segunda-feira, 5 de junho de 2017

Existe Património sem a Palavra e sem o Ritual?

Centro Interdisciplinar de História, Culturas e
Existe Património sem a Palavra e sem o Ritual? ... Maria Filomena Santos Barata.
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A propósito do Património Imaterial ...

"Ao contrário do animal, que de si só deixa passos,o homem deixa coisas, por detrás das quais ele se suspeita ou se perfila.
O mundo dos objectos é, assim, um mundo de cultura,
um mundo de coisas que o homem pensou,fez e de que se serviu."

Jorge de Alarcão, "A Dimensão Antropológica da Arqueologia"
in Biblos, Vol. LIX, Coimbra, 1983

A segunda metade do século XX, particularmente a partir das últimas décadas, assistiu à criação da sociedade da informática, em processo de exponencial crescimento na viragem do milénio, e com efeitos e contornos ainda difíceis de caracterizar, designadamente no que no que respeita aos mecanismos da comunicação e da memória.
A utilização das novas tecnologias acentuou a tendência para uma certa desmaterialização da criação intelectual e artística que já se vinha verificando – ver a substituição das criações tácteis, como a pintura e a escultura, pelas produções de carácter efémero – instalações; vídeos; diaporamas – provocando um despojamento da criação enquanto actualidade e também como ideia de memória, ou seja, enquanto perspectiva do que delas restará, ou seja, em última análise, de futuro.
Assim, pensando nos que delas restará amanhã, como ideia de «património», poderemos questionar se, no Futuro, se poderá dizer, como o afirmamos do Passado, que muitas das realizações artísticas humanas manifestas tanto em obras materiais como intelectuais perdurem no tempo, rompam o vínculo da sobrevivência humana, ou mesmo do tempo de uso de alguns dos veículos tecnológicos que hoje utilizamos: veja-se já a informação que se perdeu com a caída em desuso dos vídeos e a utilização dos CD’s e dos DVD (s).
Assistimos, portanto, para além das razões sociológicas que o século XX consolidou, a uma ameaça da “memória” através dos mecanismos de “mnemónica” que tradicionalmente eram reconhecidos.
E, no entanto, paralelamente, o Homem cada vez mais parece intervir sobre o Território, apossando-se dele de forma cada vez mais extensiva, ao ponto de esgotar muitos dos seus recursos vitais.
Dessa expansão humana sobre o território, que originou que o ritmo da "protecção/conservação" se tivesse deixado indubitavelmente ultrapassar pelo ritmo acelerado da destruição, e do pânico do “esquecimento” que daí se gera resultam inevitáveis preocupações dos movimentos culturais/patrimoniais. Estes vêm, assim, de forma cada vez mais expressiva, afirmar a necessidade de preservar os designados «bens» ou recursos culturais, ou seja, as memórias que se construíram sobre o Território, defendendo, assim, que o Homem se deva apossar desse mesmo território de uma forma que julgam mais racional, recolhendo dele "lições" ou ensinamentos.
Talvez por isso mesmo nunca o Homem se sentiu como hoje deserdado e ameaçado no seu território: o espaço tangível, até mesmo como noção de terra primordial, e o intangível, fazendo aparecer novas raridades: o espaço, o tempo, a verdade, a água, o silêncio..." ou mesmo a palavra, diria eu, enquanto significante como tradicionalmente conhecíamos (Baudrillard, A Sociedade de Consumo).
Veja-se a linguagem quase ideográfica utilizada na comunicação dos meios da internet ou mesmo dos telemóveis.

E, no entanto, porquê este pânico se, desde sempre, ao longo da História, se assistiu à alteração de valores morais e culturais, à sua manutenção, degradação ou substituição, originando essa dinâmica a própria evolução histórica?
Apenas porque não podemos assegurar os efeitos do avanço e desactualização permanente das novas tecnologias sobre o controlo do território e da memória.
É também por isso, o Passado, a sua herança se assume, cada vez mais, como uma “entidade” pacificadora, pois sobre ela se consegue levantar questões, mas também dar também respostas.
Por isso, também esta nova necessidade de dar sentido ao Passado, através dos seus vestígios tangíveis e ainda do intangível, através do quais julgamos poder explicar a natureza humana: as manifestações religiosas; as comemorativas; os ritos e rituais; os conceitos subjacentes às iniciativas humanas; as rotas; os caminhos percorridos.
Confesso, no entanto, que vejo com alguma dificuldade a separação do material e do imaterial: quase tão difícil de conceber, a meus olhos, como a velha dicotomia: sagrado e profano. E, por isso, tenho alguma dificuldade em aderir sem questionar às novas nomenclaturas de classificação dos bens culturais, enquanto património material/imaterial.
Porque a vida de constrói de ideias; de crenças, de sentimentos; mas sem a palavra, o gesto a comunhão não se estabelece e o ritual não se partilha.

Sem o espaço, seja ele uma árvore; um pedaço de terra ou um templo não se materializa o sentido do rito.
Diria, como Debray no seu «Deus, um Itinerário» que sem a palavra escrita, firmada, e sem o ritual as religiões ou as crenças, logo o que o Homem tem de mais peculiar, tudo se esboroa, como até a pedra se pode transformar em pó.

Não resisto a citar: "1 - ALEPH - AHIH (Aheieh), "Sou o que sou" - essência divina invisível a todos os seres" e com ela iniciou a construção do Mundo.
Da combinatória das letras surgiram as palavras. E dessa ligação, casuística aos olhos humanos, mas sagrada para a Divindade nasceu a História. Os "acontecimentos" não são mais do que fruto da aliança das letras e das palavras.

«Deus criou todas as coisas com números, medida e peso. Por isso os cabalistas dizem que cada número contém um mistério e um atributo que se refere à Divindade ou a alguma inteligência.

Tudo que existe na natureza forma uma Unidade pelo encadeamento de causas e efeitos, que se multiplicam ao infinito; e cada uma destas causas refere-se a um número determinado.

Os antigos rabinos e cabalistas explicavam a ordem, a harmonia e as influências dos céus sobre o mundo pelas 22 letras do alfabeto hebraico».

Assim, neste mundo de dúvidas de interrogações, há que fazer, do meu ponto de vista, um repto, um combate pela defesa de tudo o que representa a capacidade de o Homem pensar, mas também de partilhar o pensamento, pois, só isso o liberta do que é estritamente material e de um dia a dia sem sonho em sem projecção.
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