sexta-feira, 21 de abril de 2017

Boa Páscoa, Revista Incomunidade

Filomena Barata

Boa Páscoa 2017

http://www.incomunidade.com/v55/art_bl.php?art=95

ANO 4EDIÇÃO 55 - ABRIL 2017



Bom renascer, bom borrego sagrado servido à mesa. Ou imaginado, para quem o não puder provar.

Restos tragados em dia de Pascoela, em barragens ou rios para bem sagrar.

Bons ovos da Páscoa, esses símbolos genésicos, para tudo conter.

Friso-cornija: Museu Monográfico de Conimbriga



Aproveito este espaço que me é dado, para, em primeiro lugar, desejar a todos vós uma BOA PÁSCOA, neste período em que a vida renasce.
Agora que no Alentejo e o resto do país se prepara a Pascoela, esse dia em que junto aos ribeiros ou barragens se reúnem ainda as famílias para comer os restos do borrego pascal, celebrando as fontes de vida, como a água e o sacrifício depurador do animal, é época para tentarmos também dentro de nós fazer renascer um sentido de vida melhor, numa época em que diariamente a crise nos testa.
 Esse mesmo cordeiro pascal, imolado na Bíblia, e que segundo a Mitologia Clássica era reportado a Ganimedes, que era guardador de rebanhos nas montanhas de Tróia quando o pai dos deuses Zeus, em pessoa ou em forma de águia, o raptou ou levou para o Olimpo, onde passou a desempenhar o papel de escanção do néctar dos deuses, o vinho. Também o vinho, a par do borrego e do pão faz parte da ceia pascal, pois  dessa refeição sagrada fazem parte o borrego, significando aqui o próprio Jesus, o vinho e o pão, o seu sangue e o seu corpo.O borrego que o Cristianismo consagrou como alimento divino e que, para além de fornecer a lã que pasmará os romanos em Salacia (Alcácer do Sal), quase substituiu o porco alimentado a bolota, no período islâmico, é ainda um dos alimentos mais presentes na dieta alimentar do Alentejo.

Poucos dias passaram do Equinócio, essa palavra latina que aglutina dois termos Aequus, que significa "igual" e "nox", noite.
Isto é, inaugura-se a Primavera, altura que a noite e o dia passam a ter sensivelmente a mesma duração.


O Equinócio ou a chegada da Primavera é um momento celebrado em todo o mundo, desde tempos imemoriais, exaltando-se a natureza e a abundância, sendo-lhe dedicados festivais ao longo dos séculos.

Cerealia era exactamente uma festividade em honra de Ceres, deusa das colheitas, que os romanos enquadravam no período da regeneração do equinócio da Primavera, simbolizando o renascer da Natureza e a chegada do período de fertilidade. A sua importância ao longo do tempo tornou-se bastante visível, acabando por esta festividade ser adoptada pelos cristãos, coincidindo com o período que vivemos, ou seja,  da Páscoa.

Ao que diz a Mitologia, Prosérpina, filha de Ceres e de Júpiter, era uma das mais belas deusas de Roma e, enquanto Prosérpina apanhava flores no campo, surgiu Plutão que a rapta e a leva para as profundezas da Terra, tornando-a sua esposa.

Ceres, sua mãe, procura-a desesperadamente, mas,  no entanto, porque ela havia comido sementes de romã, acabou por ficar definitivamente cativa, e foi mantida debaixo
de terra durante seis meses, até à Primavera, época de fertilidade e colheita, quando ela renasce e regressa para junto da mãe até ao fim
do verão.


Durante a Cerealia, eram famosos os jogos de Ceres (ludi cereales), que consistiam na procura de Prosérpina e eram representados por mulheres de branco que corriam com tochas acesas. Os jogos apresentavam atividades variadas nas quais os cidadãos poderiam participar.

Relacionados com a Páscoa cristã estão vários símbolos, desde o cordeiro pascal, a outros elementos de filiação distante, como são o coelho e os ovos.

O coelho é um símbolo da fertilidade pela sua enorme capacidade de reprodução. Tal como a ideia da Páscoa é vida, ressurreição, é renascimento.

Já em período romano são conhecidas inúmeras referências a essa sua capacidade, ao ponto de ser considerada uma praga, como nos refere Plínio, « ... Ao género das lebres pertencem também os animais a que na Hispânia se chamam «cunuculi», de fecundidade inesgotável (...) Plínio, N.H., VIII, 217 ou mesmo Estrabão que se refere às  lebrew como «animais daninhos» : «Estes animais, como se alimentam de raízes, destroem plantas e sementes». (...) uma invasão (de lebres) deste género ultrapassa as suas proporções habituais e propaga-se como uma peste, ao modo das pragas de serpentes ou de ratos campestres» Estr. III, 2, 69.

Os ovos, (ou óvulos) representam o nascimento, a fecundidade ou a força genésica primordial, portanto, a própria ideia da vida, da eternidade ou da ressurreição, acabam por pertencer a um dos mais comuns motivos decorativos quer de bens de utilidade doméstica quer de elementos arquitectónicos: frisos; capitéis.

Ao que se sabe já era comum presentear as pessoas com ovos ornamentados na Antiguidade.

Os egípcios e persas costumavam tingir ovos com as cores primaveris e os davam a seus amigos. Os persas acreditavam que a Terra saíra de um ovo gigante, tal como na Mitologia Clássica onde se considera que o Universo surgiu a partir de um ovo Cósmico semelhante ao de um pássaro.

Trata-se do ovo cósmico que, identificando-se com o Andrógino, representa a plenitude da unidade fundamental e genésica, onde se confundem os opostos.

Por isso, para agraciar os Lares, era comum em Roma enterrarem-se ovos ou taças com ossos de aves, cuja significação, na essência, era a mesma.
Nos seus elementos decorativos, sagravam os Latinos esse ovo matricial.

Ao que se sabe, os primitivos cristãos da Mesopotâmia foram os primeiros a usar ovos coloridos na Páscoa, representando a alegria da ressurreição.

Na Grã-Bretanha, costumava-se escrever mensagens e datas nos ovos dados aos amigos e em muitos países europeus, os ovos são oferecidos às crianças como presentes de Páscoa. Também eram decorados ovos ocos na Arménia com retratos de Cristo, da Virgem Maria e de outras imagens religiosas.

Mas muitos outros povos, como os chineses, os hindus, finlandeses, japoneses, índios americanos, e mesmo povos africanos têm a sua cosmogonia derivada do ovo, a que se associa a ideia de fertilidade, nascimento e ressurreição, como se pode confirmar nos tradicionais ovos de Páscoa. Círculo que contém o princípio e o fim.

Ou seja, homenageiam assim a génese do Mundo fecundado pelo Sol, ou criação das águas primordiais que, ao separar-se, origina o Céu e a Terra. É através da partição, da divisão do ovo, desse círculo inicial, e do Andrógino primordial, que cosmicamente se cria, ou se diferencia a noite e o dia, o macho e a fêmea.

Também entre os Gregos, da Noite, esfera imensa e oca, separam-se, como o desabrochar de um ovo, duas metades: O Céu e a Terra (Urano e Geia), de cuja união nascem os Titãs.

Já Platão na sua obra «Banquete» relembra o mito do Andrógino, afirmando que o Homem original tinha a forma esférica, integrando os dois corpos e os dois sexos. São estas as suas palavras: «... naquele tempo, o andrógino era um género distinto que, tanto pela forma como pelo nome, continha os outros dois, ao mesmo tempo macho e fêmea».
A seu modo, a própria Bíblia, segundo o Génesis, ao assumir que Eva foi tirada de uma costela de Adão aceita que, na origem, todo o humano era indiferenciado e que o nascimento de Eva mais não teria sido do que a cisão do Andrógino primordial em dois seres: macho e fêmea. O retorno ao estado primordial, à unicidade primeira, em que se inclui a ideia de fusão do divino e humano, é para a maioria das religiões o grande objectivo da vida.

O mito do Andrógino, ou signo de totalidade inicial, é muitas vezes concebido como ovo cósmico, representa a plenitude da unidade fundamental e primordial onde se confundem os opostos, círculo que contém o princípio e o fim.
E é por esse motivo que há o hábito de oferecer ovos na Páscoa ou de os colocar sobre os bolos confeccionados nesta altura, pois a Primavera e o Equinócio são esse ciclo do RENASCER.

Fragmento escultórico em estuque com friso de óvulos. Conimbriga


Na fotografia: «bordo de taça de Terra Sigillata Sudgálica, tipo Dragendorff forma 37.

Apresenta uma linha de óvulos com lingueta. Em baixo segue-se uma linha ondulada, sob a qual se apresenta uma decoração difícil de determinar formada por motivos de árvores que alternam com figuras de animais: cabeça e membros superiores de uma lebre que salta para a direita e parte da juba, dorso e cauda de um leão que segue na mesma direcção. No topo das árvores encontram-se pequenas aves. (descrição a partir de C. Veigas, 2006)».

Proveniência:Torre d'Ares
Fotografia e legenda (entre aspas) a partir de:
http://www.matriznet.dgpc.pt/…/Obje…/ObjectosConsultar.aspx…

Mosaico emeritense com representação de coelho.Fotografia Morenzo Plana Torres




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