segunda-feira, 2 de julho de 2018

Vamos contar histórias no Largo da Ajuda? A Mitologia como um Sistema Ecológico.



Aprender Mitologia no jardim do Museu: A Fauna e a Flora


Filomena Barata


Sem a menor dúvida, a Mitologia, essa narrativa que atravessa o Tempo milenar, revela-nos crenças; histórias;  saberes; divindades, e, através delas, um sistema ecológico único em que Deuses, Homem e Natureza se abraçam.
Uma vez mais, tentaremos, através da observação de alguns elementos da Fauna e da Flora, falar dos Mitos que contêm elementos fundamentais para o conhecimento das mentalidades, herdeiros que somos desse saber colectivo.

Ver neste mesmo blogue:
http://ascidadesdalusitania.blogspot.com/2014/07/especies-animais-de-mirobriga-e-suas.html

Fauna é a esposa de Fauno, deus dos bosques e planícies que protege os rebanhos e culturas, cujos oráculos se conhecem através dos murmúrios das árvores, Fauna é  protectora das mulheres contra a esterilidade.
No festival da Faunalia, que se celebrava a 5 de Dezembro, as pessoas do campo com grande alegria e banquetes, fazia referência a Fauno como deus da agricultura e do gado.
Também o deus Silvano (lat. Silvanus) divindade das florestas (lat. silva – donde deriva o nome) que mais tarde passou a ser identificado com o deus Fauno ou com o Pã grego. Alguns autores descrevem-no como filho de Saturno e outros de Fauno.
Tal como Fauno, era um deus puramente romano e, também como ele, tinha por atribuição proteger as atividades pastoris. Silvano guardava os bosques e se dizia-se que foi o primeiro a separar as propriedades nos campos

Os pássaros e as Aves
Voar sempre foi o sonho dos humanos. Certamente por esta vontade, pela Liberdade que representa, ou talvez porque as aves estão mais perto do Céu, foi, desde a Antiguidade, a capacidade de voar foi atribuída a inúmeras divindades.
Mas existem também na Mitologia personagens a quem a possibilidade de voar demasiado alto foi castigada, como Ícaro,  que acabou por sucumbir quando tentava abandonar Creta.
Entre as divindades aladas não podemos deixar de referir Hermes, o Mercúrio dos romanos, mensageiro de Zeus e dos deuses, protector dos viajantes, mercadores e ladrões. Mercúrio tem como atributo o capacete, o bastão e as sandálias aladas, servindo-se delas para que pudesse cumprir rapidamente a sua função.
Também é sabido que as aves e pássaros são associados a um conjunto enorme de rituais no Mundo Antigo e que a observação do seu voo e das suas vísceras permitia interpretar as vontades dos deuses, estando essa interpretação a cargo dos Áugures. 
Certamente não será por acaso que alada é a deusa Vitória, a os generais romanos agradeciam pela nas guerras bem sucedidas.





Lucerna com Pavão. Museu Nacional de Arqueologia
Século I d.C.
«Lucerna de volutas, de tipo itálico Dres.15. De bico redondo, orla lisa. Decoração moldada no disco representando um pavão de frente, de cabeça virada para a esquerda e cauda aberta. Pasta beje com engobe castanho. No fundo, marca MVN.TREPT.» Fotografia e comentário a partir de:http://www.matriznet.dgpc.pt/MatrizNet/Objectos/ObjectosConsultar.aspx?IdReg=139704



O galo -  o animal do Tempo e da Luz, é atributo de Mercúrio, e o deus mensageiro é, por vezes, representado cavalgando um galo. É o símbolo do Tempo, sendo-lhe, em algumas associações mistéricas ou iniciáticas, atribuído o papel de vigilante, mas também o do início do caminho da Luz, pois é ele que anuncia o nascer do dia e do Sol. É o Renascer. Sendo o símbolo solar por excelência, representando a “luz nascente”, era consagrado aos deuses solares como Apolo, divindade que também simboliza o dia que se levanta, mas aparece outrossim associado a divindades lunares. 
Já nos «Versos de Ouro» de Pitágoras se recomenda «alimentai o galo e não o imoleis, pois ele é consagrado ao Sol e à Lua».
Não obstante, em Roma, a ave é sacrificada a Esculápio, deus da saúde e da medicina e filho de Apolo.

O galo associa-se ainda a Afrodite/Vénus, pois o jovem Aléction, encarregado de acordar os dois amantes - Vénus e Ares/Marte de forma a que não fosse conhecido por Hefesto/Vulcano e tendo adormecido, sofreu grande punição. O seu sono permitiu que Hélio denunciasse a Hefesto/Vulcano o adultério, tendo sido metamorfoseado em Galo (alektyón) e obrigado a cantar todas as madrugada, antes do nascimento do sol.

Ver: Junito de Souza Brandão, Afrodite
http://templodeapolo.net/mit_seres_divinos_ver.asp?ID=3459&value=Afrodite&sec=Mitologia&sub=Mitologia%20Grega&aut=Junito%20de%20Souza%20Brand%C3%A3o&esp=Deus&liv=Mitologia%20Grega,%20v1.&rev=&usu=Odsson%20Ferreira


A coruja - símbolo da sabedoria ou da inteligência desde a antiguidade grega, a coruja é, tal como o galo e a serpente, um dos atributos da deusa Atena, e foi associada ao oculto e ao sobrenatural, possivelmente devido a seus hábitos noturnos e aos pios que emite.



Pátera da Lameira larga, com o Mito de Perseu. Mueu Nacional de Arqueologia

Diz ainda a Mitologia que, por se terem recusado a participar nos mistérios de Dioniso, o Baco dos Romanos, a ninfa Leucipe foi transformada por Hermes em Mocho e Arcipe em Coruja. A águia - A águia, essa ave de rapina tão presente no Mundo Romano, aparece conotada com a ressurreição e a imortalidade. Por ter a capacidade de voar muito alto é símbolo do Sol e do céu (morada dos deuses).

A águia simbolizava, em Roma, o poder e por isso era usada nos estandartes das legiões a partir de 104 a. C.


Serpente - A serpente a parece associada a Apolo que matou a serpente Píton que vivia numa caverna do monte Parnaso e se transformou em serpente para se unir a Dríope, filha do rei Dríops.
Mas vemos ainda a serpente associar-se a Júpiter , Hermes; Esculápio, Perseu e à Medusa.
A serpente simboliza a renovação pois muda a sua pele todos os anos.
O deus Esculápio tem-na no seu bastão, motivo pelo que ainda hoje as farmácias tenham como símbolo este animal, pois a divindade era protectora da saúde.  




Escultura de Hércules – Museu Nacional de Arqueologia

Este baixo-relevo do Museu Nacional de Arqueologia, representando homem nu, barbado, de pernas abertas levantando uma maça com a mão direita por cima da cabeça enquanto segura com a esquerda o corpo de uma serpente trata-se de Heracles ou Hércules em luta contra a Hidra de Lerna, a serpente de múltiplas cabeças que renasciam quando cortadas e cujo sopro mortal provocava devastações nas colheitas e nos rebanhos. Representa um dos “doze trabalhos” que o herói
A serpente aparece ainda associada ao Génio, simbolizando a força espiritual e vivificante dos homens, pois todos se fazem acompanhar dessa divindade individual que o acompanha e protege até à morte, dos imperadores e dos deuses, a exemplo do Génio de Júpiter.

Rã - é um animal que, em muitas culturas, aparece associado à renovação, ao despertar da natureza que se anuncia através do seu “canto”. Genericamente as rãs são associadas à Mãe-Terra, e à fecundidade materna.
A divindade com cabeça de rã, Hécate, é uma deusa da terra, com poderes sobre a vida e a morte, senhora de poder dar vida ou envenenar alguém. As rãs e os sapos têm sido associados ainda a bruxarias, pois é comum que os encontremos como ingredientes indispensáveis nas poções mágicas, ou em determinados cemitérios, visando atingir, fechando-lhes a boca, de molde a fazer mal a alguém.



Coelho/lebre



Era conhecida a abundância de coelhos em toda a Hispânia que foi salientada pelos Romanos, havendo referências a esse respeito em Estrabão.

Os coelhos aparecem ligados à noção de Fertilidade e, por isso, estão ligados à velha divindade Terra-Mãe.

De algum modo o coelho da Páscoa é a continuidade da ideia de regeneração da vida sob todas suas formas.





Fragmento de caixa em marfim de Época Romana. Apresenta, em baixo relevo, uma lebre deitada sobre as quatro patas. É proveniente da Necrópole do Olival do Senhor dos Mártires. Museu Nacional de Arqueologia


A Flora



«Mas, antes de tudo, venera os deuses e oferece à magna Ceres os sacrifícios anuais devidos, celebrando-os nos prados ridentes, quando o inverno chegou ao ser termo e a primavera serena já se anuncia. Nessa ocasião estão nédios os cordeiros e os vinhos têm o melhor sabor; o sono é aprazível, e são densas as sombras nos montes. Adore Ceres, por tua intenção, toda a mocidade dos campos; diluam-se, em honra de Ceres, favos de mel em leite e doce vinho; que a vítima propiciadora dê três voltas aos trigos novos, e todo o alegre cortejo a acompanhe, invocando com clamores, para a tua casa, a protecção de Ceres; e que ninguém meta foice nos trigos maduros antes de, com a fonte cingida por uma grinalda de folhas de carvalho, ter honrado a deusa com singelas danças e com cânticos».


                                   Virgílio (70 -19 a.C), As Geórgicas, Ed. Sá da Costa, 1948 (vv 335-355)


Cipreste - Esta espécie era atributo do deus de origem itálica Silvano (Silvanus), protector dos bosques e das florestas (do latim silva, "selva" – donde lhe vem o nome), da caça, das actividades pastoris, facilitando a fertilidade do solo e a procriação dos animais, bem como dos limites das propriedades (limes). Silvano usava um ramo de cipreste como ceptro.
O Cipreste, dada a sua longevidade e a sua verdura persistente, simboliza a árvore da vida e a união entre o Céu e a Terra.
Estava ligado a outras divindades da Natureza, como Artemisa/Diana, padroeira dos animais selvagens, deusa da caça e protectora das mulheres e dos partos.
O cipreste aparece também associado a Deméter/Ceres, divindade da Natureza e dos cereais na Mitologia Greco-romana.
Mas o cipreste é também atributo de Hades/Plutão, deus dos infernos, que habitava o mundo inferior, onde toda a natureza germina. Era plantado junto das necrópoles romanas, motivo pelo que ainda hoje o vemos junto aos cemitérios.

Rosas – Através destas flores recordamos Afrodite/Vénus, que a tinha como atributo e que com ela se fazia acompanhar, no mês que lhe era dedicado, Abril, ou «mensis Veneris». Mas, também em Abril, Cupido, o deus do amor, filho de Marte, deus da guerra, e de Vénus, se fazia representar com uma coroa de rosas na cabeça.
Considerada "a rainha das flores" pela poetisa Safo, no século VI a. C., a rosa teria sido criada, segundo a mitologia grega, por Clóris, deusa das flores (Flora entre os romanos), com o corpo inanimado de uma ninfa.
Ainda Príapo, deus dos jardins e da fecundidade, a usava como seu atributo.

Figueira - Simboliza a abundância, a par da oliveira e da videira, e entre os Gregos aparece associada a ritos de fertilidade.
Segundo a lenda da fundação de Roma, Rómulo e Rémulo teriam nascido debaixo de uma figueira e «durante muito tempo, os divinos gémeos foram venerados no Comitium sob uma figueira que nascera da primeira por estaca», segundo o geógrafo Pausânias, do século II d. C., sendo um dos frutos mais representados na Antiga Roma.

Oliveira - Era considerada a árvore da civilização, da fecundidade, da paz.
A deusa Atena, que a tinha como atributo, fez brotar a oliveira por detrás do templo de Erecteion, como o mais belo presente que podia oferecer aos Atenienses, zelando assim pelo Estado e pela prosperidade do mesmo, pela paz e pela agricultura. A oliveira, que, com os seus frutos, permite ao Homem o fabrico do azeite, remete ainda para a Luz, pois, para além da alimentação era usado nas lucernas e candeias.


Videira – Surge associada a Liber Pater e sua divina esposa Libera, divindades relacionadas com a fertilidade, que gradualmente foram sendo assimiladas por Dioniso/Baco, a divindade associada à força da natureza.
Dioniso/Baco era filho de Zeus e da princesa Sémele, e era a divindade das festas, do vinho, da fecundidade, do lazer e do prazer. É representado geralmente como um jovem imberbe, risonho e com ar festivo, de longa cabeleira, pegando um cacho de uvas ou uma taça numa das mãos e empunhando na outra um tirso (bastão envolvido em hera e ramos de videira que era encimado por uma pinha).
Mas a vinha também aparece associada a Saturno, deus das sementeiras e dos grãos, que era representado com a foice do ceifeiro e a podoa do vinhateiro.








Busto de Dioniso  em mármore

Século II d.C.  Milreu, Faro.



Romãzeira - Hera, a deusa grega esposa de Zeus, usava na mão uma romã, simbolizando a fertilidade.
Segundo a mitologia, teria sido Afrodite/Vénus, a deusa do amor, que a havia plantado na terra.
Outro mito diz-nos que Perséfone, a Prosérpina romana, filha de Deméter/Ceres, passava forçadamente uma parte do ano com o seu marido Hades, o Plutão romano, que a havia raptado para o mundo dos Infernos, porque ela tinha comido algumas sementes de romã. O acordo que Zeus, o pai dos deuses, havia feito com Hades/Plutão para que Perséfone/Prosérpina pudesse voltar para a terra, para junto de sua mãe Ceres, era que ela voltasse sem nada ter comido. Como tal não aconteceu, Perséfone/Prosérpina  passava metade do ano junto dos pais, e o restante com Hades/Plutão, nas profundezas. Com o seu regresso, inaugurava-se a Primavera.

Louro/loureiro  - Segundo a Mitologia, Apolo, considerado o deus da juventude e da luz, irmão gémeo de Artemisa, apaixonou-se pela ninfa Dafne, que não lhe correspondeu. Dafne não aguentava mais a perseguição do belo deus Apolo e pediu ao seu pai Peneu que lhe mudasse a forma. O pai atendeu ao seu pedido e transformou-a num loureiro.
Com as folhas desta árvore Apolo teceu uma coroa. Passou a ser o símbolo desta divindade, representando a vitória e a glória.
A coroa de louros é ainda um dos atributos da deusa Vitória, simbolizando triunfo, e era entregue aos vencedores, aos heróis, aos génios e sábios. Foi oficialmente atribuída a César, que a usava com frequência.



Dafne e Apolo. 

Painel VI (Mosaico das Musas) Museu Nacional de Arqueologia

Na Antiguidade também se acreditava que os ramos de folhas de louro protegiam quem os usava contra os relâmpagos e contra as intempéries.


Carvalho – Esta árvore aparece na Mitologia associada a Zeus, o pai dos deuses, que permanece nos carvalhos. Era o carvalho que lhe fornecia a coroa. 
Surge ainda ligado às Dríades, as ninfas que povoam as florestas de carvalhos, particularmente sagrados na religião grega, e que as protegem, não podendo ser abatidos. Conta a mesma Mitologia que Milão, ao tentar abater uma destas árvores, ficou com as mãos trilhadas entre as duas partes da árvore, que se voltaram a unir.
As Dríades teriam a forma e o tamanho de um tronco com raízes, a mais célebre das quais Eurídice, que casou com Orfeu.

Pinheiro – O pinheiro, representava,  já na Antiga Grécia,  a fertilidade e a masculinidade, relacionando-se com a sua fisionomia erecta, bem como com a abundância. Os Gregos consideravam-no sagrado para o deus Posídon, o Neptuno romano.


Segundo um outro mito, Cíbele apaixonou-se por Átis e, não  sendo devidamente correspondida,  pois o jovem traiu-a com uma ninfa,  a deusa vingou-se e enlouqueceu Átis, que acabou por morrer sob um pinheiro. Posteriormente, com remorsos, a deusa acabou por o trazer novamente à vida.  O mito lembra-nos assim o ciclo de nascimento, crescimento, morte e ressurreição e fertilidade/fecundidade dos campos e da vida.
É essa ideia de Imortalidade que nos surge na associação do pinheiro de Natal.





Pinha, pormenor decorativo de um dos capitéis
do templo romano de Évora
Fotografias Esmeralda Gomes





Papoila - As papoilas eram atributo do deus Hipno, a personificação do sono, da sonolência e irmão gémeo da morte, a que Romanos fizeram equivaler a Somnus.


Mas a papoila aparece também associada a Deméter/Ceres, a deusa da fertilidade e do trigo, motivo pelo que, ainda nos nossos dias, se junta à oliveira e à espiga e às flores campestres, no ramo do «Dia da Espiga».


Alecrim, rosmaninho e alfazema - O alecrim já era considerado na Grécia antiga um presente de Afrodite aos humanos, sendo utilizado como perfumador.

As suas virtudes medicinais foram também descritas pelo escritor Plínio-o-Velho, no século I d.C.. Por causa do seu aroma característico, os romanos designavam-no como rosmarinus, que significa "orvalho do mar". Para os Romanos o alecrim simbolizava o amor e a morte, e por isso era plantada na soleira das portas.

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