segunda-feira, 21 de março de 2016

Vamos abraçar a Primavera pela voz dos autores latinos no Museu Nacional de Arqueologia

22 de Março de 2016
MNA, Lisboa.





Logotipo do Museu Nacional de Arqueologia












Com o Equinócio da Primavera rememoravam o regresso de Prosérpina à terra, para junto de sua mãe Deméter, a deusa mãe da Agricultura, Ceres para os Romanos, honrando-a esse regresso do Mundo Subterrâneo onde vivia uma metade do ano – representava-se assim o Inverno - com Hades, seu esposo, com festivais.

Através de um percurso em torno  de algumas das peças da mostra «Lustânia Romana, Origem de Dois Povos» daremos voz a alguns escritores latinos, homenageando assim a Poesia e o Equinócio da Pimavera. E conosco estará Horácio, Virgílio, Apuleio, Epicteto, Claudiano ...

Filomena Barata


«Esta cabeça evanescente e aguda,
tão doce no seu ar decapitado,
do Império portentoso nada tem:
nos seus olhos vazios não se cruzam línguas,
na sua boca as legiões não marcham,
na curva do nariz não há povos
que foram massacrados e traídos.
É uma doçura que contempla a vida,
sabendo como, se possível, deve
ao pensamento dar certa loucura,
perdendo um pouco, e por instantes só,
a firme frieza da razão tranquila.
É uma virtude sonhadora: o escravo
que a possuía às horas da tristeza
de haver um corpo, a penetrou jamais
além de onde atingia; e quanto ao esposo,
se acaso a fecundou, não pensou nunca
em desviar sobre el' tão longo olhar.
Viveu, morreu, entre colunas, homens,
prados e rios, sombras e colheitas,
e teatros e vindimas, como deusa.
Apenas o não era: o vasto império
que os deuses todos tornou seus, não tinha
um rosto para os deuses. E os humanos,
para que os deuses fossem, emprestavam
o próprio rosto que perdiam. Esta
cabeça evanescente resistiu:
nem deusa, nem mulher, apenas ciência
de que nada nos livra de nós mesmos."
Jorge de Sena»









«Quando se procura semear a dúvida, que importa que esta seja sobre Zeus, Atena ou sobre o Amor! O deus Amor é uma personagem importante! Não é só de hoje que ele goza de altares e sacrifícios! Também não é um recém-chegado, nem um deus estrangeiro introduzido no nosso país por andróginos ou mulheres, criado pela superstição bárbaras como os Atis e outros Adónis (1)».
(1) Átis era um pastor da Frígia, Ásia Menor, de uma rara beleza, pela qual Cibele se apaixonou. Adónis era uma divindade de origem fenícia, também de extraordinária beleza, de tal forma que a deusa Afrodite se enamorou por ele loucamente. Numa ocasião em que Adónis andava à caça foi tolhido por um javali selvagem.
Plutarco (Nasc.c. 46 - 50 Queronea, Beócia - Fal. c. 120
Delfos, Fócida), Erotika, Fim de Século, edição de 2000.


«Assim como evitas pisar um prego, e tens todo o cuidado em não torcer o pé, assim também evita pôr em causa os teus princípios.
Se, nesta ou naquela tarefa, tivermos este cuidado, mais seguros nos sentiremos na execução da mesma».
XXXVIII; Manual de Epitecto.



«Acordando quase perto da primeira vigília da noite, vejo o orbe da Lua cheia resplandecente de admirável brilho, emergindo então das ondas do mar. E, aproveitando a silenciosa solidáo da opaca noite, estando também certo que esta suprema Deusa possuía transcendente majestade, e que todas as coisas humanas se regiam por sua providência; que não somente o gado e as bestas feras, mas também as inanimadas, vegetavam pelo divino influxo de sua luz e divindade; que igualmente os mesmos corpos na terra, céu e mar, já cresciam conforme o seu crescimento e já diminuíam obedecendo ao seu decrescimento, determinei deprecar a augusta imagem da Deusa presente, sendo certo que o Fado estava já saciado de minhas tão grandes e táo numerosas calamidades, e que me dava a esperança, ainda que tarde, da minha salvação. E, imediatamente sacudindo o preguiçoso sono, levanto-me pronto, e, com o desejo de purificar-me, meto-me no banho marinho e, mergulhando a cabeça nas ondas sete vezes, número que o divino Pitágoras declara ser especialmente adaptadíssimo à Religião, alegre e animado assim supliquei à poderosa deusa, com o rosto banhado de lágrimas:
" Rainha dos céus, ou tu sejas Ceres criadora, primeira mão dos frutos, que alegre com o achado da filha removeste o alimento da antiga bolota própria das feras, e ensinaste uma comida mais suave, e agora habitas o terreno de Elêusis;
ou tu sejas a celeste Vénus, que na primeira origem das cousas ajuntaste os diferentes sexos gerando amor, e propagaste a espécie humana de eterna descedência, e agora és adorada no templo de Pafos que ‚ rodeado de mar; ou sejas a irmã de Febo que, favorecendo o parto das mulheres com brandos remédios, tens dado à luz tantos povos, e agora és venerada nos sumptuosos templos de Éfeso; ou tu sejas Prosérpina, horrível pelos uivos nocturnos, que reprimes com a triforme face os ímpetos dos espectros, e encerras os
arcanos da terra e, vagueando por diversos bosques, és aplacada com diferentes modos de culto: tu que alumias os muros de todas as cidades com a tua feminina luz, que crias as alegres sementes com teu húmido fogo e esparges uma luz incerta segundo as revoluções do Sol: por qualquer nome, quaisquer ritos e debaixo de qualquer forma que ‚ lícito invocar-te, tu me socorre agora em minha extrema calamidade, tu consolida minha forma desbaratada, tu dá-me paz e repouso depois de tão cruéis desgraças sofridas. Basta de trabalhos, basta de perigos"».
(Apuleio, Asno de Ouro, LIVRO XI, Editorial Estampa, 2 edição).


LIVRO I

«Facilitam, também a aproximação os banquetes, à mesa;
há qualquer coisa mais, além do vinho, que aí deves buscar.
Muitas vezes, braços delicados, os lançou o Amor, de rosto afoguedada,
sobre os chifres apertados de Baco, bem bebido;
e quando o vinho se espalhou sobre as asas esponjosas de Cupido,
ali fica e permanece prostrado do peso no lugar onde estava;
e logo sacode, à pressa, as penas encharcadas,
mas as próprias gotas sacudidas pelo amor são danosas ao coração.
O vinho põe o coração a jeito e torna-o pronto para a fogueira;
os cuidados desvanecem-se e diluem-se numa boa dose de vinho puro;
chega, então, o riso, então o pobre ganha coragem,
então a dor e os cuidados e as rugas desaparecem do rosto,
então a simplicidade, tão rara no nosso tempo, abre os
corações, sacudidos que foram os artifícios pelo deus.
Ali, muitas vezes as moças arrebataram os corações dos rapazes,
e Vénus, no vinho, tornou-se fogo no fogo.
Aqui, não te fies tu em demasia nas luzes enganadoras;
na apreciação da formosura, são danosos a noite e o vinho.
Foi à luz do dia e com céu desanuviado que Páris contemplou as deusas,
quando disse a Vénus: “és tu quem leva de vencida as outras duas”.
De noite, ficam disfarçados os defeitos e desculpam-se todos os vícios;
essa é a hora que torna famosa qualquer uma;
consulta, antes, a luz do dia a respeito das gemas, da lã tingida de púrpura,
consulta-a a respeito do rosto e do corpo».



Que chegue plena a Primavera!
E sossegue Júpiter com o poema.
«CANTAREI, doravante, o que leva a abundância às terras lavradias; sob que astro convém, ó Mecenas, revirar a terra e casar a vinha com o ulmeiro; que cuidados cumpre dipensar aos bois; que tarefas requer a formação de um rebanho; e que saber exige a criação das industriosas abelhas. Vós, ó brilhantes luminares do Mundo, que guiais nos céus a marcha do ano; vós Baco e alma Cres, por cuja mercê à lande Caónia sucedeu a pingue espiga e se misturou o sumo das uvas com a água Aquelóia; vós também Faunos, protectores sempre vigilantes da grei rural, avançai, e convosco as virgens Dríades: eu canto os vossos dons! E tu, Neptuno, a cuja ordem a terra, golpeada pela vez primeira com o teu magno tridente, lançou do seio o fremente corcel! E tu, habitante dos bosques, em honra de uem trezentos novilhos brancis como a neve tosam as fartas devezas de Ceos! E tu, Pan, guardião dos rebanhos, que com tanto carinho olhas para o teu Ménalo, favorece-me, ó Tegeu! Tu, Minerva, que nos deste a oliveira; tu, moço inventor do curvo arado; tu Silvano, que usas em guisa de cajado um tenro cipreste arrancado com as raízes! E vós todos, deuses e deusas a quem cabe o cuidado de proteger os campos, que alimentais as plantas que o homem não semeou, e derramais do céu, sobre as que ele cultiva, a chuva benfazeja.
(...) Quando renasce a Primavera, e frios regatos correm das montanhas cobertas de neve, e o Zéfiro desagrega as leivas, é chegada a ocasião dos bois começarem a gemer sob o peso do arado tanchando a fundo, e de rebrilhar ao sol a elha desgastada pelo roçar nos sulcos. (...)
Mãos à obra, portanto! Comecem os teus robustos bois, desde o primeiro dia do mês, a revolver a terra feraz, para que o poeirento Verão recoza com rais ardentos de sol as glebas que se lhe oferecem..
(...) o pai dos deuses, o próprio Jove, determinou que fosse árduo o cultivo das terras,pela primeira vez as mandou fabricar obedecendo a uma arte, e aguilhoou com preocupações o coração dos mortais, não consentindo que os seus domínios entorpecessem numa pesada modorra. Antes do reinado de Júpiter não havia agricultores em luta com os campos; não era permitido dividir a terra, e assinalar extremas; os homens buscavam o proveito para o bem comum, e o próprio solo produzia mais liberalmente, sem nada se lhe solicitar. Foi Júpiter que deu às negras serpentes o veneno maléfico, quem mandou que os lobos fossem depredadores, quem ordenou que o mar se agitasse, quem, sacudindo as folhas, fez cair delas o mel; quem retirou aos homens o fogo, e estancou os vinhos que corriam. Tudo para que o homem, à força de experiência e constante exercício, forjasse pouco a pouco as várias artes, alcançasse, abrindi sulcos, as messes de trigo, e fizesse brotar das veias da pedra o fogo que se lhe havia ocultado.
(...) Foi Ceres quem primeiro ensinou os mortais a revirar a terra com o ferro, quando já lhes faltava as landes, e Dodona recusava o alimento fácil».
Virgílio, Livro I, ed. Sá da Costa, 1948: «As Geórgicas»).
«CANTEI!, até aqui, o amanho dos campos e os astros do céu; cantar-te-ei a ti, Baco, e contigo as árvores silvestres e a prole da oliveira, lenta no crescer. Vem, ó pae Leneu! Tudo aqui está cheio dos teus dons; em tua honra floresce o campo, carregado de pâmpanos outonais, e a vindima espuma nos lagares atestados. Vem ó pae Leneu! Descalça os conturnos e tinge comigo as pernas nuas no mosto novo! Antes de mais nada, direi que a natureza varia quanto modo por que cria as árvores. Na verdade, umas, sem intervenção humana, nascem expontaneamente, e cobrem ao longe os campos e as margens sinuosas dos rios, como o fime flexível, a branda giesta, o choupo, e os salgueiros brancos, coroados de verde folhagem; outros brotam da semente colocada pela mão do homem, como os altos castanheiros, o roble, que, sobraceiro às mais árvores, se veste de folhas em honra de Júpiter, e as carvalheiras que serviam de oráculos aos Gregos; a outras rebenta da raiz densa mata de pôlas, como sucede às gingeiras e aos ulmeiros, e também ao loureiro do Parnaso, que, pequeno ainda, se desapega da vasta sombra da mãe. Tais são os meios por que a natureza forma primitivamente as árvores: destarte verdeja toda a raça que povoa as florestas, os matagais de arbustos e os sagrados bosques» (Virgílio, Livro II, ed. Sá da Costa, 1948: «As Geórgicas»).
Na fotografia: Ceres sentada. Museo Nacional de Arte Romano.
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