consagrada a Vénus Vencedora Augusta em honra de Lucília Lepidina (JOSÉ D'ENCARNAÇÃO, 1984: 224) [8] .
A equipa americana, atendendo à planta do edifício, caracterizou-o como assemelhando-se a uma «basílica cristã» (BIERS et alii, 1988: 15).
O acesso a este templo fazia-se através de uma escadaria escavada na rocha que o une à praça pública, como anteriormente referimos. Esta construção, edificada relativamente perto do templo centralizado, é também construída em opus caementicium . O seu pavimento é revestido com opus signinum , ou formigão, que assentava, por sua vez, numa obra com características semelhantes ao statumen utilizado no assentamento dos pavimentos ou estradas. Não há vestígios de terem sido aplicadas sobre o mesmo quaisquer placas calcárias ou marmóreas. No centro da abside é visível uma base de altar.
O templo era dividido em três naves, medindo as laterais cerca de 4m. A largura total do edifício é de 15m e o comprimento é de cerca de 10m.

[1] Segundo Vitrúvio os templos de Vénus deveriam situar-se fora das muralhas para que os jovens e as mães de família não se habituem às paixões de Vénus (De Architectura I, XII, 11).
[2] «por ali perto apareceram fragmentos de uma estátua de mármore branco (parte da perna e do pé esquerdo), bem como uma ânfora e a roupagem sobre ela colocada» (ALMEIDA, 1988: 27).
[3] No entanto o templo de Milreu, de cronologia tardia - século IV d. C. -, apresenta uma planta absidial (HAUSCHILD, 1989-90: 74 e 1997: 410). Em Clunia existe também um templo porticado cujo podium, na sua parte posterior, tem uma planta absidial (PALOL, 1989-90: 45 e 48).
[4] Sobre este tema ver BALTY, 1991: 179. No entanto, em Clunia existe um edifício de planta absidial, que P. Palol interpreta como capitolium (PALOL, 1987: 157).
Em Córdova foi construído, em finais do século III-inícios do século IV, um complexo monumental, onde um conjunto de construções de planta absidial, muito vinculada à arquitectura imperial (BALTY, 1991: 605), se articula com um pórtico (HIDALGO PRIETO, 1994: 207-208; HIDALGO, et alii, 1994: 51). Trata-se de edifícios administrativos, nomeadamente, de basílicas ou cúrias (ver BALTY, 1991: 402 e 404).
[5] Segundo Suetónio, Júlio César, no discurso fúnebre de sua tia Júlia, terá afirmado «é de Vénus que descendem os Júlios, que contituem a nossa família» (SUETÓNIO, ed. 1978: 23).
[6] Não obstante, também existe uma dedicatória homenageando Marte (ENCARNAÇÃO, 1984: 221), sem que alguma vez se tenha associado esta inscrição ao templo absidiado.
[7] O culto a Vénus sem um dos atributos habituais, Augusta, Victix ou Domina, está atestado pela primeira vez na Península (ENCARNAÇÃO, 1984: 222).
[8] Dedicada por uma mulher, Flavia Títia (ENCARNAÇÃO, op. cit: 223), da gens Flavia, que Jorge de Alarcão admite remontar à municipalização de Miróbriga (ALARCÃO, 1985: 110).
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